COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Segurança

05 de Dezembro, 2008 - 12:00 ( Brasília )

TERROR NA ÍNDIA - As Moyivações Ideológicas, Inovações Táticas e Conseqüências Estratégicas do Ataque à MUMBAI.


GenBdaR/1 Alvaro de Souza Pinheiro
Analista Militar especialista em Operações Especiais e Guerra Irregular

 



“Não temos dúvida de que os terroristas vieram do Paquistão e seu objetivo era matar
pelo menos 5 000 pessoas.”

SRIPRAKASH JAISWAL, Vice-Ministro do Interior da Índia




A recente carnificina terrorista desencadeada em Mumbai, capital financeira e cultural da Índia, quarta maior cidade do planeta, com 19 milhões de habitantes, chama a atenção do Mundo que esse País tem sido uma das maiores vítimas do terrorismo na atualidade. No ano passado, mais de 1 000 civis não-combatentes foram mortos em ataques terroristas. Em 2006, foram mais de 2 000. Esses números são apenas superados pelo Iraque, Afeganistão e Paquistão. Muito embora, a maioria dessas baixas tenha sido produzida por ações do Terrorismo Fundamentalista Islâmico, a exemplo do que ocorreu em Mumbai na semana passada, essa não é a única fonte dessas ocorrências.

Na atualidade, a Índia se constitui numa verdadeira ilha cercada de países politicamente instáveis, todos vivenciando graves ameaças terroristas. O Paquistão é, comprovadamente, o maior reduto de grupos irregulares radicais fundamentalistas muçulmanos que atuam na Índia e, segundo órgãos de inteligência de diferentes países, possui regiões que, atualmente, se constituem em áreas de homizio para células coordenadas pela Al Qaeda, que ali operam com plena liberdade, inclusive preparando pessoal para o Movimento Talibã no Afeganistão. O Nepal, caracterizado por uma topografia extremamente acidentada e uma fronteira incipientemente vigiada, também se constitui em área de homizio para grupos terroristas procurados na Índia e no Paquistão. No Bangladesh, a pobreza endêmica e a precariedade dos serviços de segurança também tornam esse País refúgio para diferentes grupos irregulares dos mais diversos matizes.

Acrescente-se que, na costa marítima de 5 420 Km, estão alguns dos mais valiosos recursos naturais indianos, com destaque para a lucrativa produção de petróleo, desenvolvida nas regiões de Kakinada e Madras, no litoral Leste, no Golfo de Bengala; e Bhavnagar, Surat e Mumbai, no litoral Oeste, no Mar da Arábia. Essa produção, na atualidade, tornou-se alvo prioritário, estando especificamente ameaçada pelo que analistas internacionais estão identificando como “jihad marítima”, uma nova modalidade de grupos terroristas especialistas em ações tremendamente predatórias no Oceano Índico.

Por todas essas razões, as relações entre Nova Delhi e Islamabad, Katmandu e Daca é extremamente tensa, e em conseqüência, o estabelecimento de medidas de segurança eficazes nas regiões fronteiriças se torna tremendamente complexo e de difícil consecução.

O Terrorismo na Índia

Fundamentalmente, há três regiões relevantes onde a presença do terrorismo se faz significativa na Índia. Na porção Nordeste do País estão localizadas comunidades tribais separatistas. Esses territórios somente vieram fazer parte da Índia quando o Governo Colonial Britânico abandonou aquele País, em 1947. Aquelas tribos ressentiram-se muito com a independência política do País, em função de um crescente fluxo de imigrantes que, oriundo de outras partes da Índia, dirigiu-se para aquela região. O terrorismo é tradicionalmente orientado para atemorizar esses imigrantes. O efetivo dessas forças irregulares separatistas chegou a 5 000, porém, a condução de operações contra-terrorismo bem como o desencadeamento de um programa de anistia reduziu esse número a menos de 1 000. Muitos daqueles que abandonaram o movimento separatista, tornaram-se membros de organizações criminosas.

Uma outra significativa fonte de terrorismo na Índia está localizada no Leste do País, onde uma minoria maoísta de rebeldes busca estabelecer um regime ditatorial comunista, visando resolver os graves problemas de ordem econômica e social da região. Seu efetivo varia de 5 000 a 10 000 irregulares, intensivamente combatidos por forças de segurança contra-terroristas indianas.

