O
Comando Militar da Amazônia já entendeu que
a ocupação da floresta extrapola a capacidade
militar, diz o general Eduardo Dias da Costa Villas
Bôas
Luís
Henrique Amorim
Manaus:
O
general, que dirige o CMA, defendeu nesta terça-feira,
durante a Reunião Regional de Manaus(SBPC), a necessidade
de construção de um grande projeto para
a ocupação da Amazônia, com a participação
de setores sociais, políticos, ambientais, científicos
e tecnológicos.
Segundo Villas Bôas, em sua participação
na mesa-redonda Defesa da Amazônia,
a ocupação da região não pode
ser feita somente pelo exército.
O
Comando Militar da Amazônia já entendeu que
a ocupação da floresta extrapola a capacidade
militar. Um soldado armado pode até defender as
fronteiras físicas da Amazônia, mas não
pode conter as fronteiras virtuais. Precisamos aproveitar
o potencial econômico da floresta e para isso precisamos
integrá-la à dinâmica econômica
de nosso país, disse.
Para
ele, outro potencial que deve ser explorado é o
potencial físico da Amazônia. Ela nos
conecta a sete países e vai ser a base para uma
integração sul-americana. Manaus tem um
importante papel neste processo, será o centro
de difusão e integração deste processo.
Mas
o general vê grandes entraves para o desenvolvimento
da região. Segundo ele, a instabilidade dos paises
vizinhos, as guerrilhas, a questão indígena,
a questão ambiental, os ilícitos, a internacionalização
da área e os vazios de poder são grandes
preocupações.
O
principal problema são os vazios de poder. Ele
potencializa os outros. Mas para isso melhorar, é
preciso a união de diversos setores. O Estado brasileiro
não se faz presente, não estabelece patamares
na ocupação, na produção agrícola,
afirma Villas Bôas.
Segundo
o general, o exército estabelece na Amazônia
uma estratégia de presença. Temos 124 organizações
militares em 54 localidades. Cada unidade tem, no mínimo,
um posto de saúde, com médico e uma equipe
de enfermagem. Além disso, em todos os nossos pelotões,
temos um pavilhão de terceiros que é destinado
às instituições que queiram realizar
parcerias. Caso uma Universidade queira realizar uma pesquisa
de campo, basta nos procurar. Lá, os pesquisadores
poderão contar com toda a nossa logística.
Villas
Bôas ressaltou ainda a importância da C&T
na questão bélica. Para ele, os países
que hoje em dia tem o maior poder bélico foram
os que mais investiram em tecnologias. Mas o general fez
questão de frisar que as forças armadas
existem para evitar a guerra e não o contrário,
mas não podemos ser um blefe.
Ocupação
pelo conhecimento
Em
sua fala, o antropólogo Lino João de Oliveiro
Neves, da Ufam, argumentou que a defesa da Amazônia
deve ser feita pelo conhecimento. Há vácuos
de conhecimento que enfraquecem a Amazônia. Temos
que valorizar os conhecimentos locais. O modelo de expedições
que era feito antigamente não atende mais às
necessidades.
E le
defendeu a idéia de que há uma natureza
culturalizada: Na região, há
uma enorme diversidade cultural e social, resultado das
diferentes ações humanas. Foram de conhecimentos
de indígenas que derivaram a criação
de alguns fármacos e o manejo da terra. Temos que
andar ao contrário do mundo globalizado, que faz
o desperdício do conhecimento em prol do conhecimento
hegemônico.
O
pesquisador em Direito Ambiental e professor da Universidade
do Estado do Amazonas, Fernando Antonio de Carvalho Dantas,
disse que é preciso pensar a Amazônia
com o conceito de soberania. Não somente sobre
o território, mas sobre o seu conhecimento.
A
Amazônia, disse Dantas, é um lugar de muitas
riquezas e, diante do contexto de globalização
da economia e da cultura e com o colapso mundial em relação
à energia, água e matérias-primas,
precisamos protege-la.
Para
ele, é preciso conhecer a complexidade e as especificidades
locais. Para proteger a floresta, precisamos de
pesquisa, investir em C&T, sempre valorizando a experiência
amazônica para entender toda a sua riqueza natural
e humana.
Ele
defendeu que é preciso maior atenção
do Estado. A Amazônia não é
despovoada. Há 53 etnias. São 90 mil indivíduos
que conheceram e domesticaram a região. Precisamos
entender estes pontos e o Estado deve promover políticas
públicas de apoio. É preciso promover um
exercício de cidadania e dar voz aos diferentes
sujeitos.
O
presidente da SBPC, Ennio Candotti, que coordenava a mesa,
voltou a defender que o conhecimento é a única
forma de se proteger a Amazônia. Para combater
a biopirataria nós temos que ter os nossos piratas.
