(*) COSME DEGENAR DRUMOND é diretor de Redação da revista Tecnologia & Defesa é autor do livro
"O Museu Aeroespacial Brasileiro - The Brazilian Aerospace Museum", publicado pela Editora Aero, em 1985; e, "Asas do Brasil, Uma História que Voa pelo Mundo", publicado em 2004, pela Editora de Cultura.

 

 



 

Revista Virtual
História Militar
Ases da 1ª Guerra Mundial

Defesanet 03 Outubro 2005

Defesa @ Net
Parte I
Ases e heróis da Primeira Guerra

Além de novas armas bélicas, a Primeira Guerra Mundial também revelou os primeiros pilotos de combate e os estrategistas e projetistas da aviação

COSME DEGENAR DRUMOND (*)


A Primeira Guerra Mundial inaugurou o ciclo das grandes tragédias que abalaram o século XX. Nos cinco anos que durou (1914-1918), batalhas foram travadas na França, Bélgica, Itália, Bálcãs, Cáucaso, Egito, Palestina, Mesopotâmia (Iraque) e África. Navios de superfície e submarinos combateram no Pacífico, Atlântico, Mediterrâneo, Báltico, no Mar Negro e no Mar Norte. Cerca de oito milhões de pessoas foram mortas na guerra e 21 milhões, feridas.

Cidadãos do mundo inteiro reforçaram os exércitos aliados. Para complementar suas forças de combate, Inglaterra e França recrutaram cidadãos em suas respectivas colônias. Os ingleses mobilizaram um milhão e seiscentos mil indianos, 630 mil canadenses, 412 mil australianos, 136 mil sul-africanos, 130 mil neozelandeses, 50 mil africanos e centenas de milhares de trabalhadores chineses. Os franceses recrutaram 600 mil africanos e 200 mil trabalhadores. A mobilização causou forte impacto na economia dos dois países europeus.

Em todos os teatros, o poder aéreo firmou-se como fator de incremento para o sucesso dos combatentes em terra, nos dois lados em luta. Além do avião de combate, a guerra revelou o submarino, o carro de combate e a metralhadora. No pós-guerra, o mapa do mundo, em especial a Europa, foi retalhado. Monarquias autoritárias desabaram em histórico revés e o nacionalismo terceiro-mundista emergiu, encorajado pelas primeiras nações criadas na então União Soviética.

No início da guerra o avião foi usado, sobretudo para orientar os tiros da artilharia. Cumpriu também missões de reconhecimento, tomada de fotografias, identificação de alvos, controle e destruição e vôos de ligação. Antes, já tinha sido empregado pelos italianos no norte da África, para bombardear alvos turcos, na guerra que envolveu os dois países (1911-1912), conflito durante o qual foi realizada a primeira operação de propaganda aérea: lançamento de panfletos conclamando a população turca a se rebelar contra seus próprios militares.

O marechal francês Ferdinand Foch acreditava que o avião seria um excelente meio de transporte, mas uma máquina inútil para os exércitos. Estava equivocado. Os aviões e suas tripulações foram considerados partes integrantes do conflito. A partir daí, pilotos e observadores aéreos receberam instruções para usar suas armas portáveis na tentativa de abater o inimigo no ar. Em 5 de outubro de 1914, dois aviadores franceses abateram a tiros de carabina, nos céus da França, um avião alemão. Começava a fase dos aviões de perseguição (depois, aviões de caça).

Durante a guerra, surgiram os ases da aviação, pilotos que se destacaram em técnica e coragem nos duelos aéreos. A maioria eram jovens recém-saídos da adolescência. Muitos morreram na guerra, quando mal haviam completado 20 anos de idade. Inicialmente usado como peça de propaganda para motivar os combatentes aliados em terra, para ser considerado ás da aviação o piloto tinha que abater no mínimo cinco aviões, balões ou dirigíveis inimigos.

Muitos ases tornaram-se mitos durante a guerra. O mais conhecido foi o alemão Manfred Albrecht von Richthofen, o legendário Barão Vermelho. A maior parte desses pilotos tinha pouca instrução tática. Além do adversário humano, enfrentavam também um inimigo implacável e invisível: o frio. Muitos morreram congelados. As cabines eram abertas e nada eficientes contra as baixas temperaturas.

