COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

29 de Maio, 2017 - 12:40 ( Brasília )

O plano dos EUA para "aniquilar o Estado Islâmico" – e suas consequências

Trump anuncia estratégias militares mais agressivas para combater jihadistas do "Estado Islâmico" no Oriente Médio. Mas mudança tática pode pôr em risco a vida de civis e agravar deslocamentos, alerta especialista.

Os Estados Unidos prometeram perseguir mais agressivamente o grupo jihadista "Estado Islâmico" (EI) na Síria, cercando e matando tantos milicianos quanto possível, como parte de uma mudança de suas táticas militares com o fim de impedir que combatentes estrangeiros retornem a seus países.

A "campanha de aniquilação" – anunciada pelo Pentágono em 19 de maio, depois de o presidente Donald Trump ter aprovado partes de uma revisão da estratégia militar americana – reverte táticas anteriores que permitiam combatentes do EI escaparem de seus bastiões.

Trump ordenou uma "mudança tática, de forçar o EI a deixar seus territórios capturados, num combate de desgaste, para cercar o inimigo em suas fortalezas e o aniquilar ali mesmo", informou o secretário americano de Defesa, Jim Mattis.

"A intenção é evitar que combatentes estrangeiros que escaparam retornem para casa", pois podem vir a realizar ataques na Europa e em outros lugares. Milhares de jihadistas estrangeiros foram retirados da zona de batalha na Síria e no Iraque, mas cerca de 14 mil ainda permanecem, segundo dados da Interpol.

Civis em perigo

A mudança tática traz a ameaça de que Washington arriscará causar mortes de civis e mais deslocamento em larga escala ao perseguir ganhos militares mais rápidos. E, à medida que a campanha anti-EI progredir, os maiores riscos estratégicos dos EUA podem aumentar as cisões étnicas, sociais e sectárias no longo prazo, com potencial de fortalecer os extremistas, alertam especialistas.

"A mudança de abordagem do governo Trump reflete uma avaliação de que a principal ameaça representada por combatentes sobreviventes do EI provém dos que vieram da Europa e poderiam retornar ao continente para perpetrar atos de violência. Se essa avaliação estiver correta, então eliminá-los no Iraque e na Síria poderia fazer sentido", admite Joost Hiltermann, diretor para o Oriente Médio e Norte da África da ONG International Crisis Group.

"Há outra análise que considera o EI uma organização com raízes e liderança primariamente sírias e especialmente iraquianas. Nesse caso, a erradicação de seus combatentes, com altos custos de vidas civis e destruição de áreas civis, pouco faria para erradicar o sentimento político que deu origem ao EI em primeiro lugar, e prepararia o caminho para a ascensão de um EI versão 2.0 – possivelmente uma forma ainda mais virulenta", acrescenta Hiltermann.

Anteriormente, Trump já delegara maior autoridade aos comandantes para conduzirem operações militares mais agressivas e pontuais contra o "Estado Islâmico". A decisão veio em resposta a críticas de que o governo Barack Obama "microgerenciou" operações militares e se absteve de medidas que poderiam resultar em grande número de vítimas civis.

A ampla liberdade concedida aos militares americanos parece ter aumentado a cifra de civis mortos. O grupo de monitoramento Airwars registrou, só em março, quase 1.800 mortes de civis em ataques aéreos da coalizão liderada pelos EUA na Síria e no Iraque – três vezes mais do que em janeiro. Os números do Pentágono são bem menores: segundo o órgão militar, menos de 400 pessoas teriam morrido desde o início da operação americana no Oriente Médio, em 2014.

Luta por Mossul

A mudança na estratégia americana coincide com o anúncio de que, desde junho de 2014, a coalizão internacional chefiada por Washington, apoiada por forças terrestres no Iraque e na Síria, teria libertado 55% do território antes ocupado pela milícia jihadista.

Centenas de milhares de civis, a maioria árabes sunitas, foram deslocados tanto na Síria como no Iraque, nesse processo, aumentando a perspectiva de transformações demográficas a longo prazo e de ressentimentos latentes entre a população.

Em sete meses, com apoio dos EUA, a ofensiva do Exército iraquiano e dos curdos peshmerga já retomou das mãos do EI quase 90% de Mossul, a segunda cidade maior do Iraque.

A tentativa de reconquistar o território tem sido complicada pelos franco-atiradores e homens-bomba do EI, bem como por seu uso de escudos humanos. Centenas de civis foram mortos ou feridos, inclusive em ataques aéreos realizados pelas forças americanas, grandes áreas da cidade estão destruídas.

Mais de 700 mil pessoas foram deslocadas, de acordo com as Nações Unidas. Na terceira semana de maio, a organização internacional advertiu que outros 200 mil civis podem ser forçados a deixar suas casas, enquanto as forças de segurança prepara uma ofensiva final para erradicar o EI da parte antiga da cidade.

Árabes versus curdos na investida sobre Raqqa

A oeste e sudoeste de Mossul, grupos paramilitares xiitas conhecidos como unidades de mobilização popular, em coordenação com o Exército iraquiano, cortaram a rota de fuga do EI para a Síria, cercando os milicianos num enclave a oeste de Mossul.

À medida que o EI é pressionado no Iraque, as Forças Democráticas Sírias (SDF), apoiadas pelos EUA, preparam uma ofensiva contra a autodeclarada capital do grupo extremista, Raqqa, seguida de um possível ataque pelo vale do rio Eufrates abaixo, em direção à fronteira iraquiana.

O plano é complicado pela presença de forças do regime sírio em Deir ez-Zor. Paralelamente, o Exército iraquiano avançaria em direção à fronteira. A batalha por Raqqa promete ser longa e sangrenta: dezenas de milhares dos mais de 200 mil residentes poderão ser obrigados a se deslocar, e muitos, ser mortos.

As SDF têm cerca de 50 mil soldados, incluindo curdos, árabes, turcomanos e cristãos, mas são dominadas pela milícia curda Unidades de Defesa Popular (YPG), uma ramificação do grupo militante curdo Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que luta contra o governo turco há quase quatro décadas, sendo classificado como terrorista por ele.

As Forças Democráticas foram formadas em 2015, por incentivo dos Estados Unidos, tanto para atender às preocupações da Turquia sobre a dominância das YPG, como para dar um rosto árabe a quaisquer forças que liberem o território predominantemente árabe sunita, ao sul de regiões predominantemente curdas.

"Os americanos estão falando sobre táticas, mas a estratégia se baseia em os EUA confiarem numa milícia curda para, como dizem, 'libertar' áreas quase puramente sunitas e árabes em nome da luta contra o EI", diz Khaled Yacoub Oweis, do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP).

Mas, para a população local, as YPG estão no mesmo nível do "Estado Islâmico" e do regime de Bashar al-Assad, adverte o especialista. "Os EUA estão lançando as bases para uma guerra étnica de longo prazo na Síria, enquanto os curdos vão se apropriando de terras do território árabe."

A expectativa é que as YPG liderem a ofensiva contra Raqqa, enquanto as autoridades americanas afirmam que os componentes árabes das SDF manterão o controle depois que a cidade for liberada. A questão é se os curdos sírios vão realmente entregar o poder do que restar da Raqqa pós-EI.

 


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