GUERRILHA
NA AMAZÔNIA:
UMA EXPERIÊNCIA NO PASSADO,
O PRESENTE E O FUTURO
(matéria em três
partes)
Cel Alvaro de Souza Pinheiro(*),
do Exército Brasileiro
A
Amazônia Brasileira foi elevada à situação
de área estratégica prioritária,
em face dos múltiplos conflitantes aspectos que
a caracterizam, conferindolhe uma problemática
política, econômica, psicossocial e militar
altamente especial, delicada e sensível. O presente
artigo procura decodificar as lições aprendidas
nas diversas experiências de guerrilha vivenciadas
na Amazônia, tentando estabelecer um paralelo entre
o passado, o presente e o futuro.
O
Presente
12:00
horas de uma terça-feira, dia 26 de fevereiro de
1991. Cerca de 40 elementos que se declararam guerrilheiros
das Forças Armadas Revolucionárias Comunistas
(FARC) - Comando Simón Bolívar - Facção
Força e Paz, realizam uma incursão em território
nacional e atacam um Destacamento do Exército Brasileiro
estacionado em instalações semi-permanentes,
às margens do rio Traíra, fronteira entre
o Brasil e a Colômbia.
O
ataque foi efetuado por três escalões, dos
quais um, o de apoio de fogo, permaneceu na margem colombiana,
enquanto os outros dois, de assalto e de segurança,
investiram o acampamento. Inicialmente, com preciso fogo
de atiradores de escol, foram eliminados os sentinelas
da hora, e a seguir, desen cadeado intenso fogo de armas
automáticas contra as instalações
do Destacamento, cujos integrantes, surpreendidos, tentaram,
sem sucesso, reagir.
Em
decorrência da ação, da guarnição
de 17 homens, resultaram três soldados mortos e
nove feridos. Morreram também dois garimpeiros
clandestinos colombianos que estavam detidos no posto
aguardando evacuação para Vila Bittencourt/AM.
Na
finalização da operação, os
guer rilheiros colombianos apropriaram-se de estações
rádio, munição, uniformes e todo
o armamento do posto, conduzindo todo o material para
o seu território. Aparentemente, não sofreram
baixas. Portavam armamento automático HK 5.56 mm
e armas de caça calibre 12. Trajavam uniformes
de cor verde claro e botas de borracha do tipo "sete
léguas". Faziam parte do comando atacante
duas mulheres identificadas como já tendo sido
anteriormente presas no Destacamento.
A
instalação do Destacamento Traíra
foi uma decisão do Comando Militar da Amazônia,
autorizada pelo Sr Ministro do Exército, Comandante
da Força Terrestre, para fazer face à tumultuada
situação reinante na região da Serra
do Traíra/AM, provocada pela presença de
grande número de garimpeiros clandestinos brasileiros
e, principalmente, colombianos, que para lá se
deslocaram após a desativação das
instalações da Empresa de Mineração
Paranapanema, que detinha o alvará de pesquisa
aurífera cedido pelo Governo Federal.
Em
posteriores operações de inteligência
ficou comprovado que a guerrilha colombiana aliada a cocaineiros
e garimpeiros clandestinos colombianos, e também
contando com o beneplácito de alguns índios
corrompidos pela narcoguerrilha na região, procuravam
as regiões auríferas nos antigos garimpos
abandonados da Cia Paranapanema, a fim de obter recursos
para suas ações subversivas. Dessa forma,
a ação da guerrilha colombiana foi efetuada
como uma represália à ação
repressiva desencadeada pelo Destacamenteo Traíra.
Há
que se ressaltar que a atuação do Destacamento
Traíra, instalado sob a responsabilidade do então
1º Comando de FronteiraSolimões/1º Batalhão
Especial de Fronteira (1º Cmdo Fron-Solimões/1º
BEF), sediado em Tabatinga/AM, se limitava a uma ação
específica de manutenção da ordem,
visando tão somente expulsar garimpeiros colombianos
de volta ao seu território, e impedir a vinda de
garimpeiros brasileiros para a área, até
que o Governo Federal regularizasse a situação
da lavra no local, provocada pelo abandono da Empresa
Parana panema.
O
ataque das FARC contra o Destacamento Traíra foi
uma ação inesperada, covarde, traiçoeira
e inusitada, em virtude da missão que o Destacamento
cumpria, e de nunca se ter tido notícia de fatos
dessa natureza, desde a instalação, na Amazônia,
dos primeiros Pelotões de Fronteira do Brasil.
