GUERRILHA
NA AMAZÔNIA:
UMA EXPERIÊNCIA NO PASSADO,
O PRESENTE E O FUTURO
(matéria em três
partes)
Cel Alvaro de Souza Pinheiro(*),
do Exército Brasileiro
A
Amazônia Brasileira foi elevada à situação
de área estratégica prioritária,
em face dos múltiplos conflitantes aspectos que
a caracterizam, conferindolhe uma problemática
política, econômica, psicossocial e militar
altamente especial, delicada e sensível. O presente
artigo procura decodificar as lições aprendidas
nas diversas experiências de guerrilha vivenciadas
na Amazônia, tentando estabelecer um paralelo entre
o passado, o presente e o futuro.
ACONQUISTA
da Amazônia tem sido, desde os primórdios
da nossa colonização, uma epopéia
escrita com sangue, coragem e determi nação.
E o sangue foi derramado em acirrados combates na selva
onde a criatividade e a implacabilidade das técnicas
da guerra de guerrilhas sempre estiveram presentes.
A
cidade de Belém, capital do Estado do Pará,
assinala o marco inicial da conquista do vasto mundo amazônico,
pelas forças lusobrasileiras. Fundada a 12 de janeiro
de 1616, por Francisco Caldeira Castelo Branco, após
a expulsão dos franceses de São Luís
do Maranhão, o pequeno núcleo, representado
inicialmente pelo Forte do Presépio, tornouse admirável
pólo de atração e irradiação,
marco precursor da expansão, domínio, posse
da terra e fixação de uma nova raça
em plena zona equatorial, produto natural da miscigenação
do branco europeu com o indígena.
Não
foi, entretanto, uma conquista pacífica. Lutas
violentas foram travadas pelas forças lusobrasileiras
para expulsão de ingleses, franceses, holandeses
e irlandeses que, em incursões permanentes para
exploração e comércio de especiarias,
pro curavam também o domínio da terra, com
a edificação de fortificações
às margens de alguns dos rios da região.
Um
vulto de significativa expressão nessa formidável
conquista destacase dos demais. Tratase de um remanescente
das tropas comandadas por Francisco Caldeira Castelo Branco.
Seu nome: Pedro Teixeira. Sua consagração
histórica: O Conquistador da Amazônia. Em
28 de outubro de 1637 partiu de Cametá, na margem
esquerda do Tocantins, para uma ousada aventura de dois
anos e 44 dias. Comandando 87 soldados lusobrasileiros
e 300 índios paraenses, flecheiros e remeiros,
todos embarcados em 45 canoas, o Capitão Pedro
Teixeira subiu o rio Amazonas até a localidade
de Quito, no Equador. Durante o longo percurso, lutou,
derrotou e expulsou contingentes estran geiros que procuravam
fixação em pontos estratégicos da
calha do Rio Mar. Descobriu, efetuou reconhecimentos e
deu nome aos principais tributários do rio Amazonas.
Fundou, após vencer os índios Encabellados,
na confluência dos rios Napo e Aguarico, atual fronteira
PeruEquador, o povoado lusobrasileiro, a Franciscana,
distante 1200 léguas de Belém , para assinalar
os limites das coroas de Portugal e Espanha, desde 1580
unidas sob a majestade do rei da Espanha.
Pouco
após o retorno da expedição a Belém,
Portugal tornouse independente da Espanha e senhor de
uma verdadeira Colônia Continente, graças
a esta expedição e às de outros bandeirantes
como Raposo Tavares, que atingiu Belém 11 anos
após, descendo o rio Amazonas pelo Madeira, proveniente
de São Paulo. Os resultados obtidos pela expedição
Pedro Teixeira serviram, mais tarde, como primeiro argumento
da doutrina do Utipossidetis que fundamentou o Tratado
de Madrid de 1750 e que viria a confirmar a conquista
lusobrasileira.
É
importante ressaltar que Pedro Teixeira também
se destacou nas lutas para reduzir e pacificar os índios
Tupinambás que amea çaram a conquista portuguesa
de Belém e de outras localidades litorâneas
entre esta e São Luís, como Cumã
e Caités. Nestas lutas ra tificou a sua condição
de chefe militar astuto e audacioso, quando demonstrou
de forma plena que a mais eficiente forma de se combater
a ação tipicamente guerrilheira tupinambá
era também empregar a técnica da guerrilha.