Para
ele, os cientistas devem poder pesquisar os laboratórios
naturais sem as amarras burocráticas existentes
hoje. Na abertura da Reunião Regional, na segunda-feira,
ele já havia criticado as restrições
dizendo que os pesquisadores estão no caixa
2 da ciência, mas quero ver fazer pesquisa
e defender este país esperando as autorizações
do Ibama.
Amazônia
ilícita
Marcos
Pinta Gama, coordenador-geral da área de Combate
a Ilícitos Transnacionais do Ministério
das Relações Exteriores, também salientou
que a Amazônia é palco central da integração
da América do Sul e que, hoje, esta é uma
das prioridades do Itamaraty.
Mas
que tipo de integração queremos? Física?
Comercial? Energética? A partir de atores criminais,
com grupos armados? Guerrilhas? Tráfico de drogas?
O Ministério das Relações Exteriores
querem defender a Amazônia pela integração,
mas todas estas novas questões devem ser levadas
em conta, disse ele.
Segundo
Gama, há muitas questões que preocupam o
governo em relação à Amazônia.
Há americanos com teorias de que há
espaços sem governos e que isso pode justificar
uma futura ingerência militar. Não podemos
deixar que isso afete nossa soberania.
Apesar
dessa preocupação, foi reconhecido pela
Organização dos Estados Americanos (OEA)
que a região está livre de conflitos armados
entre paises. Parece não haver esta ameaça.
Mas há outras como a extrema pobreza, a degradação
ambiental e o crime organizado transnacional. Nós
queremos vencer esses desafios através da cooperação
internacional.
Segundo
ele, esta tarefa não tem sido fácil. Historicamente,
o Brasil, de certa maneira, negligenciou a cooperação
entre os países da América Latina, privilegiando
os acordos com a Europa e EUA. Agora estamos percebendo
que isto é um erro. Tudo que acontece nas fronteiras
tem enorme impacto nas nossas principais cidades.
Ele
deu como exemplo o referendo sobre desarmamento: Só
irá funcionar se determos os ilícitos nas
fronteiras. Temos que evitar o escoamento de drogas pelo
Brasil, reprimir a troca de armas por drogas e evitar
que as guerrilhas cheguem ao Brasil.
Colonização?
Ao
falar sobre a presença do exército na Amazônia,
o general Villas Bôas disse que um dos papéis
do exército é ajudar na colonização
da região.
A
partir desta observação, o antropólogo
Lino Neves defendeu que as estratégias de colonização,
adotadas a partir da década de 70, foram desastrosas.
Penso
que algumas vezes as forças armadas tem a C&T
no século XXI, mas as ciências sociais do
século XIX. Não se deve pensar em ajudar
os índios a colonizar a Amazônia. Desde sempre
eles estiveram lá e alguns estados só existem
pela presença deles. E não se deve adotar
uma política paternalista em relação
aos indígenas, como já foi feito.
Sobre
a questão, Fernando Dantas destacou que a Amazônia
não é um vazio populacional. E disse
que acredita que o colonizar do exército não
é trazer novas populações como foi
feito com os seringueiros.
Ao
retomar a palavra, Villas Bôas explicou que a
colonização feita pelo exército tem
a conotação mais primária possível.
Nós queremos apenas marcar presença.
Ele
contou que em uma comunidade indígena próxima
à fronteira com a Colômbia, antes do Exército
estabelecer um pelotão de fronteira, os indígenas
achavam que eram colombianos.
Quando
acontecia alguma emergência médica, eles
iam para uma cidade colombiana que fica a 100 km. No Brasil,
a cidade mais perto está a 450 km. Agora, é
até emocionante, quando chegamos lá eles
nos recebem cantando o hino nacional. Hoje, sabem que
são brasileiros.
Sobre
o projeto para a Amazônia, o general defendeu que
sem ele a região corre o mesmo risco que
aconteceu com o Nordeste. O século XX terminou
exatamente como começou, com gente morrendo de
sede no sertão do Nordeste. Se nada for feito,
em cem anos na Amazônia, a cada verão, na
época da seca, a população estará
sem assistência, como acontece hoje. Precisamos
estruturar a região, com alguns parâmetros
importantes como a integração, o entorno
da Amazônia. Outro parâmetro é que
precisamos dar valor econômico a nossa biodiversidade.
Se nós não conseguirmos gerar valor econômico
com a floresta em pé, não temos como competir
com a soja e o gado.
Para
ele, é complicado o exército impedir uma
atividade como a exploração da madeira.
Nós fomos ao Pará e impedimos, mas
isso causou cerca de 350 mil desempregados. É gente
que nasceu ali, vive disso e nem sabe que a extração
é proibida.
Villas
Boas defendeu, por fim, que o Estado não
pode chegar apenas com a mão repressora. Tem que
chegar com a mão que estimula, que apóia,
que fomenta, que leva infra-estrutura.