A
ação de 26 Fev 91 das FARC no rio Traíra
desencadeou o planejamento e a execução
de uma operação conjunta efetuada pelas
Forças Armadas Brasileiras e Colombianas, denominada
"Operação Traíra". Esta
Operação foi a principal conseqüência
da Reunião Extraordinária Regional Bilateral
Brasil/Colômbia, com a participação,
pelas forças colombianas, de autoridades do Comando
da IV División del Ejército Nacional de
Colombia, sediado em Vila Vicenzio/Col e, pelas forças
brasileiras, de autoridades do Comando Militar da Amazônia,
sediado em Manaus/AM.
Esta
Reunião estabeleceu vários Acordos Conjuntos
e algumas Recomendações que, basicamente,
definiram que as respectivas forças se comprometiam
a operar em seu respectivo território, com o objetivo
de manter a ordem e a tranqüilidade na região
fronteiriça. Ficou também estabelecido que
as ações a realizar seriam coordenadas de
forma plena, em todos os níveis de planejamento,
inclusive com o intercâmbio imediato e contínuo
de informações relacionadas com a subversão,
o terrorismo e o narcotráfico, visando a neutralização
de qualquer ameaça que se apresentasse no respectivo
território. Foi também recomendado que os
Exércitos do Brasil e da Colômbia promovessem
gestões junto aos seus respectivos governos no
sentido de incrementar na área a presença
de organismos do Estado, orientados para a execução
de atividades de desenvolvimento comunitário.
No
território nacional, o posto de comando instalado
pelo CMA ficou em Vila Bittencourt, sede de um dos Pelotões
na fronteira com a Colômbia. No território
colombiano, o posto de comando ficou em La Pedrera/Província
de Taraira.
Os
resultados obtidos na "Operação Traíra"
foram extremamente significativos. Pelo lado colombiano,
deve-se destacar a eficiente ação do Batalhão
"Bejarano Muñoz", sediado em La Pedrera/Taraira.
Pelo lado brasileiro, o excepcional desempenho dos combatentes
do então 1º Batalhão Especial de Fronteira
(1º BEF), hoje, 8º Batalhão de Infantaria
de Selva (8º BIS), sediado em Tabatinga/AM. Superando
com estoicismo o trauma inicial que enlutou a família
tabatinguense, o 1º BEF, fundamentado numa liderança
do mais alto padrão em todos os níveis de
comando, demonstrando um excelente grau de adestramento,
um moral e um espírito de corpo extraordinários,
foi o grande responsável pela ocorrência
da eliminação de doze guerrilheiros integrantes
do comando das FARC que atacou o Destacamento Traíra,
bem como pela prisão de inúmeros elementos
de sua rede de apoio, e pela recuperação
de boa parte do material capturado quando da solerte ação
terrorista.
Há
também que se destacar a efetiva participação
dos elementos do tradicional "Batalhão Amazonas",
1º Batalhão de Infantaria de Selva (1º
BIS), sediado em Manaus, unidade de elite do CMA que,
como sempre, ratificou o seu excelente nível de
preparo para as operações em ambiente de
selva.
Especial
atenção deve ser dada também à
atuação dos elementos da Reserva Estratégica
do Exército Brasileiro, sempre presentes nas situações
de crise na Região Amazônica, das Forças
Especiais e da Aviação do Exército.
Mais
uma vez foi ratificado que a presença dos especialistas
em guerra irregular e combate não-convencional
do 1º Batalhão de Forças Especiais
(1º BFEsp), sediado no Rio de Janeiro, através
da ação de um Destacamento de Ação
Imediata, integrado por frações de Forças
Especiais e Ações de Comandos, se faz imprescindível
ao comando da operação, em situações
dessa natureza.
