| TERROR
NA ÍNDIA: AS MOTIVAÇÕES IDEOLÓGICAS,
INOVAÇÕES TÁTICAS E CONSEQÜÊNCIAS
ESTRATÉGICAS DO ATAQUE A MUMBAI.
GenBdaR/1 Alvaro de Souza Pinheiro
Analista Militar especialista em Operações
Especiais e Guerra Irregular
“Não temos dúvida de que os
terroristas vieram do Paquistão e seu objetivo
era matar pelo menos 5 000 pessoas.”
SRIPRAKASH JAISWAL, Vice-Ministro do Interior da
Índia
A recente carnificina terrorista
desencadeada em Mumbai, capital financeira e cultural
da Índia, quarta maior cidade do planeta,
com 19 milhões de habitantes, chama a atenção
do Mundo que esse País tem sido uma das maiores
vítimas do terrorismo na atualidade. No ano
passado, mais de 1 000 civis não-combatentes
foram mortos em ataques terroristas. Em 2006, foram
mais de 2 000. Esses números são apenas
superados pelo Iraque, Afeganistão e Paquistão.
Muito embora, a maioria dessas baixas tenha sido
produzida por ações do Terrorismo
Fundamentalista Islâmico, a exemplo do que
ocorreu em Mumbai na semana passada, essa não
é a única fonte dessas ocorrências.
Na atualidade, a Índia se constitui numa
verdadeira ilha cercada de países politicamente
instáveis, todos vivenciando graves ameaças
terroristas. O Paquistão é, comprovadamente,
o maior reduto de grupos irregulares radicais fundamentalistas
muçulmanos que atuam na Índia e, segundo
órgãos de inteligência de diferentes
países, possui regiões que, atualmente,
se constituem em áreas de homizio para células
coordenadas pela Al Qaeda, que ali operam com plena
liberdade, inclusive preparando pessoal para o Movimento
Talibã no Afeganistão. O Nepal, caracterizado
por uma topografia extremamente acidentada e uma
fronteira incipientemente vigiada, também
se constitui em área de homizio para grupos
terroristas procurados na Índia e no Paquistão.
No Bangladesh, a pobreza endêmica e a precariedade
dos serviços de segurança também
tornam esse País refúgio para diferentes
grupos irregulares dos mais diversos matizes.
Acrescente-se que, na costa marítima de 5
420 Km, estão alguns dos mais valiosos recursos
naturais indianos, com destaque para a lucrativa
produção de petróleo, desenvolvida
nas regiões de Kakinada e Madras, no litoral
Leste, no Golfo de Bengala; e Bhavnagar, Surat e
Mumbai, no litoral Oeste, no Mar da Arábia.
Essa produção, na atualidade, tornou-se
alvo prioritário, estando especificamente
ameaçada pelo que analistas internacionais
estão identificando como “jihad marítima”,
uma nova modalidade de grupos terroristas especialistas
em ações tremendamente predatórias
no Oceano Índico.
Por todas essas razões, as relações
entre Nova Delhi e Islamabad, Katmandu e Daca é
extremamente tensa, e em conseqüência,
o estabelecimento de medidas de segurança
eficazes nas regiões fronteiriças
se torna tremendamente complexo e de difícil
consecução.
O Terrorismo na
Índia
Fundamentalmente,
há três regiões relevantes onde
a presença do terrorismo se faz significativa
na Índia. Na porção Nordeste
do País estão localizadas comunidades
tribais separatistas. Esses territórios somente
vieram fazer parte da Índia quando o Governo
Colonial Britânico abandonou aquele País,
em 1947. Aquelas tribos ressentiram-se muito com
a independência política do País,
em função de um crescente fluxo de
imigrantes que, oriundo de outras partes da Índia,
dirigiu-se para aquela região. O terrorismo
é tradicionalmente orientado para atemorizar
esses imigrantes. O efetivo dessas forças
irregulares separatistas chegou a 5 000, porém,
a condução de operações
contra-terrorismo bem como o desencadeamento de
um programa de anistia reduziu esse número
a menos de 1 000. Muitos daqueles que abandonaram
o movimento separatista, tornaram-se membros de
organizações criminosas.
