COBERTURA ESPECIAL - Especial Espaço - Tecnologia

23 de Julho, 2012 - 09:36 ( Brasília )

Brasil e Ucrânia - A Cyclone vai decolar?

Joint venture na área espacial entre Brasil e Ucrânia enfrenta dívidas e atrasos na corrida para lançar seu primeiro foguete. Em jogo, um mercado de US$ 15 bilhões.

Marcelo CABRAL


O Brasil e o espaço nunca se entenderam muito bem. O sucesso do País em temas espaciais se limita à missão do astronauta Marcos Pontes, em 2006, em uma nave russa. O maior foguete nacional, o VLS, teve duas tentativas de lançamento fracassadas e uma explosão em solo que matou 21 pessoas e destruiu parte da base de Alcântara, no Maranhão, em 2003.

Manter essa situação será um desperdício. Afinal, trata-se de um dos mercados mais promissores do mundo. Segundo a consultoria francesa Euroconsult, até 2020 serão lançados 1.142 satélites, girando um total de US$ 196 bilhões. É uma média de 112 lançamentos por ano, frente aos 77 registrados na década anterior. Metade será formada pelos satélites em circulação nas chamadas órbitas baixas, de até 500 quilômetros de altura.

Em órbita: atraso em repasses ameaça meta de lançar primeiro foguete até 2013, traçada pelo brigadeiro Reginaldo Santos.

O Brasil tem potencial para explorar até 16 lançamentos por ano para o segmento de satélites meteorológicos, de comunicação e sensoriamento de até 5,3 toneladas, nicho que vai movimentar US$ 15 bilhões até o final da década. Foi para explorar essa mina de ouro celeste que o País assinou, em 2007, um acordo com a Ucrânia criando a Cyclone Alcântara Space, joint venture binacional voltada para o mercado de lançamento de satélites, dividindo em partes iguais os custos e os lucros.

Pelo acerto, o Brasil forneceria as instalações da base maranhense e os ucranianos – herdeiros da escola espacial da extinta União Soviética – entrariam com o foguete, desenvolvendo a versão 4 de sua bem-sucedida família Cyclone de lançadores.

Esperava-se que, em no máximo quatro anos, os foguetes estivessem decolando. Disputas políticas e atrasos nos repasses da Ucrânia jogaram o cronograma inicial por terra. A luz no fim do túnel surgiu no final do ano passado. Após uma visita ao Brasil, o presidente ucraniano, Viktor Yanukovitch, regularizou os repasses vindo do Leste Europeu. A injeção de recursos permitiu que as obras dos prédios da empresa na base de Alcântara fossem iniciadas, o desenvolvimento do foguete na Ucrânia fosse acelerado – 70% dele já está pronto – e abriu a perspectiva para a empresa realizar o seu aguardado voo de testes em novembro de 2013 – uma meta "ambiciosa mas factível", segundo diretores da Cyclone. Neste ano, no entanto, nova tormenta, desta vez 100% nacional. O governo brasileiro atrasou o repasse de R$ 135 milhões devido ao ajuste fiscal.

Com isso, a empresa acumulou dívidas de R$ 40 milhões, equivalentes ao caixa que mantém hoje. As empreiteiras responsáveis pelas obras na base de Alcântara reclamaram do atraso no pagamento e ameaçaram interromper as obras. O alívio só veio há 15 dias, quando a presidenta Dilma Rousseff autorizou a transferência dos recursos em atraso. Entre diretores da empresa, o temor é de que a dificuldade para obter verbas cada vez mais se torne a regra, e não a exceção.

O brigadeiro Reginaldo Santos, presidente da Cyclone, minimiza as dificuldades, dizendo que os atrasos se devem ao procedimento burocrático para liberação de recursos. Já Oleksandr Serdyuk, diretor que representa a Ucrânia na joint venture, se mostra incomodado com a situação. "Nossa situação financeira é difícil", diz Serdyuk.

"A posição oficial do governo brasileiro é de apoio ao projeto, mas na prática não é o que vemos." Se a Cyclone não sair do chão, além do mercado potencial também serão desperdiçados os US$ 200 milhões já investidos por cada país no projeto.

O preço é a principal aposta da Cyclone para tentar conquistar ao menos um terço do mercado, tendo como trunfo a localização geográfica da base de Alcântara. Situada próxima à linha do Equador, ela faz com que os foguetes gastem até 30% menos combustível do que os que são lançados das tradicionais bases mundiais de Cabo Canaveral, nos Estados Unidos, e Baikonur, no Cazaquistão. Assim, espera-se que cada lançamento do Cyclone-4, na base maranhense, custe US$ 55 milhões para o contratante, frente aos US$ 70 milhões da maior parte dos concorrentes.