13 de Maio, 2015 - 14:00 ( Brasília )

Terrestre

General Villas Bôas fala das prioridades e planos imediatos do Exército


English version

Marcos Ommati/Diálogo


A segunda semana de janeiro de 2015 foi de muito trabalho no Palácio do Planalto, sede do governo brasileiro. É que a presidente Dilma Rousseff e o recém-empossado ministro da Defesa faziam várias reuniões para decir quais seriam os nomes dos novos dirigentes das Forças Armadas do país.

Para comandar o Exército do Brasil (EB), foi escolhido o General de Exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas. Nascido em sete de novembro de 1951, em Cruz Alta, Rio Grande do Sul, Villas Bôas iniciou sua vida militar 16 anos depois, ao ingressar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas (SP).

Atleta da natação e do polo aquático, o futuro comandante do EB saiu como aspirante-a-oficial da Academia Militar das Agulhas Negras em 1973. Após uma brilhante carreira, onde entre outros cargos, comandou o 1º Batalhão de Infantaria de Selva, em Manaus e chefiou o Estado-Maior Conjunto do Comando Militar da Amazônia, Villas Bôas foi promovido a general de exército em julho de 2011. Em 2014, assumiu a chefia do Comando de Operações Terrestres do EB, sendo um dos responsáveis pelo planejamento da segurança e defesa para a Copa do Mundo FIFA 2014.

Para saber o que pensa o novo comandante do Exército Brasileiro, Diálogo conversou com o General Villas Bôas durante a realização da LAAD 2015 Defence & Security, no Rio de Janeiro, entre os dias 14 e 17 de abril.

Diálogo: Quais suas prioridades como novo Comandante em Chefe do Exército Brasileiro?

Gen Ex Villas Bôas: As prioridades são dar continuidade aos trabalhos de transformação do Exército Brasileiro iniciados pelo General Enzo. Essas transformações passam por: modificações estruturantes na Gestão e Inovação; na Governança de Tecnologia da Informação; na criação de um novo Sistema de Doutrina Militar Terrestre, de uma Nova Logística Militar Terrestre, de um Novo Sistema Operacional Militar Terrestre, da construção do Polo de Ciência e Tecnologia em Guaratiba; da estruturação de um Novo Sistema de Engenharia, do aperfeiçoamento do sistema de Educação e Cultura; e aprimoramento dos projetos Força da Nossa Força, Amazônia Protegida e Sentinela da Pátria.

As modificações estruturantes criarão as condições necessárias para que sistemas como SISFRON, PROTEGER, DEFESA CIBERNÉTICA e ASTROS 2020*, que estão entre os sete projetos estratégicos do EB, tenham êxito no desenvolvimento das novas capacidades necessárias à Força Terrestre.

Diálogo: Quais são seus principais desafios nesta nova função?

Gen Ex Villas Bôas: Ante os novos desafios do século XXI, o Exército, blindado pelos marcos legais que regulam o seu papel na sociedade, apoiado nos compromissos e valores que norteiam as especificidades da vida militar, vem cumprindo sua missão de viés dissuasório por meio de um conjunto de ferramentas militares aptas a serem apresentadas como opção de resposta militar ante uma agressão ao povo, ao território ou à soberania nacional.

Além disso, por sua natureza castrense, por sua permeabilidade e capilaridade social, o Exército Brasileiro é uma grande reserva de valores cívicos e morais tão caros à nossa sociedade em formação. Sendo assim, o maior desafio está diretamente relacionado à preservação desses valores para o cumprimento de sua missão constitucional, ao mesmo tempo em que o EB mantenha sua capacidade operacional plena.

Diálogo: Por que uma feira como a LAAD é importante para o Exército Brasileiro?

