AS FARC DESNUDADAS
GenBda
R/1 Alvaro de Souza Pinheiro
Especialista em Operações Especiais
e Guerra Irregular
Forças
de Operações Especiais colombianas
capturaram valiosas fontes de informações
por ocasião da incursão em território
equatoriano que, em 1º de março do
corrente ano, resultou na eliminação
de uma das mais significativas lideranças
das Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (FARC). À medida
que o tempo passa, as autoridades de segurança
colombianas tornam públicas algumas dessas
informações, possibilitando a elaboração
de análises conclusivas, tanto sobre o
planejamento e a execução daquela
complexa operação especial, “Operación
Fénix”, quanto sobre vários
aspectos extremamente controvertidos da atuação
das FARC no contexto da atual geopolítica
latino-americana.
Na madrugada
de sábado, 1º de março do corrente
ano, uma Força Tarefa Combinada de Operações
Especiais da Colômbia executou uma incursão
extremamente audaciosa e muito bem sucedida sobre
um acampamento localizado na região Norte
do Equador, próximo à fronteira
com a Colômbia. A “Operação
Fênix”, como foi identificada,
resultou na eliminação de Luis Edgar
Devia Silva, mais conhecido pelo seu codinome,
“Raúl Reyes”, que, até
então, era considerado como o segundo homem
na mais alta hierarquia das FARC.
A ostensiva e assumida violação
da soberania equatoriana, que também levou
à eliminação de 24 outros
irregulares, incluindo um notório ideólogo
da organização, Guillermo Enrique
Torres, codinome “Julián Conrado”,
Liliana Palácios, codinome “Lucia
Marin”, amante de “Reyes”, alguns
mexicanos, ligados aos cartéis do narcotráfico,
e pelo menos um equatoriano, desencadeou uma crise
diplomática internacional de graves proporções,
principalmente com o Equador e com a Venezuela.
À medida que o tempo passa, além
de detalhes do planejamento e execução
da “Operação Fênix”,
estão emergindo resumos do inventário
da inteligência obtida naquele acampamento,
recuperada de um laptop do próprio Reyes,
bem como de vários hard drives ali apreendidos,
propiciando valiosos dados referentes às
atividades mais importantes, recentes e atuais
das FARC, bem como suas relações
com os Governos Venezuelano e Equatoriano.
“Operação
Fênix”
Declarações
de autoridades de segurança a órgãos
de comunicação social colombianos
e da mídia internacional enfatizam que
a operação especial de incursão
em território equatoriano se constituiu
no clímax de uma operação
de inteligência humana de longa duração,
coordenada pela Direción de Inteligência
de la Policia Nacional (DIPOL), cujos agentes,
operando em conjunto com militares especializados,
encontravam-se infiltrados no interior do território
equatoriano, desde há um ano, quando obtiveram
o dado de que Raúl Reyes estava visitando
com freqüência um acampamento situado
em região próxima à fronteira
Norte do Equador com a Colômbia. Órgãos
de comunicação social especializados,
como é o caso do JANE’S TERRORISM
& SECURITY MONITOR (em sua edição
de abril de 2008) divulgaram, dentre outras informações,
que a ação direta colombiana foi
planejada com uma efetiva participação
de agentes da inteligência israelense, dentre
os quais, pelo menos 4 deles permaneceram na Colômbia
por mais de um ano.
Em meados do mês de fevereiro deste ano,
a operação de inteligência
cumpriu integralmente seu objetivo, com a localização
exata do alvo, em área montanhosa coberta
por selva, situada a 1800 metros ao Sul do Rio
Putumayo, tendo sido instalado no terreno, um
GPS beacon que possibilitou às inteligências
colombiana e norte-americana o levantamento preciso
das coordenadas daquela base das FARC.
Assim, com o objetivo do ataque oportuna e precisamente
localizado, o Destacamento de Operações
Especiais (DstOpEsp) colombiano infiltrou,
antecipadamente, em território equatoriano,
um “Comitê de Recepção”,
constituído por Operadores de Forças
Especiais, com a finalidade de efetuar um reconhecimento
final da área do objetivo, estabelecer
uma ação de vigilância aproximada
sobre aquela área, atuar como Guias Aéreos
Avançados no ataque aéreo planejado,
e operar a zona de pouso para helicópteros
para a ação de investimento ao objetivo.
