COBERTURA ESPECIAL - Especial Terror - Inteligência

21 de Abril, 2013 - 14:45 ( Brasília )

Boston - Efeito Colateral

Autoria estrangeira de atentado faz conservadores questionarem reforma imigratória

Elisa Martins


Antes mesmo que as autoridades dos Estados Unidos confirmassem a relação dos dois suspeitos de origem chechena com o ataque na Maratona de Boston, políticos e analistas americanos começaram a questionar como o atentado influenciaria outra discussão na ordem do dia no país: a aprovação da reforma migratória, uma das prioridades do segundo mandato do presidente Barack Obama. Conservadores não tardaram em associar a origem estrangeira dos suspeitos - que estavam em situação migratória regular - a um potencial perigo representado pela legalização dos 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem no país, uma das propostas da reforma a ser votada no Senado e no Congresso.

Anteontem, o senador republicano Charles E. Grassley, de Iowa, abriu uma audiência sobre leis migratórias destacando que a questão era importante "principalmente considerando tudo o que tem acontecido em Massachusetts".

- É importante entender as brechas e falhas do nosso sistema de imigração - ressaltou em seu discurso. - Como as pessoas conseguem evadir as autoridades e planejar ataques desse tipo em nosso território? Como podemos reforçar os controles de segurança para as pessoas que desejam entrar nos Estados Unidos?

A sessão em que democratas e republicanos discutiriam seu parecer sobre o projeto de lei apresentado no início da semana por uma comissão bipartidária de senadores acabou transformada em um grande debate sobre a tragédia em Boston. Uma discussão, para muitos analistas, precipitada.

- Ainda é cedo para saber se o caso poderia ter um impacto negativo sobre o debate da reforma migratória. Os Estados Unidos realizam checagens rigorosas de antecedentes antes de permitir que imigrantes refugiados se estabeleçam no país. Mas nenhuma nação pode controlar o que uma pessoa fará vários anos depois - disse ao GLOBO Stephen Yale-Loehr, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Cornell.

"PROPOSTA DE ANISTIA ESTÁ MORTA"

Dzhokhar Tsarnaev, um dos suspeitos, teria chegado aos EUA há cerca de dez anos e pedido asilo. Para Loehr, o fato poderia levar senadores a alterar o projeto de lei para impor verificações de antecedentes mais severas - embora Dzokhar ainda fosse uma criança quando chegou ao país.

A proposta dos senadores, endossada por Obama, prevê que os imigrantes ilegais que chegaram as EUA antes de 31 de dezembro de 2011 poderão requisitar um status migratório provisório que os impediria de ser deportados. Mas o visto de residência só seria concedido dez anos depois - e, a partir daí, seriam necessários outros três anos para a emissão da cidadania americana. Imigrantes que cometeram crimes podem ser impedidos de participar do projeto. Mas faltam certezas de se essa prerrogativa seria suficiente para acalmar os que usarão o ataque em Boston para frear o avanço da reforma migratória.

A discussão não ficou restrita ao Senado. O radialista conservador Bryan J. Fisher foi um dos que previu que a proposta de reforma imigratória sofreria um duro golpe. "Eu acho que a proposta de anistia está morta. Em tempo. É hora de apertar, e não de afrouxar a política de imigração", escreveu no Twitter.

- Os opositores à reforma claramente usarão isso em benefício próprio. Há quem seja contrário à expansão da imigração no geral, e que usará os temores de segurança nacional para tirar vantagem do debate, mesmo que esse seja um evento isolado - opina Idean Salehyan, da Universidade do Norte do Texas.

Salehyan lembra que, embora os republicanos tenham sido historicamente mais resistentes à imigração do que os democratas, desta vez se mostraram abertos a chegar a um acordo, em parte como uma forma de ganhar eleitores latinos - que foram decisivos para as duas vitórias de Obama. Isso poderia mudar, diz o especialista, apesar de desconsiderar que as explosões tenham um impacto duradouro na discussão da reforma.

AUMENTO DE SEGURANÇA NA FRONTEIRA

Os ataques de 11 de Setembro geraram discussões similares no país. Na época, também havia uma discussão migratória em pauta que acabou afastada pelo fantasma da ameaça à segurança. Talvez por isso, a atual legislação tenha evitado até agora associar a prática de atos terroristas à presença de imigrantes. O atentado em Boston poderia dar outra forma ao debate, e prejudicar todos os imigrantes, principalmente os de origem muçulmana.

O senador democrata de Nova York Charles Schumer, membro da comissão por trás do projeto de lei migratória, pediu cautela aos colegas, e rogou que não tirem "conclusões precipitadas".

- Somos um país mais seguro porque a polícia sabe quem estava aqui, tem suas impressões digitais, fotos, e realizou verificação de antecedentes, sem precisar buscar agulhas no palheiro - defendeu.

Há um consenso, porém, que o governo precisará empregar esforço extra para fazer avançar sua proposta.

- Será muito difícil. Mesmo antes das bombas em Boston, adversários da lei já faziam propaganda contrária em estações de rádio. As partes mais suscetíveis da proposta agora são a que trata do aumento de segurança na fronteira e a que estende o período de estadia de imigrantes ilegais enquanto eles esperam a regularização de sua situação - explica Rogelio Sáenz, decano da Faculdade de Políticas Públicas da Universidade do Texas em San Antonio.

FOCO DO DEBATE DESVIADO

Analistas afirmam que o atentado pode não só atrasar como desviar o foco do debate para a prevenção do terrorismo. E isso poderia diminuir a força da reforma, até então com boas perspectivas de aprovação no Senado - embora o cenário na Câmara, dominado pela oposição, fosse menos promissor.

- Os senadores podem questionar o despejo de 11 milhões ou mais de novos candidatos em um sistema migratório já sobrecarregado - diz Jan Ting, professor da Faculdade de Direito Beasley da Universidade Temple, na Filadélfia.

Para ele, o maior problema da proposta é a anistia dos imigrantes ilegais que já vivem em território americano.

- Será que isso não atrairia mais imigrantes na expectativa de uma nova anistia no futuro, quando o número voltar a aumentar? O terrorismo é um problema mesmo quando uma porcentagem mínima de imigrantes são suscetíveis a cometer atos desse tipo. O risco aumenta à medida que cresce o número de imigrantes.



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