Entretanto, não há dúvida de que a ameaça terrorista de maior gravidade é a de origem muçulmana radical. E, indiscutivelmente, a maior fonte do terrorismo islâmico na Índia tem sua origem na campanha paquistanesa que visa manter a população, particularmente os indianos não islâmicos, afastados da disputa entre Índia e o Paquistão pela Província da Cachemira. A porção Sul desse estado é habitada por uma maioria hindu, enquanto que na porção Norte, a maioria é muçulmana. Ao final da década de 1940, o Paquistão invadiu e conquistou a região Norte, entendendo ter o direito de controlar toda a Província.

Nesse contexto, há cerca de 20 anos, o Paquistão decidiu que a subversão e o terrorismo seriam as mais eficazes ações estratégicas capazes de consolidar seu domínio sobre toda a Cachemira. Os grupos terroristas, cujas bases e campos de treinamento se encontram na Cachemira paquistanesa, não apenas incursionam a Cachemira hindu como também outras partes da Índia. Dentre os vários grupos operando naquela área conflituosa, destacam-se: Lashkar-e-Taiba (“Exército dos Puros”, o mais desenvolvido e, aparentemente, o principal organizador do recente ataque a Mumbai), Jaish-e-Muhammad, Harakat ul-Jihad-I-Islami e Harakat ul-Mujahedeen, estes dois últimos, destacaram-se operando contra os russos no Afeganistão, na década de 1980.

Não há dúvida que, desde o final da década de 1980, existem alguns milhares de terroristas islâmicos na Cachemira, dos dois lados da fronteira. Todavia, há que se reconhecer que a campanha terrorista paquistanesa pela Cachemira, de uma maneira geral, está sendo neutralizada pelos órgãos de segurança indianos. Apesar da existência de 150 milhões de muçulmanos na Índia, o índice de recrutamento pelas organizações terroristas ainda não se faz relevante. Por outro lado, segundo as autoridades de segurança indianas, embora o Governo Paquistanês negue sistematicamente, existem fortes indícios de que agentes do Serviço de Inteligência Militar do Paquistão (Inter-Services Intelligence - ISI) dão suporte a esses grupos terroristas. O ISI é considerado um Estado dentro do Estado no Paquistão, estando comprovadamente fora do controle das autoridades governamentais constituídas naquele País.

Em dezembro de 2001, um ataque terrorista islâmico ao Parlamento Indiano desencadeou uma intensa confrontação entre Índia e Paquistão. Naquele momento, o Governo Indiano deslocou grandes efetivos militares para a fronteira com a Cachemira Paquistanesa, tendo ocorrido um intenso duelo de fogos de saturação entre as duas artilharias oponentes; e as forças nucleares de ambos os países entraram em seu nível máximo de alerta. Entretanto, desde então, Nova Delhi não mais retaliou com a mesma intensidade outros ataques terroristas comprovadamente preparados em território paquistanês. O Governo Indiano entendeu que, por uma série de razões, Islamabad não era capaz de exercer um efetivo controle sobre os radicais islâmicos paquistaneses. E decidiu que o foco da política externa devia ser evitar o desencadeamento de uma guerra com o vizinho. Assim, mesmo na presença de ações terroristas de origem paquistanesa (de menor porte), passou, simplesmente, a aceitar o compromisso formal do Governo Paquistanês de fazer o “seu melhor possível” na tentativa de reprimir os radicais muçulmanos baseados no seu território. Essa postura foi ratificada numa espécie de acordo de cessar fogo assinado em 2004.

A verdade é que em virtude de Índia e Paquistão serem possuidores de armas nucleares, ambos os governos são tradicionalmente cuidadosos com relação à eclosão de uma crise de maiores proporções, que possa disparar um conflito armado de proporções incontroláveis. E há também a posição sempre muito presente do Governo dos EUA que considera ambos os países como seus aliados na “Guerra Global contra o Terror”; e que, tradicionalmente, atua como um poder moderador das controvérsias entre aqueles dois países.

Há que se ressaltar, entretanto, que os grupos fundamentalistas islâmicos, tanto de origem paquistanesa quanto indiana, não estão preocupados com a possibilidade da eclosão desse conflito de maiores proporções, até porque, idealisticamente, consideram que a constituição do “Grande Califado Muçulmano” é uma missão divina e tudo o que vier a acontecer será conseqüência da vontade de Alá.

