COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

06 de Abril, 2008 - 12:00 ( Brasília )

IRAQUE: Adaptando uma Doutrina à Arte Operacional


                                                                             

GenBda R/1 Alvaro de Souza Pinheiro

                                                            Especialista em Operações Especiais e Guerra Irregular
                                                                                   pinheiroa@terra.com.br

 
 Em dezembro de 2006, o Comando de Adestramento e Doutrina do Ex EUA (US Army TRADOC) expediu o Manual de Campanha FM 3-24, “Counterinsurgency”, elaborado no  Centro de Armas Combinadas (Combined Arms Center, Fort Leavenworth / Kansas) sob a responsabilidade do Gen David H. Petraeus. O novíssimo manual que veio preencher uma grave lacuna, de há muito vivenciada nas Forças Armadas norte-americanas (as últimas referências doutrinárias ainda eram reminiscências da Guerra do Vietnam), trouxe consigo uma abordagem inédita e extremamente atualizada, tornando-se, de imediato, o fundamento básico doutrinário do  Exército e do  Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA para operações contra forças irregulares.
     
Logo em seguida, em fevereiro de 2007,  o Gen Petraeus, após receber a sua quarta estrela, assumiu em Bagdá, a função de Comandante da Força Multinacional no Iraque (MNF-I).  Na mesma época, em 14 de dezembro de 2006,  assumiu o comando do Corpo de Exército (CEx) Multinacional daquela Força (MNC-I), o Lieutenant General Raymond Odierno, que veio assim, tornar-se o principal auxiliar do Gen Petraeus, naquele complexo, conturbado e importante Teatro de Operações.
        
Naquele momento, a situação no Iraque era caótica. Forças irregulares constituídas por terroristas, insurretos, criminosos e extremistas de diferentes matizes estavam matando cerca de 3 000 civis iraquianos não combatentes por mês. As forças da Coalizão estavam enfrentando da ordem de 1 200 ataques de natureza diversificada (com um considerável número de ataques terroristas suicidas)  por semana. A Operação “Together Forward II” destinada a limpar os mais conturbados subúrbios de Bagdá, estabelecendo posições para serem ocupadas por unidades das recém ativadas Forças de Segurança Iraquianas (ISF),   teve que ser suspensa,  em função do elevado  índice de violência que, rapidamente, se alastrou por toda a Capital. A facção iraquiana da Al Qaeda (AQI) infiltrou-se, estabelecendo áreas de homizio na Capital, e nas Províncias de  Anbar, Diyala, Salah-ah-Din e Ninewa.  Naquele momento, tremendamente crítico, o novo Governo Iraquiano estava inoperante e literalmente paralisado.   
       
Pouco mais de um ano depois, em 14 de fevereiro de 2008, quando o Gen Odierno passou o Comando do CEx Multinacional ao LtGen Lloyd Austin, retornando aos EUA para ocupar uma nova posição, a sangrenta guerra civil estava superada. As baixas entre os civis bem como os ataques semanais  tiveram uma redução de 60%, com relação aos níveis de 2006. A Al Qaeda iraquiana foi desalojada de suas áreas de homizio na Capital e nas Províncias de  Anbar e Diyala, tentando reoganizar-se em Mosul,  grande cidade permanentemente pressionada pelas forças da Coalizão e pelas Forças de Segurança Iraquianas. O Conselho de Representantes (uma espécie de Congresso Nacional), aprovou uma legislação visando à desestruturação do antigo Partido Baath (de Saddam Hussein), uma anistia geral, a distribuição de poderes provinciais e o estabelecimento de regras e datas para um calendário eleitoral provincial. A situação no Iraque foi  significativamente revertida.
        
Hoje, analistas militares de diferentes origens são unânimes em reconhecer que Dave Petraeus (que permanece na função de Comandante da MNF-I) foi, sem dúvida alguma, o grande responsável pelo arcabouço doutrinário que está orientando estrategicamente a bem sucedida campanha de contra-insurreição conduzida sob seu comando. Mas, também reconhecem que quem transformou toda aquela fundamentação doutrinária em Arte Operacional, resultando no desdobramento de táticas, técnicas e procedimentos operacionais, extremamente criativos, eficientes e eficazes foi Ray Odierno, o que está lhe valendo, junto aos mais conceituados meios de comunicação social norte-americanos, a afetuosa alcunha de “O Patton da Contra-Insurreição”.
      
