Operação CONDOR
Os vôos
do Condor revelados
John Dinges na USP
(http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2005/jusp728/pag0405.htm)
Autor do mais exaustivo
estudo sobre a repressão a militantes de
esquerda no Cone Sul nos anos 70, liderada pelo
Chile, o jornalista norte-americano John Dinges
afirma, em palestra na USP, que a participação
do Brasil na operação se limitou a
fornecer informações e a treinar agentes
estrangeiros
Sylvia Miguel
A
base documental que o jornalista norte-americano
John Dinges usou para escrever o livro Os anos do
Condor – Uma década de terrorismo internacional
no Cone Sul impressiona.
Dinges usou 24 mil relatórios sobre o Chile
e 4 mil sobre a Argentina, escolhidos dentre os
documentos desclassificados durante a administração
do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton
e que por muito tempo ficaram em poder da CIA, a
agência de inteligência norte-americana.
Cópias de correspondências entre a
CIA e a Agência de Inteligência do Chile
(Dina), além do Archivo del horror, descoberto
em 1992 no Paraguai, e de outras 2 mil páginas
liberadas por agências norte-americanas a
pedido do próprio jornalista, respaldado
pela Lei da Liberdade de Informação
daquele país, completam o material. Tudo
isso sem contar as 200 entrevistas com envolvidos
diretamente nos fatos, sejam eles opositores ou
militares que protagonizaram as ações
sangrentas sob a égide da Operação
Condor – assim chamada em alusão ao
nome da ave-símbolo do Chile, país
de onde foram orquestradas as táticas militares
no contra-ataque terrorista.
Apesar das duas
horas de atraso, ocorrido por problemas no aeroporto
que o forçaram a entrar no Brasil através
da Argentina, a palestra que proferiu sobre a obra
– seguida de debate com a participação
dos professores Sérgio Adorno, do Núcleo
de Estudos da Violência (NEV) da USP, e Rafael
Antonio Duarte Villa, do Departamento de Ciência
Política da Faculdade de Filosofia, Letras
e Ciências Humanas (FFLCH) da USP –
lotou o miniauditório do Departamento de
Antropologia, na segunda-feira, 6 de junho. A edição
em
português, da Companhia das Letras, tem informações
que não haviam sido publicadas na versão
em inglês, como, por exemplo, a de que o braço
da Operação Condor no Brasil foi o
ex-presidente João Baptista Figueiredo.
Para Sérgio
Adorno, o livro certamente se tornará referência
para os que pesquisam o tema. “Durante os
anos em que morei no Chile, de 1972 a 1978, nunca
me senti ameaçado durante o governo de Salvador
Allende, mas na era Pinochet vivi uma fase de grande
terror”, contou na palestra Dinges, que na
época trabalhava como colaborador do jornal
Washington Post e outros veículos. “Vasculharam
minha casa duas vezes e me levaram preso para interrogatório.
Levaram a mim, minha esposa e outras duas pessoas
para a Via Grimaldi, o campo de tortura mais importante
do Condor naquele momento.”
Modelo socialista
No clima do ideário
social-marxista que tomava conta do Chile nos anos
70, o líder Allende subiu ao poder em 4 de
setembro de 1970 com apoio de Fidel Castro, para
desespero dos Estados Unidos, dos capitalistas e
das oligarquias. Há relatos de que a CIA
tentou evitar a posse do presidente. Mas este sobe
ao poder e declara-se socialista, dando início
ao desemprego em massa, com a fuga de capital estrangeiro
e das grandes mineradoras norte-americanas. “É
preciso entender que a Operação Condor
aconteceu durante esse momento de radicalizações.
No início eu achava que a experiência
militar do Brasil era coisa do passado e que o Chile,
sim, iria experimentar um regime diferente, que
favoreceria os pobres e que seria um modelo socialista.
Mas isso representava um perigo que os Estados Unidos
não conseguiriam suportar”, disse o
jornalista, que é também professor
da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos.
O governo de Allende foi derrubado em 11 de setembro
de 1973 pela Força Aérea e o Exército
chileno. A ditadura de Pinochet durou mais de 16
anos.
“Porque lançar
corpos no Rio La Plata está criando problemas
para o Uruguai, como a aparição de
cadáveres mutilados nas praias, fornos crematórios
dos hospitais do Estado estão sendo usados
para a incineração de subversivos
capturados” (Documento da Força Aérea
Brasileira, 1977).
A famosa campanha
repressiva internacional do Condor, promovida entre
as décadas de 60 e 80 através de uma
conexão entre as polícias políticas
do Chile, Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai
e Uruguai, teve seu vôo final em 1980, numa
ação envolvendo guerrilheiros peruanos.