As forças de segurança da Índia empregadas na prevenção e no combate ao terrorismo são constituídas pelas polícias locais, uma Força Nacional de Reserva com cerca de 170 000 policiais, pelas Forças Armadas e pelas diversas agências de inteligência. O Ministério das Relações Exteriores também desempenha um papel relevante, particularmente pelos esforços para obter de outras nações o reconhecimento que essas organizações são “terroristas internacionais”, e, portanto, passíveis de penalizações legais no exterior.

A causa - “A Cachemira pertence ao Paquistão” - é muito popular naquele País, o que incrementa sobremaneira a dificuldade de reprimir as organizações terroristas que conduzem ações na Índia e mesmo em outros ambientes operacionais do planeta.

O Ataque a Mumbai

Alguns resultados recentemente divulgados das investigações realizadas pelos órgãos de segurança indianos auxiliados por elementos do FBI (EUA) e da Scotland Yard (Reino Unido), colocados à sua disposição, estão permitindo uma reconstituição dos dramáticos acontecimentos.

No período entre 20:10h e 21:00h, de quarta-feira, dia 26 de novembro, uma força irregular de cerca de 40 indivíduos fortemente armados com fuzis AK- 47 7,62 mm - Kalashnikov, lança-rojões RPG 40mm, grande quantidade de munição, granadas de mão e explosivos, após desembarcar de botes pneumáticos em 5 diferentes praias da cidade, distribuíram-se pela área turística no centro de Mumbai. Nos seus deslocamentos em terra, os terroristas valeram-se da mobilidade tática que lhes foi proporcionada por inúmeros táxis (previamente disponibilizados) e por uma van capturada da polícia local, desencadeando uma seqüência muito bem coordenada de ataques contra 13 objetivos distintos. Essa seqüência mesclou ações de grande envergadura e relevância com outras de menor porte, cujo objetivo específico era incrementar ao máximo a situação de caos e tumulto na cidade, iludindo as forças de segurança quanto aos objetivos principais.

Às 21:15h, foram simultaneamente atacados o restaurante Cafe Leopold e o bar Bootleggers Pub, renomados pontos turísticos noturnos, naquele momento, freqüentados por um grande número de estrangeiros, que foram alvejados indiscriminadamente e atingidos em cheio por explosões de granadas de mão sobre eles lançadas com fúria assassina. Às 21:20h, foi tomado de assalto o centro judaico Nariman (Chadad) Jewish House, situado numa movimentada galeria comercial, onde foi feito um grande número de reféns, na sua maioria, judeus. Às 21:25h, a principal estação ferroviária da cidade, Chhatrapati Shivaji Terminus, um prédio histórico construído pelos ingleses no Sec XIX, por onde circulam cerca de 3,5 milhões de passageiros por dia, foi atacada. Novamente, os terroristas dispararam suas armas indiscriminadamente e lançaram granadas de mão sobre uma multidão totalmente surpreendida e indefesa (até porque a segurança institucional ali instalada teve um papel lastimável nesse evento).

Às 21:30h e às 21:35h, respectivamente, foram conquistados os dois mais famosos hotéis de Mumbai, o Taj Mahal e o Oberoi-Trident. As equipes de assalto infiltraram-se pelos fundos e pelas cozinhas de ambos os hotéis e, além do grande número de vítimas causadas pelos disparos e pelas granadas lançadas nos restaurantes e salas de estar, fizeram um grande número de reféns. No seu interior, já os aguardavam depósitos clandestinos (cachés) contendo um reforço de armamento, munição, explosivos e rações que vieram a lhes possibilitar manter aqueles dois objetivos por mais de 48 horas. Às 21:55h, na região identificada como Ville Parle, no principal acesso ao aeroporto internacional, um táxi pleno de explosivos foi detonado, causando inúmeras baixas e provocando a paralisação daquele terminal.

Às 22:15h e às 22:30h, respectivamente, foram tomados de assalto o Cama Hospital e o Metro Cinema, ambos com grande número de vítimas indiscriminadas. Às 22:45h e 22:50h, respectivamente, outros dois carros bombas foram detonados nas regiões identificadas como Wadi Bunder e Girgaum Chowpatty. Também às 22:50h, o prédio da Mumbai Municipal Corporation, onde se encontra a sede do jornal Times of Índia, também foi tomado de assalto. E às 00:10h, um centro comercial próximo ao Oberoi Hotel também foi atacado.