      O Legado de 2006
     
Visando o fortalecimento da capacitação operacional  das Forças de Segurança Iraquianas, o que, teoricamente, propiciaria a antecipação da retirada dos efetivos militares norte-americanos,  os comandantes que antecederam os Gen Petraeus e LtGenOdierno (Gen William Casey e LtGen Chiarelli) estabeleceram como sua diretriz estratégica  prioritária, a passagem da responsabilidade da segurança do povo iraquiano àquelas forças. O esforço se concentrava no treinamento daqueles elementos, enquanto as unidades da Coalizão atuavam no reforço às forças iraquianas nas operações correntes e, particularmente, na confrontação com elementos da Al Qaeda iraquiana.
     
Nesse contexto, a grande maioria das unidades da Coalizão concentrava-se em bases operacionais avançadas, de onde partiam no reforço às unidades iraquianas no patrulhamento de áreas reconhecidamente violentas. O resultado era extremamente frustrante, uma vez que a atuação das forças da Coalizão era eminentemente reativa, quando a situação impunha medidas de caráter eminentemente proativo. Por outro lado, as forças iraquianas, prematuramente lançadas em operações, encontravam-se insuficientemente adestradas e mal equipadas, e suas atividades, ao invés de operações de contra-guerrilha e contra-terrorismo eficazes, limitavam-se ao estabelecimento de pontos de controle burocraticamente estáticos.
     
O resultado final foi desastroso, na medida em que os diferentes grupos irregulares extremistas em presença, sentiram-se em condições de implementar suas ações ofensivas, que se tornaram cada vez mais audaciosas e violentas, e a população se viu envolvida num ambiente de descrença não apenas nas Forças de Segurança Iraquianas,  mas também nas forças norte-americanas e aliadas.
     
Odierno absorveu perfeitamente a doutrina de contra-insurreição preconizada por Petraeus, na medida em que entendeu que a credibilidade e a legitimidade  das novas  instituições governamentais iraquianas  baseavam-se, sobretudo, na  capacitação da Coalizão em assegurar um adequado padrão de proteção ao povo iraquiano, neutralizando a tentativa dos militantes extremistas de alienar a população do governo.
 
     Conhecendo o Inimigo e Valorizando o Terreno
    
O argumento básico utilizado pelas autoridades militares que  precederam Petraeus e Odierno no comando daquele teatro era de que as operações de combate de maior monta eram tremendamente contraproducentes, resultando no agravamento de ressentimentos  e, conseqüentemente, em mais insurretos.  Enfatizavam que a necessidade premente da conquista de “corações e mentes”da população se fazia de muito maior prioridade do que neutralizar o inimigo irregular  pela força.
      
Petraeus e Odierno mudaram radicalmente a concepção da campanha, entendendo que, apesar de efeitos colaterais eventuais, muito pior seria permitir às facções irregulares hostis, o controle de acidentes capitais da maior relevância (como a Capital e algumas outras grandes cidades) e, principalmente,  a manutenção da iniciativa das ações. Ao assumir o comando da MNF-I, o Gen Petraeus enfatizou em diretriz estratégica que a prioridade das operações de combate teria  como finalidades:   
    
        - plena restauração da garantia da lei e da ordem em Bagdá;
      - redução da violência étnico-sectária em todo o País, com a conseqüente diminuição da influência dos grupos extremistas sobre a população;
      - implementação da legitimidade do Governo Iraquiano constituído junto à população, em todo o País.
       
Coube ao Gen Odierno a materialização de como cumprir a Diretriz do Comandante com a disponibilidade das forças sob seu comando. Nesse contexto, estabeleceu como objetivos de sua estratégia operacional:

      - proteger a população civil não combatente nas grandes cidades;
      - estabelecer e expandir áreas de segurança; e
      - neutralizar a existência de áreas de homizio de grupos hostis.
     