Concluída a preparação de
inteligência, confirmou-se o dia D, como
1º de março. A infiltração
do grosso do Escalão de Assalto do DstOpEsp
foi efetuada por helicópteros UH-60L, Black
Hawk.
Uma esquadrilha de aeronaves de caça A
– 29, Super Tucano (fabricadas no Brasil,
pela EMBRAER), pertencentes ao Escuadrón
de Combate 211 Grifo, da Força Aérea
Colombiana (FAC), recebeu luz verde para o desencadeamento
da ação ofensiva e decolou da Base
Aerea de Tres Esquinas, uma instalação
militar conjunta colombiana e norte-americana
situada no Sul da Colômbia, aos 25 minutos
do dia D. A hora sobre o objetivo (HSO –
horário de lançamento do armamento
no alvo) da ação de apoio aéreo
aproximado desencadeada pelos Super Tucanos foi
a 01:00h. Apoiado pelos Guias Aéreos Avançados
do Comitê de Recepção, com
as bombas de fragmentação guiadas
por laser, o ataque aéreo foi magnificamente
coroado de êxito.
Conforme posteriormente divulgado, Raúl
Reyes sobreviveu ao lançamento das bombas,
porém foi vitimado por uma mina terrestre
que lhe extirpou o pé direito, quando tentava
fugir do acampamento. Imediatamente após
o ataque das aeronaves de caça, o Escalão
de Assalto investiu em sua ação
no objetivo, desembarcando dos helicópteros,
em pouso de assalto, diretamente sobre o alvo,
eliminando os sobreviventes remanescentes, ao
mesmo tempo que um Grupo de Tarefas Especiais
resgatava o corpo de Reyes, o seu computador laptop,
e o corpo de Julián Conrado, retraindo,
em seguida, para território colombiano.
Duas horas após a ação no
objetivo, os integrantes do Grupo de Tarefas Especiais
retornaram à área do acampamento
para um resgate complementar de hard drives, bem
como de memory sticks.
Tendo em vista neutralizar a aproximação
de elementos de combate das FARC que, após
a quebra do sigilo da incursão, iniciaram
deslocamento para a área do objetivo, as
aeronaves de caça colombianas desencadearam
sobre eles, quando ainda se encontravam em território
colombiano, uma nova ação de apoio
aéreo aproximado, fazendo novas baixas
na força de guerrilha e possibilitando
que o retraimento e a exfiltração
de todo o DstOpEsp fossem efetuados, com segurança,
ainda durante a madrugada.
As autoridades colombianas, no mesmo ato de divulgação
da morte de Reyes, confirmaram que, nesta ação,
veio a falecer, morto em combate, o Soldado Carlos
Hernández León, enterrado com honras
militares, condecorado post-mortem, tendo sua
família recebido as condolências
oficiais do próprio Presidente Alvaro Uribe.
Homenagens póstumas muito bem recebidas
por toda a população colombiana.
Apesar desta baixa, a operação especial,
complexa, tanto no seu planejamento e preparação
quanto na sua execução, foi avaliada
como um significativo sucesso. O Presidente Uribe,
em pronunciamento à Nação,
congratulou-se efusivamente com “os destemidos
soldados e policiais que executaram a ação”.
Anunciou também que duas polpudas gratificações
em dinheiro seriam pagas a informantes que possibilitaram
dados decisivos para o planejamento e a execução
da bem sucedida incursão.
A significativa participação de
agências de inteligência estrangeiras
no planejamento e na preparação
da “Operação Fênix”
não minimiza a magnífica demonstração
de capacitação operacional das forças
de segurança colombianas. E a presença
de sistemas de armas dotados de alta tecnologia
como as aeronaves Super Tucano que, operadas com
competência e alto grau de profissionalismo,
introduzem uma significativa vantagem para as
forças governamentais no complexo cenário
daquele sangrento conflito interno.
