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Defesanet 06 Junho 2006
Exclusivo Defesa@Net

ENTREVISTA COM MARCOS PONTES, TEN.CEL.AV.
Primeiro astronauta e cosmonauta brasileiro ©

Entrevista exclusiva concedida, desde Houston(TX), a André Mileski
responsável pela área espacial de Defesa@Net

André Mileski
Defesa@Net

Defesa@Net: Pontes, qual é a razão de sua ida para a reserva?
Marcos Pontes:: Foi o única solução lógica e o melhor caminho para favorecer o Programa Espacial e à Forca Aérea simultaneamente. Tomamos a decisão conjuntamente. Depois de longa análise do cenário atual junto com oficiais do Comando e o Comandante da Aeronáutica, foi decidido que a minha passagem para a reserva seria a única solução que permitiria a continuidade e ampliação de minha participação nos Projetos do Programa Espacial e da FAB de forma mais eficiente, ampliando as possibilidades desses projetos e trazendo vantagens simultaneamente para todas os programas e instituições envolvidas (a participação brasileira na ISS, o programa do VLS, das plataformas de lançamento, as cooperações internacionais , programas de defesa e a indústria nacional).

Defesa@Net: Como você viu toda a polêmica causada pela sua "aposentadoria" alguns meses depois da realização da primeira missão espacial tripulada brasileira, paga com recursos públicos?
Marcos Pontes:
Impressionado com a irresponsabilidade de algumas pessoas que, por ignorância ou maldade, ou comandadas por algum outro interesse pessoal ou político, criaram rapidamente um enorme serviço negativo para o Brasil, falando uma porção de inverdades, agreessões pessoais, etc. É triste, mas talvez tenha sido a única maneira que tiveram para extravazar sentimentos negativos como inveja, medo, insegurança, stress, ciúmes, etc. Em minhas orações peço que Deus os ilumine e os ajude a encontrarem satisfação em suas próprias realizações (coisas que eles tenham feito pela sua própria competência) e assim tenham mais tempo dedicado para coisas produtivas do que destrutivas. Basicamente a mentira que usaram para enganar o público foi dizer que eu estava saindo do programa espacial, sendo que essa transferência para a reserva era justamente para ampliar essa participação minha no Programa. Um verdadeiro absurdo, mas as palavras maldosas morrem com o tempo, enquanto as minhas atitudes concretas pelo programa perduram. O fato verdadeiro é (durante 8 anos de participação no Programa Espacial): o problema de muita gente não é querer me manter no programa espacial. O problema é querer me tirar dele. Nunca conseguiram e eu vou continuar a lutar pelos projetos espaciais que acredito dentro do programa nem que seja por minha conta própria!

Nota Defesa@Net - Marcos Pontes fez questão de comentar:" Reserva da Força Aérea é diferente de "aposentadoria", pois posso ser chamado ao serviço ativo a qualquer momento caso necessário. Outro detalhe que vale a pena ser repetido é que fui para a Reserva da Força Aérea Brasileira justamente para ampliar minha atuação para o Programa Espacial Brasileiro, e estou aqui na NASA em pleno trabalho. Também é importante destacar que aqui na NASA o fato de estar na reserva é fato comum e nunca encarado como saída do programa (exemplo: William MacArthur, Coronel da Reserva do Exército Americano, tripulante da expedição 12 da ISS. Estivemos juntos no espaço e ele pousou comigo no Soyuz! Interessante, não é?)"
Ponte detalhou sua passagem para a reserva no texto:PASSAGEM DO SERVIÇO ATIVO PARA A RESERVA DA FORÇA AÉREA

