10 de Setembro, 2012 - 10:30 ( Brasília )

Terrestre

Exército planeja ensino integral em todos os colégios militares até 2015

Sistema atende 14 mil alunos do 6º ano fundamental ao 3º do ensino médio. Sete das 20 melhores escolas do país são militares, segundo o Ideb 2011.

Ana Carolina Moreno

O Exército Brasileiro planeja ampliar o ensino em período integral para os 12 colégios militares existentes no Brasil até 2015. Atualmente, apenas duas escolas adotam o turno integral em alguns anos do ensino fundamental: o Colégio Militar de Salvador (CMS), desde 2011, e o Colégio Militar de Santa Maria (CMSM), que adotou o sistema este ano. A ideia do Exército é implantar o novo regime de maneira gradual, a partir do sexto ano.

"Nossa perspectiva é que até 2015 todos os colégios militares funcionem em turno integral", afirmou o general de brigada Luis Antonio Silva dos Santos, que comanda a Diretoria de Ensino Preparatório e Assistencial (Depa) do sistema responsável pelos colégios militares.

As escolas ligadas ao Exército tiveram bom desempenho, em relação a outras escolas públicas, no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

Sete das 20 melhores escolas do país no Ideb 2011, divulgado pelo governo federal em agosto, fazem parte do Sistema Colégio Militar do Brasil. Cinco dos 12 colégios militares tiveram o maior Ideb de seus estados (todos estão entre os dez melhores). Nove foram as melhores escolas de seus municípios, enquanto outros dois estão na segunda e terceira colocação da cidade. Apenas um colégio é o sexto melhor do município.

O indicador, feito a cada dois anos desde 2005, calcula a relação entre rendimento escolar (taxas de aprovação, reprovação e abandono) e desempenho na Prova Brasil (português e matemática) aplicada para crianças do 5º e 9º ano do fundamental e do 3º ano do ensino médio.

O general de brigada afirmou que são muitos os fatores responsáveis pelo sucesso dos colégios militares. "No entanto, pode-se perceber que o excelente nível de nosso corpo docente, o planejamento escolar, com proposta pedagogia e currículos bem definidos, a existência de meios físicos adequados o comprometimento de nossas equipes e do entendimento de sempre fazer o melhor para atender à família militar fazem parte desses fatores", disse.

Os doze colégios militares brasileiros estão localizados em Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Fortaleza, Juiz de Fora, Manaus, Porto Alegre, Salvador, Santa Maria, Recife e Rio de Janeiro.

As instituições oferecem a cerca de 14 mil estudantes da rede pública do 6º ao 9º do ensino fundamental e do 1º ao 3º ano do ensino médio educação que inclui uso de lousa digital, projeto de robótica, passeios, trabalho de campo e culto à pátria.

Investimento maior

O Exército do Brasil não divulgou o valor total de investimento por aluno, mas a estimativa é de que se equipare a índices europeus e seja cerca de três vezes maior que nas demais escolas públicas.

No Paraná, o melhor colégio foi o Militar de Curitiba (CMC). O comandante e diretor de Ensino no CMC, André Germer, destacou o apoio que os professores têm para trabalhar. "Os nossos professores são muito bem preparados. Nós temos aqui uma divisão de ensino, com pessoas especializadas que ajudam na montagem de provas, no planejamento do ano escolar, na parte psicopedagógica. Além disso, uma equipe muito boa de supervisão escolar passa nas salas de aula e dá dicas aos professores de como melhorar as aulas", explicou. Ele reitera que a estrutura da escola apoia o ensino dentro das salas de aula, com melhorias constantes nas instalações e aquisições de materiais.

Germer considera importante o período que o CMC disponibiliza para os professores exercerem as atividades de fora da sala de aula. "Eles têm a tarde livre no colégio para preparar a aula, então não precisam corrigir trabalho à noite e no final de semana", explicou.

Disciplina

O general Santos afirma que os estudantes não são militares, não vestem farda e são cobrados e disciplinados como nas escolas civis. Nas escolas do sistema do Exército, porém, os uniformes incluem saias, meia-calça e sapatos, além de exigirem que as meninas levem o cabelo preso. Os alunos são hierarquizados de acordo com seu rendimento e recebem patentes que vão até a de "comandante do batalhão escolar".

