|
Forças
Especiais - Special Forces
|
|
Defesanet
20 Maio 2005
|
Exclusivo Defesa@Net
|
25
Anos da Operação EAGLE CLAW
A fracassada tentativa de resgate
dos reféns americanos.
Iran,
24-25 Abril1980.
Fernando Diniz
No momento
em que as tensões entre os Estados Unidos e o Iran crescem
novamente, lembramos um fato relevante na história da política
externa norte-americana:
Em 4 de
novembro de 1979, algum tempo depois da derrubada do governo do
Xá Reza Pahlevi pelos simpatizantes do Aiatolá Khomeini,
uma multidão enraivecida invadiu a Embaixada Americana em
Tehran e capturou todo o corpo diplomático norte-americano,
bem como o pessoal da segurança, formado por militares do
Corpo de Marines.
Ao todo,
52 americanos foram capturados e mantidos reféns pela Guarda
Revolucionária Iraniana, força paramilitar fanaticamente
leal ao Aiatolá Khomeini, e não se sabia se seriam
mantidos presos, se seriam torturados ou simplesmente executados.
Em poucas
horas, o recém tornado operacional Destacamento Delta , das
Forças Especiais dos Estados Unidos estava em alerta total
e planos estavam sendo estudados para uma operação
de resgate.
Esta é
a história desta operação, com nome-código
Eagle Claw ( Garra de Águia).
O comandante
do Delta, Coronel Charles Beckwith, esteve intimamente ligado à
tentativa de resgate, desde seu início. Encarava uma missão
assustadora. Tehran fica no coração do Iran, e muito
longe de qualquer país amigo dos EUA. Os reféns não
estavam sendo mantidos num aeroporto, como na bem sucedida operação
israelense em Entebbe, o que facilitou o resgate. Boas informações
locais eram difíceis de obter sobre a força inimiga
dentro da embaixada e em Tehran. E, obviamente, todo o plano e treinamento
deveriam ser mantidos em absoluto segredo.
E o tempo
corria contra os americanos.
O plano
final, elaborado por uma comissão formada por militares de
alta patente das várias armas do governo americano, era uma
audaciosa operação, envolvendo forças navais,
aéreas e terrestres.
Seriam
usados o porta-aviões USS Nimitz, operando com sua Força-Tarefa
a partir do Mar Arábico; oito helicópteros RH-53 Sea
Stallion, do Corpo de Marines; doze aeronaves da USAF: quatro tankers
MC-130, três EC-130 de apoio eletrônico, três
AC-130 de apoio de fogo e dois C-141 de transporte pesado, além
de numerosos "operadores ", como são chamados os
membros da força Delta, alguns já infiltrados em Tehran,
antes do inicio do ataque. Teriam também a ajuda de simpatizantes
e ex-funcionários iranianos da Embaixada, operando de dentro
da cidade.
Foi estabelecido
um ponto de reunião dentro do território iraniano,
chamado de Desert One, onde as várias aeronaves deveriam
reunir-se para reabastecimento na viagem de ida.
Os oito
helicópteros RH-53 deveriam partir do Nimitz, pousar em Desert
One para reabastecerem-se com o combustível já lá
deixado pelos MC-130, e voarem para as proximidades de Tehran, transportando
a força Delta, pousando num aeroporto não utilizado,
chamado Mazariyeh, a cerca de uma hora de Tehran, que já
deveria ter sido tomado por uma força de ataque de cerca
de 100 Rangers, onde ficariam escondidos até a hora do ataque.
Ao anoitecer, os Delta seriam transportados por veículos
conseguidos pelo pessoal de terra, atacando o complexo de prédios
da Embaixada, onde os reféns estavam alojados.
Quaisquer
sentinelas externas seriam eliminadas pela primeira equipe de homens
armados com pistolas equipadas com silenciador, enquanto a segunda
equipe explodiria os portões externos, e uma terceira equipe
faria o mesmo com os muros atrás da Embaixada, criando assim
uma ação diversiva. Então a força principal,
pesadamente armada, entraria eliminando qualquer oposição,
e fazendo a limpeza dos quatro prédios onde se esperava estivessem
os reféns. Um grupo de cinco homens deveria destruir o gerador
elétrico da Embaixada.
Os reféns
deveriam ser transportados até um estádio de futebol
nas redondezas, onde os RH-53 já teriam pousado, chamados
desde seu local de espera, embarcados junto com os Delta e transportados
para Mazariyeh, onde os C-141 os esperavam para transportá-los
para fora do Iran, junto com todos os outros participantes.Os AC-130
estariam no ar, para evitar quaisquer tentativas de forças
aéreas ou terrestres iranianas de intervir na operação.
Todas
as aeronaves deveriam abandonar território iraniano, exceto
os oito RH-53, que seriam explodidos, pois não tinham alcance
para escapar, e não deveriam cair em mãos iranianas.
Este era
o plano.
Vejamos
agora o que realmente aconteceu.
Um mês
antes do assalto, um pequeno monomotor Twin Otter da CIA tinha ido
até Desert One, desembarcando um Controlador Avançado
de Apoio Aéreo ( FAC ), que demarcou a área necessária
com luzes de pouso, para auxiliar a chegada das aeronaves.