Um enfoque importante foi uma mudança de atitude com referência ao  entendimento de como as redes dos diferentes grupos irregulares  hostis em presença, sunitas, xiitas, e criminosos de um modo geral, interagiam entre si e com seus subordinados. Fundamentalmente, o nível de cooperação entre esses grupos era praticamente inexistente. Inclusive, a rivalidade entre sunitas e xiitas, não raro, produzia sangrentas confrontações.  E cada grupo desenvolvia tecnologicamente a sua rede de comando e controle, conforme suas possibilidades materiais para operar sistemas de computadores (com largo emprego da internet), de comunicações diversificadas, e de inteligência e contra-inteligência, dentre outros. Dados obtidos pela Inteligência da Coalizão demonstraram que os mais importantes vetores de funcionamento das redes irregulares eram seres humanos, indivíduos responsáveis pelo fornecimento de recursos financeiros, orientação ideológica, religiosa ou étnica, suporte logístico, etc. Tudo ativado pelo estabelecimento de sistemas de pontos de contato altamente  criativos,  cobertos pelos militantes das diversas organizações extremistas e criminosas tanto no ambiente urbano quanto no rural.
      
As Forças  Especiais da Coalizão  foram sempre extremamente valiosas na identificação de indivíduos-chave nessas  organizações e que, oportunamente, eram capturados ou eliminados em ações específicas.   Um exemplo característico, da maior relevância,  foi a eliminação do mais importante líder da Al Qaeda iraquiana, Abu Musab Al Zarquawi, em junho de 2006.  A estrutura da organização terrorista  foi duramente atingida, porém não foi eliminada. Nesse contexto,  a AQI reagrupou-se após sua morte, em torno de seu sucessor, Abu Aiyub Masri. E a capacitação da Al Qaeda no desencadeamento de ataques a bombas, conduzidas por veículos de natureza diversificada,  chegou a crescer nos meses que se seguiram após a morte de Zarquawi.
      
Quando Odierno assumiu o Comando do MNC-I,  como resultado de uma meticulosa operação, as Forças de Operações Especiais (FOpEsp) da Coalizão capturaram documentos, inclusive ilustrados com mapas,  que identificavam Bagdá como o  mais importante acidente capital da luta urbana. Naquele momento, a AQI tentava estabelecer zonas liberadas na região oeste da Capital. Entretanto, o crescimento da estrutura de combate e a tradicional ferocidade  xiita obrigou a AQI a estabelecer-se fora do perímetro urbano da Capital.   Dessas áreas periféricas,  os membros da Al Qaeda partiam para ataques tanto contra as forças da Coalizão quanto contra os  seus oponentes xiitas. Os documentos  registravam também como a AQI havia dividido Bagdá em setores,  identificavam os sítios de homizio nas áreas fora da cidade,  e os itinerários identificados como seguros para a infiltração de pessoal,  armas, munições e explosivos.
       
Os itinerários que demarcavam as vias de acesso das forças irregulares  para a área urbana da Capital eram constituídos por estradas e ruas especificamente selecionadas. A manutenção desses acessos para o deslocamento seguro dos meios das diferentes forças irregulares, exigia a conquista e a manutenção de determinadas regiões, tanto na área urbana quanto na área rural. Da mesma forma, os depósitos secretos de armas, munições, explosivos, e outras classes de suprimentos, uma vez transportados para a área urbana, exigiam edificações com determinadas especificidades para bem ocultá-los. As áreas de homizio para a ocultação,  tanto de líderes quanto de seus grupos de assalto, também exigiam edificações de características muito peculiares.
    
Dessa forma,  Ray Odierno chegou à conclusão que precisava valorizar o terreno como fator de decisão preponderante na condução das operações de combate, negando ao inimigo áreas indispensáveis, acidentes capitais, sem os quais, suas ações ofensivas não podiam ser perpetradas. Um fato que, no comando anterior, estava sendo subestimado.
 
       O Desencadeamento da Ofensiva, a Repartição de Meios e a  Dosagem de Esforços
       
A repartição de meios e a dosagem de esforços, juntamente com a definição de objetivo(s) estratégico(s), e a combinação de direções e atitudes (sempre presentes num campo de batalha não linear ou assimétrico, como é o caso de uma campanha de contra-insurreição) são os elementos básicos da manobra estratégica operacional. Em função da situação do inimigo, naquele momento da campanha, os Gen Petraeus e Odierno entenderam que se fazia impositiva a presença de unidades adicionais ao esforço das operações de combate.
      
E ainda em dezembro de 2006, o pedido formal por mais tropas foi encaminhado a Washington, tendo sido plenamente aprovado pelo Pentágono e pela Casa Branca. Uma solicitação baseada em evidências que demonstravam a necessidade de mais tropas para  tornar  operacional a doutrina de contra-insurreição que ali se pretendia aplicar.
    