Os ases da aviação eram admirados pelas tropas terrestres Acordavam sem saber se estariam vivos no fim do dia. Com isso, se sentiam acima da disciplina e gozavam a vida da melhor forma possível. Os comandantes não tinham interesse nem coragem para puni-los.

Os pilotos de caça usavam as táticas e estratégias de acordo com o inusitado do combate. Os alemães conquistaram inúmeras vitórias. Mas, ingleses, americanos, franceses e tantos outros não ficaram atrás. Alguns levaram anos para serem reconhecidos como heróis.

O Brasil também participou daquela guerra. Um grupo de pilotos da Marinha, integrados a um esquadrão inglês, atuou em missões de patrulha no Canal da Mancha. Não participaram de combates aéreos, mas bravamente contribuíram para a vitória dos aliados. Um deles, inclusive, o tenente Eugênio Possolo, faleceu quando participava de treinamento de grupo, integrando uma esquadrilha do Royal Flying Corps; seu Sopwith Camel chocou-se com o de um tenente inglês.

Eis os ases da aviação revelados pela Primeira Guerra Mundial:


ALBERT BALL (1896-1917). Britânico. Diferentemente do francês e do alemão, os ases ingleses não foram usados como peça de propaganda e só foram reconhecidos como heróis muitos anos depois de terminada a guerra. Ball foi exceção, a exemplo de seu compatriota William Leefe-Robinson. Declarado herói nacional no decorrer das batalhas, obteve 44 vitórias. Costumava voar solitário. Sua estratégia era atacar e evadir-se rapidamente. Não exerceu influência nas unidades de táticas inglesas, já que combatia a seu modo. Pilotava um Nieuport francês, cujos sistemas de controle ele próprio modificara, adotando inclusive nova posição para a metralhadora, de modo a que pudesse atacar o inimigo por baixo, tática difícil e perigosa. Morreu em combate, em 7 de maio de 1917. Por sua atuação na guerra recebeu as medalhas Distinguished Service Order, Military Cross e Victoria Cross, esta última depois que morreu.

FRANCESCO BARACCA (1888-1918). Italiano, abateu 34 aviões. Aclamado herói, pintou um cavalo no seu avião, imagem que chamou a atenção de Enzo Ferrari, fabricante de carros, que reproduziu a pintura nas máquinas de corrida. Atingido e morto em 19 de julho de 1918, quando cumpria missão de ataque ao solo, Baracca era comandante de esquadrão.

WILLIAM GEORGE BARKER (1894-1930). Canadense, conquistou um recorde na frente italiana, ao abater 50 aparelhos, entre aviões e balões de observação. É o mais condecorado piloto de guerra canadense. Durante o confronto aéreo que lhe rendeu a Victoria Cross, seu avião, um Sopwith Snipe, foi simultaneamente atacado por quinze aeronaves Fokker D VII alemães, que o atingiram três vezes. Avariado, o Sopwith girou 180 graus e desceu contra o solo, deixando no ar um rastro de fumaça. Barker dominou o avião já próximo do solo e conseguiu arrastar a aeronave pelo chão. Escapou da morte, porém gravemente ferido.

ANDREW FREDERICK WEATHERBY BRAUCHAMP-PROCTOR (1894-1921). Sul-africano, era modesto, tranqüilo e amigável, qualidades nem sempre presentes nos pilotos de caça de então. Em 1917, ingressou no esquadrão comandado por Sholto Douglas, outro notável piloto sul-africano. Excelente atirador, antes de conquistar a primeira vitória sofreu três quedas de avião. A partir de dezembro de 1917, mudou radicalmente seu comportamento e se tornou agressivo em combate. Atacava o inimigo sem nem se preocupar com os riscos de suas próprias manobras. Conquistou a quinta vitória em março de 1918. Em 9 de agosto, destruiu nove balões num único dia. Quase ao final da guerra, cumpriu missões de ataque ao solo e fez vôos de reconhecimento. Ferido em combate em 8 de outubro de 1918, após confronto com oito aeronaves, foi mandado para casa. Saiu da guerra com um total de 54 vitórias.