Um Golpe
Profundo
A
eliminação de Raúl Reyes
foi universalmente considerada como um golpe profundo
nas FARC. Ele pertencia ao chamado “Secretariado
de los Siete Miembros”, constituinte do
grupo de mais alto nível no sistema de
comando e controle da organização.
Identificado pelas autoridades colombianas como
segundo em comando de Pedro Antonio Marin, codinome
“Manuel Marulanda”, também
conhecido pela alcunha de “Tiro Fijo”,
comandante e fundador das FARC, Reyes era, juntamente
com Guillermo Saenz Vargas , codinome “Alfonso
Cano” e com Jorge Briceño Suárez,
codinome “Mono Jojoy”, um dos três
mais poderosos dirigentes das FARC, abaixo de
Marulanda. Raúl Reyes, com 59 anos de idade
e aparentando muito boa saúde, era considerado
o mais provável sucessor do atual comandante.
Reyes destacava-se,
na atualidade, pelo trabalho que desenvolvia como
chefe de relações internacionais
e comunicações, desenvolvendo, com
desenvoltura, um trabalho de intensivos contatos
com governos estrangeiros, partidos políticos
estrangeiros simpatizantes e organizações
estrangeiras do crime organizado. Tornou-se famoso
como o grande responsável pelo aborto das
negociações de paz 1999-2002. Caracterizava-se
por possuir um trânsito fácil em
todos os escalões das FARC, enquanto os
comandantes militares das diversas frentes de
combate revolucionárias, em função
da pressão exercida pelas ações
ofensivas colombianas, mantinham-se cada vez mais
isolados entre si.
Sua morte se caracterizou
como o mais significativo golpe psicológico
sofrido pelas FARC, por ter ele sido o único
membro do mais alto comando da organização
a ser eliminado pelas forças de segurança,
desde a sua fundação nos anos 1960.
Essa baixa foi ainda mais sentida pelo fato de
apenas alguns dias após, um outro membro
do “Secretariado de los Siete Miembros”
ter sido assassinado. A 6 de março, um
guerrilheiro identificado como Pedro Pablo Montoya,
apresentou-se a soldados do Exército Colombiano
conduzindo a mão decepada de Manuel Jesús
Muñoz, codinome “Ivan Rios”,
bem como, seus documentos de identificação
e memory sticks. Montoya, que era chefe da segurança
de Rios, declarou que o fuzilou e a sua amante,
três dias antes, enquanto dormiam, na tentativa
de obter a gratificação prometida
pela captura ou eliminação dos membros
do Secretariado.
O Ministro da
Defesa da Colômbia, Juan Manuel Santos,
referiu-se ao assassinato de Rios por um desertor
das FARC como uma demonstração inequívoca
de que a organização está
vivenciando graves conflitos internos. José
Obdulio Gaviria, um alto assessor do Presidente
Alvaro Uribe, enfatizou em meados de março
deste ano que, na atualidade, as FARC estão
reduzidas a 4 esparsos grupos armados. Esta declaração
é, indiscutivelmente, exagerada. Porém,
a muito bem sucedida operação especial
de eliminação de Reyes e o assassinato
de Rios por um desertor são consideradas
evidências claras e significativas de que
as FARC perderam a iniciativa e foram colocadas
numa situação defensiva extremamente
adversa.
As Revelações
Digitalizadas
Assessorada por
agentes do FBI norte-americano e da INTERPOL,
a DIPOL colombiana está engajada na recuperação
e no exame dos dados contidos tanto no laptop
quanto nos hard drives. O Ministério da
Defesa da Colômbia acredita que a tarefa
de análise de todos os arquivos, que são
da ordem de alguns milhares, demandará
semanas de trabalho para sua conclusão.
Mas, algumas informações já
foram produzidas e divulgadas ao público
por diferentes órgãos de comunicação
social, com destaque para o jornal diário
“El Tiempo”, de Bogotá. E demonstram
inequivocamente que o sistema de comando e controle
das FARC passa por momentos de grande pressão.