Gen Ex Villas Bôas: A LAAD é uma feira internacional de defesa muito importante na América Latina, permitindo a troca de conhecimentos na área da defesa. Ela é uma oportunidade para a projeção da imagem do Exército Brasileiro e do país no exterior, principalmente, pela proximidade dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

Além disso, a LAAD atinge o importante objetivo de divulgar as atividades desenvolvidas na Força Terrestre, especialmente aquelas vinculadas aos Projetos Estratégicos do Exército. Ela possibilita que a sociedade e a indústria de defesa conheçam o que está sendo produzido no âmbito da nossa Instituição.

A LAAD 2015 é também um fórum vocacionado aos debates e às apresentações das empresas e das organizações mais conceituadas mundialmente no setor.

Certamente, proporcionará à Base Industrial de Defesa Nacional a oportunidade de mostrar seus avanços e novidades tecnológicas às Forças Armadas brasileiras. É, sem dúvida, um excelente momento para interagir com vários países e possibilitar a sociedade brasileira aprofundar seus conhecimentos sobre os produtos de Defesa e os interesses estratégicos do Brasil.

Em resumo, a LAAD favorece a prospecção de produtos e materiais de defesa; fortalece a relação entre o Exército e a Base Industrial de Defesa (BID); e permite uma melhor interação entre os Projetos Estratégicos do Exército e possíveis fornecedores de bens e serviços.

Diálogo: Como o senhor vê a participação do EB em ações como a retomada de algumas favelas no Rio de Janeiro?

Gen Ex Villas Bôas: O Exército é uma Instituição secular, baseada na hierarquia e na disciplina e ele deve estar pronto para cumprir suas missões constitucionais, que incluem o emprego em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

A excelência do preparo dos integrantes da Força Terrestre, seus modernos equipamentos e doutrina, aliados à firme liderança dos comandantes de fração, em todos os níveis, garante o cumprimento das missões de GLO atribuídas ao Exército Brasileiro.

Os resultados da ação do Exército Brasileiro nas comunidades da Penha e do Alemão foram bastante positivos, como é possível constatar nos dados estatísticos fornecidos pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro, segundo o qual ocorreu uma diminuição em cerca de 9% nos casos de homicídios dolosos (com a intenção de matar), a redução de cerca de 20% na incidência de roubos a coletivos e de 44% de roubos a veículos na região.

Em relação ao Complexo da Maré, desde abril de 2014 até a presente data, a Força de Pacificação vem obtendo significativos êxitos conforme expressa os números, das mais de 65 mil ações realizadas pela Força de Pacificação. Desse total destacam-se 570 prisões, 224 apreensões de menores por cometimento de atos infracionais, 1205 apreensões de drogas, armas, munições, veículos, motos e materiais diversos.

O Disque-Pacificação já registrou em quase um ano de missão mais de 2300 informações, demonstrando o apoio da população ao trabalho realizado pelos militares.

Todas essas apreensões e resultados proporcionam o aumento da sensação de segurança, com a consequente melhoria na qualidade de vida dos moradores daquela região.

Diálogo: Que lições podem ser tiradas da participação do EB durante os Jogos Mundiais Militares em 2011 e a Copa do Mundo de 2014?

Gen Ex Villas Bôas: Considerado o terceiro maior evento esportivo do planeta, em 2011, o Brasil e a cidade do Rio de Janeiro abrigaram os 5º Jogos Mundiais Militares, que serviram de laboratório para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016.

Os Jogos Mundiais Militares realizados no Brasil contaram com a participação de cerca de seis mil atletas de alto rendimento, brasileiros e estrangeiros, oriundos de mais de 100 países e consolidaram a imagem do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro como centros com capacidade de receber grandes eventos esportivos internacionais.

No que tange a participação do Exército Brasileiro nas ações de segurança da Copa do Mundo FIFA 2014, pode-se afirmar que as ações foram extremamente positivas para a manutenção da confiança da população em suas Forças Armadas.

O emprego nas ações de defesa e em apoio à segurança pública, além de contribuir de maneira importante para a realização do evento num ambiente seguro, deixou um legado significativo. Destaca-se o aprimoramento nas relações interagências do Exército com as demais Forças Singulares, os órgãos e as agências da administração pública envolvidas na segurança da Copa do Mundo.

