Brasil
lançará apenas "meio VLS" em 2007
Engenheiros
planejam vôo de teste com só parte do foguete
operacional, o que o impedirá de colocar satélite
em órbita
SALVADOR
NOGUEIRA
DA REPORTAGEM LOCAL
Não
há mais dúvida de que o próximo lançamento
do VLS-1 (Veículo Lançador de Satélites),
além de não cumprir a promessa do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva de ir ao espaço
antes do final de 2006, também não será
capaz de colocar um satélite em órbita.
Ainda
que a decolagem, atualmente planejada para o segundo semestre
de 2007, seja bem-sucedida, ela está sendo organizada
apenas como um teste para os dois primeiros estágios
do foguete -os únicos que estarão funcionando
durante a tentativa.
Com
eles apenas, o foguete jamais terá a energia necessária
para atingir a velocidade de 28 mil quilômetros
por hora necessária para pôr um satélite
em órbita.
Um
foguete é dividido em estágios para facilitar
a chegada do satélite em órbita. São
como se fossem foguetes empilhados. Queima-se primeiro
o combustível do andar inferior, que então
é descartado, diminuindo a massa total do veículo
e, com isso, a energia exigida para seguir adiante.
O
VLS-1 tem quatro estágios. O primeiro é
composto por quatro propulsores paralelos, instalados
na base do veículo. Os três estágios
seguintes são empilhados uns sobre os outros, no
tubo central do lançador. O satélite fica
na coifa, compartimento acima de todo o conjunto.
Fazer
voar um lançador de satélites incapaz de
lançar satélites pode parecer uma cena frustrante,
mas a idéia faz sentido, à luz do aprendizado
com o histórico do veículo, que já
está em desenvolvimento desde a década de
1980.
Nos
dois primeiros lançamentos do VLS-1, em 1997 e
1999, uma falha obrigou à autodestruição
do foguete ainda durante a queima do primeiro estágio.
Ou seja, em ambos os casos, embora o foguete todo fosse
operacional, só foi possível testar de fato
o primeiro estágio -e com falha.
Doses
homeopáticas
A
idéia agora é mudar esse quadro, qualificando
o foguete em etapas. "Esse será apenas um
vôo tecnológico", enfatiza o major-brigadeiro
Adenir Siqueira Viana, diretor do CTA (Centro Técnico
Aeroespacial), órgão que, por meio do IAE
(Instituto de Aeronáutica e Espaço), é
responsável pelo projeto do VLS-1.
Segundo
Viana, a única motivação por trás
da decisão é evitar desperdícios.
Mas a Folha apurou que há outra razão, mais
incômoda. Uma das poucas peças do VLS-1 que
não são brasileiras é a chamada plataforma
inercial -unidade que fica perto do topo do foguete e
permite direcioná-lo. Sem ela, não se pode
controlar adequadamente o foguete para colocar um satélite
em órbita ou, em caso de guerra, usá-lo
como míssil contra um alvo qualquer.
As
plataformas do VLS-1 foram compradas da Rússia,
de uma vez só, num total de cinco. Três foram
usadas nos lançamentos de 1997 e 1999 e uma se
perdeu no incêndio de 2003. Uma teria sido danificada
num esforço de "estudá-la". Só
resta uma. Em caso de falha em sua quarta tentativa de
lançamento, o Brasil ficaria sem plataformas inerciais.
Como é uma tecnologia que o país ainda não
domina (e que é muito restrita em termos comerciais,
em razão de seu potencial uso bélico), o
IAE seria obrigado a interromper o projeto.
Um
esforço conjunto de Inpe e IAE, com financiamento
saído dos fundos setoriais, está atualmente
em curso para que se desenvolva uma plataforma inercial
própria, informa a AEB (Agência Espacial
Brasileira). Espera-se que a pesquisa renda seus frutos
em coisa de três anos.
Lançamento
incerto
A
data para o próximo vôo ainda pende pelas
obras de reconstrução da torre móvel
de integração, prédio que servia
como plataforma para a montagem do foguete, no Centro
de Lançamento de Alcântara, no Maranhão.
Ela foi destruída no acidente que matou 21 técnicos
e engenheiros do IAE enquanto eles preparavam o terceiro
exemplar do VLS-1 para vôo, em agosto de 2003.
Uma
licitação já chegou a ser feita para
a reconstrução da torre, mas como duas empresas
se apresentaram com valores muito discrepantes, o processo
terá de ser refeito. Segundo a AEB, uma nova licitação
está em fase de preparação, e a idéia
é ter a torre pronta no segundo semestre de 2007
-mas não há garantias. Por ora, a única
"obra" que se conduziu no centro de lançamento
após o acidente foi a retirada dos destroços.
Satélite
só sairia em terceiro vôo
DA
REPORTAGEM LOCAL
Caso
dê tudo certo com a tentativa "meia-bomba"
de lançar o VLS-1 em 2007 (que contará também
com pelo menos 25 modificações no lançador
com relação às versões anteriores,
baseadas em recomendações de uma consultoria
russa), Adenir Viana, diretor do Centro Técnico
Aeroespacial, diz que um lançamento completo poderia
ser providenciado "em questão de meses"
-ou seja, para 2008.
Ainda
assim, não existem planos para a colocação
de um satélite de verdade no foguete seguinte.
Será então o momento para testar e qualificar
o terceiro e quarto estágios do veículo.
Só numa terceira decolagem (com o sexto VLS-1)
seria possível sonhar com uma missão espacial
"para valer", possivelmente em 2009.
Também
está marcada para 2009 a estréia do lançador
Alfa, parte do Programa Cruzeiro do Sul, recentemente
anunciado pelo governo brasileiro, que prevê o desenvolvimento
de cinco novos foguetes até 2022.
O
Alfa seria uma atualização do VLS-1: saem
o terceiro e quarto estágios atuais e entra no
lugar um único estágio de combustível
líquido, desenvolvido em parceria com engenheiros
russos, conforme prevê protocolo assinado em Moscou
durante a visita do presidente Lula à Rússia.
Moral
da história: quando o VLS-1 original estiver testado
e pronto, é bem possível que ele não
seja mais necessário e nem chegue a lançar
um satélite.
| Sobre
a questão do desenvolvimento de sistemas inerciais
no Brasil, veja o trecho de uma nota da coluna Panorama
Espacial, publicada na revista Tecnologia & Defesa,
nº 103:
"Uma
decisão tomada no âmbito dos comitês
gestores dos fundos espacial, aeronáutico
e verde-amarelo no início de 2005 permitirá
a concentração de esforços
no desenvolvimento de sistemas de controle e navegação.
Normalmente de difícil aquisição
e, em muitas situações, indisponíveis
para a comercialização no exterior,
esses sistemas têm a função
de garantir tanto a exatidão da trajetória
de um foguete quanto o posicionamento correto de
plataformas orbitais. O Projeto "Sistemas Inerciais
para Aplicação Aeroespacial",
aprovado pelos comitês, receberá R$
7,69 milhões e será executado em parceria
do CTA com o INPE. A iniciativa envolverá
também a indústria e contribuirá
para a capacitação de recursos humanos,
com a formação de mestres e doutores
nesta área."
É
importante que a AEB encontre soluções
para que o lançamento de satélites
nacionais em desenvolvimento no Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais (INPE) não seja prejudicado
pela demora na retomada do programa de lançadores.
Caso contrário, programas como os de satélites
científicos e o Sistema de Coleta de Dados
(SCD) estariam sob sério risco, que envolveriam,
inclusive, o cumprimento de compromissos internacionais.
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