As cinco Forças Tarefa de valor Brigada (Brigade Combat Teams – BCT, quatro doUS Army e uma doUS Marine Corps) autorizadas pelo Presidente Bush, chegaram ao Iraque gradualmente. A partir de janeiro de 2007, a cada mês chegou um BCT (um “surge of forces”, como ficou conhecido o desdobramento dessas cinco novas grandes unidades que vieram se juntar aos  quinze BCT  que já se encontravam operando).
      
A grande ofensiva, na realidade, foi desenvolvida em quatro grandes operações, três no ano de 2007 e uma, ao início de 2008. A primeira, denominada “Enforcing the Law”, também conhecida como “Baghdad Security Plan”, foi desencadeada em fevereiro de 2007. Desdobrou tropas da Coalizão e também unidades das Forças de Segurança Iraquianas,  numa ação de ocupação de toda a Capital e seus subúrbios, com uma intensificação do patrulhamento ostensivo diuturno, objetivando caracterizar uma nova postura com relação à segurança da população. A segunda, denominada “Phantom Thunder” foi desencadeada nos meses de junho e julho de 2007, já contando com todas as cinco  brigadas recém-chegadas . Teve como finalidade eliminar todos os santuários identificados da Al Qaeda iraquiana. A terceira,denominada “Phantom Strike”, desencadeada em agosto de 2007, objetivou caçar grupos de todas as organizações extremistas  na sua tentativa de ocupação de novas áreas de homizio em lugares remotos do País. E a última, denominada “Phantom Phoenix”, desencadeada em janeiro de 2008, poucas semanas antes do retorno do LtGen Ray Odierno aos EUA, teve como objetivo uma limpeza de área na Província de Diyala e uma ação na periferia da cidade de Mosul, um dos futuros objetivos de grande monta da Coalizão.
        
O aspecto fundamental que motivou o sucesso de todas essas operações ofensivas foi uma combinação de amplitude e continuidade. Os ataques efetuados sobre inúmeras  áreas de homizio,  linhas de suprimento e de comunicações das forças irregulares, caracterizaram-se pela sua execução simultânea, diferentemente das operações ofensivas realizadas anteriormente  quando eram desencadeados contra alvos selecionados, um de cada vez. O êxito alcançado foi significativo. Os grupos irregulares perderam a capacidade de movimentar-se com facilidade de uma área de homizio para outra, e aqueles que o tentaram sofreram pesadas baixas. Da mesma forma, as rápidas tomadas de dispositivo entre uma operação e outra negaram às forças irregulares a possibilidade de se reorganizarem em novas áreas. Apesar de ainda  existirem alguns bolsões, os diversos grupos insurretos perderam a capacidade de coordenar a execução de operações terroristas de maior monta, como eram capazes de fazer em 2006.
 
        Forças de Operações Especiais X Forças Convencionais
        
Durante toda esta decisiva  ação ofensiva, desde as fases iniciais de planejamento, o LtGen Ray Odierno trabalhou em íntima ligação com o LtGen Stan McChristal, Comandante das FOpEsp da Coalizão, que permaneceram todo o tempo diretamente subordinadas ao Gen David Petraeus, Comandante do Teatro. Estas Forças, constituídas por elementos norte-americanos de Special Forces, Rangers, Sea-Air-Land( Navy SEALs), e Air Force Combat Controllers (além de frações de Forças Especiaise Comandos de outras nações aliadas) mantiveram pressão constante sobre as lideranças das principais células terroristas.
       
Esta ação se fez altamente relevante, sobretudo, na repressão contra elementos infiltrados do grupo Hezbollah, cujo objetivo, devidamente apoiado por Forças Especiais (Qods Force) integrantes da Guarda Republicana do Irã, desdobradas no Iraque, era transformar grupos insurgentes iraquianos em forças semelhantes aos grupos daquela poderosa organização terrorista libanesa, decisivamente apoiada pelo Irã e pela Síria.
       
As operações de inteligência, incursões e golpes de mão criteriosamente planejadas e cirurgicamente realizadas pelos destacamentos sob o comando de McChristal, além de resultados significativos na estrutura de comando e controle das forças irregulares, muito contribuíram  na obtenção de valiosas informações que propiciaram às unidades do Corpo de Exército da Coalizão refinarem seus planejamentos. Da mesma forma, as ações ofensivas das unidades convencionais sobre algumas das áreas de homizio terroristas provocaram o movimento dos elementos irregulares, facilitando a eliminação desencadeada pelas FOpEsp. Há que se ressaltar também o papel preponderante desenvolvido pelas Forças Especiais da Coalizão no preparo das unidades militares e policiais das novas Forças de Segurança Iraquianas. Essa integração constituiu-se num dos exemplos mais bem sucedidos entre as operações especiais e as operações convencionais em toda a campanha de contra-insurreição iraquiana.
 