O EB empregou em torno de 36 mil homens e mulheres nos eixos pré-estabelecidos no esquema de segurança. Dessa maneira, pode-se afirmar que a Copa do Mundo representou o ponto alto da participação do EB nos Grandes Eventos.

Diálogo: O Brasil tem condições de se manter na Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH) indefinidamente se assim for requerido pela ONU e o Haiti?

Gen Ex Villas Bôas: O Brasil, como um dos países-membros da Organização das Nações Unidas, deve responder às solicitações que dela emanam. Entretanto, a permanência do Brasil na MINUSTAH é uma decisão tomada pelo governo brasileiro baseada em sua política externa. Cabe ao Exército respaldar a decisão governamental e buscar a melhor solução para as missões a que tenha sido designado.

Diálogo: Por que é importante para o Brasil participar de contingentes como a MINUSTAH?

Gen Ex Villas Bôas: De maneira geral, não é possível mensurar os resultados obtidos, tendo em vista que são valores intangíveis. Entretanto, a participação de tropas brasileiras em missões de paz tem apresentado benefícios, como: a promoção da imagem positiva do Brasil junto à Comunidade Internacional; o aumento da capacidade de emprego de tropa, sob condições logísticas e operacionais complexas; o reforço da motivação, da autoestima e do espírito de corpo dos integrantes da Força Terrestre; a manutenção de elevado grau de operacionalidade e credibilidade da Instituição; a abertura de uma nova perspectiva para a Força Terrestre, em face do desdobramento em novos ambientes operacionais; o fortalecimento das atividades relacionadas com o preparo e o emprego de força de paz; a oportunidade de conhecimento em missão de paz para maior número de militares; propicia a oportunidade de reaparelhamento da Força Terrestre; além da possibilidade de intercâmbio de conhecimento e troca de experiências com contingentes de outros países.

Deve-se considerar que tudo isso tem por finalidade contribuir para o esforço promovido pelo Exército Brasileiro na busca de uma doutrina de emprego de tropa em missões de paz. Finalmente, representar nosso país em missões de paz é considerado uma grande honra entre os nossos soldados. É inegável o sucesso das tropas brasileiras no desempenho de suas missões.

Diálogo: Como o senhor analisa a cooperação entre os exércitos do Brasil e de outros países na região, incluindo os Estados Unidos?

Gen Ex Villas Bôas: O Exército Brasileiro atua no cenário internacional em consonância com a Política Externa Brasileira (PEB) e as diretrizes emanadas pelo Ministério da Defesa. Nesse contexto, a Instituição prioriza a cooperação com os países do ambiente regional sul-americano, pois a manutenção de um clima de amizade e integração entre os países dessa região tem reflexos significativos sobre a segurança na área de fronteira.

Desse modo, o EB mantém alto nível de cooperação militar com os países do subcontinente, tendo implementado ações voltadas para a construção de confiança mútua. As atividades bilaterais são normalmente acordadas durante a realização de conferências bilaterais bianuais com todos os exércitos sul-americanos e de reuniões regionais de intercâmbio militar (anuais), na faixa de fronteira, com os países limítrofes.

No que se refere especificamente aos Estados Unidos da América, o Exército Brasileiro possui historicamente excelentes relações no campo militar. A Instituição prioriza a cooperação com essa nação amiga pelas oportunidades que oferece nos campos doutrinário e científico-tecnológico e pelo fato de serem protagonistas destacados no âmbito da segurança continental e global. Atualmente, os acordos entre os dois exércitos têm sido debatidos em reuniões bilaterais anuais.

* SISFRON: Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras

PROTEGER: Sistema de proteção das estruturas estratégicas terrestres

DEFESA CIBERNÉTICA: Sistema de defesa dos sistema de computadores

ASTROS 2020: Sistema que inclui baterias de lançamentos de mísseis e foguetes