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TOA - Teatro de Operações da Amazônia
Defesanet 28 setembro 2005
JC 28 Setembro 2005

“O Comando Militar da Amazônia já entendeu que a ocupação da floresta extrapola a capacidade militar”, diz o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

Luís Henrique Amorim
Manaus
:

O general, que dirige o CMA, defendeu nesta terça-feira, durante a Reunião Regional de Manaus(SBPC), a necessidade de construção de um grande projeto para a ocupação da Amazônia, com a participação de setores sociais, políticos, ambientais, científicos e tecnológicos.

Segundo Villas Bôas, em sua participação na mesa-redonda ‘Defesa da Amazônia’, a ocupação da região não pode ser feita somente pelo exército.

“O Comando Militar da Amazônia já entendeu que a ocupação da floresta extrapola a capacidade militar. Um soldado armado pode até defender as fronteiras físicas da Amazônia, mas não pode conter as fronteiras virtuais. Precisamos aproveitar o potencial econômico da floresta e para isso precisamos integrá-la à dinâmica econômica de nosso país”, disse.

Para ele, outro potencial que deve ser explorado é o potencial físico da Amazônia. “Ela nos conecta a sete países e vai ser a base para uma integração sul-americana. Manaus tem um importante papel neste processo, será o centro de difusão e integração deste processo.”

Mas o general vê grandes entraves para o desenvolvimento da região. Segundo ele, a instabilidade dos paises vizinhos, as guerrilhas, a questão indígena, a questão ambiental, os ilícitos, a internacionalização da área e os vazios de poder são grandes preocupações.

“O principal problema são os vazios de poder. Ele potencializa os outros. Mas para isso melhorar, é preciso a união de diversos setores. O Estado brasileiro não se faz presente, não estabelece patamares na ocupação, na produção agrícola”, afirma Villas Bôas.

Segundo o general, “o exército estabelece na Amazônia uma estratégia de presença. Temos 124 organizações militares em 54 localidades. Cada unidade tem, no mínimo, um posto de saúde, com médico e uma equipe de enfermagem. Além disso, em todos os nossos pelotões, temos um pavilhão de terceiros que é destinado às instituições que queiram realizar parcerias. Caso uma Universidade queira realizar uma pesquisa de campo, basta nos procurar. Lá, os pesquisadores poderão contar com toda a nossa logística.”

Villas Bôas ressaltou ainda a importância da C&T na questão bélica. Para ele, os países que hoje em dia tem o maior poder bélico foram os que mais investiram em tecnologias. Mas o general fez questão de frisar que “as forças armadas existem para evitar a guerra e não o contrário, mas não podemos ser um blefe”.

Ocupação pelo conhecimento

Em sua fala, o antropólogo Lino João de Oliveiro Neves, da Ufam, argumentou que a defesa da Amazônia deve ser feita pelo conhecimento. “Há vácuos de conhecimento que enfraquecem a Amazônia. Temos que valorizar os conhecimentos locais. O modelo de expedições que era feito antigamente não atende mais às necessidades.”

E
le defendeu a idéia de que há uma ‘natureza culturalizada’: “Na região, há uma enorme diversidade cultural e social, resultado das diferentes ações humanas. Foram de conhecimentos de indígenas que derivaram a criação de alguns fármacos e o manejo da terra. Temos que andar ao contrário do mundo globalizado, que faz o desperdício do conhecimento em prol do conhecimento hegemônico.”

O pesquisador em Direito Ambiental e professor da Universidade do Estado do Amazonas, Fernando Antonio de Carvalho Dantas, disse que “é preciso pensar a Amazônia com o conceito de soberania. Não somente sobre o território, mas sobre o seu conhecimento.”

A Amazônia, disse Dantas, é um lugar de muitas riquezas e, diante do contexto de globalização da economia e da cultura e com o colapso mundial em relação à energia, água e matérias-primas, precisamos protege-la.

Para ele, é preciso conhecer a complexidade e as especificidades locais. “Para proteger a floresta, precisamos de pesquisa, investir em C&T, sempre valorizando a experiência amazônica para entender toda a sua riqueza natural e humana.”

Ele defendeu que é preciso maior atenção do Estado. “A Amazônia não é despovoada. Há 53 etnias. São 90 mil indivíduos que conheceram e domesticaram a região. Precisamos entender estes pontos e o Estado deve promover políticas públicas de apoio. É preciso promover um exercício de cidadania e dar voz aos diferentes sujeitos.”

O presidente da SBPC, Ennio Candotti, que coordenava a mesa, voltou a defender que o conhecimento é a única forma de se proteger a Amazônia. “Para combater a biopirataria nós temos que ter os nossos piratas”.

