| Direito
à Memória e à Verdade
Jobim
ameaçou demitir comandante do Exército
se fosse desautorizado por nota
Crise entre
ministro e militares começou com lançamento
do livro
sobre a ditadura ‘Direito à Memória
e à Verdade’
Tânia
Monteiro
O ministro da Defesa,
Nelson Jobim, ameaçou demitir o comandante
do Exército, Enzo Peri, e todos os generais
do Alto Comando que se juntassem em um ato de contestação
de sua autoridade. A ameaça, explícita,
foi feita na sexta-feira da semana passada, em Brasília,
e compôs um cenário de crise em que
Jobim e o Exército mediram a força
política de cada uma das partes, no rastro
da solenidade de lançamento do livro Direito
à Memória e à Verdade, no Palácio
do Planalto.
Na solenidade, Jobim
avisou que não admitiria ataque à
publicação e, se alguém reagisse,
“teria resposta”. O livro foi editado
pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos e dá
a versão da comissão especial do Ministério
da Justiça para os mortos e desaparecidos
do regime militar (1964-1985).
O aviso era parte
de um jogo político que começara a
ser jogado pela manhã daquela quarta-feira,
durante reunião do ministro da Defesa com
o comandante interino do Exército, general
Luiz Edmundo Maia Carvalho - ele substituía
Enzo Peri, que estava na Argentina. Horas antes
do lançamento do livro, Carvalho, que é
chefe do Estado-Maior do Exército, procurou
Jobim para dizer que os militares estavam insatisfeitos
com a decisão de o governo fazer a solenidade
no Planalto, transformando o livro em um documento
oficial.
O Estado apurou
que a conversa começou amena. Jobim chegou
a argumentar com o vice do Exército que,
se os militares continuassem a reagir contra as
contestações de certos grupos da esquerda
à Lei da Anistia, isso poderia gerar até
uma revisão da legislação.
A conversa foi se alongando e ficando tensa porque
o general adotou um tom de advertência para
a possibilidade de os militares da ativa criticarem
o livro. Jobim então lhe disse que não
toleraria reações e, se elas ocorressem,
responderia à altura. E pediu ao general
que acalmasse a tropa.
A cerimônia
do lançamento do livro, no Planalto, marcada
para as 15h30 de 29 de agosto, só começou
às 17 horas. Boa parte do atraso se deveu
ao tempo gasto na negociação de Jobim
com Lula para definir como iria responder de público
à pressão que havia recebido pela
manhã, no encontro com Carvalho.
Jobim pediu autorização
a Lula para discursar na solenidade. Informou o
que queria dizer e como seria dito. O discurso chamaria
para si a atenção dos militares, mas
serviria para, ao mesmo tempo, evitar que o problema
se alastrasse para o Planalto e outras áreas
do governo.
O recado do ministro
foi dirigido especialmente a Carvalho. Ao fim da
solenidade, chegou a ligar para um general gaúcho,
seu conhecido, para saber como estava a reação
entre os oficiais mais novos. Pediu cooperação
para evitar mais problemas.
RECADO
Para mostrar que
não aceitavam o “cala-boca” do
ministro, os generais decidiram, dois dias depois,
fazer uma nota com algum tipo de manifestação
pública. Ao fim da reunião, que começou
às 13 horas e só terminou às
17 horas, decidiram, por consenso, que deveriam
fazer um texto sem agressividade - só para
marcar posição.
O encontro dos 15
generais do Alto Comando, convocado por Enzo Peri,
que regressara da Argentina, foi pautado por Jobim.
Momentos antes do início da reunião,
ele mandou um assessor ligar para o Quartel-General
do Exército e avisar que não admitiria
ofensas e contestação da autoridade.
E, se isso ocorresse, demitiria o comandante e quem
ficasse do lado dele na contestação.
Depois de quatro
horas de muita discussão, os militares decidiram,
por unanimidade, emitir uma nota amena, mas apresentando
a posição da Força sobre a
Lei da Anistia. “Os fatos históricos
têm diferentes interpretações
dependendo da ótica de seus protagonistas”,
dizia a mensagem do Alto Comando.
Diante do recado
de Jobim, por volta das 19 horas, o comandante do
Exército decidiu submeter-lhe a nota oficial.
O ministro considerou o texto “aceitável”
e só trocou o tempo de um verbo. Onde estava
escrito que a Lei da Anistia “produz a indispensável
concórdia”, Jobim mandou escrever “produziu”.
Antes de sua divulgação,
o ministro ligou para Lula, leu o texto, e disse
que, por ele, estava tudo bem e o episódio
estava encerrado. No dia seguinte, Jobim viajou
para o Haiti na companhia dos comandantes Enzo e
Saito.
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