Uma outra significativa fonte de terrorismo na Índia
está localizada no Leste do País,
onde uma minoria maoísta de rebeldes busca
estabelecer um regime ditatorial comunista, visando
resolver os graves problemas de ordem econômica
e social da região. Seu efetivo varia de
5 000 a 10 000 irregulares, intensivamente combatidos
por forças de segurança contra-terroristas
indianas.
Entretanto, não há dúvida de
que a ameaça terrorista de maior gravidade
é a de origem muçulmana radical. E,
indiscutivelmente, a maior fonte do terrorismo islâmico
na Índia tem sua origem na campanha paquistanesa
que visa manter a população, particularmente
os indianos não islâmicos, afastados
da disputa entre Índia e o Paquistão
pela Província da Cachemira. A porção
Sul desse estado é habitada por uma maioria
hindu, enquanto que na porção Norte,
a maioria é muçulmana. Ao final da
década de 1940, o Paquistão invadiu
e conquistou a região Norte, entendendo ter
o direito de controlar toda a Província.
Nesse contexto, há cerca de 20 anos, o Paquistão
decidiu que a subversão e o terrorismo seriam
as mais eficazes ações estratégicas
capazes de consolidar seu domínio sobre toda
a Cachemira. Os grupos terroristas, cujas bases
e campos de treinamento se encontram na Cachemira
paquistanesa, não apenas incursionam a Cachemira
hindu como também outras partes da Índia.
Dentre os vários grupos operando naquela
área conflituosa, destacam-se: Lashkar-e-Taiba
(“Exército dos Puros”, o mais
desenvolvido e, aparentemente, o principal organizador
do recente ataque a Mumbai), Jaish-e-Muhammad, Harakat
ul-Jihad-I-Islami e Harakat ul-Mujahedeen, estes
dois últimos, destacaram-se operando contra
os russos no Afeganistão, na década
de 1980.
Não há dúvida que, desde o
final da década de 1980, existem alguns milhares
de terroristas islâmicos na Cachemira, dos
dois lados da fronteira. Todavia, há que
se reconhecer que a campanha terrorista paquistanesa
pela Cachemira, de uma maneira geral, está
sendo neutralizada pelos órgãos de
segurança indianos. Apesar da existência
de 150 milhões de muçulmanos na Índia,
o índice de recrutamento pelas organizações
terroristas ainda não se faz relevante. Por
outro lado, segundo as autoridades de segurança
indianas, embora o Governo Paquistanês negue
sistematicamente, existem fortes indícios
de que agentes do Serviço de Inteligência
Militar do Paquistão (Inter-Services Intelligence
- ISI) dão suporte a esses grupos terroristas.
O ISI é considerado um Estado dentro do Estado
no Paquistão, estando comprovadamente fora
do controle das autoridades governamentais constituídas
naquele País.
Em dezembro de 2001, um ataque terrorista islâmico
ao Parlamento Indiano desencadeou uma intensa confrontação
entre Índia e Paquistão. Naquele momento,
o Governo Indiano deslocou grandes efetivos militares
para a fronteira com a Cachemira Paquistanesa, tendo
ocorrido um intenso duelo de fogos de saturação
entre as duas artilharias oponentes; e as forças
nucleares de ambos os países entraram em
seu nível máximo de alerta. Entretanto,
desde então, Nova Delhi não mais retaliou
com a mesma intensidade outros ataques terroristas
comprovadamente preparados em território
paquistanês. O Governo Indiano entendeu que,
por uma série de razões, Islamabad
não era capaz de exercer um efetivo controle
sobre os radicais islâmicos paquistaneses.
