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10 de Agosto, 2015 - 10:00 ( Brasília )

Como um menino da roça se tornou general, posto máximo do Exército Brasileiro


Ronaldo Pacheco
olhardireto.com.br


“Sou filho de sitiante, morava na roça, a uns cinco quilômetros da área urbana de Sabino [SP]. Mas não sei de onde veio a vontade de ser militar. Fiz o primário e o ginásio em minha cidade natal. Mas o científico [segundo grau] era impensável, naquela época. Resolvi fazer em Lins. Eram cinco quilômetros a cavalo ou a pé até Sabino e outros 50 quilômetros até Lins, todas as noites. Voltava às 23h30 ou mais. Às 5 horas estava de pé, para ajudar meus irmãos na roça. Foi assim até concluir o colegial”.
 
O relato do general da reserva Alaor Navarro Moraes, do Exército Brasileiro, não dava à época sequer sinais de que o menino da roça pudesse ser aprovado no vestibular mais concorrido da época: Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), que abrigava a nata dos estudantes das Forças Armadas. Em 1965, ele concorreu com mais de 156 mil brasileiros a uma das 340 cadeiras então disponíveis na Aman. Era o vestibular mais concorrido do Brasil: 458 candidatos por vaga.

“Se eu começasse a agradecer a Jesus Cristo hoje, até o final da minha vida, eu não iria conseguir agradecer tudo que Ele fez”, argumentou o militar, em vista à Redação do Olhar Direto. Ele que foi comandante do 5º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC), em Porto Velho (RO), e justamente por isso ele participou ativamente da construção da BR-364, que liga Cuiabá até Rio Branco (AC), passando pela Capital de Rondônia.
 
Nascido em uma família humilde e o sétimo de uma prole de 10 irmãos, passou apuros para estudar  em Sabino, ao mesmo, trabalhar na roça – naquele tempo, aos seis ou sete anos os meninos já ajudavam no plantio, colheita e curral. Porém, conseguiu vencer e hoje sua superação é reconhecida por parentes e amigos.

Quando o sonho de ser um militar se tornou realidade, a alegria chegou ao coração humilde de Alaor Navarro e, após dois anos na Aman, escolheu a área de Engenharia. “No Exército, a Engenharia serve para construir e destruir. Em tempos de paz, muito mais para construção”, lembrou ele.  
 
“A minha herança é o que meus pais passaram para mim. Eu olho meus pais e vejo exemplo de honestidade e caráter, isto representa muito para mim!”, ponderou Navarro Moraes.  
 
Hoje, na reserva remunerada do Exército, Alaor Moraes possui condições de dar consultoria sobre construção de estradas, na Amazônia Legal, a muitos que se imaginam mestres, no assunto. No comando do 5º BEC, desbravou trechos da BR-364 considerados praticamente intransponíveis.  “Muitos homens perderam suas vidas, nessa tarefa”, citou ele. Sua foto está na galeria dos ex-comandantes do 5º BEC, em Porto Velho, que deixou em 1997.

Durante a  sua estada, em Cuiabá,  visitou parentes e decidiu conhecer o Pantanal de Mato Grosso.

 

50 Anos depois, 5° BEC¹

Se a vida naturalmente é feita de desafios, viver na Amazônia essa medida vai ao cubo. O que dizer então viver em Rondônia a exatos cinquenta anos atrás. Quando ainda era Território Federal, longe de tudo e de todos, mas perto de uma riqueza imensurável, chamada de Amazônia, que sempre foi palco e cenário de grandes expedições, aventuras, desafios e atos de pioneirismo. Desde os tempos mais remotos inúmeras vezes o homem ocidental foi convocado a viver e sobreviver em meio a grande floresta, cobiçada desde de sempre pelos olhos europeus.


