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União
contra a Quarta Frota
Lula e Chávez
cobram dos EUA explicações sobre
reativação de unidade naval na região
Eliane Oliveira*, Janaína
Figueiredo*
e Leonardo Valente
Os presidentes do
Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e da Venezuela,
Hugo Chávez, aproveitaram a Reunião
de Cúpula de Presidentes do Mercosul, realizada
ontem na província argentina de Tucumán,
para fazer uma dura cobrança ao governo dos
Estados Unidos. Ambos os chefes de Estado manifestaram
forte preocupação pela reativação
da Quarta Frota da Marinha americana, que após
58 anos voltou ontem a realizar operações
militares nas Américas do Sul, Central e
no Caribe. Durante seu discurso, no plenário
de presidentes do bloco, Chávez afirmou que
a estratégia militar americana representa
uma ameaça para os países do continente,
e defendeu a necessidade de o Mercosul "pedir
uma explicação ao governo dos Estados
Unidos por sua atitude". Lula, por sua vez,
disse que o governo brasileiro pedirá explicações
à secretária de Estado americana,
Condoleezza Rice.
- Devemos perguntar,
em bloco, ao governo dos EUA por que está
mandando a Quarta Frota à nossa região
- enfatizou o presidente da Venezuela, afirmando
ainda que o objetivo dos EUA é apropriar-se
dos recursos naturais dos países da região.
Já o presidente
brasileiro se antecipou e disse ter dado instruções
ao ministro das Relações Exteriores,
Celso Amorim, para que peça esclarecimentos
sobre a Quarta Frota ao Departamento de Estado americano.
- Descobrimos petróleo
em toda a costa marítima brasileira. Queremos
que os EUA expliquem isto (a Quarta Frota), porque
vivemos numa região totalmente pacífica.
Nossa única guerra é a guerra contra
a pobreza e a fome - disse Lula.
Chávez, em
seguida, citou o poderio militar de Brasil e Venezuela,
ressaltando que a volta da unidade da Marinha americana
à região é um tema muito importante.
- Lula, você
tem submarinos nucleares. Nós teremos mais
aviões. Enfim, temos de saber o que eles
pretendem em nossas águas. Isso é
uma ameaça para todos os países da
região - disse. - A imprensa está
investigando, temos que ficar atentos porque este
é um assunto muito importante.
Em seu discurso,
a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, não
se referiu diretamente à Quarta Frota, mas
também destacou a importância de que
os países da região preservem e defendam
seus recursos naturais, "hoje na mira das grandes
potências mundiais."
Outros líderes
da região também protestaram contra
o início das operações da unidade
militar americana. O presidente da Bolívia,
Evo Morales, disse que a iniciativa dos EUA é
intervencionista. Já o ex-presidente cubano
Fidel Castro escreveu em artigo que o objetivo da
reativação "é espalhar
o medo".
Braço da
Marinha americana na América Latina, a Quarta
Frota americana atuou ativamente na região
a partir de 1943, em meio à Segunda Guerra
Mundial, com a missão prioritária
de atacar embarcações alemãs
na região e proteger navios aliados, que
sistematicamente vinham sendo afundados por submarinos
nazistas.
Com o fim da guerra
e o deslocamento das atenções dos
Estados Unidos para a então União
Soviética, a frota foi extinta em 1950. Desde
então, sua região foi absorvida pela
Segunda Frota, mas de forma secundária.
Segundo o Departamento
de Estado americano, a reativação
da frota tem como objetivo garantir a segurança
das águas internacionais da região
especialmente contra o tráfico de drogas
e o terrorismo. Com sede na Flórida, não
terá uma estrutura de navios fixa, mas começou
a operar ontem com um porta-aviões nuclear,
o George Washington (que poderá ser remanejado
a qualquer momento para outras regiões) e
mais 11 navios. Seu novo comandante, Joseph Kernan,
até então chefe do Comando de Táticas
Especiais de Guerra Naval, é um dos mais
respeitados veteranos de guerra da Marinha e sua
indicação ao cargo, segundo especialistas,
pode indicar a importância da recém-ativada
frota.
Motivo é
político, dizem analistas
Segundo analistas,
a reativação é um recado político
de Washington aos países da região.
- A reativação
da Quarta Frota é uma forma sutil de mostrar
que, ao contrário do que muitos dizem hoje,
os Estados Unidos não abandonaram a América
Latina, nem deixaram de considerá-la sua
área de influência direta. Tem a ver
também com a tentativa brasileira de criar
um conselho de defesa subcontinental, como parte
da Unasul. Por enquanto, é um gesto simbólico,
de alerta - disse a pesquisadora Tatiana Teixeira,
especialista em Estados Unidos e autora do livro
"Os think- tanks e a sua influência na
política externa dos EUA".
Para outro especialista
em Estados Unidos, o professor de relações
internacionais Luiz Alberto Moniz Bandeira, a Quarta
Frota mostra que os EUA têm vários
objetivos estratégicos na região mas,
mesmo assim, os governos locais não têm
como protestar pois as leis internacionais permitem
que qualquer país mantenha frotas em águas
internacionais.
- O ministro da
Defesa, Nelson Jobim, já declarou, entretanto,
que o Brasil não admitirá que a Quarta
Frota entre e opere dentro dos limites do mar territorial.
Não se trata de bravata, mas de uma admoestação.
Se entrar em águas territoriais, o Brasil
tem todo o direito de protestar e os EUA não
vão querer um incidente diplomático.
O potencial bélico que possui tem limites
políticos. De qualquer modo, a reativação
mostra a urgente necessidade de reequipar e modernizar
a Marinha do Brasil, que foi sucateada nos anos
1990, e acelerar a construção do submarino
nuclear - disse.
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