E decidiu que o foco da política externa
devia ser evitar o desencadeamento de uma guerra
com o vizinho. Assim, mesmo na presença de
ações terroristas de origem paquistanesa
(de menor porte), passou, simplesmente, a aceitar
o compromisso formal do Governo Paquistanês
de fazer o “seu melhor possível”
na tentativa de reprimir os radicais muçulmanos
baseados no seu território. Essa postura
foi ratificada numa espécie de acordo de
cessar fogo assinado em 2004.
A verdade é que em virtude de Índia
e Paquistão serem possuidores de armas nucleares,
ambos os governos são tradicionalmente cuidadosos
com relação à eclosão
de uma crise de maiores proporções,
que possa disparar um conflito armado de proporções
incontroláveis. E há também
a posição sempre muito presente do
Governo dos EUA que considera ambos os países
como seus aliados na “Guerra Global contra
o Terror”; e que, tradicionalmente, atua como
um poder moderador das controvérsias entre
aqueles dois países.
Há que se ressaltar, entretanto, que os grupos
fundamentalistas islâmicos, tanto de origem
paquistanesa quanto indiana, não estão
preocupados com a possibilidade da eclosão
desse conflito de maiores proporções,
até porque, idealisticamente, consideram
que a constituição do “Grande
Califado Muçulmano” é uma missão
divina e tudo o que vier a acontecer será
conseqüência da vontade de Alá.
As forças de segurança da Índia
empregadas na prevenção e no combate
ao terrorismo são constituídas pelas
polícias locais, uma Força Nacional
de Reserva com cerca de 170 000 policiais, pelas
Forças Armadas e pelas diversas agências
de inteligência. O Ministério das Relações
Exteriores também desempenha um papel relevante,
particularmente pelos esforços para obter
de outras nações o reconhecimento
que essas organizações são
“terroristas internacionais”, e, portanto,
passíveis de penalizações legais
no exterior.
A causa - “A Cachemira pertence ao Paquistão”
- é muito popular naquele País, o
que incrementa sobremaneira a dificuldade de reprimir
as organizações terroristas que conduzem
ações na Índia e mesmo em outros
ambientes operacionais do planeta.
O Ataque
a Mumbai
Alguns resultados
recentemente divulgados das investigações
realizadas pelos órgãos de segurança
indianos auxiliados por elementos do FBI (EUA) e
da Scotland Yard (Reino Unido), colocados à
sua disposição, estão permitindo
uma reconstituição dos dramáticos
acontecimentos.
No período entre 20:10h e 21:00h, de quarta-feira,
dia 26 de novembro, uma força irregular de
cerca de 40 indivíduos fortemente armados
com fuzis AK- 47 7,62 mm - Kalashnikov, lança-rojões
RPG 40mm, grande quantidade de munição,
granadas de mão e explosivos, após
desembarcar de botes pneumáticos em 5 diferentes
praias da cidade, distribuíram-se pela área
turística no centro de Mumbai. Nos seus deslocamentos
em terra, os terroristas valeram-se da mobilidade
tática que lhes foi proporcionada por inúmeros
táxis (previamente disponibilizados) e por
uma van capturada da polícia local, desencadeando
uma seqüência muito bem coordenada de
ataques contra 13 objetivos distintos. Essa seqüência
mesclou ações de grande envergadura
e relevância com outras de menor porte, cujo
objetivo específico era incrementar ao máximo
a situação de caos e tumulto na cidade,
iludindo as forças de segurança quanto
aos objetivos principais.
