''Não
se corta erva daninha pelo caule''
Sebastião
Curió Rodrigues de Moura: oficial do
Exército sob o regime militar
Leonencio
Nossa, MARABÁ (PA)
A
Guerrilha do Araguaia, movimento armado na selva contra
o regime militar, não marcou a memória
dos que viveram nos anos 1970 nas grandes cidades.
Nem poderia. A censura impediu que os brasileiros
soubessem da existência de uma operação
de guerra na floresta amazônica. No entanto,
um personagem do lado da repressão, o oficial
Sebastião Curió Rodrigues de Moura,
o Major Curió, 74 anos, virou mito antes mesmo
que a história do conflito fosse revelada com
detalhes. Com a redemocratização, Curió
pôs a cara para bater e tornou-se o principal
representante de uma legião de militares que
acompanharam em silêncio a mudança de
regime. Passou os últimos 30 anos em duelo
com a esquerda, mas sempre recorreu a palavras moderadas
para atacar e rebater acusações.
Foi
como interventor do garimpo de Serra Pelada, nos anos
1980, que o líder populista de direita, como
a esquerda o classifica, conquistou "massas"
do sul do Pará e do sul do Maranhão,
um feito que os adversários não realizaram.
O
capítulo da história de Curió
que mais desperta interesse de aliados e inimigos,
no entanto, é anterior: é o Araguaia.
"Esta é a parte mais delicada", diz.
Numa franqueza que impressiona até quem o conhece
há anos, afirma: "Num arrozal, quando
se capina, não se corta a erva daninha só
pelo caule. É preciso arrancá-la pela
raiz, para que não brote novamente." Admite,
parecendo falar para os companheiros de farda, que
"este é o momento de revelar a história".
O
senhor concorda que o fim da guerrilha coincidiu com
o início do latifúndio e o aumento da
pobreza no sul do Pará?
No
final do relatório da Sucuri eu escrevi: a
repressão por si aniquila, destrói,
acaba com o movimento guerrilheiro. Mas não
acaba com o movimento da subversão. Isso só
se conseguirá com ações de governo
em benefício da população. Foi
exatamente o que não ocorreu. É preciso
entender também que não estamos falando
do Pará de hoje, mas do Pará de sempre,
um Estado sempre marcado por conflitos sociais.
Que
lições o combate à guerrilha
trouxe para as Forças Armadas?
As
Forças Armadas não conheciam a Amazônia.
Tivemos muitos ensinamentos. Eu fui para o Araguaia
com o curso de guerra na selva. Mas aprendi muito
com os guias, os mateiros. Também desenvolvemos
ensinamentos estratégicos, de como lidar com
a população. Nas primeiras duas campanhas,
os guias não conduziam as patrulhas para alcançar
os objetivos. Eles davam voltas na selva, não
estavam interessados em levar as patrulhas aos locais
onde estavam os guerrilheiros. Já na terceira
campanha tivemos uma equipe de mateiros que trabalhou
de forma correta. Passamos a conversar com os guias,
dar o valor que eles possuíam. É preciso
ter humildade. Com os guias, aprendi a sobreviver
com um pedaço de rapadura e fígado de
uma jabota. Aprimorei o que aprendi nos bancos acadêmicos.
Eu fui preparado para a guerra, mas a prática
é um pouco diferente.
O
que é uma guerra de guerrilha?
Uma
guerra convencional já é um terror.
Pode haver alguma surpresa, mas é difícil
ser surpreendido na retaguarda. Já numa guerra
de guerrilha você não sabe quem é
o inimigo. É uma guerra feia, terrível.
Só o terreno, a selva, é um enorme obstáculo.
Não é fácil se movimentar no
igapó, passar 15 dias sem tomar banho, sem
se alimentar direito.
Quais
os erros do PC do B?
O
PC do B deslocou para a área de guerrilha pessoas
que tinham curso na China, mas sem experiência
em combate e sobrevivência na selva. As lideranças
do partido se deslocaram para a área, a Elza
Monnerat e o João Amazonas, mas logo no início
abandonaram aquela juventude na mata. A Comissão
Militar da guerrilha, cujo chefe era o Maurício
Grabois, não tinha planejado contato com o
partido fora da área. Foi uma aventura do partido.
Amazonas e Elza fugiram e deixaram cada um por si
e Deus para todos.
E
os erros das Forças Armadas?
Na
primeira campanha, não tinha um comando centralizado.
