11 de Julho, 2011 - 00:48 ( Brasília )

Tecnologia

INOVAÇÃO - Segurança na ordem do dia

Depois de financiar quase R$ 80 milhões em projetos voltados para a área de segurança pública, a FINEP quer que tecnologia e inovação entrem definitivamente na agenda do combate ao crime nas grandes metrópoles. Com a proximidade de dois eventos grandiosos

Artigo Publicado Inovação em Pauta

Fábio Torres

Em  novembro do ano passado, o Brasil acompanhou pela televisão imagens que lembravam uma nova continuação do filme “Tropa de Elite”: a retomada da Vila Cruzeiro e do Conjunto de Favelas do Alemão, áreas cariocas então dominadas pelo tráfico de drogas. Foi uma aliança jamais vista no Rio, que reuniu as polícias Civil, Militar e Federal, o BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), a Marinha, o Exército e a Aeronáutica.
 
A entrada nas favelas representou a resposta do Estado à série de incêndios em veículos promovida por bandidos descontentes com a instalação das chamadas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nos territórios que mantinham sob domínio. Nos últimos anos, a FINEP aprovou cerca de R$ 77 milhões em financiamentos para projetos ligados à área de segurança pública. O pensamento, como não poderia deixar de ser, reside na volta da tranquilidade aos passeios públicos brasileiros e em dois grandes eventos: a Copa do Mundo de 2014 – a segunda em solo canarinho – e também as Olimpíadas do Rio, em 2016.
 
Sentado à mesa de trabalho, Edson Calil assistia pela tevê à migração dos bandidos que rumavam da Vila Cruzeiro para o Complexo Alemão, numa tentativa desesperada de fuga entre as favelas que funcionavam como bunker do comércio ilegal de entorpecentes. A cena, de longe, remontava o estourar de um formigueiro. Ao mesmo tempo, a todo instante, chegavam às suas mãos novas denúncias sobre a guerra civil que acontecia na telinha. Responsável pelo setor de relações institucionais do Disque-Denúncia do Rio de Janeiro, Calil conta que em meio ao histórico conflito foi atingido o número recorde de ligações em um único dia: 1.136 denúncias.
 
O total naquele mês de novembro chegou a quase 13 mil ligações. “Foi uma prova de fogo para o nosso sistema” conta.
 
O Disque-Denúnicia é a forma mais eficiente de o cidadão comum ajudar a polícia no combate a crimes de naturezas diversas. Basta uma ligação telefônica. O sigilo é absoluto. Depois de um primeiro aporte financeiro no valor de R$ 335 mil, em 2006, para a modernização e compra de equipamentos, FINEP e Disque-Denúncia voltam a conversar agora. Serão quase R$ 950 mil para o projeto “Sala de Situação de Estudos, Vigilância e Inteligência de Natureza Criminal e Informações Analíticas de Segurança Pública”. A ideia é ampliar a capacidade de armazenamento e cruzamento de dados que preenchem o banco do serviço, além de dinamizar o fluxo de informações junto às delegacias do estado do Rio. Para entender a importância deste investimento: a direção já contabiliza, ao todo, mais de um milhão e meio de denúncias desde 1995.
 
“O que é sofisticado hoje se torna obsoleto em pouquíssimo tempo. Precisamos processar e trabalhar com objetividade as denúncias que chegam todos os dias”, explica Calil. São cerca de 400 ligações por dia, 12 mil por mês. O Disque-Denúncia apresentou ao Rio de Janeiro um modelo inovador de parceria, unindo o setor privado, o governo e a sociedade civil organizada. A central de serviços é vinculada à Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro em forma de parceria entre o governo e ONG Movimento Rio de Combate ao Crime.
 
A ONG faz a gestão, compras, manutenção, difusão de campanhas, pagamento de recompensas (aos denunciantes e a policiais) e até de parte dos salários. Já a Secretaria gerencia o local de funcionamento e paga o salário dos atendentes. Só na capital, foram 67.350 denúncias em 2010, todas enquadradas em algum dos cerca de 180 temas elencados pelo serviço, tais como furto, estelionato e até cuprotráfico, que é o roubo de cobre, bastante rentável para os seus “praticantes”. No estado do Rio, foram 106.298 denúncias. O tráfico de drogas lidera as estatísticas de denúncias, respondendo por 31,61%. Outro tema que vem sendo acompanhado com olhar atento pela organização, em razão da crescente quantidade de denúncias, é a violência doméstica. Só no ano passado, o Disque-Denúncia registrou 1.432 cadastros de violência contra a mulher.
 
No topo da lista estão as agressões domésticas, que totalizaram 902 denúncias. Os estupros representam 482 cadastros, seguidos de atentado violento ao pudor (30) e até tráfico de mulheres (18). “São crimes silenciosos, pouco denunciados, o que dificulta nossa ação”, explica Calil.
 
Marcas que revelam origem de disparos
 
A fundação do Disque-Denúncia, há 14 anos, foi motivada principalmente pela onda de sequestros que apavorava o Rio de Janeiro. Só em 1995, foram 108, o que fez o serviço já nascer apresentando um núcleo específico para o tema. Sua extinção, em 2000, foi a prova de que este tipo de crime teve drástica redução no estado, afirmando o sucesso do combate inteligente. Com a dinâmica de crescimento e decréscimo da ocorrência de alguns delitos, bem como a variação nas zonas nevrálgicas de atuação de criminosos, a necessidade da constante afinação entre o Disque-Denúncia e as delegacias, a cada dia, se torna imperativa. “A organização está apoiada em quatro pilares: gestão, cooperação social, inteligência e, claro, tecnologia”, completa Calil. Tecnologia casada com ciência e inovação, aliás, é o foco da FINEP em seus financiamentos.
 