Às 21:15h, foram simultaneamente atacados
o restaurante Cafe Leopold e o bar Bootleggers Pub,
renomados pontos turísticos noturnos, naquele
momento, freqüentados por um grande número
de estrangeiros, que foram alvejados indiscriminadamente
e atingidos em cheio por explosões de granadas
de mão sobre eles lançadas com fúria
assassina. Às 21:20h, foi tomado de assalto
o centro judaico Nariman (Chadad) Jewish House,
situado numa movimentada galeria comercial, onde
foi feito um grande número de reféns,
na sua maioria, judeus. Às 21:25h, a principal
estação ferroviária da cidade,
Chhatrapati Shivaji Terminus, um prédio histórico
construído pelos ingleses no Sec XIX, por
onde circulam cerca de 3,5 milhões de passageiros
por dia, foi atacada. Novamente, os terroristas
dispararam suas armas indiscriminadamente e lançaram
granadas de mão sobre uma multidão
totalmente surpreendida e indefesa (até porque
a segurança institucional ali instalada teve
um papel lastimável nesse evento).
Às 21:30h e às 21:35h, respectivamente,
foram conquistados os dois mais famosos hotéis
de Mumbai, o Taj Mahal e o Oberoi-Trident. As equipes
de assalto infiltraram-se pelos fundos e pelas cozinhas
de ambos os hotéis e, além do grande
número de vítimas causadas pelos disparos
e pelas granadas lançadas nos restaurantes
e salas de estar, fizeram um grande número
de reféns. No seu interior, já os
aguardavam depósitos clandestinos (cachés)
contendo um reforço de armamento, munição,
explosivos e rações que vieram a lhes
possibilitar manter aqueles dois objetivos por mais
de 48 horas. Às 21:55h, na região
identificada como Ville Parle, no principal acesso
ao aeroporto internacional, um táxi pleno
de explosivos foi detonado, causando inúmeras
baixas e provocando a paralisação
daquele terminal.
Às 22:15h e às 22:30h, respectivamente,
foram tomados de assalto o Cama Hospital e o Metro
Cinema, ambos com grande número de vítimas
indiscriminadas. Às 22:45h e 22:50h, respectivamente,
outros dois carros bombas foram detonados nas regiões
identificadas como Wadi Bunder e Girgaum Chowpatty.
Também às 22:50h, o prédio
da Mumbai Municipal Corporation, onde se encontra
a sede do jornal Times of Índia, também
foi tomado de assalto. E às 00:10h, um centro
comercial próximo ao Oberoi Hotel também
foi atacado.
No sábado, dia 29 de novembro, após
mais de 60 horas de intenso combate, as forças
de segurança, empregando os seus combatentes
mais bem adestrados e equipados, incluindo unidades
das forças de operações especiais
do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais
Indiano (esta identificada como os “Gatos
Negros”), eliminavam o último foco
terrorista que resistia no Hotel Taj Mahal.
O macabro saldo da confrontação chegava
a 195 mortos e cerca de 400 feridos. Segundo um
dos militares que participou na ação
final no Hotel Taj Mahal, num único quarto
foram encontrados 20 cadáveres, na sua maioria,
turistas estrangeiros, literalmente executados pelos
terroristas. Também foram encontradas evidências
de que na fase final do assalto, a fim de economizar
munição, os terroristas passaram a
matar os reféns cortando suas gargantas a
faca, ao invés de fuzilá-los.
Dentre os alvos de eliminação selecionada
estavam autoridades policiais de diferentes níveis
cuja presença foi exigida em determinados
locais de exposição e que, assim,
foram friamente assassinadas. Dentre essas vítimas,
foram identificados: Hemant Karkare, comandante
do esquadrão contra-terror de Mumbai e dois
oficiais de seu estado-maior.
Todos os terroristas foram mortos, exceto um, que
foi capturado em perfeitas condições
físicas.