A missão
foi bem sucedida, não houve contato com forças inimigas,
e os pilotos do Otter informaram que seus sensores haviam captado
sinais de radar a 3000 pés( aprox. 1000 metros ), mas nada
abaixo desta altura.
Assim
sendo, os pilotos de helicópteros foram instruídos
para voar abaixo de 200 pés ( aprox. 65 metros), para evitarem
localização por radar.
Esta limitação
fez com que entrassem numa tempestade de areia, que eles não
podiam sobrevoar sem quebrarem o limite dos 200 pés.
Dois RH-53
imediatamente perderam- se da força de ataque, sendo forçados
a pousar.
Outro
RH-53 já havia pousado por problemas mecânicos, tendo
sua tripulação sido embarcada em outra aeronave, que
por este motivo, estava 20 minutos atrasada em sua aproximação.
Dos oito iniciais, estavam reduzidos a sete.
Sacudidos
por ventos fortes e pesadas nuvens de areia, os RH-53 remanescentes
seguiram em frente, recebendo a informação de que
os MC-130 tankers já haviam chegado. Os dois que haviam pousado
antes, decolaram outra vez e conseguiram achar o rumo para Desert
One.
Porém
neste momento outro helicóptero reportou uma falha mecânica,
e o piloto decidiu voltar para o Nimitz, da metade do caminho. A
força de ataque agora estava reduzida a seis helicópteros,
o mínimo necessário para efetuar o transporte dos
Delta e dos reféns.
O primeiro
grupo de três RH-53 chegou a Desert One com uma hora de atraso
em relação ao cronograma, com os outros três
chegando quinze minutos mais tarde.
O golpe
final na operação foi dado quando um dos RH-53 reportou
falha no sistema hidráulico principal, o que o tornava inseguro
para operação com carga total. Como eram necessárias
seis máquinas, e havia somente cinco disponíveis,
o ataque foi cancelado.
Foi passada
a ordem ao pessoal de apoio em Tehran que "desaparecem",
para não serem apanhados pela segurança iraniana,
que obviamente iria iniciar uma busca geral, ao descobrirem o plano,
o que fatalmente ocorreria.
As coisas
porém iriam piorar, quando um dos RH-53, movendo-se para
outra posição após reabastecer, chocou-se com
um dos MC-130, em meio a densa nuvem de areia. Imediatamente ambos
explodiram, iluminando o deserto inteiro.O MC-130 foi rápidamente
evacuado, pois já estava carregado com um grupo de Deltas,
porém a tripulação do RH-53 ardeu com o helicóptero.
Veio a ordem de abandonar o local imediatamente, porém demorou
a chegar aos homens que ajudavam mortos e feridos, além de
tentarem arrastar o MC-130 em chamas, para afastá-lo de outras
aeronaves. Isto atrasou a decolagem, o que não permitiu que
os RH-53 fossem destruídos,pois observadores avançados
informaram da aproximação de veículos desconhecidos,
deixando assim para os iranianos importantes documentos, que levaram
a identificação e descoberta dos operadores e simpatizantes
infiltrados em Tehran, os quais foram caçados e executados.
Ao todo,
três membros da USAF e três membros do Corpo de Marines
morreram no deserto, além dos que foram apanhados mais tarde
em Tehran, e muitos outros foram feridos.
Os iranianos
espalharam os reféns por todo o país, tornando outra
tentativa de resgate impossível.
Eles seriam
finalmente libertados, após 444 dias de prisão, como
resultado de exaustivas e humilhantes negociações
entre os governos americano e iraniano.
Lições
aprendidas.
Informação
insuficiente e mau planejamento foram um fator essencial no fracasso
da missão.
Os planejadores
calcularam que levaria quatro horas e vinte minutos para os RH-53
atingirem Desert One a partir do Nimitz, porém eles levaram
CINCO horas e vinte minutos, devido ao mau tempo encontrado na rota.
O Serviço
de Meteorologia não foi capaz de prever as tempestades de
areia a baixa altitude que comprometeram a missão. Caso tivessem
previsto, apenas tripulações treinadas em vôo
baixo sem visibilidade teriam sido usadas, evitando o fatal acidente,
a perda de vidas e de aeronaves preciosas.
Além
disso, as tripulações dos helicópteros haviam
sido reunidas no último minuto, quando se descobriu que muitos
dos pilotos Marines não tinham a capacidade necessária
para completar a missão.
Afinal
foi uma combinação de pilotos Marines, da USAF e da
NAVY que voaram naquela noite.
Um dos
pilotos abandonou a missão por absoluta falta de familiaridade
com a aeronave que deveria pilotar!
Junte-se
a isto fatores pouco considerados, como distâncias a serem
percorridas, falta de uma área de pouso amiga alternativa,
pois os C-130 e C-141 iriam voar até a Turquia, e total desconhecimento
da força inimiga a ser enfrentada, e temos um desastre militar,
um início pouco auspicioso para a flamante Força Delta,
e a maior humilhação do Governo Carter.
|