WILLIAM AVERY BISHOP (1884-1956). Canadense, teve a seu crédito 72 conquistas. Depois de Mick Mannock, foi o aviador de maior escore entre os pilotos canadenses do Royal Flying Corps. Quando entrou na guerra, era um piloto fraco que vivia sofrendo constantes acidentes, sobretudo durante o pouso. Chegou a ser cogitado para treinamento intensivo na Inglaterra. Mas abateu seu primeiro avião inimigo. A partir daí, conquistou uma vitória atrás da outra e se tornou notável na guerra. Em outubro de 1917, pediu licença para se casar. Como Albert Ball, a quem venerava, voava isolado. Recebeu a Victoria Cross por ter invadido com invulgar coragem o aeródromo de Estmourmel, em 2 de junho de 1917, e feito um estrago enorme no inimigo, depois de burlar a defesa antiaérea. Após a guerra, dúvidas surgiram sobre a autenticidade desse ataque e ele chegou a ser inquirido pelo Senado Canadense. Terminou a guerra como comandante de esquadrão. A fim de preservá-lo, tiraram-no do combate em junho de 1918. Embora não concordasse com essa decisão, ele assimilou a ordem. Em 1918, publicou relatório de sua atuação na guerra (Winged Warfare).

OSWALD BOELCKE (1891-1916). Alemão. Considerado por muitos como um dos pais do combate aéreo, ao lado de Immelmann foi um dos principais ases da Alemanha, com 40 vitórias. Era hábil e campeão de tiro. Foi um dos primeiros estudiosos de táticas aéreas. Concebeu manobras operacionais com base na formação em vôo. Corajoso e humilde, morreu na colisão de seu avião com outro aparelho alemão, em 28 de outubro de 1916. Sua morte foi muito sentida na Alemanha.

(ARTHUR) ROY (AL) BROWN (1893-1944). Canadense, ganhou fama não por suas 11 vitórias na guerra, mas por ter abatido nada mais, nada menos do que o maior mito da aviação militar alemã, Manfred von Richthofen, o Barão Vermelho. Mas, ainda hoje se discute se realmente ele abateu o avião de Richthofen ou se este sucumbiu à feroz artilharia australiana.

GODWIN BRUMOWSKI (1889-1936). Austro-húngaro, em 1916 transferiu-se da artilharia para a aviação austro-húngara. Antes de se tornar piloto, foi observador aéreo. Em dois meses, ganhou a condição de ás. Comandante de esquadrão inspirou-se em Richthofen para pintar sua aeronave de vermelho. Em 1918 recebeu o comando das forças aéreas austro-húngaras que combateram na ofensiva de Isonzo. Foi o principal ás austro-húngaro, com 35 vitórias.

RAYMOND COLLISHAW (1893-1976). Canadense, colecionou 60 vitórias pelo Royal Naval Air Service. É o segundo maior ás canadense. Com o fim da guerra, permaneceu ligado à Royal Air Force e atuou também na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), como comandante de unidades operacionais. Aposentou-se como oficial-general.

WILLY OMER FRANÇOIS JEAN COPPENS (1892-1986). Belga, passou a ser caçador em junho de 1917, especializando-se em abater balões de observação. Apenas dois, de um total de 37 alvos que derrubou, eram aviões. Porém, isso não desmerece sua atuação, ao contrário. Os balões eram essenciais para a eficiência da artilharia e, por isso, protegidos pelo fogo cerrado da antiaérea. Derrubá-los era missão de alto risco. Coppens costumava dizer que "estar sob o fogo da antiaérea era ruim para os nervos". No final, acabou atingido pela antiaérea em 14 de outubro de 1918, quando tentava derrubar seu segundo balão no dia. Conseguiu pousar em emergência, mas teve a perna esquerda esmagada ao capotar com o avião. Saiu da guerra mutilado.

(PAUL) RENÉ FONCK (1894-1953). Francês, começou a pilotar em 1912. No início da guerra, fez vôos de observação e reconhecimento pela Força Aérea Francesa. Em seguida, optou pela caça. Abateu a primeira aeronave em 6 de agosto de 1916. Parecia mais um fiscal da aviação do que propriamente piloto de caça. Era cuidadoso com sua aeronave e cruel com o inimigo. Tinha grande habilidade com a metralhadora e uma pontaria incrível. Em 9 de maio de 1918, derrubou seis aviões alemães num único dogfight, disparando durante o confronto apenas 56 projéteis. Terminou a guerra com o maior escore entre os ases franceses e o único, dos que combateram na frente ocidental, a sobreviver à guerra. Conquistou 65 vitórias, mas ele próprio contestou tal número: dizia ter abatido 127 aviões. Sofreu um revés na carreira, na Segunda Guerra Mundial, manchado com a estigma de haver colaborado com os alemães. Morreu na obscuridade.

