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Defesanet 26 Julho 2008
Der Spiegel 26 Julho 2008

A revolução romântica de Obama
As promessas de Obama de curar o mundo foram aceitas com entusiasmo em Berlim na última quinta-feira. O seu discurso foi uma obra-prima da arte da mágica política - e também foi calculado com frieza

Gabor Steingart

Nos dias de hoje Barack Obama é freqüentemente comparado a um astro pop. E isso faz com que a tarefa de ser político seja mais difícil para ele.

No show business, a performance é o produto final, no qual a realidade e a aparência aglutinam-se e são apresentadas como uma coisa só. Conforme os norte-americanos dizem, você leva aquilo que vê. Não há uma solução de manhã seguinte.

Por outro lado, para os políticos, as palavras não são ações, e sim anúncios referentes a futuras ações, e muitas vezes ações a serem alegadas ou até mesmo apenas simuladas. A realidade e a aparência estão em conflito, seja por acidente ou de forma proposital.

"Os Estados Unidos destacam-se como a nação indispensável no mundo", disse Bill Clinton, quando uma dose de patriotismo fez-se necessária. "A maior democracia do mundo lidera um mundo inteiro de democracias". No entanto, as suas políticas basearam-se no respeito aos outros e não no triunfalismo.

"Se formos uma nação arrogante, eles ficarão ressentidos; se formos uma nação humilde, mais forte, eles nos receberão bem", afirmou George W. Bush durante a campanha eleitoral de 2000. Atualmente sabe-se bem que aquela declaração não valia nada. Mas naquela época acreditou-se nele.

Ainda não é possível comparar as palavras de Barack Obama com as suas ações. O seu nome não está vinculado a nenhum projeto legislativo ou conceito de reforma. Nem mesmo uma sala de concertos na sua cidade de Chicago traz o seu nome. Até o momento ele tem sido mais um orador popular do que um político.

O fato é que ele é capaz de fazer um discurso como ninguém. Na noite de quinta-feira, ele apresentou uma obra-prima da arte da mágica política. Obama prometeu curar as feridas do mundo, de Israel às calotas polares que estão se derretendo. Ele deseja reconciliar as religiões do mundo, unir negros e brancos, europeus e norte-americanos. É preciso acabar com o genocídio em Darfur, e ele deseja acabar com os problemas da globalização por meio de um comércio global que seja não apenas livre, mas também justo.

É possível ficar impressionado com tudo isso - ou achar que é uma falta de vergonha.

No entanto, ele escolheu bem quando selecionou Berlim para fazer o anúncio da sua grande visão de mundo. Berlim é a capital mundial dos discursos ousados. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Berlim tem sido para os políticos norte-americanos o equivalente do Hyde Park's Speakers Corner de Londres, onde todos podem subir em uma caixa de madeira e discursar. Em Berlim são os grandes e poderosos que fazem discursos, assim como, recentemente, aqueles que ainda precisam provar a sua grandeza.

É importante não se deixar enganar pelo fato de 200 mil espectadores terem comparecido para ouvir o discurso de Obama. Ouvir não é o mesmo que concordar. Obama divide as pessoa, e isso não ocorre segundo as tradicionais linhas partidárias.

De qualquer maneira, é um grande erro dividir os eleitores das nações ocidentais em esquerda e direita, agressivos e pacifistas, amigos do mercado e críticos do capitalismo. Na realidade só existem dois tipos de eleitores: os democratas românticos e os democratas que se baseiam no senso comum.

Os do primeiro tipo - os românticos - adoram os grandes momentos e as palavras bonitas. Eles preferem a retórica mais altaneira e olham primeiro para a boca do político. E com freqüência eles só têm críticas a fazer aos políticos pragmáticos.

E há os democratas baseados no senso comum, que olham primeiro para as mãos do político. Eles estão interessados naquilo que o político faz, e não naquilo que ele ou ela diz. Eles examinam o histórico de sucessos e de conceitos relativos a mudanças, e, com freqüência, tem alergia à pregação política. O governo trabalhou de fato em prol do povo ou tudo foi apenas montado para que se tivesse essa impressão? O candidato conta com alternativas sólidas ou ele é apenas um enganador?

Até o momento Obama tem sido o candidato para os românticos. O seu talento consiste em encantar com palavras aqueles que o apóiam. Não importa a crítica que surja contra ele, os seus apoiadores sempre ficam a seu favor. O homem é uma quantidade desconhecida - nenhuma lama cola nele. O homem é calculista - não, ele é um visionário. Ele quer salvar o mundo inteiro - mas o mundo precisa desesperadamente ser salvo, não é mesmo?

Até agora ele não ofereceu respostas às perguntas desconfortáveis formuladas pelos democratas amigos do senso comum, em parte porque Obama provavelmente teme decepcionar os românticos.

É claro que os democratas de senso comum gostariam de saber como ele travará uma guerra contra a mudança climática em um país que está prestes a explorar novas reservas de petróleo nas costas da Califórnia e da Flórida, e no qual a sobrevivência dos fabricantes de automóveis em Detroit depende da não imposição de limites para o consumo de combustível.

Seria interessante descobrir como se dará a reconciliação entre muçulmanos e cristãos, quando, pouco antes de partir, ele ameaçou a República Islâmica do Paquistão com um ataque militar contra a região de fronteira com o Afeganistão. Os paquistanês prezam a sua soberania tanto quanto os norte-americanos.

Não seria uma tolice estabelecer um prazo de 16 meses para a retirada das tropas dos Estados Unidos do Iraque, quando os generais norte-americanos temem uma outra guerra civil? Eles observam que, no Vietnã, a matança não terminou após os Estados Unidos terem retirado as suas tropas.

E existe a impressionante lista de promessas políticas domésticas: seguro de saúde acessível para os 47 milhões de norte-americanos que atualmente estão descobertos, isenção de impostos para todos os aposentados e pensionistas que recebam menos de US$ 50 mil anuais, aumento do salário mínimo, projetos de infra-estrutura multibilionários e, finalmente, créditos fiscais para a maioria dos norte-americanos, a fim de aquecer a economia. Como será possível financiar tudo isso, se - conforme Obama descartou categoricamente - ele não vai aumentar os impostos pagos pela classe média? Ou será que ele está pretendendo que os Estados Unidos mergulhem ainda mais em dívidas (algo que ele também negou categoricamente)?

É claro que Obama pode não contar neste momento com nenhuma outra opção, a não ser oferecer o céu aos eleitores. No início vários estrategistas políticos acharam que os eleitores não acreditariam mais nas promessas dos políticos após a experiência com Bush. Surpreendentemente, o oposto parece ser a verdade: neste momento eles estão acreditando em tudo.

Obama foi o primeiro a perceber que os românticos atualmente são a maioria. Aquilo que soa romântico para os seus eleitores é algo totalmente diferente para o candidato presidencial: senso comum.

   
   
   
   
   
 
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
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