COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Inteligência

17 de Novembro, 2015 - 11:40 ( Brasília )

A crescente cena jihadista na Bélgica

Nos últimos anos, pequeno país se tornou celeiro para o jihadismo europeu. Muitos combatentes vêm de áreas pobres, e especialistas criticam falta de esforços para integração de muçulmanos à sociedade.



Por volta de 11 mil combatentes estrangeiros juntaram-se a jihadistas na Síria e no Iraque entre 2011 e 2013, e quase um quinto deles partiu da Europa Ocidental, segundo o Centro Internacional para o Estudo da Radicalização e Violência Política (ICSR). Com ao menos 296 combatentes, a Bélgica está no topo da lista em termos de números absolutos.

Para efeito de comparação, na Alemanha, um país oito vezes maior, estima-se que haja até 240 combatentes na suposta "guerra santa". Em relação à população, a Bélgica tem 27 combatentes para cada milhão de habitantes, sendo, portanto, o principal "fornecedor" de jihadistas europeus.

"Os belgas afrouxaram as rédeas quanto à observação da cena [jihadista] e medidas preventivas", diz Asiem El Difraoui, cientista político especializado em Oriente Médio, em entrevista à DW.

Para os fracassos na luta contra o terrorismo islâmico, ele vê uma razão clara: o conflito interno no país europeu. "Os belgas estão, simplesmente, muito preocupados com eles mesmos." Há anos, a rivalidade entre flamengos (língua holandesa) e valões (língua francesa) tem impedido o governo de cuidar dos problemas internos do país, diz o especialista.
 

Da pequena cidade à jihad

A pequena Verviers, no leste do país, tornou-se símbolo do que é tão atraente para alguns cidadãos nessa forma militante extrema do islamismo. Pesquisadores da Universidade de Liège estudaram a integração e as condições sociais em Verviers, uma das cidades mais pobres da Bélgica. Dos 53 mil habitantes, cerca de 15% têm origem imigrante.

Ao todo, 117 nacionalidades vivem na cidade, entre elas a segunda maior comunidade chechena do país, que é considerada uma espécie de núcleo de combatentes islâmicos.

No começo de 2015, ficou claro como a cena jihadista tornou-se mais violenta quando dois islâmicos foram mortos numa batida da polícia belga por suspeita de planejarem ataques terroristas. Eles haviam aberto fogo contra os oficiais com armas automáticas.
 

Perspectivas econômicas

Não só os muçulmanos radicais na Bélgica são um problema: a discriminação no mercado de trabalho também é grande. Cerca de 6% dos belgas são muçulmanos, e mesmo quando falam a língua perfeitamente ou são falantes nativos são tratados como estrangeiros, aponta um estudo da Rede Europeia Contra o Racismo. A taxa de desemprego entre as pessoas que nasceram fora da União Europeia (UE) em 2012 foi três vezes maior que a dos nascidos na Bélgica.

A Anistia Internacional também criticou o governo belga pela falta de esforços para a integração. Segundo um estudo de 2012, a empresas foi facilitada a recusa de candidatos a um emprego por causa da religião. As mulheres muçulmanas que usavam o véu foram as mais afetadas.

A frustração resultante de situações como essa faz com que seja mais fácil grupos fundamentalistas violentos radicalizarem indivíduos a favor de sua causa.


Ponto de virada?

Embora o problema seja conhecido há muito tempo, o governo belga investe mais em políticas simbólicas e de segurança que em medidas de integração eficazes. Em 2009, a cidade de Antuérpia proibiu o uso do véu islâmico em público.

Dois anos mais tarde, a Bélgica criou uma lei que gerou um grande alarde. No ônibus, durante uma caminhada ou no cinema, mulheres foram proibidas de usar burca, sendo aplicada uma multa de 137,50 euros em caso de violação da lei. Das quase 200 mil mulheres muçulmanas no país, "apenas" 270 foram afetadas.

Num julgamento em 2012, a organização Sharia4Belgium, que abertamente recruta combatentes jihadistas, foi oficialmente proibida. Na maior ação judicial da história da Bélgica contra o terrorismo islâmico, o chefe do grupo radical, Fouad Belkacem, foi condenado a 12 anos de prisão em fevereiro de 2015 . Depois de vários ataques, o governo estabeleceu, no início deste ano, o alerta de terrorismo e reforçou a vigilância telefônica.

El Difraoui espera que, depois dos atentados de Paris, maiores esforços sejam feitos para integrar os cidadãos muçulmanos do país à sociedade – uma das condições para combater o radicalismo islâmico. Talvez pressão de fora do país seja necessária, diz. "Os franceses não vão mais aceitar que a Bélgica continue tão inativa."
 

