28 de Novembro, 2014 - 17:50 ( Brasília )

Tecnologia

Por que o Pentágono não pode perder a corrida da inovação

Estilo de negócio das gigantes do Vale do Silício pode ensinar ao setor de defesa como se modernizar com mais rapidez e eficiência

Por August Cole – Texto do Defense One

Tradução, Adaptação e edição – Nicholle Murmel

A visão do drone X-47B e do F/A-18E da Marinha americana operando em conjunto abordo do USS Theodore Roosevelt foi de cair o queixo. Conseguir realizar uma das manobras mais difíceis e bem orquestradas da aviação militar sem um piloto é um marco digno de orgulho e que levou anos para ser alcançado. Mas agora que os aplausos para a união mais recente entre homem e máquina cessaram, é hora de uma reflexão séria acerca do próximo grande passo para a indústria de defesa.

A futura vantagem tecnológica das Forças Armadas americanas depende de muito mais do que saltos em termos dos equipamentos que podem ser produzidos, como o X-47B. O Departamento de Defesa e as empresas que o apoiam enfrentam competição de projetos de tecnologia de ponta surgindo no mundo civil como nunca antes. Muito da arquitetura da defesa atual foi consruída há décadas para enfrentar Moscou. Os inovadores do setor militar do amanhã precisam ser capazes de chegar ao nível da elite do Vale do Silício para lidar com um espectro de ameaças e problemas que desafiam as soluções típicas.

A Google e outras companhias sólidas estão comprando exatamente as inovações que deviam estar no topo da lista de desejos do Pentágono. Não seria o caso de temer, mas de abraçar esse movimento. Já há exemplos de progresso conjunto do DoD e da indústria. A Lockheed Martin, a pedido do Pentágono, pretende aumentar os investimentos em seu setor de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Enquanto isso, o vice-secretário de Defesa, Bob Work, lidera uma estratégia renovada de “compensação” tecnológica para nivelar o know-how no setor.

Seria exagero dizer que a indústria de defesa e o Vale do Silício são adversários, mas ambos estão competindo mais do parece, e há muito que o setor militar pode aprender com essa rivalidade.

Não é segredo que os ciclos dos produto tecnológicos civis e os modelos de negócio do comércio costumam ser mais adequados ao ritmo dos conflitos do século 21 do que a forma como o governo desenvolve e compra tecnologia. Quando uma grande empresa do setor vê algo que gosta, pode rapidamente abrir a carteira. No fim do ano passado, a Google aumentou sua coleção de firmas de robótica com a aquisição da Boston Dynamics. Basta ver uma vez o video da companhia mostrando o robô humanóide Atlas para entender que o termo “infantaria mecanizada” terá todo um outro significado nas próximas décadas, mesmo que a Google tenha indicado que a empresa não assinaria mais contratos com as Forças Armadas. Este ano, a gigante da Internet também comprou a Skybox, fabricante de pequenos satélites captadores de imagens.

A comoção em torno da aquisição revelou o adversário que levou a pior, e cuja importância estratégica é vista em locais específicos no globo: o Facebook. A empresa de Mark Zuckenberg, por sua vez, comprou a Oculus VR, especializada em realidade virtual – sua criação Rift pode redefinir como os militares se preparam e como os civis entendem situações de conflito.

As grandes companhias de defesa têm à disposição bilhões de dólares – algumas, como a General Dynamics têm mais de 5 bilhões acumulados, de acordo com dados da própria contabilidade da empresa, mas seus investidores têm planos para esse dinheiro, e essa quantia equivale só a uma fração do que os maiores nomes do Vale do Silício têm no banco. Convenhamos também que nem todas as soluções para problemas estratégicos podem ser simplesmente compradas. Um primeiro passo menos oneroso para a indústria de defesa é investir tempo para entender as características das em empresas de tecnologia que lideram a corrida da inovação.

Construindo a cultura do agora

A miríade de aeronaves experimentais no acervo do Museu da Força Aérea em Dayton, Ohio, atesta como a ética do risco ajudou o design da aviação militar moderna. Cada avião com designação “X” foi uma aposta na capacidade de dominar um adversário e conquistar um cliente. Hoje, cada grande aquisição por parte da Google ou do Facebook também é uma aposta. Ainda assim, a maior parte dos investimentos no Vale do Silício são muito menores e mais frequentes, o que aumenta as chances de sucesso sem comprometer a estratégia mais ampla das grandes empresas.

Aquisições na área militar são delimitadas e seguem a lógica de evitar riscos do começo ao fim, com prospecções financeiras para contratos em nível federal. Há, no entanto, um número crescente de esforços bem-sucedidos para acelerar o metabolismo da indústria e do governo, especialmente no programa da aeronave espacial XS-1 da DARPA, e com o programa de aquisições rápidas do Comando de Operações Especiais.