No sábado, dia 29 de novembro, após mais de 60 horas de intenso combate, as forças de segurança, empregando os seus combatentes mais bem adestrados e equipados, incluindo unidades das forças de operações especiais do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais Indiano (esta identificada como os “Gatos Negros”), eliminavam o último foco terrorista que resistia no Hotel Taj Mahal.

O macabro saldo da confrontação chegava a 195 mortos e cerca de 400 feridos. Segundo um dos militares que participou na ação final no Hotel Taj Mahal, num único quarto foram encontrados 20 cadáveres, na sua maioria, turistas estrangeiros, literalmente executados pelos terroristas. Também foram encontradas evidências de que na fase final do assalto, a fim de economizar munição, os terroristas passaram a matar os reféns cortando suas gargantas a faca, ao invés de fuzilá-los.

Dentre os alvos de eliminação selecionada estavam autoridades policiais de diferentes níveis cuja presença foi exigida em determinados locais de exposição e que, assim, foram friamente assassinadas. Dentre essas vítimas, foram identificados: Hemant Karkare, comandante do esquadrão contra-terror de Mumbai e dois oficiais de seu estado-maior.
Todos os terroristas foram mortos, exceto um, que foi capturado em perfeitas condições físicas.

Novas TTP

No que se refere às táticas, técnicas e procedimentos (TTP) empregados, militares indianos especializados em contra-terrorismo, ouvidos pelo jornal “Hindustan Times” após a neutralização da ameaça, manifestaram a sua imensa surpresa pelo alto padrão de capacitação operacional demonstrado pelo grupo terrorista. Ressaltaram que os múltiplos ataques foram executados quase simultaneamente, provocando um caos de tremendas proporções que frustrou significativamente as reações iniciais desencadeadas pelas forças de segurança. Foram dignos de nota: seu excepcional nível de adestramento (particularmente no que se refere ao emprego do armamento e munição, e no emprego tático descentralizado das equipes com reduzidos efetivos), seu perfeito conhecimento do terreno e dos detalhes dos diferentes objetivos na área urbana densamente edificada (o que lhes facilitou a realização das múltiplas infiltrações com total preservação do sigilo); e, principalmente, a excelência do sistema de comando e controle estabelecido em todas as fases do ataque.

Avaliação final: planejamentos operacional e logístico altamente sofisticados; execução altamente descentralizada caracterizada por um altíssimo padrão de coordenação, controle, sincronização, segurança operacional, ação de choque e disciplina. Tudo ao nível das mais conceituadas forças de operações especiais do Mundo.

Algumas informações obtidas no interrogatório de Mohammed Ajmal Amir Qasab, 21 anos, único terrorista capturado com vida, foram tornadas públicas em vários jornais e canais de TV indianos. Na sua mochila foram encontrados: uma carteira de identidade das Ilhas Maurício, granadas de mão chinesas, sete carregadores e mais de 400 cartuchos 7,62 mm para AK-47, sete cartões de crédito, rações e 1 200 dólares. Declarou que ele e todos os seus companheiros de empreitada eram paquistaneses.

Que, embora esse grupo se identificasse como “Deccan Mujahideen” (organização totalmente desconhecida), na verdade, esse era um nome de fachada. Todos pertenciam efetivamente à organização Lashkar-e-Taiba, que, inclusive, lhes proporcionou treinamento por mais de 11 meses num acampamento situado na Cachemira paquistanesa. Que o Lashkar mantém uma relação muito próxima à Al Qaeda e outras organizações jihadistas.

Que o ponto de partida da ação foi a cidade de Karachi, no Paquistão, e que no planejamento original previa-se o retorno a essa cidade. Que estavam equipados com aparelhos eletrônicos de última geração tais como GPS, celulares Blackberry, e que suas comunicações eram baseadas em telefones por satélite, pelos quais recebiam instruções de Karachi..