Um e-mail enviado
por Raúl Reyes, em 13 de julho de 2007,
ao encarregado de sua segurança, Angel
Gabriel Losada, codinome “Edgar Tovar”,
comandante da Frente 48 das FARC, registra que
Alfonso Cano, um dos membros do Secretariado,
encontrava-se incomunicável. Cano, uma
figura política chave da organização
viu-se, nos últimos meses, fortemente perseguido
pelas forças de segurança, as quais
estiveram muito próximas de capturá-lo
na Província de Tolima.
Outra comunicação
revela que em 4 de agosto de 2007, um comandante
das FARC, que se identifica como “Daniel”
envia mensagem a Milton Toncel, codinome “Joaquin
Gómez”, militante que veio a substituir
Raúl Reyes, após a sua morte, alertando
sobre os riscos conseqüentes das operações
altamente descentralizadas e simultaneamente desencadeadas,
em diferentes áreas, por unidades leves,
dotadas de grande mobilidade tática, oportunamente
apoiadas por aeronaves de asa fixa e móvel,
tanto do Exército quanto da FAC.
Manuel Marulanda, o comandante de mais alto nível,
alerta os membros do Secretariado, em outra mensagem,
enviada em setembro de 2007, que o emprego das
comunicações rádio fosse
utilizado o mínimo possível, e sempre
em mensagens muito curtas, em função
da capacitação das unidades especializadas
colombianas de interceptar e localizar os postos
das estações em prazos muito curtos.
Este e-mail foi enviado poucos dias antes de um
outro ataque aéreo bem sucedido desencadeado
por caças A–29 da FAC, que resultou
na eliminação de Tomas Medina Caracas,
codinome “Negro Acacio”, comandante
da Frente 16 das FARC, elemento de contato de
Luis Fernando da Costa (vulgo “Fernandinho
Beira-Mar”), o mais notório narcotraficante
do Brasil. “Beira-Mar” foi capturado,
após ter sido ferido, por uma patrulha
do Exército Colombiano, em 21 de abril
de 2001, na Provincia de Vichada, por ocasião
da “Operação Gato Negro”,
do Exército Colombiano, quando tentava
negociar com o “Negro Acacio” a compra
de grande quantidade de cocaína refinada,
tendo como parte do pagamento 3 000 fuzis AK-47,
Kalashnikov, e 500 000 cartuchos 7,62 mm. Extraditado
para o Brasil, “Beira-Mar”cumpre pena
numa prisão de segurança máxima.
Manuel Marulanda, que tem sido visto com problemas
de saúde já há alguns anos,
pode estar perto de encerrar sua carreira como
comandante de mais alto nível das FARC.
Em mensagem eletrônica enviada aos membros
do Secretariado, em 11 de janeiro de 2008, queixa-se
das crescentes dificuldades para planejar e executar
operações a nível nacional.
Devido à situação atual,
declara que se encontra homiziado em esconderijo,
aguardando um momento propício para a condução
de uma “última” operação
militar. Há controvérsias com relação
à interpretação da palavra
“última”, se seria a sua operação
final ou a mais recente.
Conexões
com Chávez e Correa
De todas as informações
até agora tornadas públicas, as
mais impactantes são aquelas que abordam
as atuais relações das FARC com
governos estrangeiros simpatizantes, principalmente
com os da Venezuela e do Equador. Mensagens eletrônicas
trocadas ao final de 2007 e ao início de
2008 indicam que o Governo de Chávez estava
trabalhando no sentido de incrementar a legitimidade
política das FARC, além do oferecimento
de significativo suporte financeiro.
Num e-mail enviado em 22 de setembro de 2007 aos
membros do Secretariado, Marulanda faz referência
ao objetivo político de Chávez junto
a outros governos estrangeiros para garantir para
as FARC o status de “beligerante”
ao invés de “terrorista”. Marulanda
complementa dizendo que esta intenção
auxiliaria, sobremaneira, o projeto geopolítico
de Chávez para a América Latina.
