| A
revolução romântica de Obama
As promessas de Obama de curar o mundo foram
aceitas com entusiasmo em Berlim na última
quinta-feira. O seu discurso foi uma obra-prima
da arte da mágica política - e também
foi calculado com frieza
Gabor Steingart
Nos dias de hoje
Barack Obama é freqüentemente comparado
a um astro pop. E isso faz com que a tarefa de ser
político seja mais difícil para ele.
No show business,
a performance é o produto final, no qual
a realidade e a aparência aglutinam-se e são
apresentadas como uma coisa só. Conforme
os norte-americanos dizem, você leva aquilo
que vê. Não há uma solução
de manhã seguinte.
Por outro lado,
para os políticos, as palavras não
são ações, e sim anúncios
referentes a futuras ações, e muitas
vezes ações a serem alegadas ou até
mesmo apenas simuladas. A realidade e a aparência
estão em conflito, seja por acidente ou de
forma proposital.
"Os Estados
Unidos destacam-se como a nação indispensável
no mundo", disse Bill Clinton, quando uma dose
de patriotismo fez-se necessária. "A
maior democracia do mundo lidera um mundo inteiro
de democracias". No entanto, as suas políticas
basearam-se no respeito aos outros e não
no triunfalismo.
"Se formos
uma nação arrogante, eles ficarão
ressentidos; se formos uma nação humilde,
mais forte, eles nos receberão bem",
afirmou George W. Bush durante a campanha eleitoral
de 2000. Atualmente sabe-se bem que aquela declaração
não valia nada. Mas naquela época
acreditou-se nele.
Ainda não
é possível comparar as palavras de
Barack Obama com as suas ações. O
seu nome não está vinculado a nenhum
projeto legislativo ou conceito de reforma. Nem
mesmo uma sala de concertos na sua cidade de Chicago
traz o seu nome. Até o momento ele tem sido
mais um orador popular do que um político.
O fato é
que ele é capaz de fazer um discurso como
ninguém. Na noite de quinta-feira, ele apresentou
uma obra-prima da arte da mágica política.
Obama prometeu curar as feridas do mundo, de Israel
às calotas polares que estão se derretendo.
Ele deseja reconciliar as religiões do mundo,
unir negros e brancos, europeus e norte-americanos.
É preciso acabar com o genocídio em
Darfur, e ele deseja acabar com os problemas da
globalização por meio de um comércio
global que seja não apenas livre, mas também
justo.
É possível
ficar impressionado com tudo isso - ou achar que
é uma falta de vergonha.
No entanto, ele
escolheu bem quando selecionou Berlim para fazer
o anúncio da sua grande visão de mundo.
Berlim é a capital mundial dos discursos
ousados. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial,
Berlim tem sido para os políticos norte-americanos
o equivalente do Hyde Park's Speakers Corner de
Londres, onde todos podem subir em uma caixa de
madeira e discursar. Em Berlim são os grandes
e poderosos que fazem discursos, assim como, recentemente,
aqueles que ainda precisam provar a sua grandeza.
É importante
não se deixar enganar pelo fato de 200 mil
espectadores terem comparecido para ouvir o discurso
de Obama. Ouvir não é o mesmo que
concordar. Obama divide as pessoa, e isso não
ocorre segundo as tradicionais linhas partidárias.
De qualquer maneira,
é um grande erro dividir os eleitores das
nações ocidentais em esquerda e direita,
agressivos e pacifistas, amigos do mercado e críticos
do capitalismo. Na realidade só existem dois
tipos de eleitores: os democratas românticos
e os democratas que se baseiam no senso comum.
Os do primeiro tipo
- os românticos - adoram os grandes momentos
e as palavras bonitas. Eles preferem a retórica
mais altaneira e olham primeiro para a boca do político.
E com freqüência eles só têm
críticas a fazer aos políticos pragmáticos.
E há os democratas
baseados no senso comum, que olham primeiro para
as mãos do político. Eles estão
interessados naquilo que o político faz,
e não naquilo que ele ou ela diz. Eles examinam
o histórico de sucessos e de conceitos relativos
a mudanças, e, com freqüência,
tem alergia à pregação política.
O governo trabalhou de fato em prol do povo ou tudo
foi apenas montado para que se tivesse essa impressão?
O candidato conta com alternativas sólidas
ou ele é apenas um enganador?
Até o momento
Obama tem sido o candidato para os românticos.
O seu talento consiste em encantar com palavras
aqueles que o apóiam. Não importa
a crítica que surja contra ele, os seus apoiadores
sempre ficam a seu favor. O homem é uma quantidade
desconhecida - nenhuma lama cola nele. O homem é
calculista - não, ele é um visionário.
Ele quer salvar o mundo inteiro - mas o mundo precisa
desesperadamente ser salvo, não é
mesmo?
Até agora
ele não ofereceu respostas às perguntas
desconfortáveis formuladas pelos democratas
amigos do senso comum, em parte porque Obama provavelmente
teme decepcionar os românticos.
É claro que
os democratas de senso comum gostariam de saber
como ele travará uma guerra contra a mudança
climática em um país que está
prestes a explorar novas reservas de petróleo
nas costas da Califórnia e da Flórida,
e no qual a sobrevivência dos fabricantes
de automóveis em Detroit depende da não
imposição de limites para o consumo
de combustível.
Seria interessante
descobrir como se dará a reconciliação
entre muçulmanos e cristãos, quando,
pouco antes de partir, ele ameaçou a República
Islâmica do Paquistão com um ataque
militar contra a região de fronteira com
o Afeganistão. Os paquistanês prezam
a sua soberania tanto quanto os norte-americanos.
Não seria
uma tolice estabelecer um prazo de 16 meses para
a retirada das tropas dos Estados Unidos do Iraque,
quando os generais norte-americanos temem uma outra
guerra civil? Eles observam que, no Vietnã,
a matança não terminou após
os Estados Unidos terem retirado as suas tropas.
E existe a impressionante
lista de promessas políticas domésticas:
seguro de saúde acessível para os
47 milhões de norte-americanos que atualmente
estão descobertos, isenção
de impostos para todos os aposentados e pensionistas
que recebam menos de US$ 50 mil anuais, aumento
do salário mínimo, projetos de infra-estrutura
multibilionários e, finalmente, créditos
fiscais para a maioria dos norte-americanos, a fim
de aquecer a economia. Como será possível
financiar tudo isso, se - conforme Obama descartou
categoricamente - ele não vai aumentar os
impostos pagos pela classe média? Ou será
que ele está pretendendo que os Estados Unidos
mergulhem ainda mais em dívidas (algo que
ele também negou categoricamente)?
É claro que
Obama pode não contar neste momento com nenhuma
outra opção, a não ser oferecer
o céu aos eleitores. No início vários
estrategistas políticos acharam que os eleitores
não acreditariam mais nas promessas dos políticos
após a experiência com Bush. Surpreendentemente,
o oposto parece ser a verdade: neste momento eles
estão acreditando em tudo.
Obama foi o primeiro
a perceber que os românticos atualmente são
a maioria. Aquilo que soa romântico para os
seus eleitores é algo totalmente diferente
para o candidato presidencial: senso comum.
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