Que um grupo de muçulmanos radicais indianos atuou, com grande antecedência, em Mumbai, no levantamento das informações sobre o terreno, plantas das principais edificações, e poder de combate das forças de segurança em presença. Esse pessoal, inclusive, foi o responsável pela instalação de depósitos de suprimento diversificado pré-posicionados em locais selecionados, e quando da execução do ataque, esse mesmo grupo atuou como “comitê de recepção” (como é identificada a equipe precursora empregada nas operações de forças especiais) para o escalão de assalto. Acrescentou ainda que o objetivo principal era matar da ordem de 5 000 pessoas e explodir os hotéis Taj Mahal e Oberoi, com o maior número de vítimas possível.

Muito embora o estilo do ataque a Mumbai mantivesse a característica ímpar das ações estilo Al Qaeda - militantes fanáticos, altamente motivados e dispostos a morrer combatendo em nome de Alá, tendo como objetivo: “quanto maior o número de vítimas civis, melhor” - as TTP empregadas mostraram significativas inovações. Paralelamente ao assassinato de indianos, os terroristas buscaram selecionar ambientes repletos de estrangeiros, priorizando a eliminação seletiva de americanos, israelenses, britânicos e australianos. Ao invés de suicidas detonando explosivos no seu próprio corpo, esses atentados privilegiaram a matança com o emprego de armamento e munição convencional.
Conquistar e manter objetivos durante períodos superiores a 48 horas (como foi o caso dos dois hotéis e do centro judaico) é outra inovação tática da maior relevância, até porque evidencia significativamente a obtenção de um efeito multiplicador do impacto psicológico dos atentados junto às opiniões públicas local e internacional. Da mesma forma, manter reféns sem a apresentação de quaisquer reivindicações que possibilitassem negociações com as forças de segurança para a sua libertação, executando-os de modo cruel, frio e calculista, em curso de operações, é outro procedimento novo que otimiza dramaticamente o emprego do terror como um fim em si mesmo.

O reconhecimento tácito, nacional e internacional, de que os terroristas atingiram todos os seus sinistros objetivos ratifica que o emprego dessas novas TTP foi muito bem sucedido.

Conseqüências Estratégicas

Os objetivos estratégicos do ataque a Mumbai na última semana de novembro próximo passado eram:

- Desestabilizar a Índia, debilitando a crescente cooperação indo-paquistanesa na prevenção e luta contra o terrorismo; e incrementar a tensão indo-paquistanesa, se possível, a ponto de provocar a eclosão de uma confrontação militar entre os dois países.
A mais relevante conseqüência estratégica desse sinistro acontecimento é que, diferentemente de todos os atentados anteriores na Índia, cujos objetivos eram eminentemente locais, de caráter predominantemente regional, o ataque a Mumbai coloca a Índia na linha de frente da guerra santa fundamentalista islâmica, a nível mundial. Essa ação terrorista determina que a Índia deixe apenas de lidar com o terrorismo regional motivado pelas tensões internas ou com o vizinho Paquistão, e que seu território torne-se um novo campo de retaliação contra a política externa dos EUA, do Reino Unido e de Israel.

Um aspecto estratégico importante a ser ressaltado, pela sua atual repercussão, é que as autoridades indianas tiveram acesso a informações prévias de que um ataque dessa natureza era iminente, e as ignoraram. Informações que, inclusive, indicavam os hotéis a serem atacados. Esse fato amplamente divulgado provocou um estado de revolta contra o governo e os políticos em geral, que estão sendo vistos como omissos e incompetentes com relação ao terror. Um dia após o final do mais ousado e traumático ataque terrorista realizado no País, a Índia mergulhou numa profunda crise política que teve como conseqüência imediata o pedido de demissão do Ministro do Interior, Shivraj Patil, que assumiu “a responsabilidade moral’ pelo que aconteceu, sendo prontamente atendido pelo Primeiro Ministro Manmohan Singh. Hoje, a opinião pública indiana exige nas ruas e pelos órgãos de comunicação social que o Governo adote uma postura de firmeza e agressividade contra “o terrorismo e os inimigos da Índia”.

Nesse contexto, o governo de centro-esquerda de Singh (no poder desde 2004) está sob forte pressão para suspender os cinco anos de cessar-fogo com o Paquistão na conflituosa região da Cachemira. Nova Delhi está acusando Islamabad de não atuar contra o Lashkar-e-Taiba , organização que foi declarada fora da lei pelo então Presidente Pervez Musharraf, em 2002; porém, comprovadamente, permaneceu operando campos de treinamento no interior do território paquistanês e apoiada pelo ISI. Foi anunciado que o Governo decidiu adotar medidas de segurança “ao nível de guerra”, reforçando a segurança marítima, terrestre e aérea no País. A curto prazo, pretende-se criar, a exemplo do que fizeram os EUA como conseqüência do 11 de setembro de 2001, uma Direção Nacional de Inteligência que enquadre todas as demais agências dessa natureza.

