COBERTURA ESPECIAL - US - Naval

26 de Setembro, 2019 - 13:10 ( Brasília )

Carlos Oliveira - O discreto e inquietante trabalho de pesquisa do “Thomas G. Thompson” (AGOR-23), nas águas do Atlântico Sul

Carlos Oliveira traz informações importantes sobre as atividades no Atlântico Sul



Carlos César Reis de Oliveira
Licenciado em História


A manhã de domingo, 08 de setembro de 2019, começou fria e com forte nevoeiro sobre as águas do Rio da Prata. No horizonte, a uma distância de cerca de nove quilômetros, era impossível de se ver o barco de pesquisa oceanográfica, de bandeira norte-americana, “Thomas G. Thompson”. Sua chegada, no porto de Montevidéu, estava prevista para ocorrer às 08:00.

Pela internet, era possível de se saber sua posição. No entanto, ele continuava fundeado, aguardando a chegada do prático que o levaria até o porto. A espera durou até às 09:50, quando a aproximação da lancha “Ederra 3” finalmente possibilitou a entrada deste profissional a bordo do navio. Liberando-o para prosseguir sua viagem.

O “Thomas G. Thompson” é um navio de propriedade da Marinha dos Estados Unidos da América. Que se destina a realização de pesquisas oceanográficas. Motivo pelo qual é classificado e identificado como um navio de Pesquisas Atmosférica Geográfico e Oceonagráfico (Atmospheric Geographic Oceanographic Research) –  AGOR. É operado pela Escola de Oceanografia da Universidade de Washington. Estando registrado no porto da cidade de Seattle.

Foi construído pelo estaleiro Halter Marine Inc., localizado na cidade de Pascagoula, Mississipi; e comissionado em 08 de Julho de 1991. Possui 83,26 metros de comprimento e sua largura (Boca) máxima chega a 16 metros. Seu calado (profundidade) máximo é de 5,8 metros.  Vazio desloca 2.155 toneladas e com plena carga chega a 3.095 toneladas. Tem autonomia de 60 dias de navegação, e alcance estimado de 35.000 Km, a uma velocidade de cruzeiro de 11,5 nós. 

Em fevereiro de 2018, após 18 meses de obras no estaleiro “Vigor Shipyard”, de Seattle, completou-se a sua reforma de meia vida. No qual foram investidos 53 milhões de dólares. O valor, embora, a primeira vista, possa ser considerado elevado. Na realidade representou pouco mais de um quarto do custo de construção de um navio similar novo. E garantiu não só uma revisão geral, mas a atualização de seus sistemas e equipamentos de bordo.

A propulsão é realizada por dois motores diesel-elétrico de 3.000 hp modelo Z-drive (propulsor azimutal). Cujo eixo das hélices pode girar em ângulo de 360 graus. O que lhe garante navegar para qualquer direção, independente da posição em que a proa do navio se encontra. O resultante é uma maior precisão no posicionamento, caso necessite ficar parado em um ponto específico no mar.

Sua tripulação é composta de 21 pessoas, entre oficiais e marinheiros, mais dois técnicos; e pode acomodar até 36 cientistas / pesquisadores. O novo sistema de comunicação permite contato em tempo real com a terra. A instalação do Eco-Receptor Kongsberg Simrad EM 302 Multibeam, permite mapear o fundo marinho a uma distância entre 10 e 5.000 metros de profundidade.

Sua atual viagem começou no porto de Woods Hole, estado de Massachusetts, em 15 de agosto. Sendo que a parte atlântica da viagem prevê duas escalas. A primeira em Montevidéu, no Uruguai, e a segunda no porto chileno de Ushuaia. Como o próprio título sugere. A viagem do navio é muito discreta. Pouco após sua partida o “Thomas G. Thompson” desligou seu transponder, passando a navegar em completo anonimato. Desta forma ele navegou do dia 15 de agosto até o dia 07 de setembro. Quando religou o equipamento indicando que navegava em frente à costa do estado do Rio Grande do Sul. Prestes a entrar em águas uruguaias.

Este comportamento, o de desligar o transponder para não ser monitorado é o procedimento que gera inquietação expressa no título do artigo. Por quer motivo, um navio de pesquisa, ligado a uma universidade de um país amigo, não quer mostrar, tornar público o seu trajeto de viagem? O que ele tem a esconder, para proceder desta forma?

O velho ditado: “Amigos, amigos, negócios a parte”. É logo lembrado.

