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Governo OBAMA
Fim da Tortura?
Agora só sob ordem de Obama
Obama desmantela rede de
exceção de Bush
Novo presidente ordena fechamento
de Guantánamo e
determina fim de prisões secretas da CIA
e do uso da tortura
Medidas
deixam em aberto destino dos presos em base militar
em Cuba;
assessores dão a entender permissão
para tortura caso a caso
SÉRGIO
DÁVILA
Cercado de
oficiais militares da reserva e ao lado do vice-presidente
Joe Biden, Obama assina ordens executivas com dose
de simbolismo; fechamento da prisão em Guantánamo
demora um ano
Dando continuidade
a sua política de reverter as medidas de
exceção da era Bush, o presidente
Barack Obama confirmou o fechamento da prisão
da base naval de Guantánamo, em Cuba, e assinou
outras duas ordens que na prática proíbem
a tortura em interrogatórios de suspeitos
de terrorismo e eliminam as prisões secretas
mantidas pela CIA, a agência de inteligência
dos EUA.
Em seu terceiro dia no cargo, o novo ocupante da
Casa Branca assinou três ordens executivas
e expediu um memorando que, ao menos no papel, desmantelam
a rede montada por seu antecessor, George W. Bush,
no tratamento de suspeitos e prisioneiros do que
chamou de "guerra ao terror". O de maior
efeito dá um ano para fechamento do centro
criado após o 11 de Setembro.
Fica cancelado também o programa da CIA de
manter suspeitos de terrorismo presos por meses
ou anos em locações secretas espalhadas
pelo mundo e a prática de "métodos
coercitivos de interrogatório", um eufemismo
bushista para ações de tortura como
o afogamento simulado.
A começar de ontem, a agência de inteligência
terá de seguir as 19 regras de interrogatório
constantes do Manual de Campo do Exército,
que por sua vez seguem as leis internacionais. Os
três programas eram o pôster a alimentar
o sentimento antiamericano no mundo durante os oito
anos do mandato de Bush e seu vice-presidente, Dick
Cheney.
Luta contra
terror
"Eu posso dizer
sem hesitação ou equívoco que
os Estados Unidos não vão torturar",
afirmou Obama numa cerimônia no Departamento
de Estado, ontem à tarde. A frase "Os
EUA não torturam" era o mantra de Bush
e seus assessores nos últimos meses. A mudança
do tempo verbal pelo sucessor democrata não
foi acidental.
"Os EUA pretendem continuar a atual luta contra
a violência e o terrorismo", havia dito
o presidente antes. "E vamos fazer isso de
maneira vigilante, efetiva e coerente com nossos
valores e ideais. Pretendemos vencer essa luta,
mas vamos vencer em nossos termos."
Se as ações de ontem têm um
efeito positivo inegável na opinião
pública mundial, criam vários problemas
domésticos para seu autor. O primeiro é
o que fazer com os 245 detentos hoje sob guarda
de Guantánamo, entre eles cinco acusados
de planejar o ataque do 11 de Setembro. Em sua ordem,
Obama determina que, se em um ano eles não
tiverem saído de Guantánamo, serão
soltos.
Muitos estão lá há anos sem
ter sido acusados formalmente. Outros já
tiveram a soltura autorizada, mas não podem
voltar a seus países de origem, onde correm
risco de morte -21 passam por julgamento, por comitês
de exceção.
Mesmo os que estão sendo julgados nessa instância
podem ter seus casos anulados, se for comprovado
que evidências contra eles foram obtidas de
forma ilegal -como resultado de tortura, por exemplo.
Na ordem, Obama exige que todos os processos sejam
revisados.
"24
Horas"
O outro problema
é que, ao desmontar o arcabouço de
exceção de Bush, Obama abre mão
do que defensores das práticas classificam
de instrumentos valiosos na luta contra o terrorismo.
Escrevendo no "Washington Post" de ontem,
Marc Thiessen, autor de discursos de Bush, advertiu:
"O que ele vai fazer quando o próximo
líder sênior da Al Qaeda for capturado
e se recusar a falar?"
"Vai permitir que a CIA use as técnicas
reforçadas de interrogatório?",
pergunta-se. "Se se recusar e o país
for atacado, Obama vai ser responsabilizado."
É a chamada "cláusula 24 horas",
uma referência ao seriado de TV homônimo,
segundo a qual, se um ataque terrorista iminente
puder ser evitado por confissão de suspeito
via tortura, essa deve ser usada.
Especialistas civis e militares que aconselharam
Obama durante a campanha, no entanto, alertaram
para a histórica falta de qualidade da informação
obtida sob coerção. Além disso,
assessores obamistas ontem deram a entender que,
se tal situação acontecer -na captura
de Osama bin Laden, por exemplo-, o presidente pode
assinar ordem executiva que permita o uso de "técnicas
de exceção" caso a caso.
O senador republicano John McCain soltou declaração
apoiando a medida. "Nós apoiamos a decisão
do presidente Obama de fechar a prisão de
Guantánamo e reafirmar a adesão dos
EUA às Convenções de Genebra",
afirmou. Rival de Obama na disputa presidencial
de 2008, McCain foi preso e torturado nos anos 60,
quando o avião da Marinha que pilotava caiu
no Vietnã.
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