 
Mas foi na metade do século XX, que o clamor regional, de uma população que sobrevivia ao isolamento rodoviário, que ainda, mesmo que existindo algo do tipo, era precário e deficitário, uma nova empreitada seria vivenciada mais uma vez na tão cobiçada Amazônia em Rondônia, pelos membros do 5° Batalhão de Engenharia e Construção, o tão conhecido 5° BEC.
 
A Rodovia BR 364 é tronco muito importante, não somente para Amazônia, mas principalmente para a região mais beneficiada pela sua presença – Rondônia. A rodovia foi o estopim que deflagrou a corrida para as terras de Rondônia, favorecendo grandemente o fornecimento dos gêneros de primeira necessidade, aumentando o fluxo migratório em busca das lavas de cassiterita e mais tarde, das terras utilizadas para agricultura através dos projetos de colonização do Governo Federal.

Consolidada em 1966, quando ficou ligada Cuiabá com Porto Velho, graças ao trabalho do 5° BEC. Em Porto Velho, faz ligação com a BR 319 que segue com destino a Manaus, entregue ao tráfego desde 1973, quando concluído o asfaltamento, e infelizmente hoje, parcialmente deteriorada.

Outras ligações, além da estrada que vai de Porto Velho – Abunã - Guajará Mirim – Rio Branco no Acre, surgiram como a estrada de Vilhena a Colorado. Todas com origem na BR 364 que, por sua vez, origina-se em Limeira na confluência com a via Anhangüera, no Estado de São Paulo.

 

O 5° BEC, sua trajetória em Rondônia

Com a chegada do 5° BEC a Rondônia, incumbido de concluir a construção da rodovia Brasília-Acre e erradicar infelizmente a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, houve grandes modificações na rodovia. O 5° Batalhão de Engenharia e Construção foi criado em 1965, a exatos cinquenta anos e, já um ano após seu surgimento, iniciava seus trabalhos de complementação da estrada. Não seria desnecessário dizer-se da modificação que houve em Rondônia com sua chegada.

Estávamos na segunda metade do mês de fevereiro quando chegaram. Houve boa receptividade por parte da população do Território Federal de Rondônia, pois, a mesma criara expectativas quanto a possível solução para o isolamento rodoviário da região. Naquela data, a capital do Território Porto Velho, ainda era uma cidade com ares provincial e pequena, e não cabia tanta gente assim de repente.

O 5° BEC ocupou todas as casas disponíveis na cidade. Até a casa do Bispo, o antigo colégio Dom Bosco, foi ocupada por sargentos, tudo com o intuito que priorizar o asfaltamento da BR 364, sonho de muitos na época. As residências de antigos ferroviários – Caiari foram solicitadas e nelas colocaram oficiais. O prédio do 19° D.R.F. , foi ocupado, cedido, pelo chefe, Dr. Moura; também ocuparam o quartel da Guarda Territorial na Arigolândia.

Com a chegada do 5° BEC a Porto Velho, houve muita alteração no quadro social, muita modificação de comportamento; estratificação das classes sociais, até estão indistintas. Na realidade os militares inicialmente vivenciaram certa insatisfação da população da cidade em alguns momentos.

Exemplos como problemas de relacionamento com funcionários da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ou civis em geral. Naturalmente coisas banais que, dado o volume de trabalho, não permitia aos oficiais o luxo de serem mais diplomáticos para resolvê-las. As medidas que eram tomadas por eles, nem sempre eram precedidas de um esclarecimento ao público e, evidente chocava a população.

A retirada de moradores da Baixa União por exemplo, transferidos para o bairro Liberdade, causou insatisfação, pela maneira que foi executada, embora os moradores antigos reconheçam ter ganhado na troca. A Baixa União ficava onde hoje é Avenida Rogério Weber, onde se localiza o Fórum, Receita Federal, Tribunal de Justiça Federal, Feira do Produtor e Camelódromo. Locais que em determinadas épocas sofriam alagamentos. A única vantagem era ficar perto do centro comercial e do trabalho.