Novas TTP
No que se refere
às táticas, técnicas e procedimentos
(TTP) empregados, militares indianos especializados
em contra-terrorismo, ouvidos pelo jornal “Hindustan
Times” após a neutralização
da ameaça, manifestaram a sua imensa surpresa
pelo alto padrão de capacitação
operacional demonstrado pelo grupo terrorista. Ressaltaram
que os múltiplos ataques foram executados
quase simultaneamente, provocando um caos de tremendas
proporções que frustrou significativamente
as reações iniciais desencadeadas
pelas forças de segurança. Foram dignos
de nota: seu excepcional nível de adestramento
(particularmente no que se refere ao emprego do
armamento e munição, e no emprego
tático descentralizado das equipes com reduzidos
efetivos), seu perfeito conhecimento do terreno
e dos detalhes dos diferentes objetivos na área
urbana densamente edificada (o que lhes facilitou
a realização das múltiplas
infiltrações com total preservação
do sigilo); e, principalmente, a excelência
do sistema de comando e controle estabelecido em
todas as fases do ataque.
Avaliação final: planejamentos operacional
e logístico altamente sofisticados; execução
altamente descentralizada caracterizada por um altíssimo
padrão de coordenação, controle,
sincronização, segurança operacional,
ação de choque e disciplina. Tudo
ao nível das mais conceituadas forças
de operações especiais do Mundo.
Algumas informações obtidas no interrogatório
de Mohammed Ajmal Amir Qasab, 21 anos, único
terrorista capturado com vida, foram tornadas públicas
em vários jornais e canais de TV indianos.
Na sua mochila foram encontrados: uma carteira de
identidade das Ilhas Maurício, granadas de
mão chinesas, sete carregadores e mais de
400 cartuchos 7,62 mm para AK-47, sete cartões
de crédito, rações e 1 200
dólares. Declarou que ele e todos os seus
companheiros de empreitada eram paquistaneses.
Que, embora esse grupo se identificasse como “Deccan
Mujahideen” (organização totalmente
desconhecida), na verdade, esse era um nome de fachada.
Todos pertenciam efetivamente à organização
Lashkar-e-Taiba, que, inclusive, lhes proporcionou
treinamento por mais de 11 meses num acampamento
situado na Cachemira paquistanesa. Que o Lashkar
mantém uma relação muito próxima
à Al Qaeda e outras organizações
jihadistas.
Que o ponto de partida da ação foi
a cidade de Karachi, no Paquistão, e que
no planejamento original previa-se o retorno a essa
cidade. Que estavam equipados com aparelhos eletrônicos
de última geração tais como
GPS, celulares Blackberry, e que suas comunicações
eram baseadas em telefones por satélite,
pelos quais recebiam instruções de
Karachi..
Que um grupo de muçulmanos radicais indianos
atuou, com grande antecedência, em Mumbai,
no levantamento das informações sobre
o terreno, plantas das principais edificações,
e poder de combate das forças de segurança
em presença. Esse pessoal, inclusive, foi
o responsável pela instalação
de depósitos de suprimento diversificado
pré-posicionados em locais selecionados,
e quando da execução do ataque, esse
mesmo grupo atuou como “comitê de recepção”
(como é identificada a equipe precursora
empregada nas operações de forças
especiais) para o escalão de assalto. Acrescentou
ainda que o objetivo principal era matar da ordem
de 5 000 pessoas e explodir os hotéis Taj
Mahal e Oberoi, com o maior número de vítimas
possível.
Muito embora o estilo do ataque a Mumbai mantivesse
a característica ímpar das ações
estilo Al Qaeda - militantes fanáticos, altamente
motivados e dispostos a morrer combatendo em nome
de Alá, tendo como objetivo: “quanto
maior o número de vítimas civis, melhor”
- as TTP empregadas mostraram significativas inovações.
Paralelamente ao assassinato de indianos, os terroristas
buscaram selecionar ambientes repletos de estrangeiros,
priorizando a eliminação seletiva
de americanos, israelenses, britânicos e australianos.
Ao invés de suicidas detonando explosivos
no seu próprio corpo, esses atentados privilegiaram
a matança com o emprego de armamento e munição
convencional.