Com
relação à Aviação do
Exército, há que se ressaltar que a "Operação
Traíra" se constituiu num marco histórico
altamente significativo. Esta foi a primeira oportunidade
em que a então recém criada Brigada de Aviação
do Exército (Bda Av Ex), sediada em Taubaté/SP,
se viu engajada numa operação real de combate
na Região Amazônica, o seu verdadeiro batismo
de fogo. E o desempenho da Patrulha Ajuricaba, integrada
por 4 helicópteros de manobra HM-1 Pantera, 2 helicópteros
de reconhecimento e ataque HA-1 Esquilo, reforçados
por pessoal de suprimento e manutenção,
foi excepecional. Estas aeronaves, inclusive, apoiaram,
por solicitação do comando colombiano, as
ações de infiltração do comando
colombiano, as ações de infiltração
e ressuprimento das patrulhas colombianas. E após
o término da "Operação Traíra",
uma seção, constituída por duas aeronaves
HM-1 e uma HA-1, permaneceu baseada em Vila Bittencourt,
por mais de seis meses, operando em apoio às ações
do 1º BEF na região do Traíra. É
importante ter em mente que operar aeronaves de asa rotativa
na Amazônia exige padrões de desempenho especiais
que ultrapassam em muito os exigidos para outras áreas.
Quando se está em presença de uma situação
real de combate, estas demandas se tornam ainda mais significativas,
e tudo isso foi superado pelos elevados níveis
de adestramento, motivação e liderança
dos integrantes da Aviação do Exército.
Também
não se pode deixar de considerar a decisiva participação
da Força Aérea Brasileira (FAB). Além
de apoiar oportunamente a concentração estratégica
e o apoio logístico com aeronaves C-130 Hércules
e C-115 Búfalo, a FAB se fez representar no posto
de comando da operação por um oficial superior
do VII Comando Aéreo Regional (COMAR VII), sediado
em Manaus, que desempenhou, no estado-maior constituído,
as funções de coordenador do apoio aéreo.
A ele cabia a tarefa de planejar e conduzir o emprego
dos meios aéreos alocados à operação
pelo Comando Geral do Ar (COMGAR). Estes meios eram, basicamente,
constituídos por duas aeronaves C-95 Bandeirante,
de reconhecimento aerofotogramétrico, seis helicópteros
UH-1H e seis aeronaves de ataque ao solo AT-27 Tucano,
todas baseadas em Vila Bittencourt.
A
"Operação Traíra" ratificou
mais uma vez que, na Amazônia, sem o adequado e
oportuno apoio da Força Aérea, a Força
Terrestre fica extremamente limitada nas suas ações
de combate, apoio ao combate e logísticas.
A
Marinha do Brasil também se fez presente na "Operação
Traíra", através da atuação
de um Navio Patrulha Fluvial da Flotilha do Amazonas (FLOTAM),
sediada em Manaus, que se deslocou para Vila Bittencourt,
cooperando com o apoio logístico e incrementando
a segurança daquela região fronteiriça.
A
insidiosa ação sobre o posto do Traíra,
em fevereiro de 1991, registrou de forma significativa
a mais importante ameaça aos interesses vitais
do Brasil na Amazônia, no contexto da Defesa Externa,
nos dias de hoje.
A
atual problemática existente em diversas regiões
do arco fronteiriço amazônico, da Guiana
Francesa à Bolívia, envolvendo com maior
ou menor intensidade, questões indígenas,
garimpo clandestino, descaminho de recursos minerais,
atividades de contra bando e de tráfico de armas,
problemas fundiários, e, principalmente, a forte
conexão existente entre a guerrilha alienígena
e o narcotráfico criando o fenômeno da narco
guerrilha (particularmente no Peru e na Colômbia),
ratifica a possibilidade da eclosão latente de
crises que tenham no seu escopo o desencadeamento de conflitos
onde estará em foco a defesa dos interesses vitais
do Brasisl na Amazônia, particularmente, a Soberania
e a Integridade do Patrimônio Nacional.
Em
novembro de 1991, outra operação de monta
foi desencadeada pelo CMA para fazer face às latentes
ameaças provodadas pela ação das
FARC, na fronteira com a Colômbia. Esta operação
denominada "Operação Perro Loco"
foi realizada na região de Iauaretê/AM e
Querarí/AM, conhecida como "Cabeça
do Cachorro". Empregou efetivos do 5º BIS, sediado
em São Gabriel da Cachoeira/AM, do 1º BFEsp,
e uma Força de Helicópteros com 14 aeronaves
da Bda Av Ex. A exemplo da "Operação
Traíra", a "Operação Perro
Loco" se constituiu numa magnífica demonstração
de operacionalidade dos elementos envol vidos, atingindo
de forma plena o seu grande objetivo que era dissuadir,
de forma definitiva, a execução de incursões
por parte da narcoguerrilha colombiana naquela região.