“O Peru tinha abandonado seu governo militar
de inclinação esquerdista e, em 1980,
era o membro mais recente do Condor”, relata
o livro. Entre os prisioneiros desta que é
provavelmente a última operação
estava a famosa ativista política argentina
Noemi Gianotti de Molfino, uma das fundadoras do
grupo Mães da Plaza de Mayo.
A Operação
Condor conseguiu êxito em todas as metas a
que se propôs, disse Dinges. Entre seus principais
efeitos, o jornalista enumera, além das mortes
de políticos e importantes líderes
de esquerda, o medo imposto aos exilados –
“Qualquer exilado ou membro de esquerda sabia
que não estava mais seguro em nenhuma parte
do mundo”, disse – e o desmantelamento
da Junta Coordenadora Revolucionaria (JCR),
grupo organizado e com verba para lançar
uma guerra de guerrilha em quatro países.
“Iremos até a Austrália,
se necessário, para pegar os nossos inimigos”
(Manuel Contreras, ex-diretor da Polícia
Política de Pinochet, citado pela CIA).
O assassinato do
influente ex-embaixador do Chile em Washington,
Orlando Letelier, morto por atentado a bomba em
seu carro em território norte-americano,
mostrou que as asas do Condor pairavam livremente
fora do Cone Sul, como também ficou demonstrado
em ousadas ações no continente europeu.
Um ex-presidente da Bolívia e dois dos mais
proeminentes líderes políticos do
Uruguai são alguns exemplos, entre os cerca
de 30 mil torturados e mortos pela coligação
militar, incluindo exilados sob a proteção
da ONU.
Nos anos do Condor
(1973-1980), a pecha de “terrorista”
e “subversivo” caía sobre os
opositores às ditaduras anticomunistas da
América Latina, que haviam chegado ao poder
com forte colaboração dos Estados
Unidos. Apoio técnico e liderança
estratégica eram a principal ajuda dos norte-americanos,
como parte de uma “proposta política
continental dentro da Guerra Fria”, segundo
Márcia Guena, mestre pelo Programa de Pós-Graduação
em Integração da América Latina
(Prolam) da USP, onde apresentou a dissertação
de mestrado “Operação Condor:
uma conexão entre as polícias políticas
do Cone Sul da América Latina entre as décadas
de 60 e 80” (leia o texto ao lado).
“[O ministro
das Relações Exteriores da Argentina]
Guzzetti foi aos Estados Unidos esperando certamente
ouvir algumas reprimendas fortes, firmes e diretas
sobre as práticas de violação
dos direitos humanos de seu governo. Em vez disso,
retornou num estado de júbilo, convencido
de que não há problema real com os
Estados Unidos a respeito dessa questão”
(embaixador Hill, num telegrama criticando o então
secretário de Estado norte-americano Henry
Kissinger).
“Quem
aqui acredita que Allende foi assassinado?”,
perguntou Dinges à platéia. Como resposta
aos que levantaram o braço, respondeu: “Ele
se suicidou e isso está comprovado historicamente”.
Para o jornalista, esse episódio é
um exemplo de como a história cria mitos
a partir de fatos incompletos ou inconclusos. Segundo
ele, a verdadeira extensão da atuação
da CIA na Operação Condor ainda repousa
numa aura de mitos.
Sobre a
CIA e os Estados Unidos terem efetivamente concebido
e financiado a operação clandestina
internacional dos governos militares do Cone Sul,
Dinges insiste que esse é mais um mito. “Falo
muito sobre isso no livro. A CIA participou dando
treinamento aos agentes da Dina, fornecendo aparato
técnico, especialmente sistemas comunicacionais,
e integrando o grupo de Inteligência na troca
de informações. Não acho que
ela seja responsável pela criação
da Operação Condor. Para mim isso
é uma criação do Chile. O importante
é enfatizar que os assassinos eram os latino-americanos.
A CIA não chegou a matar pessoas”,
defendeu.
Para Dinges, a política
ambígua exercida pelos Estados Unidos nos
anos do Condor revela um aspecto importante para
entender a política norte-americana. “Os
Estados Unidos não impulsionaram os assassinatos
em massa, não há evidências
de que fomentaram aquelas ações. Há
evidências, porém, de que tentaram
barrar algumas operações. Houve tentativas,
mesmo débeis, de proteger os direitos humanos”,
afirmou, ao responder a uma pergunta sobre as responsabilidades
dos Estados Unidos em relação às
vítimas do terror.
Em abril de 1975,
os relatórios de inteligência mostravam
que Contreras era o principal obstáculo para
uma política razoável de direitos
humanos dentro da Junta, mas um comitê formado
por diversos órgãos governamentais
orientou a CIA a manter relações com
Contreras. Alguns membros da CIA recomendaram estabelecer
uma relação remunerada com Contreras”
(Relatório Hinchey).
