COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

06 de Maio, 2011 - 00:36 ( Brasília )

Análise - A Morte de Bin Laden e o Jihad Global

A eliminação de Bin Laden foi resultado da modificação da política antiterrorista dos Estados Unidos em 2009, que passou a dar mais ênfase à inteligência e à eliminação física dos líderes da al-Qaeda com aviões não tripulados.

 
Luiz Bettencourt [luizcmb@globo.com]
Analista internacional e membro do Grupo de Acompanhamento e Análise do Terrorismo Internacional (GAATI/UFRJ)
 

A morte do terrorista Osama Bin Laden por um Seal team pôs fim à caçada de quase 15 anos empreendida pelos EUA e intensificada após o 11/09. . A caçada teve inicio em 1996 quando o Presidente americano Bill Clinton deu a autorização para sua captura e a primeira tentativa de matá-lo ocorreu em 1998 após os ataques as embaixadas americanas na Tanzânia e Quênia. Segundo o governo americano, o processo que levou à morte do líder terrorista foi longo e começou com a identificação do seu mensageiro de confiança, em 2007, e da sua área de atuação, em 2009. Foi em agosto de 2010, com a localização da mansão em Abbottabad, Paquistão, que a operação teve início. Quando o presidente Obama, na semana passada, teve a certeza de que aquele era o local onde se escondia o líder da al-Qaeda, deu a ordem para o início da ação.

A eliminação de Bin Laden foi resultado da modificação da política antiterrorista dos Estados Unidos em 2009, que passou a dar mais ênfase à inteligência e à eliminação física dos líderes da al-Qaeda com aviões não tripulados (UAVs/VANTS)[1]. A estratégia de decapitação das lideranças tem restringido os movimentos da organização terrorista e dificultado suas ações de propaganda. Hoje seus líderes não conseguem mais postar na internet seus discursos com a velocidade necessária para capitalizar os eventos. Mas, apesar deste sucesso, a política de decapitação é historicamente falha na desarticulação de organizações terroristas, como mostram os estudos empíricos feitos pela pesquisadora americana Jenna Jordan. Suas pesquisas mostram que em apenas 17% dos casos em que as lideranças foram mortas ou presas a organização terrorista desapareceu. Segundo ela, as características comuns aos grupos estudados - menos de 10 anos de existência, menos de 100 membros e inspiração por ideologia não religiosa – não estão presentes na organização que era liderada por Bin Laden.

A reação americana ao atentado de 11/09 e a consequente perda do Afeganistão como local de refúgio e treinamento, concomitantemente às perdas causadas pelos combates em solo afegão e no Iraque, causaram o enfraquecimento da capacidade operacional da al-Qaeda, fato que a obrigou a se dispersar, a se reestruturar e a adotar regras mais rigorosas no seu cotidiano. Hoje ela continua a servir como guarda-chuva para diversos grupos jihadistas, tem diversas organizações afiliadas com funções operacionais – al-Qaeda do Magreb Islâmico, al-Qaeda da península Arábica, al-Qaeda dos Três Rios e o Talibã do Paquistão – e suas funções principais são a difusão da sua ideologia (que hoje e a dominante nos círculos jihadistas), o treinamento de membros de outras organizações jihadistas, de células autoformadas e o financiamento de suas afiliadas e dos grupos ligado a ela, bem como a divulgação da sua expertise terrorista através da internet para auxiliar as células autoformadas ou indivíduos a executar atentados.

O desaparecimento repentino de um líder carismático como Bin Laden pode causar dificuldades para qualquer organização terrorista, deflagrando uma luta interna pelo controle; no caso da al Qaeda, pode levar ao afastamento de suas afiliadas e grupos locais abrigados sob o seu guarda-chuvas, com estes se distanciando para prosseguir na sua luta por objetivos locais em vez de se empenharem na luta global.

Contudo, isto não deve ocorrer no caso daquela organização. A morte do líder e fundador da al-Qaeda não deve trazer transtornos, pois Bin Laden já havia nomeado como seu sucessor o seu segundo em comando, o médico egípcio Ayman al-Zawahiri, que de fato já vinha comandando a organização desde 2009. Zawahiri, apesar de não ter o mesmo carisma de Bin Laden, é o ideólogo da organização e um excelente estrategista. A médio e logo prazo, outros membros - como o americano de ascendência iemenita Anwar al-Awlaki, da al-Qaeda da Península Arábica - podem vir suprir a falta que o carisma de Bin Laden possa fazer sentir. Quanto ao afastamento, ele não deve ocorrer porque a al-Qaeda sempre deu aos grupos locais e às suas afiliadas a liberdade de perseguirem seus objetivos locais sem interferência.

O jihad global comandando pela al-Qaeda não vai desaparecer ou mesmo enfraquecer com a morte de seu líder e fundador. Apesar de o respaldo à organização vir diminuindo nos últimos anos, ela ainda tem o apoio de centenas de milhões de mulçumanos. Segundo pesquisas realizadas em 2010 pelo instituto Pew Research Center[2], em quatro dos cinco maiores países mulçumanos - Indonésia, Paquistão, Egito e Nigéria, que representam, juntos, 34% da população mundial de mulçumanos - mostram que em torno de 20% da população dos três primeiros e 49% do ultimo são favoráveis à al-Qaeda. A porcentagem de apoio vem diminuindo desde as primeiras pesquisas realizadas em 2003, quando ficava em torno de 50%. A queda foi acentuada, mas ainda representa, em números absolutos, aproximadamente 130 milhões de pessoas somente nesses quatro países[3]. O apoio à al-Qaeda vem diminuindo por dois motivos: um deles é a condenação do terrorismo e da jihad por clérigos mulçumanos moderados; o outro é que, em consequência da matança indiscriminada de mulçumanos provocada por grupos jihadistas nas guerra do Iraque e do Afeganistão, a primavera árabe pode ajudar a acelerar a queda no apoio a al-Qaeda se a democracia for implantada com sucesso nos países onde os ditadores forem depostos.

A solução para o problema da al-Qaeda e do jihad global passa por dois caminhos: o enfrentamento às organizações terroristas e a deslegitimação da ideologia jihadista. Enquanto não se conseguir isolar o seu discurso, o Ocidente pode até destruir a al-Qaeda, mas dificilmente acabará com o terrorismo jihadista global.

 


[1] Jordan, Ravier El empleo de aviones de combate no tripulados contra al-Qaeda en Pakistán: ¿una estrategia eficaz? Real Instituto Alcano. Disponibilidade de acesso emhttp://www.realinstitutoelcano.org/wps/portal/rielcano/contenido?WCM_GLOBAL_CONTEXT=/elcano/elcano_es/zonas_es/ari152-2010#_ftn7