O comandante maior das FARC conclui a mensagem
eletrônica levantando a possibilidade da
realização de um encontro futuro
com Chávez na localidade de Los Llanos
del Yari, região situada no Sudeste da
Colômbia.
Numa outra mensagem enviada em janeiro de 2008,
Marulanda agradece a Chávez pela sua atuação
na liberação de militantes presos
em troca de reféns mantidos em cativeiro
pelas FARC. Nesta mensagem, Marulanda também
agradece a manifestação pública
de Chávez em prol da aquisição
do status quo de “legítimos beligerantes”,
reconhecendo essa atitude como um “gesto
revolucionário”. Conclui, oferecendo
a Chávez incondicional apoio, no caso de
um ato hostil por parte dos EUA contra a Venezuela.
Em outra comunicação ao Secretariado,
Manuel Marulanda afirma que é imperativo,
no momento atual, que as FARC tenham em Hugo Chávez
um “aliado estratégico”. Pondera
que embora Chávez não veja possibilidade
que as FARC venham a conquistar o poder pela força,
em função do atual poder militar
do Governo Uribe, e do efetivo apoio cedido por
Washington, o Chefe de Governo Venezuelano precisa
entender que as FARC são indispensáveis
ao grande objetivo de “criar, com apoio
das massas, um grande exército revolucionário
capaz de derrotar o sistema capitalista e instalar
o socialismo”.
Em 28 de fevereiro de 2008, dois dias antes de
ser eliminado, Reyes enviou um e-mail ao Secretariado
no qual regozija-se da liberação
unilateral de quatro “prisioneiros”,
três homens e uma mulher. Estes ficaram
mantidos em cativeiro por cerca de sete anos e
Reyes assinala que “essa liberação
nos absolve de muitos pecados”. Estes comentários
são interpretados como um indício
de que, na atualidade, as FARC estão extremamente
desconfortáveis tanto no que se refere
à necessidade de gastar recursos valiosos
na manutenção de grande número
de reféns em cativeiro por tantos anos,
quanto no aspecto psicológico dessa controvertida
questão. Reyes acrescenta que uma significativa
conseqüência negativa nesse tema específico,
era a crescente pressão internacional sobre
as FARC para a liberação de Ingrid
Betancourt, uma antiga candidata presidencial,
que possui também a cidadania francesa,
mantida presa desde fevereiro de 2002, e que,
segundo fontes governamentais colombianas, está
com a saúde extremamente debilitada.
Com relação ao oferecimento de suporte
material e financeiro às FARC por parte
do Governo Venezuelano, este tema sempre foi objeto
de inúmeras especulações,
porém, nenhuma delas tinha uma evidência
claramente comprovada. Entretanto, mensagens eletrônicas
específicas envolvendo um outro membro
do Secretariado, Luciano Marin, codinome “Ivan
Márquez” propicia a revelação
de novos dados da maior relevância.
Ivan Márquez teve a oportunidade de encontrar-se
com Hugo Chávez em novembro de 2007, por
ocasião de uma reunião ostensiva
para tratar da liberação de reféns
em poder das FARC. Num e-mail destinado aos membros
do Secretariado, em 23 de dezembro de 2007, Márquez
relata que teve um encontro com Ramón Rodriguez
Chacin, Ministro do Interior de Chávez
e elemento de contato do Governo Venezuelano com
as FARC. Márquez diz que, nesse encontro,
Chacin lhe falou sobre a possibilidade de que
a Venezuela doasse às FARC um montante
de 300 milhões de dólares. Esta
oferta é reiterada e ajustada em outro
e-mail enviado por Márquez, em 8 de fevereiro
de 2008, desta vez citando um encontro com o próprio
Hugo Chávez, que passa a ser identificado
nas mensagens com o codinome de “Angel”.
Chávez propõe auxiliar as FARC doando
250 milhões de dólares que seriam
repassados numa transação no mercado
negro do câmbio estrangeiro ou pelo repasse
de uma imenso suprimento de combustível
que seria comercializado pelas FARC, de modo a
lhes proporcionar os desejados recursos financeiros.