Dinges avalia
que o Brasil conseguiu sair relativamente “limpo”
da Operação Condor, pois ele não
encontrou documentos comprovando que o País
efetivamente tomou parte nas ações
que classifica de fase 3, a que envolvia assassinatos
propriamente ditos. “Eu diria que o Brasil
foi muito sutil e diplomático e tomou parte
especialmente no fornecimento de informações.
A inteligência brasileira funcionava incrivelmente
bem, tanto que treinou os agentes da Dina. Não
há documentos provando que tomou parte nos
assassinatos do Condor. Há nomes de brasileiros
citados nos documentos, entre eles o ex-presidente
João Baptista Figueiredo”, disse.
O Chile, que administrou
tudo, conseguiu sair da coligação
com o saldo de 3 mil mortos, um contraste gritante
em relação aos seus vizinhos. Das
100 mil pessoas detidas para interrogatórios
naquele país, em torno de 3 mil foram mortas.
“Enquanto no Chile morriam entre 5% e 10%
dos que eram detidos, nos outros países quase
todos os interrogados morriam após tortura.
Na Argentina, havia uma probabilidade de que 80%
dos detidos fossem mortos. Isso se explica pelo
fato de que os outros países aperfeiçoaram
o que o Chile desenvolveu. Por isso Pinochet ainda
merece ser o símbolo da violência”,
disse.
Para o professor
Sérgio Adorno, além de obra de referência,
Os anos do Condor é uma oportunidade para
reavivar a memória e revelar fatos que, embora
praticados há décadas, ainda fazem
parte do presente. “Os elementos autoritários
da cultura ainda não foram superados. Não
é só uma questão de atribuir
responsabilidades, mas de estarmos alertas ao fato
de que Auschwitz sempre pode retornar”, disse.
Dinges coloca algumas de suas descobertas no site
www. johndinges.com/condor. Grande parte dos documentos
que pesquisou está disponível no endereço
eletrônico do Freedom Information Act –
programa de acesso a informações do
Departamento de Estado norte-americano
(www.foia.state.gov).
Obstáculos
para a verdade
O fato de grande
parte dos documentos de alto grau de sigilo ainda
permanecer resguardada não permite que a
história das ditaduras recentes do Cone Sul
seja contada de forma completa, segundo a pesquisadora
Márcia Guena. Márcia é autora
da dissertação de mestrado “Operação
Condor: uma conexão entre as polícias
políticas do Cone Sul da América Latina
entre as décadas de 60 e 80”, apresentada
em 1998 ao Programa de Pós-Graduação
em Integração da América Latina
(Prolam) da USP. “O que fazemos é um
entrecruzar de informações a partir
do que está disponível. Muitos documentos
ainda permanecem censurados, inclusive nos Estados
Unidos”, afirma Márcia, citando como
exemplo o site do Freedon Informatiom Act (Foia),
do Departamento de Estado norte-americano (www.foia.state.gov).
Nele, há documentos de seis páginas
em que aparece uma tarja preta e apenas duas linhas
disponíveis para consulta. “Não
temos ainda uma história completa sobre os
acontecimentos.”
Na sua dissertação,
Márcia estudou 400 documentos do Archivo
del horror, descoberto em 1992 no Paraguai. “Meu
objetivo foi mostrar a participação
brasileira na Operação Condor a partir
da documentação paraguaia”,
diz. Em seu estudo, o papel brasileiro aparece mais
ligado ao “fornecimento de informações
e à aliança de inteligência”,
afirma Márcia, concordando com as investigações
feitas pelo jornalista John Dinges. “Não
encontrei nenhum documento referindo envolvimento
do Brasil nos assassinatos promovidos pela Operação
Condor. Uma possível exceção
foi o episódio do casal uruguaio Lílian
Celibert e o marido, preso em Porto Alegre. Mas
isso não está documentado nos arquivos
e sim relatado pelo grupo Tortura Nunca Mais.”
Além disso,
da mesma forma que Dinges, Márcia conta que
não encontrou documentos provando que a CIA
era financiadora das operações. “A
ligação da CIA e de outros órgãos
do governo norte-americano está mais relacionada
ao envio de informações. Mas não
podemos pensar na Operação Condor
num contexto diferente da Guerra Fria. Os Estados
Unidos promoveram várias operações
de cunho clandestino e esta foi só mais uma,
envolvendo as ditaduras militares do Cone Sul, com
a conivência da CIA, do FBI e do Departamento
de Estado dos Estados Unidos. Diretamente, não
se pode comprovar a coordenação dos
Estados Unidos, mas se pode provar isso indiretamente”,
afirma Márcia.
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