Porém, se esses processos não forem acompanhados de mudanças em como o Congresso, as diretorias das empresas e o Departamento de Defesa lidam com fracassos – o que é essencial nas negociações no Vale do Silício – a aversão a riscos continuará a ser uma força contra a vantagem tecnológica dos Estados Unidos. A resposta para esse impasse é buscar com mais frequência metas menores, mas ainda significativas, dando mais chances para que o sucesso apareça.

As Forças Especiais do Exército dizem que “sua arma mais ponderosa é a sua mente”. Isso se aplica igualmente à comunidade tecnológica onde micro empresas de software podem pipocar do dia para a noite. No começo, horas são investidas, e em seguida mais dinheiro à medida em que as ideias são validadas. Mas não se trata necessariamente de lucro. A habilidade de investir exclusivamente no potencial de longo prazo de um software, por exemplo, significa colocar dinheiro na crença em alguns sujeitos com uma boa ideia. Esse lógica requer testes interativos e adaptações do produto aos seus usuários, de forma que o feedback quase que em tempo real acelera o processo de refinamento.

Essas iniciativas podem até mesmo aproximar engenehiros e clientes, ou um combatente em particular, no caso do Departamento de Defesa, muito mais rápido do que o processo corriqueiro de aquisição do governo. O Pentágono pode identificar melhor, e delegar mais responsabilidade para pessoas que tenham o potencial de cultivar pequenos projetos e transformá-los em programas significativos. Isso quer dizer que indústria e governo devem cuidar e atrair gerentes de destaque, engenheiros e entusiastas da inovação.

A comunidade de inteligência e contraterrorismo entende o poder da análise de redes de pessoas. Toda boa ideia que se torna uma empresa de bilhões de dólares começou com um círculo social de conhecidos embalados em uma onda crescente de sucesso. Enquanto as diretorias das maiores companhias do setor de defesa dos EUA são compostas por indivíduos altamente capacitados e com longos históricos, não há representantes do Vale do Silício. Mas deveria haver.

A indústria de defesa deveria abrir suas diretoria a esses executivos, capitalistas aventureiros e advogados que entendem diferentes tipos de oportunidades e riscos daqueles comuns a um ex-comandante militar ou executivo de vendas. A diretoria da Amazon tem membros vindos da MTV e da Kleiner Perkins Caufield& Byers.

As apostas tendem só a crescer para o setor militar. Ainda que a Google pareça direcionar a Boston Dynamics cada vez mais para longe do trabalho militar que financiou sua ascensão, a área de tecnologia pode sim vender para o mercado de defesa. A Amazon.com vende serviços de cloud-computing para a comunidad de inteligência. A Palantir vende softwares para as Forças Armadas e agências de inteligência. A SpaceX está mirando agressivamente em fatias consideráveis do negócio militar de lançamento especial, buscando deslocar concorrentes com contratos que deveriam durar anos.

Cada companhia terá que escolher seu próprio caminho, mas há alguns passos coerentes que todas podem dar. A indústria militar precisa adotar novas abordagens internas para premiar inovações que respeitem o legado de marcos aeroespaciais como o pouso recente do X-47B a bordo de CVN 71, ao mesmo tempo em que renova formas antigas de pensar e fazer negócios. Novos estilos de acordos e parcerias entre empresas de defesa e de tecnologia têm grande potencial para trocas técnicas e culturais, particularmente como forma de animar engenheiros jovens e administradores que podem trabalhar como parceiros inter-empresariais.

Aumentar os investimentos corporativos em P&D também é uma medida saudável, mas só se esse dinheiro for investido sabiamente, e não circular por aí para agradar à gerência. Também é importante reconhecer e validar o senso de missão presente em muitas firmas na área de defesa – um propósito muito diferente do que fazer uma empresa crescer paenas para “fins de liquidez”.

Ao mesmo tempo, o Pentágono precisa pressionar as instâncias mais altas e promover mudanças organizacionais para fechar o hiato entre querer ideias inovadoras para o setor de defesa e endender como adquirí-las da indústria. Dar às empresas controle sobre suas propriedades itelectuais ajudará a incentivar o investimento interno em P&D. O DoD também poderia deslocar recursos dos aproximadamente 68 bilhões de dólares gastos em testes e avaliações em geral, e trazê-los para a área científica.

Ficar frente a frente com a Google é difícil para quelaquer empresa, não apenas as de de defesa. Mas tomando as medidas certas, o setor e sua clientela não precisam se render na corrida da inovação.