Em
atendimento às diretrizes emanadas do Estado-Maior
do Exército (EME), no contexto da Defesa Externa,
coube ao Comando de Operações Terrestres
(COTer) definir a orientação do planejamento
do emprego da Força Terrestre na defesa dos interesses
vitais do Brasil face a ameaças dessa natureza.
E para esta definição, todos os ensinamentos
colhidos nas experiências da "Operação
Traíra" e da "Operação
Perro Loco" foram significativamente considerados.
Dentre
as mais significativas idéias preconizadas na atual
concepção estratégica face a conflitos
dessa natureza está a sua adequada caracterização.
Tratase de um conflito de baixa intensidade, onde o inimigo,
genericamente designado de "forças adversas",
pode apresentarse sob vários matizes-narcotraficantes,
garimpeiros clan destinos, indígenas apátridas,
guerrilheiros com ou sem motivações ideológicas,
aventureiros internacionais, agentes de potências
de fora do continente sul-americano infiltrados, ou mesmo
uma combinação desses elementos - pondo
em risco a Segurança Nacional, nas regiões
fronteiriças amazônicas.
O
grande objetivo político a ser atingido quando
da eclosão de um conflito dessa natureza é
manter a Soberania e a Integridade do Patrimônio
Nacional, não suspendendo as operações
até a definitiva expulsão das "forças
adversas" do Território Nacional.
Quanto
aos objetivos militares, estes podem ser sintetizados
pelas ações de destruir as "forças
adversas" que atuarem no Território Nacional,
e defender a população e o Patrimônio
Nacional.
Fundamentalmente,
a ação da Força Terrestre crescerá
de intensidade passando pelos estágios de desencadeamento
de ações preventivas, repressivas e operativas;
e segundo a seguinte gradação: operações
de apoio aos órgãos da administração
federal, estadual ou municipal, operações
de inteligência; operações contra
as "forças adversas", e operações
de maior vulto, caso as "forças adversas"
evoluam para estágios mais desenvolvidos de organização.
A
concepção estratégica de emprego
da Força Terrestre face a situações
dessa natureza define que, apesar da ocorrência
de ações operativas para a destruição
das "forças adversas", não será
ativada a Estrutura Militar de Guerra, ou seja, tratase
de uma situação típica de nãoguerra.
Em
termos de estrutura operacional, para fazer face a situações
dessa natureza, está preconizada a ativação,
por parte dos Comandos Militares da Amazônia e do
Norte (CMN), mediante autorização do Sr
Ministro do Exército, Comandante da Força
Terrestre, de uma Área de Conflito (AC). O estabeleci
mento de AC, em termos de delimitação territorial,
deve estar restrito à área fronteiriça
onde seja iminente ou esteja ocorrendo a ameaça.
Em termos de estrutura de comando, a AC deverá
enquadrar uma Zona de Opera ções (ZOp) e
uma Zona de Apoio (ZAp). Esta organização
tem como finalidade o estabele cimento tanto de uma estrutura
de comando e controle quanto a definição
de responsa bilidade territoriais.
A
ZOp deverá ficar restrita à região
onde se realizam as ações operativas de
destruição das "forças adversas".
Esta região deverá abranger o espaço
físico terrestre e aéreo necessário
à condução das operações.
Em princípio, o comandante da ZOp deverá
ser o comandante do escalão diretamente responsável
pela destruição das "forças
adversas". E o seu posto de comando deve estar localizado
no ponto onde melhor se possa coordenar e controlar as
ações operacionais.
A
ZAp deverá englobar a região onde as ações
a realizar serão de caráter predomi nantemente
logístico. Em princípio, o posto de comando
da ZAp deve estar localizado junto à principal
base logística instalada. Basicamente, o suprimento
chega à ZAp por meios aéreos (principalmente)
ou fluviais de maior porte. Razão pela qual, normalmente,
a ZAp estará numa área onde exista um aeródromo
de adequadas condições. Daí o suprimento
será transportado para a ZOp, normalmente, através
do emprego de helicópteros.
O
valor da AC a ser estabelecida, por determinação
do CMA ou do CMN, será função da
complexidade e da gravidade do problema a ser resolvido.
