13 de Maio, 2011 - 12:21 ( Brasília )

Segurança

Territórios proibidos

MORADORES DE GRANDE PARTE DOS CONJUNTOS AINDA ESTÃO SOB O DOMÍNIO DO TRÁFICO OU DA MILÍCIA

Marcia Foletto

 

 “Vocês não estão com medo?” A pergunta de uma adolescente aos repórteres do GLOBO que faziam mais uma reportagem da série “Vidas em blocos”, sobre os cem anos dos conjuntos habitacionais do Rio, mostra a realidade dos moradores do Amarelinho, na entrada do complexo de favelas de Acari. Na cidade das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o lugar ainda está sob o jugo do tráfico armado. Em grande parte dos conjuntos do Rio, quando não existe o domínio de traficantes, são milicianos que impõem o terror.

No Amarelinho, o tráfico é onipresente.
— Vocês não podem andar sozinhos aqui , é perigoso — alertou um morador.
A presença de criminosos prejudica serviços básicos. Há meses a comunidade não tem carteiro. E, das sete vagas para médico num dos postos do conjunto, só três estão preenchidas.

— Os traficantes embalam drogas numa praça do conjunto, a João Fabiano, e andam armados pelas ruas. Eles também tomam apartamentos irregularmente e cobram uma taxa de R$20 de cada comerciante — conta uma moradora.

Nas entradas de Acari próximas ao Amarelinho, visíveis para quem passa pela Avenida Brasil, há barricadas para dificultar a ação policial. Obstáculos também ocupam as ruas do Conjunto Água Branca, o Fumacê, em Realengo, embora ele fique em frente à UPP do Batam, do outro lado da Avenida Brasil. O Fumacê, aliás, está na lista de áreas prioritárias para receber as próximas UPPs. O poder paralelo também se estende a conjuntos como Vila Kennedy, Vila Aliança, Taquaral, Antares, Nova Cidade, Fazenda Botafogo, Vila do João, Novo Pinheiro, Senador Camará e os do PAC em Manguinhos.
 

Em conjuntos, ação diferente da polícia

No Getúlio Vargas, em Deodoro, se não há barricadas, um valão entre os 19 blocos próximos à Avenida Brasil e os sete junto à comunidade do Muquiço serve como trincheira. Moradores aconselham não entrar.

— Isso aqui é um barril de pólvora. Vivemos em meio a disputas entre diferentes facções do tráfico — disse uma moradora.

Titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), o delegado Alexandre Capote conhece bem o conjunto de Deodoro. De 2005 a 2008, ele trabalhou na 30ª DP (Marechal Hermes), onde investigou uma série de crimes no Getúlio Vargas. De suas incursões no lugar, a sensação de ser observado o marcou. Em qualquer ação em conjunto habitacional, aliás, Capote afirma serem necessárias estratégias específicas, diferentes das usadas, por exemplo, em favelas. Um fator fundamental, diz ele, são as várias entradas e saídas dos conjuntos, que exigem cuidados ao se montar um cerco:
— Muitas vezes, criminosos usam apartamentos de inocentes para guardar armas e drogas.

Durante a Operação Blecaute, em abril, a Draco encontrou apartamentos do Conjunto do Ipase, na Praça Seca, ocupados pela cúpula da milícia da região. Até o fornecimento de água era controlado pelo grupo. Em 2008, no Conjunto da Palmeirinha, em Anchieta, moradores foram expulsos de casa por milicianos, que ocupavam e vendiam os imóveis. Segundo Capote, que investiga o caso, a prática pode estar acontecendo nos condomínios Livorno, Trento e Treviso, do programa Minha Casa Minha Vida, em Cosmos. Nos três, de acordo com denúncias anônimas, há imóveis ocupados por paramilitares chefiados pelo ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, o Batman, que está preso.

Repórteres do GLOBO estiveram em 14 de abril nesses condomínios, recém-entregues. Neles, símbolos da milícia estavam pintados nos muros, embora houvesse assistentes sociais da prefeitura há três meses no local. Ao retornar, um dia depois, a equipe encontrou todos os símbolos cobertos com tinta. O único vestígio era uma marca mal apagada num dos condomínios, onde os moradores se negaram a dar entrevista.

O relatório da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), concluída em novembro de 2008, registrou a presença de paramilitares em pelo menos 14 conjuntos, como o Quitungo, em Brás de Pina, o Dom Pedro I, em Realengo, e o João XXIII, em Santa Cruz. Nesses locais, as quadrilhas controlavam o comércio de bujões de gás e a venda clandestina de sinal de TV a cabo, além de cobrar taxa de “segurança”.