Sendero
Luminoso
Uma revolução movida a cocaína
Sendero Luminoso ressurge
amparado pelo narcotráfico
do segundo maior produtor mundial
(A
organização guerrilheira 15 anos depois)
Joana Duarte
Financiado pelos
lucros do narcotráfico e da indústria
madeireira ilegal, ressurge no Peru o Sendero Luminoso,
a violenta insurgência maoísta que
aterrorizou o país durante mais de duas décadas
e que se acreditava praticamente extinto.
Membros da organização
se deslocam em pequenos grupos por terras indígenas,
principalmente na zona do Vale dos Rios Apurímac
e Ene (VRAE), região centro-sul do país,
onde mais de 70 mil pessoas morreram em conflitos
sangrentos entre as Forças Armadas e os senderistas
nas décadas de 80 e 90.
A apenas 250 metros
do VRAE tem início a selva de Vizcatán,
a maior zona produtora de coca do país. Levantamentos
recentes apontam que 90% da safra de coca nascida
na área é direcionada para a produção
de cocaína no Peru, o segundo maior produtor
mundial da droga, superado apenas pela Colômbia.
Estima-se que o Sendero Luminoso hoje emprega cerca
de 500 cocaleiros no VRAE, além de 350 combatentes
armados.
Desde agosto de
2008, as Forças Armadas têm orquestrado
operações contundentes de combate
aos traficantes senderistas. A percepção
do governo peruano é a de que o o movimento
se assemelha cada vez mais aos cartéis latino-americanos,
sendo a ideologia maoísta um pretexto para
essas ações criminosas.
Ramificações
Mas, segundo especialistas,
não se pode hoje falar em um único
Sendero Luminoso. O cientista político Miguel
Giusti do Instituto de Democracia e Direitos Humanos
da Universidade Católica do Peru, identifica
três grupos distintos dentro da organização.
– Existem
aqueles que chamamos de ‘acordistas‘,
facção na zona do Alto Huallaga, que
busca solução política para
o conflito, propondo como agenda central uma anistia
generalizada para todos os rebeldes. Uma segunda
facção se encontra no VRAE, berço
histórico do Sendero, e segue mantendo sua
importância regional. Afastaram antigos líderes
do movimento, aproximando-se de um modelo parecido
ao das FARC dos anos 90, de buscar o apoio sobretudo
dos camponeses cocaleiros, e aliando-se ao narcotráfico.
Enquanto grande
maioria dos acordistas ainda se encontra cumprindo
pena em cárceres peruanos, Giusti acredita
que os rebeldes do VRAE são os únicos
que vêm se fortalecendo através do
crescente envolvimento com o narcotráfico,
que passou a ser atividade principal em vez de apenas
um meio pelo qual se financiava o sonho revolucionário
de uma ideologia política.
Scott Palmer, diretor
do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade
de Boston e autor de Shining Path of Peru, vê
três principais fatores para o ressurgimento
do grupo. O primeiro é o reconhecimento pelos
rebeldes de que o movimento cometeu graves erros
no passado.
– Ficou claro
que os rebeldes passaram a se organizar silenciosamente,
em pequenos vilarejos nos Andes, procurando conquistar
reconhecimento e apoio popular, sem precisar apelar
para violência e intimidação.
Esta também
é a percepção de Cynthia McClintock,
cientista política da George Washington University,
em Washington, D.C., e autora de Movimentos revolucionários
na América Latina, acrescentando que os senderistas
se tornaram rebeldes menos bárbaros, buscando
respeitar populações locais.
O segundo fator
que contribui para o reaparecimento do Sendero,
segundo Palmer, está relacionado ao abandono
pelos dois últimos governos das estratégias
de microdesenvolvimento no altiplano. Palmer aponta
que a maioria das políticas públicas
criadas para estimular a economia na região
ou foram completamente abandonadas ou foram centralizadas
e transferidas para os grandes centros urbanos.
– O terceiro
fator, e talvez o menos reconhecido é o fato
de haver hoje cerca de 300 a 500 militantes do antigo
Sendero Luminoso que foram condenados, cumpriram
suas sentenças e agora retornaram à
sociedade – lembra Palmer. – Citando
um número bastante conservador, creio que
20% destes militantes retomaram a velha causa.
A transformação
de um movimento revolucionário em um cartel
de drogas não é de todo surpreendente,
resume Angel Ribasa, cientista político especializado
em Assuntos Latino-Americanos do think tank Rand
Corporation. É uma tendência que se
vem observando desde o final da Guerra Fria.
– No momento
em que a América Latina começou a
se democratizar, movimentos de oposição
decidiram largar as armas e competir nas urnas –
concorda Cythia McClintock. – Contudo, o contraste
entre a miséria e a falta de oportunidades
encontradas nas regiões mais pobres, com
as grandes fortunas que as drogas podem proporcionar,
deverá levar a novas insurreições
no futuro próximo.
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Relatório
Mundial sobre Drogas 2008 do UNODC
Aumento de cultivo de coca e ópio
ameaça progresso no controle de drogas
Veja o Relatório
Mundial
sobre Drogas 2008 - 8,3MB
(pdf em inglês)
Do site da UNODC |
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