COBERTURA ESPECIAL - SisGAAz - Inteligência

12 de Janeiro, 2016 - 10:55 ( Brasília )

Petrobras corta custos, mas pré-sal continua a "prioridade absoluta"


Cláudia Schüffner


O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, mencionou os desafios que serão enfrentados em 2016 em mensagem enviada ontem para funcionários da estatal. Ele inicia lembrando que, pela primeira vez em 12 anos, o preço do petróleo recuou para menos de US$ 35 o barril. "São diversos os fatores que contribuem para este fenômeno.

De um lado, temos uma forte desaceleração da economia chinesa. De outro, há ainda um excesso de oferta, que vem derrubando preços", explicou na nota.

Como reação, a companhia está otimizando custos operacionais e administrativos para economizar US$ 12 bilhões até 2019, e também renegociando contratos "em busca de assegurar maior competitividade em cada um dos projetos”.

Sem entrar em detalhes, Bendine observou que a diretoria e o conselho de administração estão discutindo no momento o "Plano de Negócios 2016-2020" com uma diretriz clara. "Priorizaremos os investimentos com capacidade efetiva de gerar resultado para a companhia, que precisa reduzir seu endividamento.

Um portfólio com menos projetos, mas todos econômica e tecnicamente factíveis", diz na nota. O pré-sal, segundo o executivo, é "prioridade absoluta". A justificativa é que a experiência adquirida na produção em águas profundas levou a Petrobras a conseguir um custo de US$ 8 por barril na extração na área o que, segundo registra o presidente da estatal, corresponde a "quase a metade do desempenho das grandes petrolíferas”.

A Petrobras divulgou no ano passado a redução do custo de extração do pré-sal para US$ 8, que está abaixo da média do custo total desse item, que era de US$ 11,24 no terceiro trimestre de 2015.

Esse valor, contudo, não inclui dispêndios com o pagamento de royalties e da Participação Especial, e nem o valor necessário para recuperar investimentos. Somados, esses valores permitem chegar ao ponto de equilíbrio de um projeto.

A alta produtividade dos poços do pré-sal é que ajudou a diminuição do custo, mas a Petrobras carrega uma dívida líquida que estava em US$ 282,1 bilhões em setembro de 2015, que aumenta exponencialmente com a desvalorização do real.

No pré-sal, o equilíbrio dos projetos exigiria um preço do petróleo acima de US$ 50 segundo o presidente da estatal PPSA, Oswaldo Pedrosa, disse no ano passado. Os valores, é claro, dependem do estágio de cada projeto. Assim, o campo de Lula, já em produção, tem custo diferente de Libra.

Ao falar para os funcionários, Bendine disse que a Petrobras precisa empregar a "vocação para a inovação e para o desenvolvimento tecnológico em absolutamente todos os setores da empresa, na busca de oportunidades de reduzir custos e, com isso, aumentar nossa eficiência”.

A mensagem do presidente para a força de trabalho da Petrobras chega em um momento de expectativa com relação à reestruturação da companhia que está acontecendo ao mesmo tempo em que a empresa prepara o novo plano de negócios, que deve vir com novos cortes de investimentos. Em outubro a estatal reduziu para US$ 19 bilhões o investimento previsto para 2016, porém agora analistas esperam valor ainda menor.

A conjuntura desfavorável não é exclusiva do Brasil e da Petrobras. Em entrevista à Economist o príncipe saudita Muhammad bin Salman, filho do rei Salman bin Abdulaziz, admitiu que o país encerrou 2015 com queda de 15% do PIB devido à queda do preço. Os sauditas estudam aumentar impostos e um IPO da Saudi Aramco, maior petroleira do mundo em reservas e produção.

Petrobras alerta para "dificuldades"

O presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, pediu aos empregados da estatal que trabalhem "com firmeza e determinação" para "enfrentar as dificuldades".

Em carta aos funcionários, ele lembrou que o preço do petróleo caiu para menos de US$ 35 o barril e que a empresa precisa economizar US$ 12 bilhões até 2019 com redução de custos operacionais e renegociação de contratos.

Segundo Bendine, a Petrobras dará "prioridade absoluta" ao pré-sal, onde estaria extraindo petróleo a um custo de US$ 8, quase a metade do desempenho de outras grandes petroleiras. Esse valor não inclui gastos com royalties, participações especiais e retorno do investimento.

A carta de Bendine chegou aos 80 mil funcionários da estatal no dia em que o petróleo teve mais uma queda abrupta (6%) e fechou a US$ 31,41 por barril em Nova York, a menor cotação desde dezembro de 2003. Em relatório que citou a possibilidade a China desvalorizar ainda mais sua moeda em relação ao dólar, o analista Adam Longson, do Morgan Stanley, afirmou que o "petróleo na faixa de US$ 20 é possível".

