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Leia matéria exclusiva com as informações do "Relatório elaborado pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) sobre a retomada do projeto do VLS-1.
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Defesanet 30 Outubro 2005
Folha de São Paulo 29 0utubro 2005

Brasil lançará apenas "meio VLS" em 2007

Engenheiros planejam vôo de teste com só parte do foguete operacional, o que o impedirá de colocar satélite em órbita

SALVADOR NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL

Não há mais dúvida de que o próximo lançamento do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites), além de não cumprir a promessa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ir ao espaço antes do final de 2006, também não será capaz de colocar um satélite em órbita.

Ainda que a decolagem, atualmente planejada para o segundo semestre de 2007, seja bem-sucedida, ela está sendo organizada apenas como um teste para os dois primeiros estágios do foguete -os únicos que estarão funcionando durante a tentativa.

Com eles apenas, o foguete jamais terá a energia necessária para atingir a velocidade de 28 mil quilômetros por hora necessária para pôr um satélite em órbita.

Um foguete é dividido em estágios para facilitar a chegada do satélite em órbita. São como se fossem foguetes empilhados. Queima-se primeiro o combustível do andar inferior, que então é descartado, diminuindo a massa total do veículo e, com isso, a energia exigida para seguir adiante.

O VLS-1 tem quatro estágios. O primeiro é composto por quatro propulsores paralelos, instalados na base do veículo. Os três estágios seguintes são empilhados uns sobre os outros, no tubo central do lançador. O satélite fica na coifa, compartimento acima de todo o conjunto.

Fazer voar um lançador de satélites incapaz de lançar satélites pode parecer uma cena frustrante, mas a idéia faz sentido, à luz do aprendizado com o histórico do veículo, que já está em desenvolvimento desde a década de 1980.

Nos dois primeiros lançamentos do VLS-1, em 1997 e 1999, uma falha obrigou à autodestruição do foguete ainda durante a queima do primeiro estágio. Ou seja, em ambos os casos, embora o foguete todo fosse operacional, só foi possível testar de fato o primeiro estágio -e com falha.

Doses homeopáticas

A idéia agora é mudar esse quadro, qualificando o foguete em etapas. "Esse será apenas um vôo tecnológico", enfatiza o major-brigadeiro Adenir Siqueira Viana, diretor do CTA (Centro Técnico Aeroespacial), órgão que, por meio do IAE (Instituto de Aeronáutica e Espaço), é responsável pelo projeto do VLS-1.

Segundo Viana, a única motivação por trás da decisão é evitar desperdícios. Mas a Folha apurou que há outra razão, mais incômoda. Uma das poucas peças do VLS-1 que não são brasileiras é a chamada plataforma inercial -unidade que fica perto do topo do foguete e permite direcioná-lo. Sem ela, não se pode controlar adequadamente o foguete para colocar um satélite em órbita ou, em caso de guerra, usá-lo como míssil contra um alvo qualquer.

As plataformas do VLS-1 foram compradas da Rússia, de uma vez só, num total de cinco. Três foram usadas nos lançamentos de 1997 e 1999 e uma se perdeu no incêndio de 2003. Uma teria sido danificada num esforço de "estudá-la". Só resta uma. Em caso de falha em sua quarta tentativa de lançamento, o Brasil ficaria sem plataformas inerciais. Como é uma tecnologia que o país ainda não domina (e que é muito restrita em termos comerciais, em razão de seu potencial uso bélico), o IAE seria obrigado a interromper o projeto.

Um esforço conjunto de Inpe e IAE, com financiamento saído dos fundos setoriais, está atualmente em curso para que se desenvolva uma plataforma inercial própria, informa a AEB (Agência Espacial Brasileira). Espera-se que a pesquisa renda seus frutos em coisa de três anos.

Lançamento incerto

A data para o próximo vôo ainda pende pelas obras de reconstrução da torre móvel de integração, prédio que servia como plataforma para a montagem do foguete, no Centro de Lançamento de Alcântara, no Maranhão. Ela foi destruída no acidente que matou 21 técnicos e engenheiros do IAE enquanto eles preparavam o terceiro exemplar do VLS-1 para vôo, em agosto de 2003.