Ataques colocam eficácia da inteligência francesa em questão

Enquanto a França e outros países europeus investigam os ataques da última sexta-feira (13/11) em Paris e tentam identificar e prender responsáveis, surgem questões sobre a eficiência dos serviços de inteligência franceses.

Apesar do aumento de investimentos em defesa e do número de forças de segurança após o ataque ao jornal satírico Charlie Hebdo, em janeiro deste ano, as autoridades não conseguiram impedir os recentes atentados que deixaram 129 mortos e mais de 350 feridos na capital francesa. Além disso, Turquia e Iraque teriam alertado sobre um dos supostos envolvidos nos ataques de 13 de Novembro e possíveis atentados do "Estado Islâmico" (EI) em território francês, respectivamente.

Para alguns especialistas, a escala e a complexidade das ameaças jihadistas teriam simplesmente sobrecarregado o sistema de defesa e inteligência da França – o que poderia justificar a falha em prever e impedir os atentados. Até agora, os responsáveis pelos serviços de inteligência do país não apresentaram justificativas.

Especula-se que os ataques em Paris envolvam o popular console de videogame Playstation 4. Citado pela revista americana Forbes, o ministro do Interior da Bélgica, Jan Jambon, disse que membros do EI usam o equipamento para se comunicar, em jogos que permitem o contato entre os jogadores. "O Playstation 4 é ainda mais difícil de ser monitorado do que o Whatsapp", afirmou.

A Forbes ressaltou que Jambon estava falando de táticas que seriam usadas pelo EI em geral e que ainda não há evidências sobre o uso do Playstation no planejamento dos ataques de 13 de Novembro.

A mídia americana especula ainda que os terroristas usem aplicativos de celular codificados para que sua comunicação não seja captada pelos serviços de inteligência.
 

Informações da Turquia e do Iraque

Um alto funcionário do governo da Turquia afirmou nesta segunda-feira à agência de notícias AFP que forneceu informações à França em duas oportunidades, em dezembro de 2014 e junho de 2015, sobre um dos suspeitos de envolvimento nos ataques realizados em Paris na sexta-feira, Omar Ismaïl Mostefaï.

Segundo o funcionário, que falou em condição de anonimato, a Turquia teria recebeu em 10 de outubro de 2014 um pedido da França por informações sobre quatro suspeitos de terrorismo, mas não sobre Mostefaï, que havia sido identificado por Ancara como um potencial suspeito. Por duas vezes, as autoridades turcas notificaram Paris sobre as conclusões, mas só ouviu falar de Mostefaï novamente depois dos ataques de sexta-feira.

De acordo com o alto funcionário turco, Mostefaï entrou na Turquia em 2013 pela província de Edirne, localizada no noroeste do país e que faz fronteira com a Grécia e a Bulgária. Não há registros da sua saída do território turco.

O Iraque também alertou a França sobre possíveis ataques terroristas do grupo jihadista EI, afirmou o ministro do Exterior iraquiano, Ibrahim al-Dschafari, ao site de notícias iraquiano Al-Mada. Os serviços de inteligência do país teriam apresentado informações sobre atentados do EI em vários países, sendo que na lista dos especialmente ameaçados estavam França, EUA e Irã.
 

Aumento dos investimentos após Charlie Hebdo

Entre os investimentos anunciados no final de janeiro pelo primeiro-ministro francês, Manuel Valls, após o ataque ao Charlie Hebdo, estava um programa para combater terrorismo no valor de 425 milhões de euros e cerca de 6.500 novos funcionários, entre eles 1.100 nos serviços de inteligência. As medidas também incluíam uma maior vigilância para eliminar terroristas suspeitos e melhoria dos equipamentos direcionados aos serviços de segurança.

Valls disse à época que 3 mil pessoas estavam sob a vigilância dos serviços de segurança. Entre eles estavam 1.300 franceses ou estrangeiros vivendo no país e suspeitos de ligação com redes terroristas na Síria e no Iraque.

O primeiro-ministro alertara que não havia "risco zero" contra "determinados indivíduos e redes bem organizadas". Porém, afirmou que o governo iria lutar contra o terrorismo com "determinação, perseverança e ação coerente". "Estamos bem conscientes de que o combate contra o terrorismo, o jihadismo e o islamismo radical será uma longa batalha", afirmou Valls.

Em abril foi a vez do presidente francês, François Hollande, anunciar que iria destinar mais 3,8 bilhões de euros para o orçamento de defesa ao longo dos próximos quatro anos , a partir de 2016. Ele afirmou que as patrulhas militares de emergência, posicionadas perto de possíveis alvos terroristas depois dos ataques de janeiro, passariam a ser permanentes, com uma força de 7 mil soldados dedicados à segurança interna.