Defesa@Net: Durante e após a Missão Centenário, muitas críticas quanto ao conteúdo científico-tecnológico da missão e eventuais irregularidades a propósito de sua atuação como astronauta surgiram na imprensa. Qual é a sua opinião sobre estas críticas?
Marcos Pontes:
Minha participação na missão centenário era exclusivamente como tripulante (astronauta profissional) a serviço do país. Decisões administrativas não fazem parte das minhas atribuições. Treinei vários anos para cumprir a missão para o país e levar a bandeira ao espaço. Sacrifiquei minha vida pessoal e minha carreira na FAB para isso. Cumpri a missão exatamente como fui treinado: sem qualquer erro operacional. Realizei os experimentos que foram enviados comigo da forma prevista. Isto é o retorno integral do investimento feito para o treinamento. Do ponto de vista operacional, minha participação, foi concluída com pleno sucesso no momento do pouso. Lógico que continuo agora a motivar os jovens para as carreiras militares e de C&T isso seria óbvio, de qualquer modo, visto que é algo que é parte dos meus objetivos de vida. Mas a Missão foi concluída, operacionalmente falando, em 09 de Abril. Quanto a objetivos da missão, fatores de orçamento, justificativa de custos, decisão dos experimentos, utilização dos resultados, etc...São decisões e assuntos da administração da Agência Espacial Brasileira (AEB), eu procuro não interferir em nada disso. Não é de minha competência.

Defesa@Net: Você foi convidado para trabalhar na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP)? Qual seria a sua função na entidade, e como poderia colaborar a partir dela para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro e indústria aeroespacial nacional?
Marcos Pontes:
Essa assessoria direta a indústria é uma ligação muito importante no presente momento, em que a participação brasileira na ISS esta critica pelos atrasos na entrega dos componentes de responsabilidade do Brasil. Estas semanas, enquanto falavam besteiras sobre a minha ida para a reserva, eu trabalhava aqui em JSC-NASA, junto a gerência do programa da ISS para convencê-los de não "dispensar" o país da cooperação. Isso é a urgência importante do momento. Parte da argumentação e justamente o fato de que agora, trabalhando diretamente com a indústria e ainda fazendo a ligação da AEB diretamente com a NASA aqui em Houston, todos os processos da construção das partes serão feitos com maior rapidez e eficiência. Aliás, este foi um fator importante nessa decisão para otimizar minha utilização para os projetos do programa. Se você pensar bem, agora temos a situação mais otimizada possível para minha participação. E acredite, vamos precisar disso. Fala-se no momento de uma sugestão do INPE para substituir as partes brasileiras já acordadas (FSEs) por uma contribuição a um satélite do NOAA. Conhecendo a NASA, não acredito nessa possibilidade, visto que o NOAA é uma agencia distinta (não faz parte da NASA). Portanto, ainda permanecemos acelerando os processos dos FSEs.

Defesa@Net: Sua ida para a reserva foi escolha pessoal sua? Nos bastidores, cogitava-se sobre uma eventual pressão por parte de alguns setores do governo exigindo a sua reserva...
Marcos Pontes:
Não houve pressão. O Comando da Aeronáutica e eu decidimos juntos que essa deveria ser a solução a ser tomada para a minha continuidade no programa espacial com maior participação e eficiência para os projetos.

Defesa@Net: Nos dias seguintes ao retorno do espaço, você deu entrevistas informando sobre a possibilidade de um segundo vôo, desta vez a bordo de um ônibus espacial norte-americano, em 2008 ou 2009. Sua ida para a reserva indica que esta segunda missão dificilmente ocorrerá?
Marcos Pontes:
A situação atual da participação brasileira na ISS descarta completamente a possibilidade de um segundo vôo no nível atual da cooperação. Meu objetivo agora é contribuir para salvarmos a boa reputação do Brasil junto aos outros 15 países participantes do programa internacional da ISS e lutar para ampliar a nossa contribuição. Com isso poderíamos pleitear um vôo espacial. Minha vontade é de voar, porém pretendo que tenhamos um segundo astronauta treinado, dando assim continuidade no processo dos vôos tripulados no Brasil. Esse e um dos meus objetivos pessoais atuais, conforme informei em um dos textos que escrevi na minha página http://www.marcospontes.net.