Uma licitação já chegou a ser feita para a reconstrução da torre, mas como duas empresas se apresentaram com valores muito discrepantes, o processo terá de ser refeito. Segundo a AEB, uma nova licitação está em fase de preparação, e a idéia é ter a torre pronta no segundo semestre de 2007 -mas não há garantias. Por ora, a única "obra" que se conduziu no centro de lançamento após o acidente foi a retirada dos destroços.

Satélite só sairia em terceiro vôo

DA REPORTAGEM LOCAL

Caso dê tudo certo com a tentativa "meia-bomba" de lançar o VLS-1 em 2007 (que contará também com pelo menos 25 modificações no lançador com relação às versões anteriores, baseadas em recomendações de uma consultoria russa), Adenir Viana, diretor do Centro Técnico Aeroespacial, diz que um lançamento completo poderia ser providenciado "em questão de meses" -ou seja, para 2008.

Ainda assim, não existem planos para a colocação de um satélite de verdade no foguete seguinte. Será então o momento para testar e qualificar o terceiro e quarto estágios do veículo. Só numa terceira decolagem (com o sexto VLS-1) seria possível sonhar com uma missão espacial "para valer", possivelmente em 2009.

Também está marcada para 2009 a estréia do lançador Alfa, parte do Programa Cruzeiro do Sul, recentemente anunciado pelo governo brasileiro, que prevê o desenvolvimento de cinco novos foguetes até 2022.

O Alfa seria uma atualização do VLS-1: saem o terceiro e quarto estágios atuais e entra no lugar um único estágio de combustível líquido, desenvolvido em parceria com engenheiros russos, conforme prevê protocolo assinado em Moscou durante a visita do presidente Lula à Rússia.

Moral da história: quando o VLS-1 original estiver testado e pronto, é bem possível que ele não seja mais necessário e nem chegue a lançar um satélite.

Sobre a questão do desenvolvimento de sistemas inerciais no Brasil, veja o trecho de uma nota da coluna Panorama Espacial, publicada na revista Tecnologia & Defesa, nº 103:

"Uma decisão tomada no âmbito dos comitês gestores dos fundos espacial, aeronáutico e verde-amarelo no início de 2005 permitirá a concentração de esforços no desenvolvimento de sistemas de controle e navegação. Normalmente de difícil aquisição e, em muitas situações, indisponíveis para a comercialização no exterior, esses sistemas têm a função de garantir tanto a exatidão da trajetória de um foguete quanto o posicionamento correto de plataformas orbitais. O Projeto "Sistemas Inerciais para Aplicação Aeroespacial", aprovado pelos comitês, receberá R$ 7,69 milhões e será executado em parceria do CTA com o INPE. A iniciativa envolverá também a indústria e contribuirá para a capacitação de recursos humanos, com a formação de mestres e doutores nesta área."

É importante que a AEB encontre soluções para que o lançamento de satélites nacionais em desenvolvimento no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) não seja prejudicado pela demora na retomada do programa de lançadores. Caso contrário, programas como os de satélites científicos e o Sistema de Coleta de Dados (SCD) estariam sob sério risco, que envolveriam, inclusive, o cumprimento de compromissos internacionais.

Defesa @ Net

Brasil lançará apenas "meio VLS" em 2007
http://www.defesanet.com.br/space/fsp_29_out_05.htm

Relatório elaborado pelo Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) sobre a retomada do projeto do VLS-1
http://www.defesanet.com.br/space/vls-1_retomada.htm

País quer cinco novos lançadores até 2022 http://www.defesanet.com.br/space/fsp_26_out_05.htm

Governo anuncia megaprojeto de US$ 700 milhões para 5 novos lançadores, desenvolvidos a partir do VLS-1
http://www.defesanet.com.br/space/vp_25_out_05.htm

Projeto: desmilitarizar Alcântara
http://www.defesanet.com.br/space/oesp_21_jul_05.htm

AEB quer gastar R$ 600 mi em Alcântara
http://www.defesanet.com.br/space/fsp_21_jul_05.htm

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