Segundo o coronel Gil de Melo Rolim, comandante do Colégio Militar de Campo Grande, o melhor de Mato Grosso do Sul, a disciplina e o comprometimento com os estudos são as chaves para alcançar as metas de ensino. "O ensino aqui é pautado na aprovação. Durante o ciclo todo, o aluno só pode reprovar uma vez. Se ele reprovar a segunda, sai da escola", disse ao G1.

Para dar suporte ao estudante e ajudá-lo a recuperar as médias, existe uma avaliação individual das notas a cada dois meses. Se o jovem não foi bem em alguma matéria, é feita uma análise se foi dificuldade de compreensão ou se o conteúdo não foi bem explicado pelo professor.

A escola tem reforços, clubes de estudo e professores de plantão unicamente para resolver dúvidas e ajudar nas dificuldades, de acordo com o comandante. "O segredo pedagógico é dar todos os recursos para que o aluno possa estudar e depois cobrá-lo. Assim, ele aprende a ter a disciplina no estudo", conta Rolim.

No Colégio Militar de Brasília, do total de cerca de 2,8 mil alunos matriculados atualmente, 85% são filhos de militares. A escola abre concurso para a comunidade quando há vagas. Apesar de ser classificada como uma escola pública, os estudantes de ensino fundamental pagam uma mensalidade de R$ 140 por mês – valor que chega a R$ 160 para as séries do nível médio.

"Temos a proposta de formar o cidadão de acordo com os princípios, os valores do Exército. É uma formação integral, não só no aspecto cognitivo, mas também psicomotor, cultural e afetivo. Isso envolve muitas coisas, não só ministrar aulas", afirma o chefe da divisão de ensino do CMB, coronel Samuel Horn Pureza.

No Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH), que tem o maior Ideb de Minas Gerais, a coordenadora do 3º ano do ensino médio, capitão Pollyanna Lara Vilanezi, aponta uma diferença básica entre as turmas dos colégios militares e de outras escolas. (Veja ao lado reportagem do Bom Dia Brasil sobre o desempenho dos colégios militares no Ideb)

"A turma, regulamentarmente, tem que ficar de pé quando o professor chega. Então, não existe aula que aconteça sem que todos os alunos sejam apresentados para o professor. Em relação à disciplina, à conversa, é normal, mas nós temos métodos, uma estrutura disciplinar que nos permite controlar isso, o que talvez a gente não tenha com tanta veemência em outros colégios", conta.

Entre os alunos do CMBH, também há uma estrutura hierarquizada, baseada no mérito por nota. Os melhores estudantes de cada ano recebem patentes, que vão de cabo a coronel-aluno. "O melhor aluno do 3º ano comanda o batalhão escolar", afirma o comandante.

"Todo o trabalho conduzido nos colégios militares, respeitando as condições climáticas de cada região do Brasil, passa por uma identidade. Identidade que se materializa no uniforme, nos livros e no currículo; identidade que se materializa no grito de guerra do Sistema e que permite observar a unidade entre os alunos", explicou o general Santos, da Depa.

Turmas homogêneas

Para Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Acesso à Educação, o sistema dos colégios militares funciona em turmas homogêneas de alunos. Elas são formadas em um processo que, segundo o regulamento divulgado no site da Depa, exige dos candidatos selecionados no exame acadêmico a aprovação em um exame de saúde.

De acordo com o subdiretor do Colégio Militar de Salvador (CMS), Coronel Salomão, "para que um aluno aprenda é necessário que ele esteja bem em todas as esferas de sua vida: na família, com os amigos, na escola". Daniel Cara afirma que é justamente o envolvimento da comunidade que estimula os bons resultados. "Existem pesquisas nos Estados Unidos já na década de 1960 que mostram que, nas escolas em que os pais têm mais interesse e participam mais, os alunos vão melhor."

Entre exemplos brasileiros além da estrutura militar, ele cita os colégios técnicos da rede estadual em São Paulo, que também têm processo seletivo para ingresso de novos estudantes e requerem maior participação familiar.