No dia seguinte, 9 de fevereiro de 2008, Márquez
enfatiza, em nova mensagem eletrônica, que
Chávez gostaria de agradecer às
FARC pelo auxílio de 100 milhões
de pesos, recebido quando ele estava prisioneiro.
Isto teria acontecido entre 1992 e 1994, quando
esta quantia correspondia a cerca de 125 mil dólares.
Curiosamente, Márquez também menciona
que o Governo Cubano, visto sempre como um incondicional
aliado de Chávez, teria manifestado o seu
total afastamento dessa questão, em virtude
do que seria “a decisão de Chávez
de afastar os cubanos de suas negociações
com as FARC”.
Em 3 de março de 2008, em entrevista coletiva,
o General Oscar Naranjo Trujillo, Diretor da Policia
Nacional, ratificou as acusações
de que a Venezuela estava suprindo as FARC de
recursos financeiros. Em 1 de abril de 2008, o
Ministro das Relações Exteriores
da Venezuela, Nicolás Maduro, declara que
Caracas havia recebido cópias desses documentos
e que os considerava absolutamente ilegítimos,
forjados no contexto de uma campanha conduzida
pelos EUA com a finalidade de comprometer negativamente
Hugo Chávez.
As conexões entre as FARC e o Governo Equatoriano
também foram objeto da divulgação
de algumas das mensagens eletrônicas. Todos
os indícios ratificam que o acampamento-base
de Raúl Reyes foi instalado em território
equatoriano, com plena aprovação
do Governo Rafael Correa.
Em e-mail enviado ao Secretariado, em 18 de janeiro
de 2008, Reyes declara ter recebido, recentemente,
a visita do Ministro de Segurança do Equador,
Gustavo Larrea, que passou a ser identificado
nas mensagens pelo codinome “Juan”.
Larrea manifestou-lhe a grande simpatia do Presidente
Rafael Correa pela causa das FARC, ratificando
a posição adotada por Chávez
pela imperiosa necessidade de que as FARC fossem
internacionalmente reconhecidas como uma “legítima
força beligerante”. Larrea também
enfatizou, naquela oportunidade, que estaria em
condições de “coordenar com
as FARC o suprimento às comunidades fronteiriças,
e que estaria empenhado em substituir os comandantes
militares contrários a qualquer aproximação
com aquelas Forças”.
Num outro e-mail, enviado ao Secretariado, em
28 de fevereiro de 2008, Reyes se refere, mais
uma vez, ao encontro com Larrea, acrescentando
que aquela autoridade estava muito preocupada
com “a grande concentração
de integrantes de agências de inteligência
estrangeiras no interior do território
equatoriano; bem como, referiu-se à corrupção
como uma das fraquezas do atual Governo Equatoriano”.
A Ponta
do Iceberg
Sem
dúvida alguma, é possível
que muitas das informações obtidas
com base nos files do laptop de Raúl Reyes
estejam sendo politicamente exploradas e que sua
veracidade possa ser questionável, em função
da divulgação de desinformação
intencional. Entretanto, não resta a menor
dúvida de que os colombianos estão
de posse de um acervo extremamente valioso de
dados que estão lhes proporcionando uma
inteligência crucial no desencadeamento
de futuras operações contra as FARC,
tanto no nível estratégico quanto
nos níveis operacional e tático.
Operações essas que já estão
sendo executadas, embora seus resultados sejam
ainda mantidos em sigilo.
As comprovadas colaborações às
FARC oriundas da Venezuela e do Equador indicam
que esses atuais governos não desejam que
Alvaro Uribe obtenha vantagens militares sobre
a guerrilha, bem como, rejeitam o elevado e incontestável
nível de aprovação política
por ele obtido junto à sociedade colombiana.
Por outro lado, alguns indícios são
extremamente preocupantes. Autoridades colombianas
anunciaram, em 26 de março deste ano, que
cerca de 30 Kg de urânio foram apreendidos
numa operação desencadeada numa
estrada secundária ao Sul de Bogotá.
