Os
órfãos da ditadura
Parte
1 : capitão
Charles Chandler
Parte 2 : André Grabois |
Nilson
Mariano
A
dor do filho do comunista
João Carlos de Almeida Grabois era um bebê
mirrado, conseqüência das torturas que a mãe
sofreu no cárcere, quando teve a família
reduzida pela ditadura militar.
Primeiro,
lhe subtraíram o pai, André Grabois. Depois,
mataram o avô, Maurício Grabois. Em seguida,
eliminaram um tio, Gilberto Olímpio Maria.
O
pai, o avô e o tio que João Carlos não
chegou a conhecer faziam parte do grupo de 63 guerrilheiros
que o Partido Comunista do Brasil (PC do B) infiltrara
nas matas do Araguaia, então sul do Pará,
no devaneio de abalar o regime. Acossados por tropas com
milhares de soldados, foram dizimados: 58 mortos.
Os
três familiares de João Carlos, o Joca, tombaram
no final de 1973, na última campanha de aniquilamento
movida pelo Exército. André, o pai de Joca,
tinha 27 anos. O avô, Maurício Grabois, legendário
dirigente comunista, morreu aos 61 anos. O tio, Olímpio
Maria, 31 anos, deixou um filho, Igor, e a viúva,
Victoria Grabois.
Joca
foi criado pela mãe, Criméia Almeida, hoje
com 59 anos, também comunista na época.
Prisioneira política em São Paulo e Brasília,
sofreu as maldades reservadas aos chamados subversivos:
choques elétricos, espancamentos com palmatórias,
pranchaços na planta dos pés, socos na cabeça,
interrogatórios que se eternizavam por até
36 horas. Hoje, tem os pés doloridos.
Filho
ainda sofre efeitos da desnutrição
Criméia
foi martirizada até a véspera do parto,
inclusive com perversidades psicológicas. Os verdugos
ameaçavam lhe tomar o bebê, caso fosse "homem,
branco e saudável".
Joca
nasceu com 3,150 gramas, mas encolheu: pesou 2,700 gramas
ao completar um mês. Podia sugar o leite materno,
mas dia sim, dia não. Esvaiu-se com três
gastrenterites simultâneas, rebentos de comunistas
não eram prioridade médica.
-
Até hoje ele tem um afundamento no peito, conseqüência
da desnutrição - diz Criméia.
Joca
foi condenado à orfandade sem conhecer o pai. Mas
parte da tristeza que poderia lhe afetar foi elaborada
em indignação. Ele não se acha uma
vítima, considera que o país todo foi atingido
pelo anos de obscurantismo.
Amputado
nos seus vínculos familiares, Joca tem sobras de
fotografias (queimaram parte do álbum com receio
de perseguições) para lembrar o pai, o avô
e o tio. Os três estão na esfera dos seres
imaginários.
Entrevista:
João Carlos Grabois, filho do
militante do PC do B andré Grabois
Não me sinto uma vítima"
Morando em São Paulo, empresário no ramo
da editoração e publicidade, João
Carlos Schmidt de Almeida Grabois, 32 anos, foi batizado
em homenagem a três amigos de militância da
mãe, Criméia Almeida, entre eles o gaúcho
João Carlos Haas Sobrinho. Estudante de Medicina
na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Haas Sobrinho desapareceu no Araguaia como o pai, o avô
e um tio de João Carlos. Confira os principais
trechos de entrevista do empresário a Zero Hora:
Zero
Hora - Quando soube que havia perdido o pai, o avô
e um tio? E que a mãe fora presa e torturada durante
a ditadura?
João
Carlos de Almeida Grabois - Desde criança.
Mas a mãe pediu segredo na época, explicou
que ainda havia perseguições. Se me perguntassem,
era para contar outra história, que o meu pai se
chamava Zé Carlos (codinome de André Grabois
na guerrilha do PC do B) e que havia morrido em acidente
de trânsito.
ZH
- Como lidava com o segredo?
João
Carlos - A mãe confiou na minha capacidade
de guardar o segredo, entender a situação.
Ela contou a verdade porque havia presenciado dramas em
outras famílias de militantes de esquerda. Crianças
que não sabiam a verdade ficaram traumatizadas,
achavam que tinham sido abandonadas pelos pais.
ZH
- Quando pôde contar a verdade?
João
Carlos
- Foi em 1982, entre amigos de escola. Alguém perguntou,
aí eu contei: o meu foi assassinado pelo Exército,
na guerrilha do Araguaia. O amigo ficou meio assustado,
mas aceitou. Era uma época de início de
liberdade, as pessoas estavam cansadas de viver a farsa
da ditadura militar.
ZH
- Como enfrentou as perdas, o sofrimento da mãe?
João
Carlos -
A gente perde aquilo que teve. Nunca tive pai, ele morreu
no Araguaia, antes mesmo de eu ter nascido. Então,
o sentimento é mais de não ter tido do que
de ter perdido. É uma situação diferente,
por exemplo, de quando se perde uma avó. Não
vi o rosto do meu pai. A foto que tenho dele é
a de um garoto de 18 anos. Fica difícil a formação
de uma imagem, de lembranças. Quanto ao sofrimento
da mãe, ela foi muito forte, sustentou sozinha
a casa. Ainda cuidou de dois sobrinhos, porque a irmã
dela e o marido estavam presos. Sempre olhei para ela
como uma batalhadora.
ZH
- Qual a imagem que guarda do avô?
João
Carlos -
Não o conheci. É mais uma figura simbólica,
de uma pessoa que tinha ideal, sonhadora, acreditava ser
possível melhorar o mundo, a que os outros chamam
herói. Para mim, é mais uma figura histórica.
ZH
- E qual a imagem que guarda de seu pai?
João
Carlos - A mesma coisa. Não consigo ter um
vínculo familiar forte. São como super-heróis,
acima do imaginário. O meu pai é como um
personagem histórico. Não é o mesmo
que olhar para um tio que está vivo.
ZH
- O que sente em relação aos que mataram
os seus familiares?
João
Carlos - É um sentimento de revolta, de indignação,
porque essas pessoas cometeram crimes, a tortura é
um crime hediondo. O meu pai não foi assassinado,
ele foi assassinado sob tortura. E os assassinos andam
livres e impunes pelo país. O que me deixa triste
é que essa barbárie da ditadura não
atinge só a mim, atinge a todos. Hoje vivemos em
um país de desmandos, de impunidade, endividado,
as pessoas passando fome, sendo assaltadas. Isso é
conseqüência de anos da ditadura. Mas não
me vejo como uma vítima. Todos que vivem nesse
país estão pagando por isso.
ZH
- Passados mais de 35 anos, como avalia a trajetória
do pai e do avô? O sacrifício deles valeu
a pena?
João
Carlos - Valeu a pena, sim. Os militares estavam no
poder e felizes com isso, teriam ficado mais tempo. Até
hoje, tentam esconder o que fizeram. Então, se
não houvesse a luta armada, a resistência
pacifista, as passeatas e os movimentos sociais, a democracia
teria demorado ainda mais.
João
Carlos