COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

02 de Maio, 2011 - 13:22 ( Brasília )

Morte de Bin Laden no Paquistão é saia justa para inteligência paquistanesa

Operação dos EUA nos arredores da capital paquistanesa levanta suspeitas sobre serviços de inteligência do país.

Uma breve nota do Ministério do Exterior paquistanês sobre as circunstâncias da morte de Osama Bin Laden não menciona as preocupações que ressoam profundamente no coração das autoridades de segurança do Paquistão.

Será que a inteligência paquistanesa realmente não sabia da presença de Bin Laden em uma mansão tão próxima da capital do país?

Será que as forças de segurança do país tiveram alguma ligação com a operação que resultou na eliminação do homem mais procurado do planeta?

Que impacto terá este episódio na versão oficial paquistanesa de que as redes extremistas estão confinadas às áreas tribais e que as cidades do país são espécies de santuários livres do extremismo?

Algumas destas questões já estão sendo levantadas pelas TVs e a imprensa paquistanesa.

E não importa quais sejam as respostas, elas apontam para uma perda de controle dos atuais responsáveis pela segurança do país em uma guerra que não terminou com a morte de Bin Laden.

Talvez isto explique o silêncio sepulcral de várias horas por parte das autoridades civis e militares paquistanesas sobre o assunto, além do insosso comunicado do Ministério do Exterior.

'Guerra de inteligência'

O pano de fundo para a morte de Bin Laden é a crescente tensão entre os Estados Unidos e o Paquistão em relação à presença de um número desconhecido de pessoal da inteligência americana em território paquistanês.

O tema emergiu como uma disputa de grandes proporções entre os dois aliados por ocasião de um incidente no qual o agente da CIA Raymond Davis matou a tiros dois paquistaneses na cidade de Lahore e foi preso em seguida.

Nas semanas seguintes à liberação do agente da CIA, o Paquistão pressionou os Estados Unidos a revelar o escopo de suas operações de inteligência no país.

Na época, as autoridades de segurança paquistanesas deram a entender que vinham coletando informações sobre a presença da inteligência americana no país, e que os dados eram chocantes.

As autoridades paquistanesas também indicaram que, nas negociações que permitiram a liberação de Raymond Davis, os Estados Unidos concordaram em informar o Paquistão sobre as suas operações de inteligência no país e, no futuro, trabalhar em conjunto com a inteligência paquistanesa.

Este fato foi mencionado pelo governo paquistanês como uma grande vitória, que lhe permitiria exercer, se não maior controle, pelo menos maior influência nos rumos da guerra.

A operação que resultou na morte de Bin Laden parece ter mudado tudo isso. A mídia paquistanesa já chegou ao consenso de que o país só soube da operação quando a missão já estava cumprida.

Se for verdade, isto reforça o argumento de que a única maneira de continuar combatendo o extremismo no Paquistão é mantendo as autoridades paquistanesas de fora.

Pressão

O fato não só coloca a inteligência paquistanesa sob pressão como põe sob escrutínio internacional as cidades paquistanesas.

Para o Paquistão, ficará mais difícil proteger cidades como Quetta, há muito considerada base para importantes organizações aliadas da Al-Qaeda e do Talebã, com a rede Haqqani, liderada pelo ex-líder militar Jalaluddin Haqqani.

Ao mesmo tempo, dois vizinhos paquistaneses, a Índia e o Afeganistão, reagiram à notícia da morte de Bin Laden com ares de pouca surpresa.

O Afeganistão terá mais subsídios para continuar afirmando que as raízes do terrorismo não estão em seu quintal, mas no território do vizinho, e que a comunidade internacional deve pressionar o Paquistão se quiser avançar na guerra contra o extremismo.

Já a Índia terá mais razões para pressionar por uma ação militar direta contra grupos militantes como o Lashkar-e-Taiba, que o país acusa de estar por trás dos atentados de Mumbai, em novembro de 2008.

Tanto a rede Haqqani como o Lashkar-e-Taiba são considerados aliados do serviço paquistanês de inteligência (ISI). Analistas acreditam que o Paquistão utiliza os dois grupos como meios para alcançar, por vias polêmicas, seus objetivos de política externa.

Passada a euforia ocidental pela morte de Bin Laden, o país pode no futuro se ver diante de uma pressão maior do que nunca para reorientar os seus objetivos de política externa e passar a depender menos de grupos militantes.

Isto não só pioraria as relações já delicadas do Paquistão com a comunidade internacional como poderia ser capaz de abalar a frágil democracia no campo doméstico.

Horas depois da operação que eliminou Bin Laden, o primeiro-ministro paquistanês, Yusuf Raza Gilani, soltou um comunicado descrevendo o resultado como uma grande vitória.

Muitos paquistaneses estarão se perguntando se o sentimento é ecoado entre as sigilosas autoridades de segurança paquistanesa.