Defesa@Net: A participação brasileira na construção da Estação Espacial Internacional (ISS, sigla em inglês), assinada em outubro de 1997 já foi submetida a uma drástica revisão no início da atual década. Ao invés de fornecer os seis tipos de peças previamente acordadas, o País passaria agora a fornecer equipamentos de suporte ao vôo (Flight Support Equipments - FSEs), cujos protótipos estão sendo construídos numa unidade do SENAI de São Paulo. Afinal, a contratação destes equipamentos junto à indústria nacional e conseqüente cessão dos mesmos à NASA ainda não foram definidas?
Marcos Pontes:
Não. Esse é justamente o nosso problema atual. Estamos muito atrasados nesse processo. Precisamos ter mais agilidade. Exatamente por isso é que estou me colocando nessa configuração, URGENTEMENTE junto a indústria no Brasil e no programa espacial (AEB) aqui em Houston. Esperamos que assim possamos acelerar essa construção.

Defesa@Net: O que significaria, mais uma vez, um recuo do País na participação do projeto da ISS, considerando que se trata do único país dito subdesenvolvido a participar do programa?
Marcos Pontes:
Uma vergonha para o nome do Brasil e para o Programa Espacial e suas instituições. Além disso, seria um descrédito para a nossa indústria e o nosso setor de ciência e tecnologia. Mas tenho certeza que a AEB, responsável legal direta pela condução do programa, não deixará isso acontecer. Eu, de minha parte, farei o possível para manter o projeto. Como sempre tenho feito!

Defesa@Net: Poucas pessoas acompanharam de perto e ao seu lado todas as dificuldades enfrentadas desde a sua seleção para se tornar o primeiro astronauta brasileiro. Você pretende, um dia, escrever sobre o difícil caminho trilhado até o vôo?
Marcos Pontes:
Sem dúvida. E pode ter certeza que irá incluir todos os detalhes, inclusive desse início de segunda fase de minha participação o programa espacial. E necessário deixar registrado para a historia e para o aprendizado das gerações futuras todos os fatos verdadeiros, as injustiças, as vitórias e tudo mais.

Defesa@Net: Gostaria de deixar uma mensagem final para os nossos leitores?
Marcos Pontes:
Nas últimas semanas, assistimos a uma enorme "lambança" feita por aproveitadores com relação a minha transferência para a reserva da Forca Aérea que procuraram enganar o público passando a idéia de que minha ida para a reserva era sinônimo de saída do programa espacial (sendo que é justamente o oposto - ampliando minha participação). Não serei leviano como foram, afirmando que isso ocorre por essa ou por outra razão. Eu não sei o porquê fizeram tudo aquilo. Contudo, qualquer pessoa, usando bom senso, pode ter suas próprias idéias das razões que motivaram essas pessoas.
Tenho plena certeza que a imensa maioria utiliza esse bom senso. Restam as pessoas que não sabem (ou não querem) ver a realidade dos fatos ou preferem as mentiras, politicagem, sensacionalismo, inveja, etc... Aliás é triste ver esse traço negativo na personalidade de algumas pessoas. Não é uma coisa boa. Em todo caso, não é difícil ver a verdade, basta acompanhar a continuidade do meu trabalho no Programa aqui na NASA, de onde escrevo esses respostas, ler informações diretas de quem sabe do assunto (pode ser visto todos os detalhes nos textos que escrevi sobre o assunto no site http://www.marcospontes.net), etc. Interessante é notar como outros assuntos de extrema importância e urgência de serem tratadas e corrigidos perderam o foco público em face da manipulação de informações sobre um processo normal de continuação do meu trabalho. Seria coincidência?

Defesa@Net

PASSAGEM DO SERVIÇO ATIVO PARA A RESERVA DA FORÇA AÉREA - 05 Junho 2006
http://www.defesanet.com.br/space/marcos_pontes_6.htm

Astronauta MARCOS PONTES Passa para a Reserva da FORÇA AÉREA e Permanece Completamente Integrado e Trabalhando no Programa Espacial Brasileiro!
http://www.defesanet.com.br/space/marcos_pontes_5.htm

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