'Esquerda escocesa' não
vê índio real, afirma general
Comandante critica quem, ‘atrás
de um copo de uísque 12 anos,
resolve os problemas do Brasil inteiro’
Wilson Tosta
Considerado um
dos principais adversários da demarcação
contínua da reserva indígena Raposa
Serra do Sol, em Roraima, o comandante militar
da Amazônia, general Augusto Heleno Ribeiro
Pereira, pediu ontem mudanças na política
indigenista brasileira, que classificou de “lamentável”
e “caótica”. Em palestra no
Clube Militar, no centro do Rio, o general, vestindo
uniforme de combate camuflado, apontou, para uma
platéia de cerca de 600 pessoas - entre
elas, militares da ativa -, a questão indígena
como uma das “ameaças internas”
à soberania brasileira na Amazônia.
Também criticou o que chamou de “esquerda
escocesa”, que, disse, resolve os problemas
brasileiros com uísque, e encerrou com
o grito de guerra das unidades da área:
“Selva!”
“Sou totalmente
a favor do índio”, afirmou o militar,
no primeiro dia do seminário Brasil, Ameaças
à sua Soberania. “Até porque
não sou da esquerda escocesa, que, atrás
de um copo de uísque 12 anos, aqui sentado
na Avenida Atlântica, resolve os problemas
do Brasil inteiro. Eu não estou na esquerda
escocesa. Eu estou lá. Já visitei
mais de 15 comunidades indígenas. Estou
vendo o problema do índio. Ninguém
está me contando como é que é
o índio, não estou vendo índio
no cinema, não estou vendo índio
no Globo Repórter. Estou vendo índio
lá, na ponta da linha, e sofrendo com o
que está acontecendo.”
Para ele, o problema
indígena não pode ser compreendido
fora dos quadros da sociedade brasileira. “Quero
me associar, para que a gente possa rever uma
política que está demonstrado no
terreno que não deu certo até hoje”,
afirmou. “É só ir lá
olhar as comunidades indígenas para ver
que esta política é lamentável,
para não dizer que é caótica.
O que eu tenho encontrado de comunidade indígena
carente de saúde, de perspectiva, voltada
para o alcoolismo... Essa política indigenista
tem que ser modificada. O Exército quer
ser parceiro desta modificação.”
Ele lembrou que
boa parte da população indígena
amazônica fica em torno dos pelotões
que a Força mantém na região.
O militar evitou, no entanto, criticar diretamente
a demarcação da Raposa Serra do
Sol. “Não tomei posição
contra a demarcação, coloquei um
problema”, afirmou, em entrevista. “Em
nenhum momento contrariei a decisão do
presidente da República. A decisão
está tomada e será cumprida por
quem de direito.”
Heleno criticou
a ausência do Estado que, diz, “permite
e incentiva o descaminho e a destruição
do patrimônio e favorece a ação
das organizações internacionais
de todo tipo” na Amazônia. Também
atacou a ação de ONGs e as dificuldades
impostas à entrada de brasileiros nas reservas,
enquanto missionários e entidades estrangeiras
se movimentam à vontade.
Ele pediu o reaparelhamento
militar. “A Amazônia é hoje
a nossa hipótese mais provável de
emprego das Forças, é a hipótese
alfa.” Uma das possibilidades externas à
soberania brasileira na região, afirmou,
seria o convencimento da opinião pública
internacional de que o Brasil não é
capaz de cuidar da Amazônia.” Na platéia,
estavam pelo menos três ex-ministros do
Exército: os generais Leônidas Pires,
Carlos Tinoco e Zenildo de Lucena.