COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

28 de Janeiro, 2017 - 13:00 ( Brasília )

DAESH - mais fraco, porém não o bastante

O pesquisador Frederico Aranha analisa que as recentes derrotas do DAESH não são ainda o suficiente para deixá-lo fora de combate



DAESH  - MAIS FRACO, PORÉM NÃO O BASTANTE


Quando eles forem derrotados, voltarão a ser o que sempre foram, uma ideia que continuará a encantar muita gente, principalmente jovens capazes de sacrificarem suas vidas em nome da causa.
 

                                                 O que não o mata ... torna-o mais forte.
Nietzsche, Ecce Homo: How One Becomes What One Is (1888)
 

Frederico Aranha – Pesquisador
aranha.frederico@gmail.com

 

A receita do DAESH está cada vez mais reduzida devido a vários fatores adversos, embora, mesmo afetando sobremodo a organização, não a incapacita. A Deutsche Welle teve acesso a um estudo da empresa de consultoria IHS Financial, Berna, o qual informa que a receita do grupo em 2015 alcançava mais de 80 milhões de dólares/mês, mal chegando em 2016 a 40 milhões de dólares/mês. O DAESH é ainda muito forte em toda a região do Oriente Médio e alhures, nas chamadas Povíncias – no Norte da África e África Central, Ásia Central, Extremo Oriente – porém suas perdas financeiras são significativas, tornando-se uma ameaça à sua sobrevivência a longo prazo, diz o coautor do estudo Ludovic Karlino.

Ataques aéreos realizados pela Coalizão, e eventualmente pela Rússia, têm atingido fortemente a estrutura do movimento. Nos últimos quinze meses o Daesh perdeu grande parte do território ocupado – cerca de 90.000 km² em janeiro de 2015 e agora não mais de 55.000 km². O número de habitantes sob controle do grupo decresceu de quase 10 milhões no ano passado para menos de 6 milhões agora.
             
Metade do orçamento do grupo advém de taxas e confiscos. A gente que vive em áreas controladas pelo Daesh é obrigada a pagar uma série de encargos e, não raro, suas propriedades são confiscadas. A venda de petróleo e derivados ainda proporciona cerca de 30% da receita do Daesh, informa a Deutsch Welle. Ocorre que os territórios perdidos são exatamente aqueles onde se localizam algumas jazidas e estruturas de beneficiamento do petróleo e gás, conquanto ainda detenha reservas no Iraque, na Província de Ninive, e seis importantes reservas na Síria. O Wall Street Journal, baseado em infomes de agencias americanas e europeias, denunciou que o regime sírio está financiando fortemente o DAESH, por meio de compras maciças de gás e petróleo para manter o fornecimento de eletricidade. De acordo com as mesmas fontes, as transações com o regime de Assad são, hoje, a maior fonte de fundos para o grupo na Síria. Em todo o caso, a Coalizão e recentemente os russos vêm atacando maciçamente as instalações, sejam de exploração de gás e petróleo, sejam as refinarias, oleodutos e gasodutos.
             
O DAESH recebe doações de instituições privadas do Golfo, especialmente da Arábia Saudita. O governo de Riad repele as acusações e afirma que mantém severo controle sobre toda movimentação financeira. Os sauditas, no entanto, não conseguem bloquear os canais de envio de dinheiro ao DAESH por círculos privados, instituições religiosas e de caridade e fundações.
              
Os ataques aéreos e o avanço de tropas sírias, iraquianas, curdas, turcas e de vários grupos de milícias nos territórios ocupados estão atingindo gravemente o DAESH, já que quanto mais reduzida fica a área sob seu controle, menor é sua receita de taxas confiscatórias, bem como a oriunda das atividades criminosas como tráfico humano e de drogas. Os bancos iraquianos localizados em território controlado pelo DAESH estão proibidos de realizer transações internacionais.