Numa área onde o poder de combate das "forças
adversas" se apresente como ponderável, com
parcelas significativas de forças irregulares represen
tativas da guerrilha e/ou do narcotráfico alienígena,
em princípio, a AC ativada deverá ser de
valor Bda, cabendo o planejamento e a condução
das operações ao comandante de uma das quatro
Brigadas de Infantaria de Selva (dependendo da localização
do conflito) estacionadas na Área Estratégica
Amazônica. Nesse caso, o comandante da brigada poderá
designar um de seus comandantes de batalhão, comandante
da ZOp, e o seu E/4, comandante da ZAp. Caso o problema
seja de menor monta, e seja restrito à eliminação
de um pequeno grupo que, episodicamente, adentrou o Território
Nacional, o CMA ou o CMN poderão determinar às
suas brigadas subordinadas o estabelecimento de uma AC
de valor batalhão.
É
importante ressaltar que o COTer tem antecipadamente definidas
para os Comandos Militares de Área interessados
quais as áreas prioritárias onde, em função
das informações disponíveis, há
uma maior probabilidade de eclosão de uma crise
dessa natureza. Dessa forma, é possível
a orientação do esforço de preparação
e de planejamento para essas áreas prioritárias.
Como
meios disponíveis para emprego nas AC ativadas
estãos os meios de combate, apoio ao combate e
logísticos do CMA e do CMN; os meios de combate,
apoio ao combate e logísticos da Reserva Estratégica,
destacandose os do Comando de Aviação do
Exército, os da Brigada de Infantaria PáraQuedista
e os do Batalhão de Forças Especiais. Além
desses, estão disponíveis os meios de combate,
apoio ao combate e logísticos da Força Aérea
Brasileira e da Marinha do Brasil, a serem definidos respectivamente
pelo Comando Geral do Ar (COMGAR - Nota recentemente alterado
para Comando Geral de Operações Aéreas)
e pelo Comando de Operações Navais (CON).
A esses meios poderão ser acrescentados outros,
dependendo da complexidade do problema a ser enfrentado,
requisitados de organizações civis governamentais
(federais, estaduais ou municipais) ou privadas, todos
integrados sob o comando único da AC.
Assim,
o Exército Brasileiro está dotado de uma
adequada estrutura de preparação, planejamento
e condução de operações para
fazer face às "forças adversas"
que, indiscu tivelmente, se constituem na mais latente
ameaça a ser enfrentada no contexto da Defesa Externa,
na Área Estratégica Amazônica, nos
dias de hoje.
O
Futuro
Uma
visão futura de situações que possam
colocar em risco os interesses vitais do Brasil na Amazônia
nos permite antever que as ameaças atualmente existentes
tenderão a diminuir ou a aumentar, principalmente,
como conseqüência do resultado que as nações
amigas vizinhas tiverem no seu esforço para vencer
seus graves conflitos internos.
Todavia,
fica muito claro que qualquer perspectiva otimista, a
curto prazo, é absolutamente irreal. A atual intensidade
da presença da narcoguerrilha na Colômbia,
no Peru e na Bolívia é de tal ordem que
não nos é permitido visualizar um "final
feliz", nem a médio prazo, apesar dos extraordinários
esforços que vêm sendo desenvolvidos por
estes respectivos governos.
Assim,
a perspectiva de combater "forças adversas"
provenientes da narcoguerrilha alienígena, em algumas
regiões do arco fronteiriço amazônico,
num contexto de Defesa Externa, permanece presente, a
curto e a médio prazos.
Por
outro lado, ao se focalizar possíveis ameaças
à garantia dos poderes constitu cionais e à
manutenção da lei e da ordem, numa visualização
a curto e a médio prazos, não se pode deixar
de acompanhar com extrema atenção o desenvolvimento
das questões fundiárias que, em inúmeras
regiões da Amazônia, podem levar a exacerbações
que desencadeiem conflitos provocados por reivindicações
não atendidas dos chamados "Movimentos dos
SemTerra". Estes conflitos, que poderão ter
ou não conotação ideológica,
podem exigir o emprego de força federal, ainda
que eventualmente, no combate contra "forças
adversas", num contexto de Defesa Interna. A própria
região do "Bico do Papagaio" continua
sendo potencialmente explosiva para o desencadeamento
de conflitos dessa natureza. Para prevenir a sua eclosão,
muito mais que a presença da expressão militar,
o que se faz necessário é uma eficiente
ação governamental, coordenada a nível
federal, estadual e municipal. Todavia, para fazer face,
no futuro, a situações dessa natureza, os
comandos militares de todos os níveis mantêm
permanentemente atualizados os seus planejamentos de Segurança
Integrada.
