08 de Março, 2012 - 21:30 ( Brasília )

Tecnologia

O Legado de Fukushima


LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES
Doutor em engenharia naval e nuclear, assistente da Presidência da Eletrobrás Eletronuclear
e membro do Grupo Permanente de Assessoria da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)


A resposta do mundo diante da ameaça das mudanças climáticas tem sido lenta. Porém, nesta última década, temos visto iniciativas surgirem em vários países que têm revisto suas políticas e chegado inexoravelmente à mesma conclusão: a geração elétrica nuclear deverá ter um importante papel nas estratégias energéticas nacionais ao longo do século XXI. Com esse pano de fundo, o acidente de Fukushima nos obriga à reflexão.

Temos que reconhecer que os acidentes severos, de fato, acontecem. Mesmo buscando um gerenciamento impecável, nunca podemos ter a confiança absoluta de que vamos ser bem-sucedidos. A maior parte das indústrias tem acidentes, em muitos casos envolvendo perdas significativas de vidas e severos danos ao ambiente. O problema da indústria nuclear está em como essa realidade é interpretada pelos políticos e pelo público. A maior parte das pessoas pode aceitar que exista uma probabilidade muito baixa de haver um acidente severo, mas elas presumem que ele seria catastrófico.

Apesar de Fukushima apresentar provas concretas do contrário, poucas pessoas percebem isso e colocam o acidente nuclear como sinônimo da tragédia causada pelo terremoto e pelo tsunami. Enquanto a sociedade acreditar que a energia nuclear apresenta um alto risco para o seu bem-estar, o futuro dessa fonte energética continuará incerto.

Fukushima confirma que a energia nuclear é essencialmente segura. Isso pode parecer um exagero e é o oposto da impressão que a maioria das pessoas passou a ter, mas é importante ressaltar quais são as reais consequências até de um acidente nuclear dos mais graves. Mesmo com liberações significativas de radiação para além do sítio da central, os padrões de segurança e as políticas de evacuação do Japão foram antecipatórios, tendo mesmo ido além do estritamente necessário, em alguns casos. O efeito disso é que nenhuma morte decorrente da radiação resultou e nem resultará do acidente de Fukushima, e isso em meio do desastre natural decorrente do terremoto e do tsunami que já custou mais de 25 mil vidas. Esta afirmação foi recentemente corroborada pelo presidente do Comitê Científico da Onu para os Efeitos da Radiação Atômica, afirmando que "o desastre em Fukushima não prejudicou a saúde dos japoneses". A divulgação do relatório da Unscear sobre o acidente será feita em maio próximo.

À medida que a Eletronuclear e toda a indústria de geração elétrica nuclear mundial incorporam aperfeiçoamentos técnicos decorrentes das lições aprendidas com Fukushima, temos que reconhecer uma verdade básica: esse evento não mudou em nada a realidade evidente que levou tantas nações, nestes últimos anos, a um caminho nuclear comum. A população mundial continuará o seu crescimento: de 3 bilhões em 1960 a quase 7 bilhões hoje, e subindo para 9 bilhões até 2050. A demanda mundial de eletricidade continuará a crescer ainda mais rapidamente, triplicando até 2050. A ciência continuará a nos alertar sobre a nossa necessidade de cortarmos drasticamente as emissões de carbono, ou correr o risco de passar por mudanças radicais no clima do planeta, o que representará uma ameaça para toda a civilização. E continuará a ser verdade que se pode realizar uma revolução no sentido da energia limpa lançando mão de todas as alternativas disponíveis, inclusive a nuclear.

Essas realidades são tão importantes e fundamentais quanto eram antes do histórico desastre natural do Japão. Portanto, o importante papel da geração elétrica nuclear também continua sendo o mesmo de antes. Encontrar os meios que permitirão que essa tecnologia de imenso valor desempenhe o seu papel fundamental e necessário na contínua melhoria das condições de vida da humanidade é o desafio que continuamos a enfrentar.

A maior lição de Fukushima, a partir da análise do evento e de suas repercussões mundiais, é que a nossa reação deve combinar uma prática cada vez mais segura com um melhor esclarecimento da população. Sem ambas, as bases da energia nuclear serão frágeis, e com isso também serão frágeis as perspectivas de revolução mundial da energia limpa da qual depende crucialmente o futuro ambiental do nosso planeta.