Operação CONDOR
| DEFESA@NET - Republicamos
artigo do JB com entrevista com o jornalista
John Dinges. Importantes notas sobre a Junta
Coordenadora Revolucionária (JCR) e a
posição do Brasil sobre a Operação
Condor |
Operação
Condor ainda surpreende
Investigação
de jornalista americano detalha atividades dos movimentos
de esquerda e esforços das ditaduras para
liquidá-los
(A Ameaça Vinda de Fora
- O Brasil Inspirou Militares)
JULIA SANT’AN NA
Quase 30 anos depois do início
da maior articulação dos governos
militares na América Latina, destinada a
reprimir grupos contrários aos regimes ditatoriais,
investigações sobre a chamada Operação
Condor ainda rendem revelações.
Num livro recém-lançado nos Estados
Unidos (2004) e com lançamento previsto para
daqui a alguns meses no Brasil, o jornalista americano
John Dinges disseca as atividades
da Junta Coordenadora Revolucionária
(JCR). Documentos obtidos por ele comprovam
que uma rede de resistência criada pelos principais
movimentos de esquerda foi o pretexto para o lançamento
da Operação Condor.
– Pode-se buscar em dezenas de livros de história
da época na América Latina e talvez
sejam encontradas uma ou duas linhas sobre a JCR
– disse Dinges em entrevista ao Jornal do
Brasil, afirmando acreditar que a falta de interesse
pela questão tenha raízes políticas.
Para o jornalista – que morou no Chile de
1972 a 1978 e acompanhou de perto o golpe do general
Augusto Pinochet para o jornal The Washington Post–,
as pesquisas sempre foram focadas nas atrocidades
cometidas e nunca se buscaram informações
detalhadas sobre as atividades da resistência.
– Acho que é importante
corrigir a história e não apenas falar
das vítimas como se elas tivessem sido inativas
ou passivas – disse o ex-repórter e
atual professor da Universidade de Columbia, em
Nova York, insistindo que não quer com isso
justificar a repressão.
– Era uma época em que havia um choque
entre conceitos opostos sobre a sociedade. Alguma
coisa aconteceu sobre o solo, era pública,
mas muito se deu nos subterrâneos.
Entre os fatos desenterrados na investigação
de Dinges está o planejamento do assassinato
do congressista americano Ed Koch, numa articulação
entre autoridades uruguaias e chilenas. A agência
de inteligência americana (CIA) sabia do plano
e só alertou Koch dois meses mais tarde,
negando-lhe proteção. Sua morte provavelmente
foi evitada porque a polícia secreta chilena
estava ocupada com o o assassinato, também
nos EUA, de Orlando Letelier, uma das principais
autoridades do governo socialista derrubado por
Augusto Pinochet.
A Operação
Condor, cujo nome correu o mundo depois do crime
realizado dentro dos EUA, surgiu da preocupação
das autoridades da Argentina, do Uruguai e do Chile
com a integração dos grupos guerrilheiros
de seus países.
– Em alguns dos documentos descobertos que
falam da JCR há discussões claras
sobre a fundação da Operação
Condor – contou Dinges.
As principais forças que compunham
a JCR eram o Movimento de Libertação
Nacional (MLN-Tupamaros), do Uruguai, o Exército
Revolucionário do Povo (ERP), da Argentina,
e o Movimento de Esquerda Revolucionário
(MIR), do Chile.
– Entre eles, o mais importante foi o ERP
que tinha 5 mil militantes, centenas de instalações
subterrâneas, fábrica de armas e lançou
o que pensavam que seria uma verdadeira força
de guerrilha, ao iniciar os ataques na província
de Tucumán, em 74. O plano central da JCR
era liderar levantes simultâneos nos outros
países.
Dinges acredita que a descoberta de novas provas
articulando os organismos repressores do período
ditatorial latinoamericano possa ajudar a Justiça.
Crimes envolvendo vários governos seriam
mais fáceis de serem punidos, já que
processos
não seriam evitados pelas leis de anistia
de um só país.
– Essas foram as conseqüências
não intencionais de uma política que
tinha outra finalidade. Em outras palavras, o pânico
das atividades repressivas nos anos 70 levou o caso
a um nível internacional. É por causa
dessa natureza internacional dos crimes que os processos
começaram a acontecer.
As pesquisas de Dinges o levaram a ser chamado para
colaborar com as duas autoridades latino-americanas
mais envolvidas nos processos que procuram punir
as repressões da década de 70. O jornalista
já prestou depoimentos e forneceu documentos
de sua investigação ao juiz argentino
Rodoldo Canicoba Corral e a seu colega chileno Juan
Guzmán.
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