Os órfãos da ditadura
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Parte 1 : capitão Charles Chandler
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Parte 2 : André Grabois
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O trabalho de Nilson Mariano não resistiu ao toque dos Diretores de Redação de Zero Hora.
O Grupo RBS, hoje comandado pelo ex-chefe da Casa Civil, governo FHC, tem adotado uma interessante política de ativismo político, com uma reescrita
da história.
Outro ponto curioso é que seguiu o posição do governo Luiz Inácio de que não há vítimas brasileiras, que não sejam os membros da esquerda.


Para a Guerrilha do Araguaia acesse:

GUERRILHA NA AMAZÔNIA:
UMA EXPERIÊNCIA NO PASSADO,
O PRESENTE E O FUTURO
(matéria em três partes)

1- Passado
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2- Anos 1970
(Araguaia)
3- Anos 90
(Rio Traíra)

André Grabois

Maurício Grabois



Armamento capturado no Araguaia

Terrorismo - Terrorism

Defesanet 12 Dezembro 2005
Zero Hora 11 Dezembro 2005

Os órfãos da ditadura

Parte 1 : capitão Charles Chandler
Parte 2 : André Grabois

Nilson Mariano

A dor do filho do comunista


João Carlos de Almeida Grabois era um bebê mirrado, conseqüência das torturas que a mãe sofreu no cárcere, quando teve a família reduzida pela ditadura militar.

Primeiro, lhe subtraíram o pai, André Grabois. Depois, mataram o avô, Maurício Grabois. Em seguida, eliminaram um tio, Gilberto Olímpio Maria.

O pai, o avô e o tio que João Carlos não chegou a conhecer faziam parte do grupo de 63 guerrilheiros que o Partido Comunista do Brasil (PC do B) infiltrara nas matas do Araguaia, então sul do Pará, no devaneio de abalar o regime. Acossados por tropas com milhares de soldados, foram dizimados: 58 mortos.

Os três familiares de João Carlos, o Joca, tombaram no final de 1973, na última campanha de aniquilamento movida pelo Exército. André, o pai de Joca, tinha 27 anos. O avô, Maurício Grabois, legendário dirigente comunista, morreu aos 61 anos. O tio, Olímpio Maria, 31 anos, deixou um filho, Igor, e a viúva, Victoria Grabois.

Joca foi criado pela mãe, Criméia Almeida, hoje com 59 anos, também comunista na época. Prisioneira política em São Paulo e Brasília, sofreu as maldades reservadas aos chamados subversivos: choques elétricos, espancamentos com palmatórias, pranchaços na planta dos pés, socos na cabeça, interrogatórios que se eternizavam por até 36 horas. Hoje, tem os pés doloridos.

Filho ainda sofre efeitos da desnutrição

Criméia foi martirizada até a véspera do parto, inclusive com perversidades psicológicas. Os verdugos ameaçavam lhe tomar o bebê, caso fosse "homem, branco e saudável".

Joca nasceu com 3,150 gramas, mas encolheu: pesou 2,700 gramas ao completar um mês. Podia sugar o leite materno, mas dia sim, dia não. Esvaiu-se com três gastrenterites simultâneas, rebentos de comunistas não eram prioridade médica.

- Até hoje ele tem um afundamento no peito, conseqüência da desnutrição - diz Criméia.

Joca foi condenado à orfandade sem conhecer o pai. Mas parte da tristeza que poderia lhe afetar foi elaborada em indignação. Ele não se acha uma vítima, considera que o país todo foi atingido pelo anos de obscurantismo.

Amputado nos seus vínculos familiares, Joca tem sobras de fotografias (queimaram parte do álbum com receio de perseguições) para lembrar o pai, o avô e o tio. Os três estão na esfera dos seres imaginários.