Era cada equipe por si, chegando ao ponto de ocorrer
choques entre militares. Na segunda campanha, mandaram
tropas constituídas de elementos não
especializados em selva, vindas de Brasília
e de Goiânia, que nunca viram a floresta. Depois,
as Forças Armadas cometeram o erro político
de mascarar o movimento contra a guerrilha como uma
manobra militar. E o erro mais grave: montaram uma
operação de envergadura sem organizar
um trabalho de informações. Não
se sabia quem era o inimigo. Então, foi organizada
a Operação Sucuri. Eu fui o coordenador
na área, na linha de frente. Em quase cinco
meses de operação, conseguimos saber
tudo sobre os guerrilheiros, seus hábitos,
seus armamentos. Foi uma das operações
mais bem realizadas na América Latina.
Por
que até hoje é difícil falar
sobre essa história?
Existia
na época o chamado Milagre Econômico,
no governo Medici. O "milagre", segundo
orientações de cima, tinha de ser preservado.
Notícias sobre combates na selva poderiam manchar
a imagem positiva da economia brasileira e do País
no exterior. Depois, a guerrilha preocupava o governo
porque o Partido Comunista tinha sim o objetivo de
criar uma área livre a serviço do bloco
comunista internacional, cuja ponte com o Brasil era
a Albânia. A China, que formou os combatentes,
não queria aparecer diretamente. Houve ordem
expressa para que tudo ficasse em sigilo. Há
muitas versões distorcidas, por má fé
ou simples desconhecimento.
Qual
é o momento de uma história ser revelada?
É
o atual momento. Por quê? Quem participou dos
combates por força das circunstâncias,
cumprindo uma missão de Estado, está
agora com a idade cronológica um pouco avançada.
Estou com 74 anos, forte graças a Deus, mas
acho que é hora de dar conhecimento. Como sairá
um livro sobre a minha história, eu tinha de
abrir o arquivo antes. Não me julgo dono da
verdade, mas sei muita coisa porque vivi.
Como
foi o combate travado pelo senhor e pelo agente Lício
Maciel com a guerrilheira Lúcia Maria de Souza,
a Sônia?
Estávamos
numa patrulha na mata. Por volta de 17 horas, a luz
começou a cair. Encontramos na beira de um
pântano um par de coturno. Ouvimos uma conversa
e assovios. Uma das vozes era de mulher. Sônia
voltou inesperadamente, talvez para apanhar o coturno,
e gritou para os companheiros de guerrilha, pensando
que um deles tinha levado o calçado por brincadeira.
Toda a patrulha estava dentro do pântano. Com
o aumento do volume da voz de Sônia, Lício
deu alguns passos à frente, a dez metros da
gente. Foi quando a viu. Com água na cintura,
ele gritou: "Quieta!". Sônia pôs
as duas mãos para cima. Na verdade, apenas
uma mão estava na cabeça, com a outra
ela disparou o primeiro tiro contra ele. Os demais
da patrulha abriram fogo. A Sônia voltou a atirar.
De onde eu estava não conseguia enxergá-la.
Atirei em dois vultos que escaparam por uma moita
de açaizal, possivelmente dois companheiros
dela. A penumbra dificultava a visão. Depois,
eu gritei: "Cessa, cessa, cessa!", para
prestar socorro a Lício. Olhei, o meu cotovelo
direito, que estava ensanguentado. Eu, um sargento
e um soldado seguimos mais à frente, no rumo
de um murmúrio. Os galhos e folhas atingidas
pelas rajadas ainda se desprendiam dos troncos, formando
um eco. Começou o silêncio. Era quase
noite. Ouvimos gemido. Logo depois, vi um rastro de
corpo num barranco do igapó. Mais à
frente, um revólver 38 no chão. Ela
estava adiante, de bruços. Usava camiseta e
bermuda curta, bem acima do joelho. As pernas claras,
de quem não via o sol há tempo, estavam
picadas por insetos. Ela ainda suspirava. (Sônia
morreu no combate.)
As
Forças Armadas pagaram um preço por
não contar a história da guerrilha?
Pagaram.
Tudo deveria ser contado na época, os motivos
das operações, os riscos que o País
corria. Só o Estadão furou essa estratégia
do silêncio durante os combates. Mas quem pagou
um preço alto nestes anos todos fui eu. Entrei
no Araguaia cumprindo uma missão. Depois coordenei
o garimpo de Serra Pelada. Só por força
das circunstâncias fiquei mais conhecido entre
os companheiros que participaram dos combates também
cumprindo missão constitucional.
Por
que matar prisioneiros?