Se considerarmos que o percurso do navio foi ao longo do que o próprio governo federal define como a “Amazônia Azul”. Um território rico em recursos naturais e minerais. Cuja manutenção e proteção é a fonte de preocupação número um da Marinha do Brasil. Sendo a sua grande justificativa para tocar o seu maior projeto estratégico. O da construção do primeiro submarino de propulsão nuclear. Que terá como missão primordial a proteção da riqueza ali existente. A passagem discreta de um navio de pesquisa, com alto grau de tecnologia embarcada. Têm de ser sempre vista como algo suspeito.

Qual foi o trajeto e o que o navio fez durante este percurso? Isto ninguém sabe.

Ele realizou sondagens e levantamento de dados ao longo do litoral brasileiro? Isto, sem sombra de dúvidas, foi feito a exaustão.

E para que serve as informações coletadas? Qual pode ser o seu interesse em coletá-las? Considerando que toda informação, todo conhecimento, representa uma forma de poder. Fica evidente que os dados coletados vão ser utilizados não só paras as pesquisas acadêmicas que estão sendo desenvolvidas. Mas, também para embasar posições e tomadas de decisão. Sejam elas nos campos comercial, político e principalmente econômico.

O subsolo marinho brasileiro já revelou possuir uma grade concentração de petróleo e gás natural. Isto tanto acima quanto a baixo da camada de sal. Há também a grande massa de seres vivos, peixes e crustácius, com valor comercial elevado, que vivem pelas nossas águas. Sem falar nos minerais como: ferro, manganês, cobalto, titânio, platina, entre tantos outros. Que se encontra depositados sobe a forma de nódulos, sobre o fundo do mar.

Por sinal, no mesmo período em que o “Thomas G. Thompson” atracava em Montevidéu, era publicado uma noticia sobre a importância da “elevação do Rio Grande”. Sua riqueza e seu interesse por países como os Estados Unidos da América e Reino Unido. (veja a matéria do jornal Correio do Povo : https://www.correiodopovo.com.br/notícias/geral/arquipélago-três-vezes-maior-que-estado-do-rio-é-encontrado-submerso-no-rs-1.364590 ). 

 Voltando para a viagem do “Thomas G. Thompson”, sua navegação nas águas uruguaias ocorreu o tempo todo com otransponder ligado. Não porque ali haja uma concentração maior no transito de navios mercantes. E isto exige maior cuidado. O que passa também por ser visto e identificado pelos outros navios que transitam na área. Este é um procedimento que atende a outros interesses. O Uruguai, mesmo tendo um governo de esquerda.

Que não é simpático a causa norte-americana. É muito mais do que um estado tampão, entre duas áreas de interesses estratégicos para os Estados Unidos da América. O Uruguai é um país ambíguo. Tê-lo como um ponto de apoio é fundamental para os interesses norte-americanos. E eles sabem disso, e o utilizam em proveito próprio. Assim como os ingleses também o fazem.

É importante observarmos que o mesmo procedimento adotado pelo “Thomas G. Thpompson” ao navegar pelas águas brasileiras. Também ocorre no tocante as águas argentinas. Pois logo após a partida do navio do porto de Montevidéu. Fato que ocorreu às 17:00 da quinta-feira, 12 de setembro. Passado o momento de maior concentração de embarcações que normalmente estão em transito ou fundeadas na foz do Rio da Prata. O transponder do navio voltou a ser desligado. Agora o objeto de pesquisa será o Mar Argentino, ou como eles mesmos denominam: o “Pampa Azul”. Numa clara comparação com a “Amazônia Azul” brasileira.

Finalmente, gostaria de lembrar que, como dizem os estudiosos: “Entre Estados não existe amizade, e sim interesses”.

Os Estados Unidos da América têm um presidente que leva isto muito a sério. Como empresário ele é agressivo e muito determinado. É capaz de administrar a maior potência do mundo como um jogador. Apostando e dando lances altos. Não se importando com o sentimento das demais partes envolvidas. Assim ele o fez ao propor à Dinamarca a compra da Groelândia. Com o Brasil esta postura não há de ser diferente. “Amizade é amizade, negócios a parte”. Tudo tem seu tempo. O que não podemos é baixar a guarda.



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Recomendamos a leitura do artigo da pesquisadora Fernanda Corrêa: Defesa em Debate - Atlântico Sul: e se não for um projeto político só da ZOPACAS? Link


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