E com relação à área de segurança pública esta combinação vem sendo seguida à risca. Você sabia que o disparo de uma arma deixa marcas no projétil que podem revelar informações muito importantes para os peritos?
 
Em abril, um homem invadiu uma escola pública carioca e, numa ação que lembrou as históricas chacinas a estudantes nos EUA, atirou e matou 12 crianças. O assassino foi morto por um policial, mas caso tivesse fugido, já seria possível saber de qual arma partiram os tiros que chocaram o país. A empresa catarinense Photonita investiu no desenvolvimento de um equipamento capaz de identificar as armas envolvidas em crimes, a partir da medição das marcas deixadas na munição disparada: o sistema Lepus. Foram quase R$ 400 mil da FINEP para o desenvolvimento do protótipo. A identificação balística a que se propõe este sistema baseia-se no exame microcomparativo dos elementos de munição disparada.
 
Por exemplo, quando uma arma é apreendida, os peritos podem comparar as marcas que ela produz com as marcas encontradas nos elementos de munição de vários outros crimes, descobrindo se ela foi utilizada. A solução pode ser usada com precisão, em caso de conflitos armados, para reconhecer de qual objeto de fogo partiu um disparo que provocado vítimas, como no caso da escola no Rio. O equipamento é aplicado na aquisição e no armazenamento de fotos tanto de projéteis, como de estojos deflagrados, e oferece uma visão única de 360°.
 
Com agilidade, disponibiliza ferramentas gráficas para confrontos de imagens digitais, o reconhecimento automatizado de munições semelhantes que estejam reunidas numa base de dados e a perspectiva  de interligação entre diversos institutos de perícia que utilizem o mesmo sistema.
 
“Desenvolvemos o protótipo e queremos aprimorá-lo para que chegue ao mercado até 2013”, diz Cesar Kanda, sócio do Photonita. A Polícia Federal já estuda adquirir a inovação do empreendimento catarinense.
 
A perita Sara Lenharo, da Área de Balística Forense do Instituto Nacional de Criminalística da Polícia Federal, afirma que a planificação de imagens do Sistema Lepus é totalmente inovadora. Em outras palavras, o Lepus, diferentemente de outros sistemas automatizados de aquisição de imagens para confronto balístico, tais como IBIS e EVOFINDER, privilegia o confronto de projéteis. “Os equipamentos atuais fotografam por partes o projétil e isso contribui para que a qualidade da imagem não seja tão boa”, explica a perita.
 
Sara, aliás, é uma das coordenadoras do projeto financiado pela FINEP para a Polícia Federal na área de ciências forenses (análise científica das evidências de um crime). O Programa de Ciência e Tecnologia Aplicado à Segurança Pública, desenvolvido no Instituto Nacional de Criminalística (INC), em Brasília, apoia e fomenta projetos de pesquisa, desenvolvimento de novas tecnologias, inovação e capacitação nas áreas de análises químicas, mineralogia, genética, geofísica, geoprocessamento e análise papiloscópica. Foram disponibilizados recursos da ordem de R$ 4,5 milhões e a ideia, nas palavras dos responsáveis, é acabar em definitivo com o tempo do Sherlock Holmes e o mito do crime perfeito. Desde a descoberta, com precisão, de onde pode ter sido extraído um diamante roubado, até mesmo, por análise química, identificar a região de refino de alguma carga de cocaína apreendida, a tecnologia no combate ao crime chega a níveis impensáveis até pouco tempo atrás.
 
Robô que neutraliza explosivos
 
A Montreal Informática também recebeu R$ 2,4 milhões da FINEP para desenvolver um sofisticado sistema de reconhecimento facial para identificação civil, criminal e penitenciária. Dentre as várias biometrias – como a impressão digital, análise de íris, entre outros – o reconhecimento de face apresenta a vantagem de não ser intrusivo, ou seja, é possível fazer foto de uma pessoa de modo natural, sem que ela tenha de participar ativamente deste processo.
 
Ora, com a Copa e as Olimpíadas batendo à porta do País, é importante fortalecer os meios de checagem da identidade de qualquer cidadão, já que a segurança de eventos que param todo o planeta não admite qualquer tipo de falha. Sediada no Rio de Janeiro, a Ares Aeroespacial e Defesa ganhou R$ 2,6 milhões do Programa de Subvenção Econômica para criar um dispositivo autônomo de neutralização de explosivos. Em novembro passado, durante a série de atentados contra veículos ocorrida no Rio, um pacote foi abandonado bem no centro da movimentada Praça General Osório, em Ipanema, zona sul carioca. O esquadrão antibomba da polícia foi chamado às pressas.

Depois de uma minuciosa análise dos peritos, foi descoberto que o embrulho largado era parte da estratégia de marketing de uma marca de roupas. Publicidade de gosto duvidoso à parte, nem sempre casos como este são apenas mal entendidos, o que leva a uma ação cirúrgica por parte dos policiais na hora de explodirem ou neutralizarem um artefato. Pensando nisso, a empresa desenvolveu o projeto DIANE, um robô desenvolvido para manuseio e desativação de bombas ou materiais tóxicos, com aplicação em atividades de segurança pública ou industriais. “Este é o primeiro robô de neutralização de explosivos com tecnologia nacional”, conta Maurício Campello, um dos responsáveis pela engenhoca.