Entrevista: João Carlos Grabois, filho do
militante do PC do B andré Grabois


Não me sinto uma vítima"


Morando em São Paulo, empresário no ramo da editoração e publicidade, João Carlos Schmidt de Almeida Grabois, 32 anos, foi batizado em homenagem a três amigos de militância da mãe, Criméia Almeida, entre eles o gaúcho João Carlos Haas Sobrinho. Estudante de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Haas Sobrinho desapareceu no Araguaia como o pai, o avô e um tio de João Carlos. Confira os principais trechos de entrevista do empresário a Zero Hora:

Zero Hora - Quando soube que havia perdido o pai, o avô e um tio? E que a mãe fora presa e torturada durante a ditadura?
João Carlos de Almeida Grabois - Desde criança. Mas a mãe pediu segredo na época, explicou que ainda havia perseguições. Se me perguntassem, era para contar outra história, que o meu pai se chamava Zé Carlos (codinome de André Grabois na guerrilha do PC do B) e que havia morrido em acidente de trânsito.

ZH - Como lidava com o segredo?
João Carlos - A mãe confiou na minha capacidade de guardar o segredo, entender a situação. Ela contou a verdade porque havia presenciado dramas em outras famílias de militantes de esquerda. Crianças que não sabiam a verdade ficaram traumatizadas, achavam que tinham sido abandonadas pelos pais.

ZH - Quando pôde contar a verdade?
João Carlos - Foi em 1982, entre amigos de escola. Alguém perguntou, aí eu contei: o meu foi assassinado pelo Exército, na guerrilha do Araguaia. O amigo ficou meio assustado, mas aceitou. Era uma época de início de liberdade, as pessoas estavam cansadas de viver a farsa da ditadura militar.

ZH - Como enfrentou as perdas, o sofrimento da mãe?
João Carlos - A gente perde aquilo que teve. Nunca tive pai, ele morreu no Araguaia, antes mesmo de eu ter nascido. Então, o sentimento é mais de não ter tido do que de ter perdido. É uma situação diferente, por exemplo, de quando se perde uma avó. Não vi o rosto do meu pai. A foto que tenho dele é a de um garoto de 18 anos. Fica difícil a formação de uma imagem, de lembranças. Quanto ao sofrimento da mãe, ela foi muito forte, sustentou sozinha a casa. Ainda cuidou de dois sobrinhos, porque a irmã dela e o marido estavam presos. Sempre olhei para ela como uma batalhadora.

ZH - Qual a imagem que guarda do avô?
João Carlos - Não o conheci. É mais uma figura simbólica, de uma pessoa que tinha ideal, sonhadora, acreditava ser possível melhorar o mundo, a que os outros chamam herói. Para mim, é mais uma figura histórica.

ZH - E qual a imagem que guarda de seu pai?
João Carlos - A mesma coisa. Não consigo ter um vínculo familiar forte. São como super-heróis, acima do imaginário. O meu pai é como um personagem histórico. Não é o mesmo que olhar para um tio que está vivo.

ZH - O que sente em relação aos que mataram os seus familiares?
João Carlos - É um sentimento de revolta, de indignação, porque essas pessoas cometeram crimes, a tortura é um crime hediondo. O meu pai não foi assassinado, ele foi assassinado sob tortura. E os assassinos andam livres e impunes pelo país. O que me deixa triste é que essa barbárie da ditadura não atinge só a mim, atinge a todos. Hoje vivemos em um país de desmandos, de impunidade, endividado, as pessoas passando fome, sendo assaltadas. Isso é conseqüência de anos da ditadura. Mas não me vejo como uma vítima. Todos que vivem nesse país estão pagando por isso.

ZH - Passados mais de 35 anos, como avalia a trajetória do pai e do avô? O sacrifício deles valeu a pena?
João Carlos - Valeu a pena, sim. Os militares estavam no poder e felizes com isso, teriam ficado mais tempo. Até hoje, tentam esconder o que fizeram. Então, se não houvesse a luta armada, a resistência pacifista, as passeatas e os movimentos sociais, a democracia teria demorado ainda mais.


João Carlos

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