Mas,
ao se efetuar qualquer análise prospectiva envolvendo
aos questões de segurança da Amazônia
Brasileira, há que se considerar significativamente
a atual conjuntura internacional e as demandas produzidas
pelo que se tem denominado de "Nova Ordem Mundial".
Neste novo sistema internacional, onde os Estados Unidos
da América se apresentam como a única superpotência
econômica e militar, novos focos de tensão
e atrito passaram a eclodir, todos com relação
direta a aspectos étnicos, religiosos e de identidade
nacional.
Nesse
novo contexto, as questões ambientais têm
se revestido de especial importância. E sob a égide
de um manto ecológicopreservacionista, os organismos
de comunicação social internacionais têm
construído e divulgado uma imagem extremamente
negativa a respeito da Amazônia Brasileira. Nesse
contexto de idéias, o mundo passou a assistir a
pronunciamentos como o do Presidente Miterrand que, na
defesa do que entende ser uma causa de fundamental importância
para a humanidade, advoga a formação de
organismos supranacionais para policiar os governos das
nações dos países subdesenvolvidos
ou em desenvolvimento sobre as questões ambientais.
É a apresentação explícita
do princípio do devoir d'ingerence.
Não
se constitui em escopo deste trabalho a discussão
sobre a validade, a adequabili dade, a oportunidade e
a legitimidade da avaliação desta que pode
vir a se constituir, no futuro, na maior das ameaças
externas aos interesses vitais do Brasil na Amazônia.
Até porque, o EME, órgão responsável
pela formulação das políticas e concepções
políticoestratégicas, já definiu
em diretriz estratégica específica que,
para fazer face a ameaça dessa natureza, que envolve
a possibilidade da ocorrência de um conflito contra
uma força militar multinacional extracontinental
dotada de um superior poder de combate, há que
se empregar, ao nível da Estratégia Operacional,
a Estratégia da Lassidão ou da Usura. Esta,
por definição, "desenvolvese através
de um conflito prolongado, de caráter total, tendo
na maioria das vezes, fraca intensidade, normalmente à
base da guerrilha, e busca obter a decisão pelo
desgaste moral e o cansaço material. Nesta forma
de atuar é fundamental saber durar".
A
adoção da Estratégia da Lassidão
no nível Operacional pressupõe a adoção
da Guerra Irregular como principal forma de conduta de
uma guerra convencional, na qual fica evidente o desequilíbrio
de poder de combate entre as nossas forças e as
dos possíveis oponentes. Implica na impossibilidade
de fazer face ao invasor por meios convencionais de atuação
em força, quer ofensiva, quer defensivamente, devido
à inferioridade de recursos materiais e à
grande disparidade na área científicotecnológica.
Seu
grande objetivo será demonstrar ao invasor que
o preço a pagar para manter o domínio sobre
determinada região não compensa os benefícios
decorrentes. Há que se ressaltar que o Exército
Brasileiro é o único da América Latina
a possuir o mesmo conceito doutrinário de emprego
das Forças Especiais que o Exército dos
EUA. Este conceito preconiza, basicamente, que os Destacamentos
de Forças Especiais estabelecerão Áreas
Operacionais de Guerra Irregular (AOGI). A diferença
entre as concepções norte-americana e brasileira
está no fato de que as Special Forces têm
previsão de emprego fora de seu território
operando com populações estrangeiras no
contexto de um Movimento Revolucionário Patrocinado.
Por outro lado, os nossos operadores de Forças
Especiais estabelecerão AOGI no contexto de um
Movimento de Resistência, trabalhando com comunidades
brasileiras, quando da ameaça ou da ocorrência
de uma invasão do nosso território.
As
ações da Lassidão se desenvolvem
em dois planos, simultaneamente: o plano material das
forças militares e o plano moral da ação
psicológica.
No
plano material das forças militares, há
que se enfatizar que, apesar de o combate a ser conduzido
estar fundamentado no in tenso emprego das ações
típicas de guerrilha, não se pretende transformar
a força regular numa força de guerrilha.
Para que forças regulares sejam eficazes empregando
as técnicas da guerra de guerrilhas não
se faz necessário que elas se convertam em forças
de guerrilha. Isto seria um retrocesso inconcebível
e preju dicial para o desenvolvimento da campanha.