O 5° BEC fez tudo para justificar o ato, desde transportar o material das velhas casas de madeira até mandar construir as frentes das novas casas de alvenaria com cobertura de telhas de amianto. Hoje o bairro Liberdade, criado pelo 5° BEC, é um dos mais promissores, fica no centro geográfico de Porto Velho e é bem servido por órgãos públicos.
 
Mesmo diante de alguns dilemas, a cidade foi substancialmente enriquecida culturalmente, pois os oficiais e suas esposas passaram a fazer parte ativa do magistério local e da sociedade. Com a chegada do 5° BEC, as escolas foram beneficiadas, pois principalmente as esposas dos militares achavam salutar ocupação em lecionar. Os colégios foram ampliados oferecendo maior número de vagas, e o 5° BEC chegou a construir mais escolas.

Os oficiais que cooperavam com o ensino ministravam aulas no Carmela Dutra e Estudo e Trabalho, somente pela parte da noite, prática abandonada em razão das constantes viagens para as frentes de serviços, entretanto permaneciam os familiares. A prefeitura de Porto Velho encontrou no 5° BEC apoio muito grande, na abertura e encascalhamento das ruas, estradas vicinais, dentre outras benfeitorias feitas por força de convênios.



Asfaltamento da BR 364

Quando Rondônia alcançou sua autonomia, transformando-se em Estado, apenas o trecho Ariquemes-Porto Velho, com 192 quilômetros era asfaltado; 48 destes ainda em estrada de chão; reserva para a represa de Samuel. Os trabalhos ali foram executados pelo 5° BEC, entretanto, toda a rodovia já se encontrava sofrendo reparos ou com máquinas das empreiteiras chegando ao local de trabalho.

Ao chegar a Porto Velho, para tomar posse como governador do território, o coronel Jorge Teixeira de Oliveira estabeleceu suas metas de trabalho, dentre as quais encontrava-se a pavimentação da BR 364. Como nenhum outro governador havia conseguido atingir tal objetivo, imediatamente fizeram corre boatos, na tentativa de desacreditá-lo perante a opinião pública. A oposição naquele momento foi liderada pelo deputado federal Jerônimo Santana, que tempos depois foi eleito Governador de Rondônia.

Entretanto, Teixeira não desanimou, continuou a luta, e depois de muitas viagens e contatos com autoridades mais ligadas ao Território, conseguiu que fossem assinados, pelo ministro Eliseu Resende, na presença do presidente João Batista Figueiredo, 19 contratos (14 de empreiteiras e 5 de consultoria), para pavimentação da BR 364, rodovia Cuiabá-Porto Velho, no trecho Cárceres, no Mato Grosso a Ariquemes, em Rondônia, numa extensão de 1.040 km.

As obras para pavimentação dos 1.442 quilômetros de Cuiabá-Porto Velho, concluídas em 1984, foram orçadas inicialmente em 35 bilhões de cruzeiros. Desse total, o Banco Mundial participara com um terço. Futuramente, o DNER estenderá o asfalto de Porto Velho até Rio Branco, numa extensão de 505 quilômetros, estabelecendo-se a ligação de todas a capitais brasileiras naquela época, por via pavimentada. Outro trecho que será pavimentado com atuação do 5° BEC, será Abunã – Guajará- Mirim.

A BR 364 foi o rastilho de estopim que deflagrou a ocupação de Rondônia. Graças ao empenho de Jorge Teixeira e dos trabalhos do 5° BEC esse sonho de muitos que viviam os tempos de isolamento se concretizou. Os migrantes vieram através de seu leito em grandes quantidades, ocupando espaços que encontravam através dos Projetos de Colonização do Governo Federal.

A soma de forças e o empenho do 5° Batalhão de Engenharia e Construção, foram de suma importância para a consolidação do Estado de Rondônia, do qual era dependente do sucesso dos Projetos de Colonização, que fatalmente seriam inviabilizados na falta de uma rodovia asfaltada para o escoamento da produção e própria integração do Estado de Rondônia.


¹Com  Trilhando a História - Aleks Palitot