COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Geopolítica

27 de Maio, 2007 - 12:00 ( Brasília )

Será que Bin Laden tinha razão?




Será que Bin Laden tinha razão?


Bernard Lewis*

Durante a Guerra Fria, duas coisas ficaram conhecidas e amplamente reconhecidas no Oriente Médio sobre as duas superpotências rivais. Se você fizesse alguma coisa para aborrecer os russos, o castigo seria rápido e terrível. Se dissesse ou fizesse alguma coisa contra os americanos, não só não haveria nenhuma punição, como poderia haver até alguma possibilidade de recompensa, quando a procissão ansiosa habitual de diplomatas e políticos, jornalistas e acadêmicos e uma miscelânea de outros chegasse com suas usuais súplicas: 'O que nós fizemos para ofendê-los? O que podemos fazer para remediar isso?'

Alguns exemplos bastarão. Durante os problemas no Líbano nos anos 1970 e 1980, ocorreram muitos ataques a instalações e indivíduos americanos - em especial, o ataque ao acampamento dos marines em Beirute em 1983, seguido por uma pronta retirada, e toda uma série de seqüestros de americanos, militares e civis, e de europeus. Houve somente um ataque a cidadãos soviéticos, quando um diplomata foi morto e vários outros, seqüestrados. A resposta soviética por seus agentes locais foi rápida e dirigida contra a família do líder dos seqüestradores. Os russos seqüestrados foram prontamente soltos, e depois disso não houve ataques a instalações ou cidadãos soviéticos durante todo o período dos conflitos libaneses.

Essas respostas diferentes evocaram tratamentos diferentes. Enquanto políticas, instituições e indivíduos americanos eram sujeitos a críticas incessantes e, às vezes, ataques mortíferos, os soviéticos permaneciam imunes. Sua retenção do vasto império colonial, em grande parte muçulmano, acumulado pelos czares na Ásia passava despercebida, assim como sua propaganda e, às vezes, suas ações contra crenças e instituições muçulmanas.

O mais notável de tudo foi a resposta que os países árabes e outros países muçulmanos deram à invasão soviética do Afeganistão, em dezembro de 1979. O modo como Washington manejou a crise dos reféns em Teerã assegurou aos soviéticos que eles não tinham nada a temer dos EUA. Eles já sabiam que não precisavam se preocupar com os governos árabes e outros governos muçulmanos.

Os soviéticos já governaram - ou desgovernaram - meia dúzia de países muçulmanos na Ásia, sem despertar crítica ou oposição. Inicialmente, sua decisão e ação de invadir e conquistar o Afeganistão e instalar um regime títere em Cabul quase não sofreu resistência. Após algumas semanas de debates, a Assembléia-Geral da ONU finalmente foi persuadida a aprovar uma resolução deplorando 'vigorosamente' a intervenção armada no Afeganistão. As palavras 'condenação' e 'agressão' não foram usadas, e a origem da 'intervenção' não foi nomeada.

Mesmo essa resolução anódina foi demais para alguns Estados árabes. O Iêmen do Sul votou contra; Argélia e Síria se abstiveram; a Líbia estava ausente; o observador da Organização de Libertação da Palestina (OLP) na Assembléia, sem direito a voto, chegou a fazer um discurso defendendo os soviéticos.

Era de se esperar que a recém-criada Organização da Conferência Islâmica (OCI) adotasse uma posição mais dura. Não adotou. Depois de um mês de negociações e manipulações, a OCI finalmente realizou uma reunião no Paquistão para discutir a questão afegã. Dois dos Estados árabes, Iêmen do Sul e Síria, boicotaram o encontro. O representante da OLP, membro pleno dessa organização, estava presente, mas se absteve de votar uma resolução crítica à ação soviética; o delegado líbio foi além e usou a ocasião para denunciar os Estados Unidos.