No
plano moral da ação psicológica,
há que se distinguir o trabalho a ser desenvolvido
sobre os diversos atores em presença. O objetivo
será dar aos nossos combatentes e à nossa
população o devido suporte moral, que lhes
permita conduzir uma campanha de longa duração.
Quanto ao invasor, há que se tendar desgastálo
psicologicamente, pro curando leválo a ceder pelo
cansaço.
Há
que se ter sempre em mente que o objetivo político
a ser atingido, e a campanha não deve ser concluída
antes disso, é restabelecer a Soberania e a Integridade
do Patrimônio Nacional. E há que se desenvolver
uma conscientização nacional de que tal
objetivo só será atingido com a retirada
de todos os efetivos estrangeiros do território
brasileiro.
Para
que se possa efetuar um planejamento adequado, oportuno
e coerente, também se faz necessária a correta
identificação dos centros de gravidade em
presença. Tornase muito claro que o centro de gravidade
do invasor é a vontade nacional que lhe dá
respaldo. No momento em que, fruto do desgaste que venha
ser infligido ao invasor, fique caracterizado que o rendimento
custo benefício não é compensador,
ocorrerá o enfraquecimento da vontade nacional,
e este será o fator prepon derante para a retirada
das forças militares estrangeiras do território
nacional.
Por
outro lado, não podemos ignorar que os vazios demográficos,
o desconhecimento da área, a existência de
fronteiras não vivificadas, o posicionamento marginal
em relação aos sistemas de circulação,
enfim, a deficiência de integração
de inúmeras regiões da Amazônia aos
centros de poder nacionais podem criar condições
potenciais de risco de fragmentação, com
conseqüente perda do patrimônio nacional.
Não
se pode esquecer também que a adoção
da Lassidão pressupõe sacrifícios,
que serão impostos a toda a Nação,
que ficará exposta ao poder do adversário
que, certamente, tentará quebrar a vontade nacional,
principal insumo para a implementação dessa
estratégia. E este é verdadeiramente o ponto
focal a ser desenvolvido: estabelecer e consolidar a vontade
nacional, desde já, em torno da defesa dos interesses
vitais do Brasil na Amazônia.
Conclusão
Os
vestígios e as ruínas de inúmeras
fortalezas e os preservados fortes artilhados com velhos
canhões de bronze são testemunhas de mais
de 350 anos de lutas travadas pelos nossos antepassados
para conquistar e manter a Amazônia Brasileira.
E o emprego das técnicas da guerra de guerrilhas
tem sido uma constante nessas lutas.
O
ambiente de selva, a extensão territorial, a imensa
faixa de fronteira, a rarefação demográfica,
a deficiência de transportes e a precariedade de
comunicações, todos fatores característicos
daquela que, hoje, é a Área Estratégica
de maior prioridade no território brasileiro, têm
contribuído para que esta singular forma de combater
encontre naquele ambiente operacional magníficas
condições de condução.
Ao
longo dos anos, tornouse muito claro que o vetor principal
do desenvolvimento da Amazônia tem sido a ação
pioneira e desbravadora das Forças Armadas, as
quais, sem medir esforços e sacrifícios,
sempre se fizeram presentes. E é, sobretudo, nos
seus mais remotos rincões que o Exército
influencia de modo decisivo a formação e
a consolidação da nacionalidade das populações.
E esta grandiosa missão de fortalecer a brasilidade
nos corações e mentes de cada cidadão,
além de ter que manter incólumes milhares
de quilômetros de fronteiras, não é
realizada sem sacrifícios, exigindo profissionais
integralmente compromissados com a real dimensão
do que significa ser soldado na Amazônia.
Mas
a defesa dos interesses vitais do Brasil naquela área
não é obra exclusiva dos soldados da Amazônia.
É uma responsabili dade de todos os brasileiros,
militares e civis, inclusive de outras regiões.
E quando for o caso, todos, irmanados, se necessário
empregando a guerra de guerrilhas, irão defendêla,
como o fizeram no passado, e o estão fazendo no
presente.
E
nada poderá refletir melhor esta determinação
na consecução das missões de segurança
e integração da Amazônia do que a
frase do antigo chefe, Gen Rodrigo Otávio: "Árdua
é a missão de desenvolver e defender a Amazônia,
muito mais difícil, porém, foi a de nossos
antepassados em conquistála e mantêla!"