| Lula exige
explicações de general
Críticas
do comandante da Amazônia ao governo podem
lhe custar o cargo e abrem crise
Vasconcelo
Quadros
Brasília
As declarações
do general Augusto Heleno, comandante militar da
Amazônia, contra a política indigenista
e a demarcação da Reserva Raposa/Serra
do Sol em área contínua, causaram
desconforto no Palácio do Planalto o podem
desembocar na primeira crise forte entre o governo
e a área militar. Irritado com o discurso
do general no Clube Militar do Rio, o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou, ontem,
o despacho com o ministro da Defesa, Nelson Jobim,
para discutir o reajuste dos militares, e pediu
explicações por escrito sobre as críticas.
Ao encontro estava presente, também, o comandante
do Exército, general Enzo Peri. O presidente
havia definido a posição do governo
pela demarcação da reserva conforme
os termos do decreto do governo. E não escondeu:
sentiu-se ofendido.
O primeiro reflexo
da crise teria sido a uma decisão de retirar
o nome do general Heleno como a primeira opção
do governo numa eventual sucessão no comando
do Exército, assunto que não está
na agenda, mas poderia ser discutido mais para a
frente. Na hipótese mais radical, especulou-se
a possibilidade de o general perder o comando da
Amazônia. Ex-comandante das tropas brasileiras
no Haiti, ele assumiu o cargo no ano passado, em
substituição ao general Maynard Santa
Rosa, afastado justamente por se opor à política
indigenista e ao livre trânsito de organizações
não-governamentais (ONGs) estrangeiras na
região. O governo achava seria um obstáculo
à demarcação da reserva.
Soberania ameaçada
As declarações
do general Heleno, segundo avaliação
de alta fonte do Ministério da Justiça,
abrigam a tese da ameaça à soberania
difundida pelo grupo de arrozeiros que se armou
para enfrentar a Polícia Federal na Reserva
Raposa/Serra do Sol. Além disso, representam
um desafio à posição tomada
pelo presidente em consolidar a reservar em área
contínua, retirando da área toda a
população não-índia.
Os primeiro sintomas de uma crise anunciada surgiram
com a decisão do Supremo Tribunal Federal
(STF) que, para evitar um banho de sangue, suspendeu
a operação de retirada e agora ameaça
rever os termos do decreto do governo, permitindo
que a reserva seja definida em ilhas, como querem
os arrozeiros e os críticos do governo. Antes
disso, o Exército se recusou a colaborar
com a Polícia Federal, ao mesmo tempo em
que militares da reserva davam apoio aos grupos
que, segundo a PF, passaram a adotar táticas
de guerrilha para se opor Operação
Upatakon III.
Um deles chegou a virar alvo de pedido de prisão,
suspenso com a decisão do STF. O principal
líder dos arrozeiros, o prefeito de Pacaraima,
Paulo Cesar Quartiero, não escondeu de ninguém
que recorreria à ajuda de militares venezuelanos
para defender a soberania do Brasil.
O ministro Tarso Genro criticou o "nacionalismo"
dos arrozeiros ao lembrar que era uma postura incoerente,
mas admitiu que o governo estava perdendo a guerra
da propaganda. Nos últimos dias, em todas
as solenidades que participou, provavelmente percebendo
os sinais da crise, Genro passou a destacar o papel
das Forças Armadas na defesa da soberania
e na garantia do território nacional. Ele
afirmou que as reservas indígenas são
terras da União e que o Exército não
teria restrições em circular na área.
Não foi o suficiente. No item do discurso
que mais irritou o governo, o general Heleno chamou
de caótica a política indigenista
e afirmou que "o alto comando é um órgão
que serve ao Estado brasileiro e não ao governo".
Ao deixar a reunião
com o presidente, ontem, à noite, o ministro
Nelson Jobim se limitou a afirmar, por meio de sua
assessoria, que pediu ao comandante do Exército
que obtenha as explicações do general
Augusto Heleno. O ministro da Justiça, Tarso
Genro, também não quis falar sobre
o assunto. Informou, apenas, que a Funai tem autonomia
para se defender e que eventuais desdobramentos
do caso com a área militar é da alçada
de seu colega Jobim.
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