No Paquistão, o Premier Yousaf Raza Gilani enfatizou que o Governo Paquistanês ainda não tem evidências que liguem paquistaneses ao infame ataque. Por outro lado, o Presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, fez um apelo ao Governo Indiano, em entrevista publicada no jornal “Financial Times”, para que seu País não seja responsabilizado por tais atentados, pois essa atitude pode fazer com que extremistas muçulmanos iniciem uma guerra. Enfatizou em entrevista que foi ao ar em horário nobre pela televisão estatal indiana que mesmo a organização Lashkar-e-Taiba é considerada inimiga do regime paquistanês.

O momento é extremamente delicado, razão pela qual, a Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, já partiu para a Índia e está com a sua agenda repleta de entrevistas com autoridades do eixo Nova Delhi-Islamabad, numa típica missão de “apagar o incêndio” que, no momento, é de graves proporções. A situação se torna ainda mais sensível considerando-se o momento de transição (e de vácuo de poder) atualmente vivenciado nos EUA antes da assunção do Presidente eleito Barack Obama. Fica muito claro que apesar de Obama e de suas “boas” intenções, os EUA permanecem inimigos de seus inimigos e que sua eleição não tem o poder mágico de estabelecer uma nova ordem mundial onde organizações não estatais extremistas estejam imbuídas da necessidade de uma trégua ou da busca pelo entendimento. Este é mais um desafio para Obama, que vem se somar à grave crise econômica que assola os EUA, com repercussões globalizadas.

CONCLUSÃO

Analistas de diferentes partes do mundo ratificam que a confrontação entre o mundo civilizado e os radicais fundamentalistas muçulmanos, mais do que nunca, é ideológica e cada vez mais globalizada; e que a prevenção e o combate ao terrorismo transnacional necessita de uma mudança urgente de foco e de prioridades. Está implícito de que a comunidade internacional não pode ser ambígua nem complacente no que se refere às organizações terroristas atualmente ativas, algumas das quais incrementam seu poder a cada dia, aproveitando-se das facilidades proporcionadas pela tecnologia da informação e de artifícios, como é o caso de algumas que, hoje, são internacionalmente reconhecidas como partidos políticos, gozando de todas as benesses e prerrogativas decorrentes.

O grande ensinamento global ratificado, no recente ataque a Mumbai, é que um pequeno grupo de fanáticos motivados e muito bem adestrados pode assassinar de modo frio e calculista centenas de pessoas inocentes, ao mesmo tempo que é capaz de paralisar um grande centro administrativo, financeiro e cultural de qualquer país na face da Terra. Que no Sec XXI, apesar das ameaças de origem difusa que envolvem meios bélicos de alta tecnologia e destruição em massa, é impositivo que as autoridades competentes tenham em mente que as táticas, técnicas e procedimentos de baixa tecnologia, tais como o emprego judicioso de fuzis, granadas, rojões e ataques de surpresa altamente sincronizados podem trazer o mesmo traumático e sinistro impacto.

O dramático episódio do recente “Ataque a Mumbai”, que está sendo reconhecido como o 11 de setembro da Índia, permanecerá por muito tempo como uma fonte extremamente valiosa de ensinamentos colhidos para as autoridades de segurança e defesa de todos os estados nacionais realmente preocupados com a manutenção de suas soberanias e a integridade de seus patrimônios nacionais.


REFERÊNCIAS
Dunnigan, James F., “The Many Terrorists of India”, STRATEGY PAGE, “News as History”, December 1st, 2008.
Friedman, George, “Strategic Motivations for the Mumbai Attack”, STRATFOR/GEOPOLITICAL INTELLIGENCE REPORT, December 1st, 2008.
Burton, Fred and West, Ben, “From the New York Landmarks Plot to the Mumbai Attack”, STRATFOR/GLOBAL SECURITY&INTELLIGENCE REPORT, December 3rd, 2008.
Noticiários das Redes de TV CNN, FOX e BBC.