Para ele, os cientistas devem poder pesquisar os ‘laboratórios naturais’ sem as amarras burocráticas existentes hoje. Na abertura da Reunião Regional, na segunda-feira, ele já havia criticado as restrições dizendo que os pesquisadores estão “no ‘caixa 2’ da ciência, mas quero ver fazer pesquisa e defender este país esperando as autorizações do Ibama”.

Amazônia ilícita

Marcos Pinta Gama, coordenador-geral da área de Combate a Ilícitos Transnacionais do Ministério das Relações Exteriores, também salientou que a Amazônia é palco central da integração da América do Sul e que, hoje, esta é uma das prioridades do Itamaraty.

“Mas que tipo de integração queremos? Física? Comercial? Energética? A partir de atores criminais, com grupos armados? Guerrilhas? Tráfico de drogas? O Ministério das Relações Exteriores querem defender a Amazônia pela integração, mas todas estas novas questões devem ser levadas em conta”, disse ele.

Segundo Gama, há muitas questões que preocupam o governo em relação à Amazônia. “Há americanos com teorias de que há espaços sem governos e que isso pode justificar uma futura ingerência militar. Não podemos deixar que isso afete nossa soberania”.

Apesar dessa preocupação, foi reconhecido pela Organização dos Estados Americanos (OEA) que a região está livre de conflitos armados entre paises. “Parece não haver esta ameaça. Mas há outras como a extrema pobreza, a degradação ambiental e o crime organizado transnacional. Nós queremos vencer esses desafios através da cooperação internacional.”

Segundo ele, esta tarefa não tem sido fácil. “Historicamente, o Brasil, de certa maneira, negligenciou a cooperação entre os países da América Latina, privilegiando os acordos com a Europa e EUA. Agora estamos percebendo que isto é um erro. Tudo que acontece nas fronteiras tem enorme impacto nas nossas principais cidades.”

Ele deu como exemplo o referendo sobre desarmamento: “Só irá funcionar se determos os ilícitos nas fronteiras. Temos que evitar o escoamento de drogas pelo Brasil, reprimir a troca de armas por drogas e evitar que as guerrilhas cheguem ao Brasil.”

Colonização?

Ao falar sobre a presença do exército na Amazônia, o general Villas Bôas disse que um dos papéis do exército é ajudar na colonização da região.

A partir desta observação, o antropólogo Lino Neves defendeu que as estratégias de colonização, adotadas a partir da década de 70, foram desastrosas.

“Penso que algumas vezes as forças armadas tem a C&T no século XXI, mas as ciências sociais do século XIX. Não se deve pensar em ajudar os índios a colonizar a Amazônia. Desde sempre eles estiveram lá e alguns estados só existem pela presença deles. E não se deve adotar uma política paternalista em relação aos indígenas, como já foi feito.”

Sobre a questão, Fernando Dantas destacou que a “Amazônia não é um vazio populacional”. E disse que acredita que o colonizar do exército não é trazer novas populações como foi feito com os seringueiros.

Ao retomar a palavra, Villas Bôas explicou que “a colonização feita pelo exército tem a conotação mais primária possível. Nós queremos apenas marcar presença”.

Ele contou que em uma comunidade indígena próxima à fronteira com a Colômbia, antes do Exército estabelecer um pelotão de fronteira, os indígenas achavam que eram colombianos.

“Quando acontecia alguma emergência médica, eles iam para uma cidade colombiana que fica a 100 km. No Brasil, a cidade mais perto está a 450 km. Agora, é até emocionante, quando chegamos lá eles nos recebem cantando o hino nacional. Hoje, sabem que são brasileiros.”

Sobre o projeto para a Amazônia, o general defendeu que sem ele “a região corre o mesmo risco que aconteceu com o Nordeste. O século XX terminou exatamente como começou, com gente morrendo de sede no sertão do Nordeste. Se nada for feito, em cem anos na Amazônia, a cada verão, na época da seca, a população estará sem assistência, como acontece hoje. Precisamos estruturar a região, com alguns parâmetros importantes como a integração, o entorno da Amazônia. Outro parâmetro é que precisamos dar valor econômico a nossa biodiversidade. Se nós não conseguirmos gerar valor econômico com a floresta em pé, não temos como competir com a soja e o gado.”

Para ele, é complicado o exército impedir uma atividade como a exploração da madeira. “Nós fomos ao Pará e impedimos, mas isso causou cerca de 350 mil desempregados. É gente que nasceu ali, vive disso e nem sabe que a extração é proibida.”

Villas Boas defendeu, por fim, que “o Estado não pode chegar apenas com a mão repressora. Tem que chegar com a mão que estimula, que apóia, que fomenta, que leva infra-estrutura.”

 

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