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12 de Novembro, 2014 - 19:20 ( Brasília )

CIGS - Entrevista Cel Gelio Fregapani

Coronel Gelio Fregapani, 6º Comandante do CIGS em entrevista pelas comemorações dos 50 anos do Centro

 

Publicado Revista Verde Oliva 225
Outubro 2014


Considerado uma das melhores mentes do Exército Brasileiro e por ter comandado o Centro a partir do ano de 1980,o Coronel Gelio Fregapani, 6º Comandante,  foi convidado para falar sobre o CIGS e sobre a Amazônia.

Politizado, consciente e articulado, Coronel Fregapani fundamentou as leis de Guerra na Selva e ajudou a construir a mística do CIGS.
 
Verde-Oliva – O que significa o CIGS em sua carreira militar?

Cel Fregapani – Creio ter deixado uma marca por onde passei, mas o tempo de comando no GIGS foi o ápice. Sempre pensei, desde que me dei por gente, em influir decisivamente para conseguir a vitória na guerra. Sei que se começa a vencer formulando a doutrina correta para a situação e forjando os instrumentos do combate – homens treinados e armas eficazes para a situação. Foi isto que iniciei a fazer.
 
Verde-Oliva – O senhor testemunhou boa parte da criação do CIGS e o comandou. Quais as lembranças, as maiores dificuldades e as saudades da época?
 
Cel Fregapani – As lembranças principais são os grandes desafios. O gostinho do perigo e do desconhecido. Da ousadia do Major Teixeira em sair das regras para assegurar o apoio logístico. Da dedicação dos quadros e das inovações de um oficial o Capitão Leal Santos. Lembro-me da dificuldade da maioria em pensar no know-why e não somente no know-how e na dificuldade em inovar e avançar. A saudade que me toca é a do companheirismo, dos desafios e do gosto do perigo.
 
Verde-Oliva – Muitos de seus amigos e admiradores o descrevem como mente pensante, um patrimônio intelectual do Exército Brasileiro. Comenta-se que o senhor realmente tem opiniões claras e bem formadas sobre muitos assuntos nacionais e internacionais na área da sociologia, economia e na geopolítica.  Onde o CIGS ajudou a formar o pensador Gelio Fregapani?
 
Cel Fregapani – Por ter tomado parte na epopeia da fundação do CIGS, por conhecer o curso norte-americano de Operações na Selva e por ter estudado as campanhas que ocorreram no mundo, formulei mentalmente a doutrina que me pareceu mais adequada para enfrentar e vencer uma guerra no nosso ambiente de selva. Escrevi algo sobre o assunto em revistas militares e, no desempenho de outras funções, tive a sorte e a oportunidade de fazer inovações.

Talvez, devido a esses dois fatores, tenha recebido o honroso convite para comandar o CIGS. Claro que isso era um sonho, mas mesmo assim respondi de uma forma irreverente: “Meu General, é o mesmo que perguntar se macaco quer banana, mas tenho minhas ideias sobre como desenvolver uma guerra na selva. Se não puder implementá-las, prefiro não ir”.
 
Pela resposta do General Navarro, “O convite é precisamente pelas suas ideias”, considerei-me com carta branca e arrisquei o que talvez nenhum outro comandante poderia fazê-lo. Com a graça de Deus, deu certo e isto transformou o CIGS, que já era respeitado, na mais famosa Escola de Guerra na Selva do mundo.

A fama do CIGS é que se refletiu em mim, fazendo com que minhas ideias (em constante evolução) ficassem conhecidas. Houve casos de até boas ideias serem atribuídas erroneamente a mim. Lembro-me de uma declaração em uma grande revista nacional “Não quero inovar nada, mas decidi cooperar com o progresso da região.”
 
Declaração que nunca fiz, mas não desmenti. Na verdade sempre quis inovar e muitas vezes consegui.
 
Verde-Oliva – O senhor é um crítico das intervenções por vezes desastrosas na região, como as demarcações de terras indígenas e as constantes invasões de fronteira por parte de refugiados. Onde o CIGS pode interferir de forma positiva no debate civil e militar sobre tais temas? É possível?
 
Cel Fregapani – O CIGS é apenas uma escola. Deve inspirar e propor uma doutrina; mas aceitar, modificar e implementar cabe ao Estado-Maior do Exército. A herança que tivemos da nossa matriz – o Jungle Operations dos EUA – resumia-se ao treinamento individual e de escalão até pelotão (a moda deles que não nos servia) e já tinha sido em parte adaptado, inclusive por mim.
 
Quando comandei, prossegui com inovações e criamos um curso para oficiais superiores no qual estudávamos as guerras na selva da História e de situações hipotéticas. Naturalmente, fizemos propostas que foram bem recebidas. Este é o papel do CIGS; mas, pessoalmente, podemos influir mais. 

A minha influência é facilitada pela fama do CIGS. Quanto à perigosa situação indígena, o CIGS pode ajudar; porém, o CMA e o Estado-Maior do Exército têm que pensar e implementar ações para conseguir aliados entre índios e, principalmente, garimpeiros. Estes últimos, na situação atual, seriam a chave do sucesso ou do fracasso.
 
Verde-Oliva – O CIGS é uma aula de Amazônia, isso é fato. Em suas fileiras, inúmeros militares de nações amigas vêm aprender sobre a região, a partir do Curso de Operações na Selva. Geopoliticamente falando, é seguro dialogar conhecimento com nossos vizinhos?
 
Cel Fregapani
– Isto deve ser uma ação diplomática para fazer amigos e pensada no Itamarati. Cabe ao CIGS agir para conquistar respeito e amizades, e não dar “o pulo do gato”.
 
Verde-Oliva – E os próximos 50 anos?

Cel Fregapani –
Por melhor que seja uma doutrina, uma tropa ou qualquer técnica ou tática, ela será superada se não evoluir. É necessário um pensamento contínuo de evolução antes mesmo de novos materiais, procedimentos e dispositivos que serão necessários. A deusa da vitória sorri para o exército que se antecipa. Depende só de nós evoluirmos antes dos demais.

Selva!


Nota DefesaNet

DefesaNet publica regularmente Comentário Gelio Fregapani  Link

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