Os índios e as armas
MAURO SANTAYANA
Duas notícias ocuparam os jornais de domingo:
a morte, ainda misteriosa, do general Bacellar, em Porto
Príncipe, e o treinamento militar de índios
da Amazônia. O fim do general, qualquer que tenha
sido a causa, mostra os riscos que correm os soldados,
em todos os momentos. Se o oficial estava de tal forma
tenso, diante de sua responsabilidade e dos problemas
que enfrentava no comando da força de paz, ou em
sua vida pessoal, e tenha sucumbido à tentação
do suicídio, ele não terá sido o
primeiro. A farda não blinda a alma, nem a formação
militar retira do homem a essencial fragilidade. Como
morreu em missão, o general merece todo o respeito
de seus companheiros e da nação. Se o Brasil
errou ao enviar o contingente a Porto Príncipe,
é outro problema, que não cabe discutir
agora.
O que nos parece incorreto é criticar as Forças
Armadas por treinar os índios amazônicos
para a defesa de nosso território. Da forma em
que as coisas se encontram no mundo, esse adestramento
teria que ser universalizado no Brasil. Todos os cidadãos
válidos deveriam conhecer o manejo das armas e
as táticas da guerra de resistência. As boas
almas defendem a preservação dos índios
em seu meio como defendem os animais da selva em seu ecossistema.
Mas os indígenas, ao contrário do que pregavam
alguns teólogos do século 16, pertencem
à espécie humana; não são
bichos de estimação.
Alega-se que é necessário preservar-lhes
a cultura, mas essa preservação depende
da vontade que eles tenham de conservá-la, e não
da nossa conveniência estética ou de remorso
histórico. E louve-se a forma com que as Forças
Armadas republicanas se relacionam com os nossos autóctones.
Desde a frase histórica de Rondon - morrer, se
preciso for, matar nunca - ninguém tem cuidado
melhor dos índios do que os soldados. São
eles os que os assistem, nos casos de enfermidade e de
perigo. As lanchas militares que percorrem os rios e os
igarapés, e os aviões da FAB que cortam
os céus turbulentos, os recolhem e os conduzem
aos hospitais.
Não há casos de seqüestro de militares
por índios armados, o que é freqüente
no caso de
funcionários da Funai. Se as Forças Armadas
não se encontrassem tão desprovidas de recursos,
seria o caso de encarregá-las da proteção
oficial aos brasileiros das selvas. Da proteção
oficial, porque da proteção efetiva pelas
três armas eles podem contar.
O que não se pode aceitar é a rápida
inclusão dos índios na vida moderna, sem
preparação cuidadosa. A sua civilização
pode ser superior, no que se refere às relações
internas das comunidades tribais, mas é impossível
mantê-los isolados, com a desculpa de que é
preciso conservar sua cultura. Eles a preservarão
se quiserem preservá-la. Podemos dar-lhes os instrumentos
para isso, e o primeiro deles é a educação.
Mas não os podemos condenar a viver à margem
do mundo.
Prepará-los para a defesa do território
não é perturbar-lhes a vida, nem instigá-los
à agressividade. Eles conhecem imemorialmente as
armas, como o arco e a flecha, os dardos venenosos, a
borduna e as plantas que paralisam e matam, e sempre foram
inclementes nas guerras. Trata-se de apenas dotá-los
de armas mais práticas, para a defesa do solo pátrio
- eventualidade que, a cada dia, se torna mais provável.
Temos que contar com a sua ajuda, como senhores da selva,
para resistir a quem se sinta estimulado a tomá-la
pela força das armas. Já estamos sendo saqueados
pelos que a invadem com a Bíblia e a moto-serra,
que despem as matas, e roubam exemplares animais e vegetais
de nossa fascinante biodiversidade.
Respeitar
o índio não é mantê-lo, para
o prazer científico dos antropólogos, na
idade da pedra, nem contaminar a sua cultura, ocupando-lhes
as terras e levando-lhes o álcool e a fome, como
ocorreu sempre, e ocorre hoje aos caiovás do Mato
Grosso.
Fariam melhor as piedosas almas, que protestam contra
seu adestramento militar, se procurassem reintegrar à
sociedade as novas tribos dos excluídos, que se
refugiam e se armam com bazucas e mísseis, na periferia
selvagem das grandes metrópoles.