COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

19 de Novembro, 2005 - 12:00 ( Brasília )

CIA montou centros de ação conjunta em 20 países

Agentes americanos e locais atuam juntos na investigação, infiltração em redes e prisão de suspeitos de terrorismo

Dana Priest
The Washington Post


WASHINGTON - A CIA estabeleceu centros de operação conjunta em mais de 20 países onde agentes de inteligência americanos e estrangeiros trabalham lado a lado para seguir e capturar suspeitos de terrorismo e destruir ou penetrar em suas redes, segundo atuais e ex-agentes de inteligência americanos e estrangeiros.

Os Centros de Inteligência Contraterrorista (CIC) são financiados em grande parte pela agência e empregam algumas das melhores tecnologias de espionagem que a CIA tem para oferecer, incluindo aparelhos de comunicação segura, computadores ligados aos bancos de dados centrais da CIA e acesso a interceptações altamente secretas antes compartilhadas apenas com os aliados ocidentais mais próximos.

Os americanos e seus colegas nos CICs tomam decisões diárias sobre quando e como prender suspeitos, seja para mandá-los para outros países para interrogatório e detenção, seja para descobrir se recebem apoio logístico e financeiro da Al-Qaeda. A rede de centros reflete o que se tornou a principal e mais bem-sucedida estratégia da CIA no combate ao terrorismo no exterior: convencer os serviços de segurança estrangeiros a ajudar e dar-lhes meios para ioss.

Virtualmente a morte ou prisão de mais de 3 mil suspeitos de terrorismo desde 11 de setembro de 2001 fora do Iraque foi resultado da ação dos serviços de inteligência que trabalhavam em cooperação com a CIA, disse o vice-diretor de operações da agência a uma comissão do Congresso em uma sessão a portas fechadas no começo do ano.

A pista inicial sobre onde uma figura da Al-Qaeda esteja se escondendo pode vir da CIA, mas a operação real para pegá-la normalmente é organizada por um dos centros conjuntos e conduzida por um serviço de segurança local, sem a presença da CIA. “A grande maioria das nossas operações bem-sucedidas envolveu nossos centros”, disse um ex-funcionário de contraterrorismo. “O pé que derrubou a porta na hora da prisão era estrangeiro.”

Os centros também fazem parte de uma continua e fundamental mudança na missão da CIA, que começou logo depois dos ataques de 2001. O objetivo principal da agência não é mais recrutar adidos militares, diplomatas e agentes de inteligência para roubar segredos de seus países. A CIA de hoje está desesperadamente empenhada em unir forças com outros governos que não aprovava ou ignoravak, para combater um inimigo comum.

George Tenet orquestrou a mudança durante seu mandato como diretor da CIA, trabalhando com chefes de estação da agência no exterior e agentes de contraterrorismo nos QGs da agência, para aparofundar as ligações de inteligência no mundo inteiro depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Por trás da superfície visível da diplomacia, os esforços corporativos, conhecidos como relações de ligação, estão refazendo os acordos americanos no exterior.

A Casa Branca aumentou as críticas ao presidente usbeque Islam Karimov no último ano por causa de seu governo autoritário e a repressão aos dissidentes. Mas os esforços contraterroristas com o Usbequistão continuaram até recentemente.

Na Indonésia, enquanto o Departamento de Estado dava pequenas ajudas aos militares quando eles apresentavam progresso no combate à corrupção e no respeito aos direitos humanos, a CIA estava injetando dinheiro no país e desenvolvendo laços de inteligência depois de anos de tensão.

Em Paris, enquanto as autoridades americanas e francesas discutiam a invasão do Iraque em 2003, a CIA e o serviço de inteligência francês estavam criando o único centro de operações multinacional da agência e executando operações em nível mundial. A CIA operou centros de inteligência na Europa, Oriente Médio e Ásia, segundo funcionários e ex-funcionários de inteligência. Além disso, o centro multinacional em Paris, chamado Base Aliança, inclui representantes da Grã-Bretanha, França, Alemanha, Canadá e Austrália. “Os CICs são um passo adiante na codificação e organização de ligações”, disse um ex-funcionário de contraterrorismo da CIA. “São uma ferramenta no kit de ligações.”

A CIA não quis fazer comentar o assunto para este artigo. O Washington Post entrevistou mais de duas dezenas de atuais e ex-funcionários da inteligência e funcionários de inteligëncia estrangeiros de alto escalão, assim como fontes diplomáticas e do Congresso. A maior parte falou sob a condição de ficar em anonimato.