        Uma Impositiva Visão Holística
       
A ação de comando do Gen David Petraeus demandou que o planejamento estratégico operacional do Gen Ray Odierno fosse plenamente integrado a todo um contexto estratégico político e militar. Logo ao assumir,  Petraeus estabeleceu um “Joint Strategic Assessment Team” com a finalidade de rever a estratégia da Coalizão, ao mesmo tempo em  que se aproximou bastante da Embaixada dos EUA em Bagdá, visando o desenvolvimento de um Plano de Campanha do Teatro que harmonizasse todas as ações  militares (incluindo as ações relativas à garantia da lei e da ordem) com as não-militares (incluindo as ações em todas as áreas de reconstrução das infra-estruturas nacionais básicas), em todo o território iraquiano.
         
Essa tarefa, visando otimizar o poder nacional norte-americano no Iraque, foi  inicialmente frustrada, em função da resistência de algumas agências civis em Washington e de  algumas autoridades em Bagdá. Tudo num contexto extremamente complexo de coordenação e sincronização das mais diversificadas atividades, envolvendo um grande número de  agências governamentais (e não governamentais) cujos processos decisórios são, cultural,  técnica e traumaticamente  diferenciados entre si, aspecto que complicava sobremaneira o estabelecimento de linguagens e entendimentos comuns, particularmente entre os comandos militares de diferentes níveis e as inúmeras agências civis.
        
Conforme amplamente divulgado por observadores civis e militares, um fato auspicioso que veio contribuir decisivamente para a mudança desse cenário foi a chegada do EmbaixadorRyan Crocker a Bagdá, em março de 2007. Sua presença motivou uma mudança  radical na Missão Norte-americana no Iraque. Crocker, autoridade de mais alto nível do Departamento de Estado no Teatro de Operações, entendeu perfeitamente que, nessa altura dos acontecimentos, tornava-se impositivo o estabelecimento de uma sólida unidade de esforços, coordenada, em todos os níveis, pelo Comando do Teatro. E, tornando-se um aliado efetivo do Gen Petraeus, o seu engajamento foi decisivo, sobretudo, na elaboração e na execução de um Plano de Campanha Conjunto,  com base numa muito bem coordenada e sincronizada integração inter-agências.
        
Os Gen Petraeus e Odierno também modificaram  radicalmente o relacionamento até então estabelecido pelos seus antecessorescom as autoridades do Governo Iraquiano. Anteriormente, os Gen Casey e Chiarelli, preocupados com a pouca experiência dos novos governantes, evitavam envolvê-los na discussão dos temas de maior complexidade. Já Petraeus e Odierno, adotaram uma posição bem mais agressiva, levando as autoridades constituídas iraquianas (legitimadas por um processo democrático devidamente maturado de seleção, eleição e posse) a participar ativamente  da tomada de decisões críticas,  abandonando, de uma vez por todas, o comportamento anterior, tímido e profundamente contraproducente. Também nesse mister, mais uma vez, o engajamento do Embaixador Crocker foi decisivo para a consecução dos objetivos estabelecidos pelo Comando do Teatro de Operações.
        
Todos esses eventos altamente positivos produziram efeitos imediatos em todos os atores do cenário  iraquiano. As bem sucedidas ações ofensivas colocaram todas as forças irregulares em presença numa situação defensiva, que lhes é extremamente desconfortável. Um significativo número de grupos sunitas e xiitas viu-se motivado a abandonar a violência, na medida em que a grande maioria da população passou a acreditar na possibilidade de um futuro melhor sem as violentas confrontações. E o Governo Iraquiano incentivou essa postura com uma legislação focada na anistia e na reconciliação. Particularmente nas Províncias de Anbar,  Diyla, Babil e partes de Salah-ad-Din, irregulares depuseram suas armas e assumiram compromissos públicos de rejeição à  luta armada. Os grupos mais radicais como é o caso da Al Qaeda viram a sua influência sobre a população reduzir-se significativamente e, não raro, em diferentes regiões, manifestações de grande rejeição contra as organizações extremistas passaram a ocorrer.
      