Esta
é a parte delicada.
Na
terceira campanha, a Operação Marajoara,
os guerrilheiros já não tinham armas.
Por que matá-los?
Não
estavam desarmados, estavam sem rumo.
Por
que matar prisioneiros?
Todos
os combatentes foram mortos em combate? Não.
Exemplos típicos são os casos da Dina
e da Tuca. Elas foram feitas prisioneiras por mim
e entregues às autoridades.
Que
autoridades foram essas?
Me
reservo no direito de não citar nomes. Mas
pelos dados do meu arquivo você poderá
tirar suas conclusões.
O
que aconteceu com a Dina e a Tuca?
Morreram.
A ordem superior era não deixar rastros da
guerrilha, para poupar o Brasil de uma guerrilha,
de uma Farc, um movimento montonero (guerrilha argentina),
um Sendero Luminoso.
Qual
era o perfil dos guerrilheiros?
Porcentual
considerável era de jovens idealistas que lutavam
por uma sociedade mais justa, cujos objetivos não
se diferenciavam dos objetivos das Forças Armadas.
Só que fizemos caminhos ideologicamente diferentes
para atingi-los. Não eram bandidos. Não
eram mesmo. A cúpula da guerrilha era de raposas
velhas.
Como
o senhor, que obteve tantas vitórias militares,
se sente como um derrotado pela história?
As
Forças Armadas cumpriram uma missão
constitucional, preservaram as instituições,
a independência e a soberania da pátria
e não permitiram um Estado independente no
Brasil, o que no bojo da guerra de guerrilhas extirpou
momentaneamente uma ideologia adversa, o comunismo.
Então não me sinto derrotado.
Mas
nem a Constituição de 1967, outorgada
na ditadura, mandava matar.
Segundo
a Lei de Newton, para toda ação há
uma reação com a mesma força
e intensidade no sentido contrário. Lembre-se
de Stalin na União Soviética e de Fidel
e seu paredão em Cuba. Os guerrilheiros do
Araguaia realizaram execuções sumárias.
É o caso de Pedro Mineiro, executado por cinco
guerrilheiras, de Rosalindo, justiçado pela
guerrilha, e do camponês Osmar.
Mas
uma centena de pessoas maltrapilhas tinha a mesma
força dos cinco mil homens das Forças
Armadas?
Na
terceira campanha eram 150 homens de forças
especiais, preparados e bem armados. Se a guerrilha
não fosse interceptada pelas Forças
Armadas no estágio em que se encontrava, as
centenas de apoios aliciados na massificação
e no proselitismo formariam hoje uma Farc. Não
era meia dúzia de pessoas. Tanto que na segunda
campanha 3.200 homens das Forças Armadas não
tiveram êxito. Os meus relatórios comprovam
o trabalho de massificação: cerca de
200 moradores foram aliciados pela guerrilha.
Uma
guerrilheira como a Áurea, por exemplo, uma
simples estudante de 24 anos, e ainda por cima presa,
oferecia risco?
A
mulher pelo seu valor hoje ocupa funções
delicadas que requerem alta competência como
pilotar um jato, comandar as tropas, presidir tribunais
de júri, e ela armada se equipara a um grande
guerreiro, haja vista que hoje as Forças Armadas
têm exímios combatentes do sexo feminino.
Áurea era um exímio combatente.
Na
base de Xambioá, onde ficou detida, Áurea
não era mais uma combatente. Era uma prisioneira
do Estado.
Não
há dados concretos de fria execução
na guerrilha.
Os
papéis do arquivo do senhor podem levar à
conclusão de que houve execução.
Eu
disse que não houve fria execução.
Num arrozal, quando se capina não se corta
a erva daninha só pelo caule. É preciso
arrancá-la pela raiz, para que não brote
novamente.
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Quem
é:
Sebastião
Curió
É
tenente-coronel da reserva do Exército,
foi prefeito de Curianópolis (PA) pelo
PMDB,mas foi cassado pelo TSE
Ex-agente
do extinto Serviço Nacional de Informações
(SNI), coordenou o garimpo de Serra Pelada e
foi deputado federal pelo extinto PDS, sigla
de apoio ao regime militar
CUSTO:
"Quem pagou um preço alto nesses
anos todos fui eu. Entrei no Araguaia cumprindo
uma missão"
AÇÃO:
"A repressão por si aniquila, destrói,
acaba com o movimento guerrilheiro. Mas não
com a subversão"
ERROS:
"Montaram uma operação de
envergadura sem organizar um trabalho de informações"
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