Lula manda repreender
general por críticas públicas
Jobim e comandante do
Exército vão chamar militar para
conversa
Jailton de Carvalho
COLABORARAM Adriana Vasconcelos e Carolina Brígido
BRASÍLIA.
Numa reunião extraordinária no fim
da tarde de ontem no Palácio do Planalto,
o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
cobrou do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e
do comandante do Exército, general Enzo
Martins Peri, explicações sobre
as declarações do comandante militar
da Amazônia, general Augusto Heleno, contra
a demarcação da Reserva Raposa Serra
do Sol em terras contínuas. Jobim e Enzo
Martins vão chamar o general para uma conversa
e, em seguida, repassar as respostas ao presidente.
Hoje Lula vai participar de solenidade no QG do
Exército e, em seguida, terá encontro
com índios no Planalto.
Para auxiliares
de Lula, as críticas do general podem se
configurar em grave quebra dos princípios
de disciplina e hierarquia. Isso porque o presidente
é o comandante supremo das Forças
Armadas e já havia defendido a demarcação
da reserva. Em discurso no Clube Militar, no Rio,
para platéia de 150 militares da reserva
e da ativa, o comandante militar da Amazônia
disse anteontem que a política indigenista
do país é caótica. Na declaração
mais polêmica, o general Heleno disse que
serve ao Estado, e não ao governo.
Um dos exemplos
do caos - segundo o general - seria a tentativa
de demarcação da reserva em terras
contínuas, e não em várias
unidades, como querem políticos, empresários
e parte dos índios de Roraima. O decreto
de demarcação da Raposa Serra do
Sol foi assinado durante o governo Fernando Henrique,
em 1998, e homologado em 2005, por Lula.
Conversa
sobre reajuste dos soldos não teria ocorrido
O presidente não
gostou das declarações do general
e convocou Jobim e Martins para reunião
no Planalto. O encontro durou duas horas. A expectativa
era de que, durante a audiência, os três
conversassem também sobre o reajuste dos
militares, assunto que inquieta os quartéis
desde o início do ano. Mas, segundo auxiliares
de Jobim e do presidente, a discussão se
resumiu às críticas do general.
- O presidente
pediu esclarecimentos sobre as declarações.
Eles vão conversar com o general e, depois,
voltam a falar com o presidente - disse um funcionário
do governo que acompanhou a reunião.
Numa tentativa
de administrar a crise que se desenha, Jobim cancelou
viagem que faria hoje ao Sul. A tarefa de cobrar
explicações do general não
é simples. Ex-comandante das tropas de
paz da ONU no Haiti, ele é um dos generais
mais influentes. A posição dele
é endossada por oficiais, não apenas
do Exército, mas das outras Armas.
As declarações
do general tiveram apoio no gabinete do comandante
do Exército. Pouco antes da reprimenda
do presidente ter se tornado pública, um
dos auxiliares do comandante estava exultante
com a solenidade em comemoração
ao Dia do Exército, no Senado.
- Até elogiaram
o general Heleno - comentou um dos auxiliares
do comandante.
Na abertura da
homenagem, o senador Romeu Tuma (PTB-SP) destacou
a atuação do general na Amazônia.
O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) não
falou especificamente sobre a reserva ou sobre
o general, mas disse que a política de
desenvolvimento do estado tem que levar em conta
a grande quantidade de não-índios
que vive na região. Esse é um dos
principais argumentos de Heleno contra a demarcação
em terra contínua.
A polêmica
não parou por aí. A exemplo do que
fez semana passada, o presidente da Funai, Márcio
Meira voltou a criticar o general Heleno. Para
ele, o general desconhece o papel dos índios
na formação das fronteiras do Brasil,
principalmente na Região Norte, onde hoje
se discute a homologação da Raposa
Serra do Sol. O presidente da Funai lembrou que,
na década de 70, o país tinha 250
mil índios e hoje tem quase um milhão.
- Isso é
resultado de uma política indigenista que
garantiu a sobrevivência dos índios.
Dizer que a política indigenista é
caótica é desconhecer a política
indigenista. Está mal informado - disse
Meira.