Nesse contexto, avultou a relevância da crescente credibilidade obtida pelas Forças de Segurança Iraquianas, cujas unidades militares e policiais foram ativas participantes de todo esse esforço, tanto nas ações relacionadas com a segurança pública quanto naquelas de ação direta contra as forças irregulares.
 
       A Luta Continua
        
Dentre os principais ensinamentos colhidos na atual fase da Campanha, é possível destacar-se:
       - os aspectos militares conseqüentes da ofensiva de 2007 possibilitaram a consecução de progressos significativos, com relevantes repercussões em todas as áreas;
    - as Forças de Segurança Iraquianas estão crescendo em massa e eficiência operacional, o que está lhes permitindo assumir uma maior responsabilidade nos aspectos relacionados à segurança;
       - o enfoque da Missão, seja apenas na segurança da população, seja nos aspectos da transição, mostra-se bem menos eficaz do que quando esses aspectos são combinados;
       - a eliminação da Al Qaeda iraquiana, bem como dos grupos terroristas sob influência iraniana e demais grupos extremistas, demandam uma ação cerradamente coordenada e sincronizada entre forças convencionais e FOpEsp;
       -  o incremento do progresso político, inclusive a realização das próximas eleições gerais de 2009, está diretamente proporcional à estabilidade da segurança; estabilidade que pressupõe que os cidadãos se conscientizem de uma nacionalidade mais iraquiana  do que  xiita ou sunita;
      -  iniciativas políticas globais, regionais e cibernéticas são indispensáveis ao processo;
    - a gradual passagem de responsabilidade às autoridades iraquianas é impositiva, inclusive no que se refere a incrementar os aspectos da soberania nacional no processo, muito embora aquelas autoridades, muito criteriosamente, deixem claro que necessitam imperiosamente da permanência do atual contingente  multinacional durante todo o ano de 2008, sob uma nova Resolução do Conselho de Segurança da ONU.
      - a possibilidade do gradual  início da retirada do contingente norte-americano será possível, já a partir de 2008, conforme demonstrado pelo Gen Petraeus ao Congresso,  na medida do sucesso da implementação das infra-estruturas básicas nacionais.
       
Muito embora a evolução da situação em todo o País tenha sido significativa,  a consecução de um  final bem sucedido na Campanha ainda é incerto, conforme as  recentes declarações do Gen Petraeus ao Congresso. Enfatiza ele que batalhas de grande envergadura tais como a de Mosul ainda serão necessárias para a completa neutralização da Al Qaeda iraquiana, das milícias de Jaish-al-Mahdi e dos grupos sob orientação iraniana. Que é impositivo que a América e suas lideranças políticas e militares permaneçam apoiando continuamente as ações estratégicas desenvolvidas naquele Teatro, sob pena de que todos os relevantes   ganhos obtidos sejam perdidos. Um alerta que ganha uma dramática conotação em função das próximas eleições presidenciais.
       
Campanhas de contra-insurreição não são finalizadas com assinaturas de tratados ou  pomposas cerimônias militares. Inclusive, algumas vezes, só será possível saber se realmente  terminaram, anos após o fato. Na verdade, o Gen David H. Petraeus e o  LtGen Raymond Odierno demonstraram ao mundo que numa campanha de contra-insurreição moderna, eficiente e eficaz, é impositivo que os líderes militares, em ambientes operacionais críticos como este, sejam simultaneamente guerreiros, reconstrutores de uma nação, políticos, mediadores,  diplomatas e economistas.
       
De qualquer maneira, as ações desenvolvidas sob a responsabilidade do Gen David H. Petraeus e do LtGen Raymond Odierno  adaptando uma Doutrina sofisticada e flexível à mais refinada Arte Operacional, têm sido vistas por um significativo número de conceituados analistas militares como  uma das mais marcantes páginas da história militar norte-americana contemporânea.
 
 
REFERÊNCIAS
       
“COUNTERINSURGENCY”, FM 3-24, US Army ; MCWP 3-33.5, US Marine Corps.
       
“Report to Congress on the Situation in Iraq”, General David H. Petraeus, Commander of Multi-National Force-Iraq, 10-11 September 2007.
      
“The Patton of Counterinsurgency”, Frederick W.Kagan and Kimberly Kagan, Weekly Standard, 10 March 2008.