APOIO AOS AFEGÃOS

A disposição muçulmana de submeter-se à autoridade soviética, embora generalizada, não foi unânime. O povo afegão, que havia enfrentado com sucesso o Império Britânico em seu apogeu, encontrou uma maneira de resistir aos invasores soviéticos. Uma organização conhecida como Taleban (literalmente, 'os estudantes') começou a organizar a resistência e até uma guerra de guerrilha contra os ocupantes soviéticos e seus títeres. Para isso, eles conseguiram atrair algum apoio do mundo muçulmano - algumas concessões de dinheiro e quantidades crescentes de voluntários para combater na guerra santa contra o conquistador infiel. Entre esses estava, em especial, um grupo dirigido por um saudita de origem iemenita chamado Osama bin Laden.

Para realizar seu propósito, eles não desdenharam recorrer aos EUA em busca de ajuda, que obtiveram. Na percepção muçulmana tem havido, desde os tempos do Profeta, uma luta constante entre as duas religiões mundiais, o cristianismo e o islamismo, pelo privilégio e a oportunidade de trazer a salvação para o restante da humanidade, removendo qualquer obstáculo que se interpusesse em seu caminho. Por muito tempo, o principal inimigo foi visto, com alguma plausibilidade, como sendo o Ocidente, e alguns muçulmanos estavam dispostos, naturalmente, a aceitar toda ajuda que pudessem conseguir contra esse inimigo. Isso explica o amplo apoio nos países árabes e em alguns outros ao Terceiro Reich e, depois de seu colapso, à União Soviética. Os dois eram os principais inimigos do Ocidente e, portanto, seus aliados naturais.

Agora a situação havia mudado. O inimigo mais imediato e mais perigoso era a União Soviética, já governando alguns países muçulmanos, e aumentando diariamente sua influência e presença em outros. Era natural, portanto, buscar e aceitar a ajuda americana. Como Osama bin Laden explicou, nessa fase final da luta milenar, o mundo dos infiéis estava dividido entre duas superpotências. A primeira tarefa era lidar com a mais mortífera e perigosa das duas, a União Soviética. Depois disso, lidar com os americanos mimados e degenerados seria fácil.

VITÓRIA OCIDENTAL

Nós, do mundo ocidental, vemos a derrota e o colapso da União Soviética como uma vitória ocidental, mais especificamente americana, na Guerra Fria. Para Osama bin Laden e seus seguidores, foi uma vitória muçulmana numa jihad e, dadas as circunstâncias, não falta plausibilidade a essa percepção.

Dos escritos e discursos de Osama bin Laden e seus colegas fica claro que eles esperavam que essa segunda tarefa, lidar com os Estados Unidos, seria comparativamente simples e fácil. Essa percepção certamente foi encorajada e, assim pareceu, confirmada pela resposta americana a toda uma série de ataques - ao World Trade Center em Nova York e a tropas americanas em Mogadiscio em 1993, ao escritório militar americano em Riad em 1995, às embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia em 1998, ao USS. Cole no Iêmen em 2000. A resposta a todas elas foram apenas palavras iradas, acompanhadas às vezes pelo lançamento de mísseis caros a locais remotos e desertos.

O Estágio Um da jihad era expulsar infiéis das terras do Islã. O Estágio Dois foi levar a guerra ao campo inimigo, e os ataques de 11 de setembro de 2001 claramente pretendiam ser a salva de abertura desse estágio. A resposta ao 11/9, em total desacordo com práticas americanas anteriores, veio como um choque, e é digno de nota que não houve nenhum ataque bem-sucedido em solo americano desde então.

As ações americanas no Afeganistão e no Iraque indicaram que houve uma mudança importante nos Estados Unidos e que seria necessária alguma revisão daquela avaliação, assim como das políticas nela embasadas.

Desdobramentos mais recentes, em especial a discussão pública no interior dos EUA, estão persuadindo uma quantidade crescente de radicais islâmicos de que sua primeira avaliação estava correta afinal e convencendo-os de que tudo que eles precisam fazer é pressionar um pouco mais para alcançar a vitória final. Ainda não está claro se eles estão certos ou errados nessa visão. Se estiverem certos, as conseqüências - tanto para o Islã como para os Estados Unidos - serão profundas, amplas e duradouras.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

*Bernard Lewis, professor emérito em Princeton, é o autor, mais recentemente, de 'From Babel to Dragomans: Interpreting the Middle East', publicado pela Oxford University Press em 2004. Este artigo foi publicado originalmente na página de Opinião do 'The Wall Street Journal