COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

29 de Dezembro, 2015 - 10:25 ( Brasília )

George W. Bush se reabilita para opinião pública dos EUA

Ainda a semanas do fim das prévias dos republicanos, na opinião pública já há um claro vencedor para a temporada eleitoral de 2016. E não é Donald Trump, Ben Carson ou Marco Rubio – mas o ex-presidente Bush "Filho".

Não há dúvida de que George W. Bush está na mente de todos nesta campanha eleitoral. Seu irmão e ex-governador da Flórida, Jeb, é pré-candidato à presidência dos EUA pelo Partido Republicano. Em sua campanha, ele tenta freneticamente se dissociar do clã familiar, usando um ponto de exclamação no lugar do sobrenome – mas sem sucesso.

Em julho, George W. e seu antecessor, Bill Clinton, posaram amigavelmente para a capa da revista Time e discutiram o "negócio de família". E – com o medo do terrorismo islâmico após os ataques em Paris e San Bernardino – a "guerra contra o terror" e o homem que cunhou esse termo não estão longe da mente dos eleitores. Ou dos pré-candidatos republicanos.

"Estou cansado de bater no [Jeb] Bush. Sinto falta de George W. Bush! Gostaria que ele fosse presidente neste momento!", exclamou Lindsey Graham, senador da Carolina do Sul, durante um debate entre os pré-candidatos republicanos na última semana.

De acordo com o conservador linha-dura, que abandonou na última segunda-feira a corrida pela indicação republicana à disputa da presidência dos EUA, Bush seria um melhor comandante-chefe na atual luta contra o "Estado Islâmico" (EI) do que o presidente Barack Obama.

Embora naquela noite os republicanos que lideram a pré-corrida eleitoral evitassem mencionar o nome do ex-presidente, ao debaterem a legitimidade da mudança de regime no Oriente Médio, o legado da administração Bush rondava o palco.

Origens e soluções para o terrorismo

"Acho que Lindsey Graham realmente preferiria que Bush ainda fosse presidente. Ele provavelmente também gostaria que Ronald Reagan ainda fosse", comenta Roger Sacher Jr., do Clube dos Jovens Republicanos de Nova York. E acrescenta que, confrontados com a alternativa – um presidente democrata –, a maioria dos republicanos concordaria com Graham.

Entretanto uma pesquisa da CNN/ORC, em meados deste ano, revelou que talvez até mesmo não republicanos partilhem tais sentimentos: pela primeira vez em uma década, há mais americanos a favor de George W. Bush do que contra.

Entre os adultos consultados, 52% tinha uma impressão favorável de Bush – contra cerca de 30%, ao fim de seu mandato, em 2009. Mesmo ele deixando para trás uma economia abalada, com um enorme déficit, guerras prolongadas e um Oriente Médio desestabilizado. Na época, só os republicanos avaliavam a legislatura Bush de forma positiva – ainda assim, apenas 50% deles.

Não é só o enfraquecimento da campanha de Jeb Bush que faz a opinião pública e os políticos desviarem o foco para o irmão mais velho: com o terrorismo de volta à agenda, há a questão fundamental de como será a política externa americana, lembra Sacher: "O debate político é sobre se a doutrina Bush continua sendo viável do ponto de vista político e doméstico."

Como a maioria em seu partido, o jovem republicano crê que a solução para a ameaça terrorista é exterminar o EI. "Eu diria que o modelo para tal seria a última vez que entramos com tudo para esmagar um grupo terrorista. E isso foi a Al Qaeda, no Afeganistão."

Bush "modelo de estadista"?

Não há dúvida que o cenário atual dos candidatos republicanos faz o público americano voltar um olhar mais carinhoso para o impulsivo "homem de decisões", como Bush se definiu, certa vez.

Curiosamente, dias antes dos comentários do senador Graham, o comediante Will Ferrell se disfarçou de Bush para anunciar sua corrida pela presidência, no programa humorístico Saturday Night Live: "O campo dos republicanos lá fora está tão confuso, que eu imaginei que vocês iam sentir minha falta, não é?"

Depois do 11 de Setembro, Bush se esforçou para assegurar aos muçulmanos americanos que o país não estava em guerra contra eles ou sua fé. Por sua vez, candidatos como Donald Trump e Ben Carson preferem dividir o país com a retórica anti-islâmica.

"Comparado com Donald Trump, Bush parece um modelo de estadista", escreveu na revista Time, no início deste mês, o cientista político Francis Fukuyama, autor do livro O fim da história e o último homem.

É como se os acontecimentos atuais estivessem reescrevendo a história de uma presidência – segundo a maioria dos historiadores – não muito bem-sucedida. Na recém-lançada biografia Destiny and power: The American odyssey of George Herbert Walker Bush(Destino e poder: A odisseia americana...), Bush "Pai" investiu contra o ex-vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa Donald Rumsfeld, por seus papéis durante a presidência de George W..

"Por um tempo, havia uma visão incorreta de Bush 'Filho' como um idiota e fantoche de seu vice-presidente", observa George C. Edwards III, professor de ciências políticas da Universidade A&M, no Texas, e autor de diversos livros sobre a presidência.

"Mas a batata quente ficou com o 43º presidente. Muita gente está contente em responsabilizar George W. Bush. Apesar de as opiniões sobre ele terem mudado um pouco, não se vê o público dizendo que foi uma época de ouro." De acordo com Edwards, Bush está longe de estar reabilitado: "Há muito pouca informação como base para avaliá-lo".

Geração do milênio reavalia W.

A geração do milênio, que é jovem demais para ter muitas lembranças da presidência Bush, ignora os partidarismos. Em dezembro de 2013, a revista Vanity Fair consagrou George W. como "ícone hipster autêntico". Prova disso seria o frenesi online provocado pelos retratos feitos por Bush de seu cão Barney e de vários estadistas, como a chanceler federal alemã, Angela Merkel. Mídias como Buzzfeed e Huffington Post chegaram aos limites de suas capacidades, no compartilhamento da obra artística bushiana.

"Com o passar do tempo, as pessoas esquecem porque não gostavam de um presidente", explica o autor Richard Norton Smith. E para esse efeito amenizador contribuíram também o trabalho ativo do ex-chefe de Estado e esposa na promoção dos direitos das mulheres e na reforma educacional através do Bush Center, em Dallas; assim como o enorme sucesso de suas memórias e de seu livro sobre George "Pai", avalia o historiador especializado nas presidências americanas.

Após um tempo, as paixões arrefecem. Smith compara o fim de uma presidência polarizadora ao retorno de uma cápsula espacial. "Ela se aquece terrivelmente quando reentra na atmosfera. Mas então completa a trajetória, cai na água e se esfria. Os presidentes passam por uma tempestade de fogo durante o mandato."