Ademais, há algum tempo o governo iraquiano deixou de pagar os salários dos seus funcionários residentes nessas áreas, cujo montante chegava até 100 milhões de dólares mensais. Esse valor era taxado em 10% pelo Daesh, a título de movimentação bancária. Indivíduos e instituições associadas direta ou indiretamente ao grupo no plano internacional estão incluidas em lista negra, impedindo transações financeiras e comerciais em geral. A consequência direta da queda da receita forçou o corte dos salários dos militantes, causando a queda da filiação de novos adeptos.
             
O especialista em Oriente Médio Günter Meyer da Universidade de Mainz alerta que a organização terrorista está muito enfraquecida, mas não está derrotada. A Líbia, o Yemen, o Afeganistão são Estados desintegrados, falidos, para os quais o Daesh poderá se transferir eé óbvio que mesmo derrotado militarmente no Iraque e Síria, o que não é tarefa fácil, não implica o fim do Daesh, diz Meyer. De acordo com ele, a organização continua apta a operar plenamente e tem estendido suas ações para a Europa, onde se preve uma intensificação de atos terroristas não convencionais e surpreendentes.
              
Recentemente, o DAESH divulgou nas redes sociais que os famigerados comandantes kosovares Lavdrim Muhaxheri e Ridvan Haqifi, capitães de milícias muçulmanas dos Balcãs (albaneses, macedônios, bósnios, etc.), notórios assassinos conhecidos por sua extrema crueldade, estão de volta à Europa, acompanhados por “400 dos seus guerreiros”. Esse número é um evidente exagero, porém supondo que sejam apenas 10% deles, um número razoável, facilmente infiltrados entre refugiados, representam uma ameaça extraordinária para a segurança europeia.
              
Em 2014, o DAESH obteve estrondosas vitórias militares e políticas, ganhando momentum, novos recrutas e apoios a cada triunfo. Quem poderia prever que, em uma década, entre 2004 e 2014, a franquia terrorista da Al Qaeda no Iraque se transformaria no Daesh, adotaria uma visão apocalíptica do “Fim dos Tempos”, reintroduziria a escravidão, abraçaria a guerra sem limites, ameaçaria as grandes potências e conquistaria um mini-império em terras da Síria e Iraque, com fiéis associados nas Wilayat (províncias) na Líbia, Nigéria Afeganistão e alhures? O avanço relâmpago do DAESH pode ser parcialmente explicado pelo que os psicólogos chamam “efeito da vitória”, no qual o know-how apreendido nos triunfos aumenta a chance de futuras vitórias.

O sucesso do grupo no campo de batalha pode sugerir que a história da ascensão do Daesh está escrita nas estrelas pela mão de Deus. As vitórias fazem verossímil o inacreditável. Para os militantes estrangeiros, a marca registrada do Daesh – fé, camaradagem, sexo, assassinatos e tortura, é mais entusiasmante quando colada ao triunfo. A medida que o grupo grassou pelo noroeste do Iraque, os habitantes locais, neutros de certa forma, decidiram apoiar o time vencedor.
                   
O DAESH tem um histórico de responder às perdas com agressão. Estabelecer um Califado foi um movimento arriscado, porque criou uma medida métrica para o sucesso: controle territorial, propagado no slogan “permanecer e expandir”. Se o Califado se expande, o DAESH vence; se encolhe, perde. Será muito difícil à liderança explicar para os militantes a perda de Mosul, a capital do Califado, ou Racqua, a capital de fato na Síria. De qualquer maneira, o Daesh tem múltiplas identidades além de suposto “Estado” – insurgente, grupo terrorista, “guerreiros cósmicos” – o que permite reimaginar outros meios de se vitoriar. Se perder território no Oriente Médio (o que fatalmente vai ocorrer), pode expandir o campo de batalha para outras regiões ou adotar novas táticas para manter a iniciativa.
              
Em meados de 2010, a al-Qaeda no Iraque (nessa época conhecida como Estado Islâmico do Iraque ou ISI) conseguia se recuperar da quase morte causada pela Operation Awakening (Operação Despertar), ação conjunta americana, iraquiana e de forças tribais sunitas. Dos 42 altos líderes da al-Qaeda, 34 foram mortos ou capturados num curto período de tempo, cortando a cabeça do grupo. A retirada americana e o fim do programa em 2009 proporcionou ao ISI a recuperação.