A desaceleração da economia chinesa é uma das principais causas da retração da demanda global pelo combustível. O excesso de oferta provocou uma queda de cerca de 70% nas cotações nos últimos 18 meses. Segundo o "Financial Times", bancos como Goldman Sachs, Citigroup e Bank of America Merrill Lynch também estão prevendo que o excesso de petróleo poderá pressionar as cotações para cerca US$ 20, mas por razões distintas.

Alguns analistas estão preocupados porque os tanques de armazenamento nos EUA poderiam ficar repletos e, com isso, os preços teriam de cair a níveis que tornem mais econômico manter o petróleo em navios no mar. A multiplicação dos cenários pessimistas também decorre de informações de que os países exportadores não pretendem reduzir a produção.

Crescem advertências de que o barril poderá chegar a US$ 20¹

O desalentador início do ano para o petróleo persistiu, ontem, quando os preços tiveram renovadas quedas, tendo o banco Morgan Stanley acrescentado que um número crescente de analistas está advertindo que os preços podem descer a US$ 20 o barril.

O petróleo tipo Brent, referência mundial do mercado, recuou mais de US$ 2, ou 6%, para US$ 31,48 o barril, no fim da sessão de negócios em Londres, um nível pela última vez registrado em abril de 2004.

Do outro lado do Atlântico, entretanto, o West Texas Intermediate, o referencial nos EUA, caiu mais de 6%, para US$ 30,97 por barril, um novo mínimo em 12 anos.

As quedas ampliaram para 16% uma forte queda que havia baixado em mais de 10% os dois referenciais na primeira semana de trading de 2016. "Um petróleo na faixa de US$ 20 é possível", disse Adam Longson, analista do Morgan Stanley, em relatório que apontou a possibilidade de a China desvalorizar ainda mais sua moeda em relação ao dólar.

A desaceleração na China, cujo crescimento produziu um aumento da demanda mundial de petróleo ao longo da última década, adicionou, nas últimas semanas, temores de queda no consumo ao enorme excesso de oferta, mesmo após uma queda de 70% no preço nos últimos 18 meses.

Embora esforços para desvalorizar ainda mais a moeda chinesa possam ajudar a emprestar sustentação a sua economia focada em exportações, isso encareceria, em dólares, as importações [chinesas] de petróleo e de outras commodities e poderia debilitar ainda mais a demanda. "[Disso] poderá resultar uma nova rodada de desvalorização das commodities e levar o petróleo aos US$ 20", disse Longson no relatório.

"Cenários em que o petróleo custe US$ 20 a US$ 25 são possíveis simplesmente devido à moeda”. Bancos como o Goldman Sachs, Citigroup e Bank of America Merrill Lynch também estão prevendo que o excesso de petróleo poderá pressionar os preços do petróleo para cerca de US$ 20, mas por razões distintas.

Alguns analistas estão preocupados de que os tanques de armazenamento nos EUA possam ficar repletos e que os preços terão de cair para níveis que tornem mais econômico manter o petróleo em navios estacionados no mar.

A proliferação de visões pessimistas emerge num momento em que as fontes de excedentes petrolíferos mostram pouco sinal de diminuir sua produção.

Os preços ficaram, em média, em quase US$ 100 o barril entre 2008 e 2014, alimentando um boom de ofertas a que o grupo de produtores da Opep [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] reagiu não reduzindo sua produção, o que provocou uma guerra de atrito.

Embora isso seja uma benção para os motoristas, a derrocada dos preços desestruturou os orçamentos dos países produtores de petróleo e das grandes companhias petrolíferas, obrigadas a cortar milhares de empregos e a engavetar planos de investimento no valor de bilhões de dólares.

As apostas de fundos de hedge contra o preço do petróleo estão perto de níveis recordes, hoje no equivalente a quase 363 milhões de barris em contratos futuros e opções nas bolsas de Nova York e Londres. Mas na semana passada os fundos assumiram efetivamente posições compradas no Brent, um referencial internacional, ao mesmo tempo em que as reduziram em WTI, sugerindo que alguns foram pegos no contrapé pela mais recente queda nos preços.

O BofA baixou, ontem, suas previsões sobre os preços do petróleo para este ano, citando o excesso de oferta da Opep, problemas envolvendo a moeda chinesa e estoques já elevados. O banco de investimentos reduziu sua previsão para o preço do Brent de US$ 50 por barril para US$ 46, e reduziu sua estimativa para o West Texas Intermediate de US$ 48 por barril para US$ 45. O Société Générale também reduziu suas estimativas para o preço do petróleo.

 

¹ Anjli Raval e David Sheppard


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