Tal evento fundamenta a hipótese de que
as FARC estariam engajadas na concretização
de um projeto terrorista universalmente identificado
como “bomba suja” (dirty bomb). Confirmada
esta hipótese, as autoridades colombianas
estariam face a uma ameaça inédita,
nos mais de 40 anos de guerra civil, que poderia
trazer trágicas conseqüências,
sobretudo para a imensa maioria de cidadãos
civis não combatentes. Conseqüências
essas que poderiam expandir-se pelas nações
vizinhas da Colômbia.
Outro indício recente de grande criticabilidade
seriam as atuais conexões estabelecidas
entre as FARC e a Frente Separatista Basca ETA,
uma das mais notórias organizações
terroristas da Europa. Em passado recente, ligações
com o Irish Republican Army (IRA) foram confirmadas,
tendo inclusive dois membros daquela organização
terrorista sido condenados em corte de justiça
colombiana, após a execução
de uma série de atentados a bomba, por
eles orientados. Conexões dessa natureza
são eminentemente perigosas, levando-se
em conta as atuais ligações mantidas
pelas FARC no exterior, inclusive com notórias
organizações do crime organizado
de diferentes países, com destaque para
Argentina, Bolívia, Brasil, EUA, México,
Paraguai, Peru, Suriname e Venezuela.
A verdade inquestionável é que,
desde há algum tempo, as FARC deixaram
de se caracterizar como uma típica organização
revolucionária marxista-leninista e assumiram
um novo papel, o de tornar-se a mais poderosa
organização do crime organizado
no Hemisfério Ocidental. Organização
esta que participa da maior produção
de cocaína refinada do mundo, em todas
as suas fases, desde a plantação
da folha de coca até a distribuição
clandestina aos grandes mercados consumidores.
Continua aplicando rotineiramente táticas,
técnicas e procedimentos tipicamente terroristas,
tanto de terrorismo seletivo quanto do indiscriminado,
o que as caracterizam, na atualidade, como uma
organização narcoterrorista padrão.
Paralelamente ao narcotráfico, controla
considerável fatia do contrabando de armas
e munições ilícitas, ambas
atividades que, através de diferentes conexões
no exterior, atingem diretamente o Brasil, com
graves repercussões na garantia da lei
e da ordem e na segurança pública
dos nossos grandes centros urbanos, alguns dos
quais já vivenciando cenários típicos
de guerrilha e terrorismo urbano.
Nesse contexto, é impositivo que a sociedade
brasileira considere como inaceitável o
patético discurso de uma parcela estúpida,
desinformada e mal-intencionada da esquerda brasileira
que entende que apoiar as FARC faz parte de uma
estratégia imprescindível para reduzir
a influência norte-americana no continente.
Dentre várias razões, há
que se ter em mente que nossos interesses nacionais
vitais, defesa da soberania e manutenção
da integridade do patrimônio nacional, já
foram, em passado não muito remoto, ameaçados,
na Amazônia, por solerte e insidiosa ação
armada dessa organização narcoterrorista,
inclusive causando baixas entre soldados que guarneciam
um dos nossos postos na fronteira.
O Comando Militar da Amazônia, universalmente
reconhecido como possuidor dos melhores corpos
de tropa de combatentes de selva do mundo, mantendo
a sua tradição de elevada capacitação
operacional, naquela oportunidade, desencadeou
retaliações eficientes e eficazes,
cujo efeito dissuasório se faz presente
até os dias de hoje. E, apesar das agruras
da perversa conjuntura econômico-financeira
que atualmente assola nossas Forças Armadas,
aquele Grande Comando Operacional altamente especializado
permanece vigilante.
E com o indispensável suporte de elementos
destacados da Força de Ação
Rápida Estratégica (FAR-E), da Flotilha
do Amazonas (FLOTAM - Marinha do Brasil) e das
unidades aéreas da Força Aérea
Brasileira, suas cinco Brigadas de Infantaria
de Selva permanecem diuturnamente aprestadas para
fazer face a qualquer ameaça que essas
forças irregulares narcoterroristas de
atuação transnacional possam configurar.