Conquistar e manter objetivos durante períodos
superiores a 48 horas (como foi o caso dos dois
hotéis e do centro judaico) é outra
inovação tática da maior relevância,
até porque evidencia significativamente a
obtenção de um efeito multiplicador
do impacto psicológico dos atentados junto
às opiniões públicas local
e internacional. Da mesma forma, manter reféns
sem a apresentação de quaisquer reivindicações
que possibilitassem negociações com
as forças de segurança para a sua
libertação, executando-os de modo
cruel, frio e calculista, em curso de operações,
é outro procedimento novo que otimiza dramaticamente
o emprego do terror como um fim em si mesmo.
O reconhecimento tácito, nacional e internacional,
de que os terroristas atingiram todos os seus sinistros
objetivos ratifica que o emprego dessas novas TTP
foi muito bem sucedido.
Conseqüências
Estratégicas
Os objetivos estratégicos
do ataque a Mumbai na última semana de novembro
próximo passado eram:
- Desestabilizar a Índia,
debilitando a crescente cooperação
indo-paquistanesa na prevenção e luta
contra o terrorismo; e incrementar a tensão
indo-paquistanesa, se possível, a ponto de
provocar a eclosão de uma confrontação
militar entre os dois países.
A mais relevante conseqüência estratégica
desse sinistro acontecimento é que, diferentemente
de todos os atentados anteriores na Índia,
cujos objetivos eram eminentemente locais, de caráter
predominantemente regional, o ataque a Mumbai coloca
a Índia na linha de frente da guerra santa
fundamentalista islâmica, a nível mundial.
Essa ação terrorista determina que
a Índia deixe apenas de lidar com o terrorismo
regional motivado pelas tensões internas
ou com o vizinho Paquistão, e que seu território
torne-se um novo campo de retaliação
contra a política externa dos EUA, do Reino
Unido e de Israel.
Um aspecto estratégico
importante a ser ressaltado, pela sua atual repercussão,
é que as autoridades indianas tiveram acesso
a informações prévias de que
um ataque dessa natureza era iminente, e as ignoraram.
Informações que, inclusive, indicavam
os hotéis a serem atacados. Esse fato amplamente
divulgado provocou um estado de revolta contra o
governo e os políticos em geral, que estão
sendo vistos como omissos e incompetentes com relação
ao terror. Um dia após o final do mais ousado
e traumático ataque terrorista realizado
no País, a Índia mergulhou numa profunda
crise política que teve como conseqüência
imediata o pedido de demissão do Ministro
do Interior, Shivraj Patil, que assumiu “a
responsabilidade moral’ pelo que aconteceu,
sendo prontamente atendido pelo Primeiro Ministro
Manmohan Singh. Hoje, a opinião pública
indiana exige nas ruas e pelos órgãos
de comunicação social que o Governo
adote uma postura de firmeza e agressividade contra
“o terrorismo e os inimigos da Índia”.
Nesse contexto,
o governo de centro-esquerda de Singh (no poder
desde 2004) está sob forte pressão
para suspender os cinco anos de cessar-fogo com
o Paquistão na conflituosa região
da Cachemira. Nova Delhi está acusando Islamabad
de não atuar contra o Lashkar-e-Taiba , organização
que foi declarada fora da lei pelo então
Presidente Pervez Musharraf, em 2002; porém,
comprovadamente, permaneceu operando campos de treinamento
no interior do território paquistanês
e apoiada pelo ISI. Foi anunciado que o Governo
decidiu adotar medidas de segurança “ao
nível de guerra”, reforçando
a segurança marítima, terrestre e
aérea no País. A curto prazo, pretende-se
criar, a exemplo do que fizeram os EUA como conseqüência
do 11 de setembro de 2001, uma Direção
Nacional de Inteligência que enquadre todas
as demais agências dessa natureza.