Quando a Guerra civil eclodiu na Síria, o grupo, num golpe estratégico magistral, invadiu o país vizinho “adquirindo” um santuário necessário à segurança coletiva e possibilitando uma explosiva expansão para tornar-se o ISIS – The Islamic State of Iraq and Al Sham (Estado Islâmico do Iraque e Síria), posteriormente IS – Islamic State (Estado Islâmico) ou Daesh em árabe. É preciso lembrar que nos anos que antecederam a eclosão da Guerra Civil, o regime sirio permitiu o livre trânsito pelo país de militantes da Al-Qaeda para o Iraque, de modo que a situação na Síria – o ódio ao regime, as rivalidades tribais, a corrupção generalizada, a desmoralização do Exército, a força das milícias privadas, lhes era bem conhecida e souberam explorar essa conjuntura.
              
Os vários ataques na França, Paquistão, em Bruxelas, Berlim, Istambul e Bagdá podem representar uma tentaiva do Daaesh de prevenir o “efeito perdedor”. À medida que o Califado se expandia, era desnecessário correr riscos atacando na Europa e, fatalmente, provocar ataques de retaliação que ameaçariam seu “território”. Mas a derrota encoraga a gente a arriscar-se, ao invés de aceitar um certo declínio. Atingindo o inimigo no Oeste pode tirar o foco dos partidários sobre as falhas cometidas contra o inimigo íntimo em casa. Logo após o ataque em Bruxelas, o Daesh entulhou as redes sociais com imagens das explosões. O Daesh não luta só para vencer, mas também para definir meios de triunfar.
              
Poderá o DAESH sobreviver à fama de perdedor? O que é possível afirmar é que o Daesh será derrotado, não se pode prever exatamente quando. A resistência do grupo e a capacidade de contra-atacar é incerta e surpreendente. A retomada da emblemática cidade de Palmyra na Síria, infringindo derrota contundente às tropas do regime sírio apoiadas por mílicias estrangeiras e advisers russos, capturando considerável quantidade de equipamento militar e ameaçando a base aérea T-4, importante e vital centro de comando e abastecimento na Província de Homs, demonstra a capacidade de recuperação do grupo.

Igualmente a base aérea de Dreir-ez-Zor, no leste sírio, sob cerco do Daesh há dois anos, corre o risco de cair. No Iraque, a ofensiva contra Mosul transformou-se num verdadeiro pesadelo para as tropas atacantes, iraquianos, curdos, milícias de diversos matizes, americanos e outros membros da coalizão. Apesar dos desgastantes combates de rua, construções minadas e ataques suicidas e de drones, mais de 70% da cidade já foi liberada. A reocupação total dessa importante metropóle pode demorar algum tempo.
              
Uma coisa é certa: a derrota do DAESH na Síria e no Iraque poderá gerar uma realidade assustadora no explosivo Oriente Médio, pois os efetivos e profundos problemas da região, sejam de caráter religioso, sejam políticos, não restarão solucionados, muitos deles até agravados.
 
Fontes de Consulta

https://southfront.org/
http://www.politika.rs/scc/clanak/354013/Islamska-drzava-oslabljena-ali-nije-pobedenahttp://www.reuters.com/
https://www.ihs.com
https://www.ctc.usma.edu/
http://understandingwar.org./

 

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Textos do Pesquisador Fredereico Aranha:

ESTADO ISLÂMICO - ASPECTOS OPERACIONAIS: Revolução Tática ou Infantaria Leve na Era Global Novembro 2015 Link

INTERVENÇÃO RUSSA NA SÍRIA. Vladimir de Taurus vai à Guerra Novembro 2015 Link

EI – Estado Islâmico. Surgimento e Evolução Junho 2015 Link

Lawrence da Arábia - Princípios da Insurreição Março 2015 Link


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Estado Islâmico - Só tememos os Israelenses Abril 2016 Link