COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

19 de Outubro, 2016 - 10:40 ( Brasília )

Libertação de Mossul não será o fim do EI

"Estado Islâmico" continuará sendo um problema tanto no Oriente Médio como em outras partes do mundo, especialmente na Europa, com mais foco em ações terroristas isoladas e menos na manutenção de território.

Os resultados do primeiro dia da campanha para retomar Mossul foram excelentes, afirmou o general iraquiano Najm al-Jabouri. Ele assegurou que alguns vilarejos nas imediações da metrópole, tomada pelo "Estado Islâmico" (EI) no verão de 2014, já foram libertados. Cerca de 60% dos lançadores de foguetes e minas terrestres em torno da cidade foram destruídos, segundo militares iraquianos ouvidos pelo jornal Al-Araby Al-Jadeed. "Nas primeiras horas da ofensiva, tivemos ganhos territoriais substanciais e pouca resistência do EI", afirmou o porta-voz do Exército.

É difícil prever como a batalha por Mossul vai evoluir nas próximas semanas e meses. No entanto, é possível tirar algumas conclusões com base no que aconteceu até agora. E de acordo com especialistas, elas dão poucos motivos para acreditar que o grupo estará logo derrotado e fora de ação. Ao contrário, o EI continuará sendo um problema tanto no Oriente Médio como em outras partes do mundo, especialmente na Europa – embora não mais em sua forma atual, mas numa nova, modificada.

"É previsível que o EI não conseguirá mais manter sua pretensão de ser um Estado ou califado", afirma Reuven Erlich, diretor do Centro de Informação sobre Inteligência e Terrorismo do Center for Special Studies em Herzliya, Israel. Segundo ele, a milícia jihadista estará cada vez mais sob pressão no Iraque e na Síria, o que vai obrigá-la a abandonar sua atual estrutura. Entretanto, a organização não vai se dissolver. "Nas novas circunstâncias, o EI voltará a ser uma organização terrorista sunita, como era em seu início, só que com capacidades operacionais muito melhoradas", avalia o especialista.
 

Erlich afirma que o EI vai prosseguir suas atividades executando ações menores e mais localizadas. Além disso, o grupo será beneficiado pela futura situação política e social da região, com uma série de Estados instáveis, especialmente Iraque, Síria, Iêmen e Líbia, cujos governos serão incapazes de proporcionar segurança e serviços públicos básicos aos seus cidadãos. "Isso vai continuar atraindo simpatizantes e recrutas para o EI", avalia Erlich.

Sucessos ideológicos

Os analistas do McCain-Institute for International Leadership, da Universidade do Arizona, tem opinião semelhante. Embora a perda territorial vá enfraquecer o EI significativamente, a ideologia do grupo terrorista ficará preservada e continuará a atrair pessoas. "Assim, é possível que o EI continue inspirando terroristas em todo o mundo, numa escala sem precedentes", afirmam. O sucesso do EI pode ser medido pela campanha presidencial americana, onde ele se tornou uma questão central.

Para os especialistas, o EI conseguirá manter sua reputação em todo o mundo depois que seu "califado" for destruído, sobretudo através da internet. Segundo o jornalista Abdel Bari Atwan, autor de Islamic State: The Digital Caliphate (Estado Islâmico: o califado digital), o EI tem 100 mil contas no Twitter, nas quais difunde diariamente 50 mil mensagens. Adam Hanieh, da London School of Oriental and African Studies (SOAS), calcula que o EI lance todos os dias 40 novas publicações nas redes sociais – incluindo textos, vídeos, galerias de fotos e áudios.

Entre essas mensagens está uma convocação feita pelo antigo chefe de propaganda do EI, Taha Sobhi Falaha, ou Abu Muhammad al-Adnani, morto recentemente num bombardeio no norte da Síria. Em abril, ele convocou seus seguidores a matar "infiéis" e acrescentou que aqueles que não dispuserem de bombas ou armas deveriam usar pedras, cortar gargantas ou queimar carros e casas.
 

Erlich avalia que esse tipo de propaganda tem potencial para atrair terroristas que agem de forma individual, os chamados lobos solitários. Além de ataques espetaculares de grandes dimensões, como os que aconteceram em Paris em novembro de 2015, pode-se esperar também numerosos ataques menores, que não são nem planejados nem executados pelo EI, mas inspirados na organização.

Exemplos desse tipo de atentado não faltam em 2016 e incluem o ataque com um machado num trem regional no sul da Alemanha, o ataque a um clube noturno frequentado por homossexuais em Orlando, além do massacre executado por um jovem tunisiano em Nice, com 86 mortos e mais de 200 feridos.

"O sangue de Mossul"

Perigos consideráveis ?também são ?esperados pelo diretor do FBI, James Comey. Ele afirma que o "califado" do EI será destruído, mas pondera que, em meio ao caos de seu colapso, surgirão centenas de pessoas muito perigosas, e estas não vão limitar suas ações ao Oriente Médio. "Nos próximos dois a cinco anos haverá uma diáspora terrorista jamais vista", alerta.

Pesquisadores do McCain Institute acreditam que há ainda um perigo adicional, criado pela geração de crianças nascidas nos territórios controlados pelo "Estado Islâmico". "Essa geração não vai conhecer nada além de terrorismo e, portanto, representar uma ameaça de longo prazo."

A batalha por Mossul não vai impedir nenhuma dessas ameaças. Ao contrário, deverá reforçar o extremismo ainda mais. O analista político Tallha Abdulrazaq escreve no Al-Araby Al-Jadeed que a cidade poderá se tornar sinônimo de um inferno muito pior do que aquele que aflige o povo de Aleppo. "Do sangue e das cinzas de Mossul poderá surgir um perigo muito maior do que aquele representado hoje pelo EI", afirma.

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Por que usar Daesh em vez de Estado Islâmico? [link]