No Paquistão,
o Premier Yousaf Raza Gilani enfatizou que o Governo
Paquistanês ainda não tem evidências
que liguem paquistaneses ao infame ataque. Por outro
lado, o Presidente do Paquistão, Asif Ali
Zardari, fez um apelo ao Governo Indiano, em entrevista
publicada no jornal “Financial Times”,
para que seu País não seja responsabilizado
por tais atentados, pois essa atitude pode fazer
com que extremistas muçulmanos iniciem uma
guerra. Enfatizou em entrevista que foi ao ar em
horário nobre pela televisão estatal
indiana que mesmo a organização Lashkar-e-Taiba
é considerada inimiga do regime paquistanês.
O momento é
extremamente delicado, razão pela qual, a
Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza
Rice, já partiu para a Índia e está
com a sua agenda repleta de entrevistas com autoridades
do eixo Nova Delhi-Islamabad, numa típica
missão de “apagar o incêndio”
que, no momento, é de graves proporções.
A situação se torna ainda mais sensível
considerando-se o momento de transição
(e de vácuo de poder) atualmente vivenciado
nos EUA antes da assunção do Presidente
eleito Barack Obama. Fica muito claro que apesar
de Obama e de suas “boas” intenções,
os EUA permanecem inimigos de seus inimigos e que
sua eleição não tem o poder
mágico de estabelecer uma nova ordem mundial
onde organizações não estatais
extremistas estejam imbuídas da necessidade
de uma trégua ou da busca pelo entendimento.
Este é mais um desafio para Obama, que vem
se somar à grave crise econômica que
assola os EUA, com repercussões globalizadas.
CONCLUSÃO
Analistas de diferentes
partes do mundo ratificam que a confrontação
entre o mundo civilizado e os radicais fundamentalistas
muçulmanos, mais do que nunca, é ideológica
e cada vez mais globalizada; e que a prevenção
e o combate ao terrorismo transnacional necessita
de uma mudança urgente de foco e de prioridades.
Está implícito de que a comunidade
internacional não pode ser ambígua
nem complacente no que se refere às organizações
terroristas atualmente ativas, algumas das quais
incrementam seu poder a cada dia, aproveitando-se
das facilidades proporcionadas pela tecnologia da
informação e de artifícios,
como é o caso de algumas que, hoje, são
internacionalmente reconhecidas como partidos políticos,
gozando de todas as benesses e prerrogativas decorrentes.
O grande ensinamento
global ratificado, no recente ataque a Mumbai, é
que um pequeno grupo de fanáticos motivados
e muito bem adestrados pode assassinar de modo frio
e calculista centenas de pessoas inocentes, ao mesmo
tempo que é capaz de paralisar um grande
centro administrativo, financeiro e cultural de
qualquer país na face da Terra. Que no Sec
XXI, apesar das ameaças de origem difusa
que envolvem meios bélicos de alta tecnologia
e destruição em massa, é impositivo
que as autoridades competentes tenham em mente que
as táticas, técnicas e procedimentos
de baixa tecnologia, tais como o emprego judicioso
de fuzis, granadas, rojões e ataques de surpresa
altamente sincronizados podem trazer o mesmo traumático
e sinistro impacto.
O dramático
episódio do recente “Ataque a Mumbai”,
que está sendo reconhecido como o 11 de setembro
da Índia, permanecerá por muito tempo
como uma fonte extremamente valiosa de ensinamentos
colhidos para as autoridades de segurança
e defesa de todos os estados nacionais realmente
preocupados com a manutenção de suas
soberanias e a integridade de seus patrimônios
nacionais.
REFERÊNCIAS
Dunnigan, James F., “The Many Terrorists of
India”, STRATEGY PAGE, “News as History”,
December 1st, 2008.
Friedman, George, “Strategic Motivations for
the Mumbai Attack”, STRATFOR/GEOPOLITICAL
INTELLIGENCE REPORT, December 1st, 2008.
Burton, Fred and West, Ben, “From the New
York Landmarks Plot to the Mumbai Attack”,
STRATFOR/GLOBAL SECURITY&INTELLIGENCE REPORT,
December 3rd, 2008.
Noticiários das Redes de TV CNN, FOX e BBC.
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