22 de Junho, 2016 - 10:00 ( Brasília )

SOF

Treinamento especial prepara soldados brasileiros para operações em regiões áridas

Criado em 1995, programa de estágio já ensinou 6.742 soldados a sobreviver no ambiente hostil na região da Caatinga.

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Andrea Barretto Lemos
 

A Caatinga, ou “Mata Branca” na língua nativa tupi, é um bioma do Brasil onde a média anual de chuvas é de 500 milímetros, semelhante aos índices pluviométricos de desertos. As temperaturas variam entre 25°C e 27°C, enquanto o solo duro e pedregoso pode atingir 60ºC. Nesse cenário – que cobre cerca de 11% do território nacional – atuam 30 mil militares do Comando Militar do Nordeste (CMNE) do Exército Brasileiro.

Em 1995, o Exército, em um esforço para preparar os militares que servem em uma das unidades do CMNE, criou os Estágios de Adaptação à Caatinga e os Estágios de Adaptação e Operações na Caatinga. Desde então, são realizados anualmente sete treinamentos, pelos quais já passaram 6.742 soldados. O estágio mais recente teve 30 participantes e ocorreu entre 14 e 20 de maio.

“Os Estágios de Adaptação têm uma única fase, com duração de uma semana, cujo objetivo é fazer os combatentes adquirirem conhecimentos que permitam sua sobrevivência no ambiente rigoroso da Caatinga”, explicou o Capitão José Carlucio Gomes de Sousa Junior, chefe da Divisão de Ensino do Centro de Instrução e Operações na Caatinga (CIOpC).

Nos Estágios de Adaptação e Operações, como o nome indica, os soldados completam a primeira etapa de instrução e prosseguem por mais uma semana com exercícios operacionais. “O Comando Militar do Nordeste tem uma vocação para as operações de Garantia da Lei e da Ordem, quer dizer, operações que objetivam preservar a ordem pública. ”, acrescentou o Cap Carlucio. “As atividades que colocamos como contexto na segunda fase do estágio estão dentro dessa ideia.”

Sobrevivência na Caatinga

Em situações extremas, a sobrevivência dos soldados na Caatinga depende de habilidades para localizar fontes de água e alimentos, livrar-se de animais ameaçadores e abrigar-se do sol utilizando o que o ambiente oferece – não mais do que arbustos com poucas folhas e cactos. O CIOpC planeja sete dias de atividades para os participantes do Estágio de Adaptação, que só é iniciado após exames médicos para avaliar se o militar tem condições de enfrentar esforços exaustivos.

Na aula inaugural, que é realizada na sede da 72º Batalhão de Infantaria Motorizado, na cidade de Petrolina, no estado de Pernambuco, os instrutores fazem uma exposição sobre as características da região e de sua população. Os militares seguem depois para o Parque Zoobotânico, dentro do próprio Batalhão, onde conhecem a vegetação e animais típicos da região da Mata Branca no nordeste do Brasil.

Os próximos seis dias de estágio ocorrem ao ar livre, no Campo de Instrução Fazenda Tanque do Ferro, a 108 quilômetros de Petrolina. “Quando chegamos, temos de montar um abrigo para pernoite com o material que a gente consegue encontrar no local”, afirmou o Major Leonardo Henrique Medeiros Rodrigues, sobre sua experiência como participante do estágio realizado em maio. “Ali a gente vive realmente a dificuldade de estar na Caatinga, um ambiente inóspito, onde temos de extrair água de onde é possível.”

Para obter água, vale até aproveitar as gotas do orvalho, conta o Cap Carlucio. “A gente ensina a aproveitar a água do orvalho, de plantas e do solo e ensinamos a filtrar essa água... Instruímos os combatentes a se orientar por meio de mapas e a identificar os animais que podem servir de caça, reconhecer o local onde se alimentam e dormem. Mostramos como preparar uma armadilha para capturar esses animais e treinamos tiros de arma de caça.”

A experiência passa ainda pela identificação dos animais peçonhentos e répteis e por ensinamentos sobre primeiros socorros. Além do aprendizado de técnicas de sobrevivência, os soldados são estimulados a desenvolver habilidades mais subjetivas conhecidas como “Conteúdos Atitudinais”. “Esses conteúdos estão relacionados à parte afetiva do militar, por exemplo, o desenvolvimento da autoconfiança, da coragem, da iniciativa, do equilíbrio emocional, da liderança, da decisão, da persistência e da capacidade de adaptação a situações de restrição”, disse o Cap Carlucio.

Treinamento para operações internacionais

Após uma semana, os militares em Estágio de Adaptação e Operações saem da etapa de instrução e começam a etapa de operações, quando cumprem uma série de missões de treinamento criadas com base em situações da vida real. “Uma das missões pode ser, por exemplo, o enfrentamento de uma situação de tráfico de drogas em que a atuação dos órgãos de segurança pública já tenha se exaurido”, explicou o Cap Carlucio.

Nessa fase, os participantes são divididos em equipes e cada um assume uma função. Uma vez divulgada a missão, as equipes têm de realizar o planejamento, preparar o material necessário, conduzir os deslocamentos dentro da Caatinga e cumprir ações programadas que seguem um cronograma rigoroso.

Os militares chegam a um estado de extremo cansaço, mas o objetivo é que se mantenham raciocinando e planejando minimamente as missões. “Eles recebem uma tarefa, que começam em um dia e terminam no outro. Depois de um intervalo de uma ou duas horas é iniciada uma outra missão, e assim sucessivamente, por uma semana”, afirmou o Cap Carlucio.

A seção de doutrina e pesquisa do CIOpC desenvolveu um fardamento especial para facilitar as ações dos militares na Caatinga. No lugar da camuflagem em tons de verde, o uniforme da Caatinga tem camuflagem em tons de marrom. “Tem mais a ver com a coloração encontrada em nossa vegetação”, disse o Capitão Thyago Augusto Rabello Fermiano, chefe da Seção de Doutrina e Pesquisa do Centro. “Além disso, nosso uniforme recebe tratamento em couro, com várias peças costuradas em cima do tecido, justamente para proteger o corpo do militar do contato com espinhos, galhos secos e pedras.”

O treinamento do CIOpC é importante não só para preparar soldados que são enviados para a Caatinga, mas aqueles que são enviados a áreas com condições semelhantes. “A preparação dos militares do Exército Brasileiro para atuar no ambiente operacional semiárido faz com que o Brasil tenha condições de enviar tropas para qualquer região com clima parecido,” disse o Cap Fermiano. “Nós estamos muito bem treinados.”

Não por acaso, os Estágios de Adaptação e Operações passaram a fazer parte não só da carreira dos militares que vão servir no Comando Militar do Nordeste. “Há cinco anos, os estágios foram autorizados também para os cadetes da Academia Militar dos Agulhas Negras, para os alunos da Escola de Sargento das Armas, além dos alunos do Centro de Formação de Oficiais da Reserva”, concluiu o Cap. Carlucio.