Pedro
Teixeira foi nomeado CapitãoMor do Grão
Pará, função equivalente, hoje, a
de Comandante Militar da Amazônia. Vítima
de rápida e insidiosa moléstia veio a falecer
em Belém, em 1641. Seus restos mortais permanecem
na Catedral Metropolitana de Belém, erguida no
século XVII, na mesma área em que foi construído
o Forte do Presépio, atualmente denominado Forte
do Castelo.1
Para
deslocar o Meridiano de Tordesilhas da foz do Amazonas
para os contrafortes dos Andes, retificando àquela
época a geopolítica do mundo, Pedro Teixeira
se valeu, sobremaneira, das técnicas da guerra
de guerrilhas. Pela forma como conduzia suas operações
ribeirinhas, quase sempre enfren tando efetivos superiores,
e pelo emprego descentralizado de suas frações
em ações sempre caracterizadas pela surpresa,
o Capitão Pedro Teixeira pode ser considerado um
precursor das ações das "Companhias
de Emboscadas" que celebrizaram Antonio Dias Cardoso,
André Vidal de Negreiros, Henrique Dias e Felipe
Camarão na memorável Insurreição
Pernambucana, movimento nativista que expulsou os holandeses
da região nordeste do Brasil e se notabilizou como
um dos mais importantes eventos da formação
da nacionalidade brasileira.
Mas
a ocorrência da guerra de guerrilhas na história
da Amazônia Brasileira tem outro episódio
altamente significativo na formação do Estado
Independente do Acre.
A
exploração e a prosperidade do comércio
da borracha levaram grande efetivo de brasileiros, principalmente
nordestinos, à região do Acre, uma faixa
de terra que, desde 1867, estava cedida à Bolívia
pelo Tratado de Ayacucho. Recusandose a aceitar a autori
dade boliviana sobre a região, os brasileiros criam
um verdadeiro território independente e exigem
sua anexação ao Brasil. Os bolivi anos reagem
e em contrapartida fundam em janeiro de 1889 a localidade
de Puerto Alonso (hoje, Porto Acre). Em maio do mesmo
ano, os brasileiros, através de ação
armada, expulsam os bolivianos e ocupam a localidade.
Em julho de 1899, com o apoio dos seringueiros e do governo
do Estado do Amazonas, Luís Galvez Rodrigues proclama
a República do Acre. Todavia, o governo brasileiro
é obrigado a reprimir tal intenção,
tendo em vista a manutenção dos compromissos
em vigor. Em 1901, a Bolívia assina o Tratado de
Aramayo, arrendando a região ao The Bolivian Syndicate
of New York, que recebe autorização de cobrar
impostos, explorar a borracha e efetuar mineração.
A situação se torna crítica e; em
agosto de 1902, uma força de guerrilha brasileira
com pouco mais de 2 000 homens, sob a liderança
de José Plácido de Castro, inicia uma insurreição
vitoriosa. Este gaúcho de 26 anos adaptou às
condições da selva amazônica a tática
ágil e de grande mobilidade das guerrilhas que
praticara, a cavalo, nas coxilhas do Rio Grande, na Revolução
Federalista.
Em
janeiro de 1903, após acirrados combates, as forças
bolivianas são definitiva mente derrotadas e batem
em retirada. Plácido de Castro é aclamado
governador do Estado Independente do Acre. Em 17 de janeiro
de 1903, numa vitória diplomática do Barão
do Rio Branco, é assinado o Tratado de Petrópolis.
O Brasil compra a região, da Bolívia, por
dois milhões de libras esterlinas, compromentendose
a construir a estrada de ferro MadeiraMamoré e
a indenizar o Bolivian Syndicate com 110 mil libras esterlinas.
Em 25 de fevereiro de 1904, o Estado Independente do Acre
é dissolvido, sendo incorporado à Federação
Brasileira como Território Federal do Acre.
Numa
análise de maior profundidade é possível
verificar que Plácido de Castro conjugou, no campo
da estratégia geral, com rara habilidade e compreensão,
os fatores fisiográficos, políticos, econômicos
e sociais que desembocaram na luta armada. Em suas operações
militares, aplicou estratégia de genuína
inspiração napoleônica, dentro dos
clássicos princípios da arte da guerra,
numa movimentada campanha de guerrilhas, com reduzidos
efetivos, adaptando perfeitamente a conduta das operações
às condições meteorológicas
e ao terreno.2
Ficam
assim registrados dois exemplos históricos de campanhas
militares ama zônicas de grande significado político
estratégico, de enorme conotação
patriótica, onde a técnica da guerra de
guerrilhas foi de fundamental importância.
E,
como veremos a seguir, ao focalizarmos as situações
mais recentes em que forças regulares brasileiras
se viram envolvidas com a guerra de guerrilhas na região
amazônica, poderemos concluir que os ensinamentos
colhidos nas campanhas conduzidas por estes extraordinários
Pedro Teixeira e Plácido de Castro permanecem extremamente
válidos, atualizados e com grande probabilidade
de serem empregados no futuro, se necessário for
defender os interesses vitais do Brasil na Amazônia
1- A Conquista da Amazônia - Major Claudio Moreira
Bento
2- Plácido de Castro - 2ª Parte "Operações
Militares no Acre" P. J. de Mallet Joubim - Revista
do Instituto de Geografia e História ilitar do
Brasil - 1º Semestre de 1977 - Volume LVIII nº74