FLETCHER PHILIP FULLARD (1897-1984). Britânico, foi capaz de derrubar 45 aviões inimigos em cinco meses, voando Nieuport a serviço do 1º Esquadrão do Royal Flying Corps. Gostava de futebol, o que acabou com a sua carreira de aviador, pois quebrou a perna numa certa partida (antes da guerra, jogava no meio-de-campo pelo Norwich City). O osso da perna foi deslocado, não o deixando retornar ao vôo nem ao futebol. Retirou-se na função de Air Commodore.

HERMANN WILHELM GÖRING (1893-1946). Alemão, não imaginava que pudesse ser combatente de guerra, muito menos um ás. As 22 vitórias que obteve em combate aéreo comprovaram que, por detrás de sua figura bonachona e divertida havia um carrasco, um assassino de sangue-frio. No pós-guerra entrou para a política. Integrou a cúpula nazista, como comandante-em-chefe da Luftwaffe e ministro da aviação alemã. Ardiloso, usava dos mais violentos subterfúgios para concretizar seus interesses pessoais. Na Segunda Guerra cometeu barbaridades. Foi julgado e condenado à morte pelo tribunal de Nuremberg. Evitou a morte na forca suicidando-se por envenenamento na noite de 16 de outubro de 1946.

GEORGES GUYNEMER (1894-1917). Francês, é o mais famoso às da França. Membro da elite do Esquadrão Storks (Les Cicognes), era um caçador nato. Conquistou 44 vitórias até 11 de setembro de 1917, quando morreu em combate. Disciplinado, tinha o temperamento frágil. Habilidade e técnica lhe sobravam, influenciando assim muitos aviadores do seu esquadrão.

GEORGE LANOE HAWKER (1890-1916). Britânico, foi o primeiro ás do Royal Flying Corps, com nove vitórias e o primeiro piloto aliado a receber a Victoria Cross. Faleceu em 23 de novembro de 1916, abatido pelo matador alemão, "Barão Vermelho".

MAX IMMELMANNM (1883-1916). Alemão, outro mito da propaganda alemã. Era chamado de "A Águia de Lille", por suas atuações na França. Criou o chamado "giro Immelmann" (rápida ascensão em meio looping, seguido de rotação horizontal e mergulho para confundir o perseguidor que estivesse na sua cauda), manobra que se tornou padrão no combate aéreo. Obteve 17 vitórias antes de ser fuzilado em vôo pelo piloto britânico George McCubbin, em 18 de junho de 1916. A Alemanha relutou em divulgar sua morte e inventou que sua aeronave sofrera problemas técnicos. De qualquer modo, sua morte foi um soco no moral alemão. Temendo que Oswald Boelcke, outro ás alemão idolatrado, pudesse morrer na guerra, o Kaiser mandou que este se afastasse do combate por um mês, temendo o impacto de um novo golpe na tropa em curto período. Porém, a decisão do Kaiser só veio a retardar a morte de Boelcke na guerra.

DAVID SINTON INGALLS (1899-1985). Norte-americano. Único às da Marinha dos EUA, com seis vitórias. Em 1917, tornou-se o 85º piloto naval norte-americano. Enviado a França para atuar em patrulha costeira, achou a função calma demais e pediu transferência para um esquadrão britânico. Pilotou Sopwith Camel e DH4, antes de retornar ao seu esquadrão original. No pós-guerra, foi um bem-sucedido advogado. Presidiu a Pan-American, a então maior empresa aérea do mundo que desapareceu nos anos de 1990. Também atuou na Segunda Guerra Mundial, como comandante naval. Passou para a reserva no posto de Contra-Almirante.

ALEXANDER KAZAKOV (1891-1919). É o maior ás russo em escore, 17 vitórias, conquistadas na Frente Ocidental, onde o combate aéreo mostrou-se menos intenso. Morreu num período crucial da Revolução Russa.

CARPENTER WILLIAN LAMBERT (1897-1982). Filho de ingleses, nasceu em Ohio. Atuou no Canadá, pelo Royal Flying Corps, conquistando 18 vitórias na Frente Oriental, em 1918. No pós-guerra, publicou suas memórias da guerra: Combat Report (1973) e Barnstorming and Girls (1980). Teve vida intensa no pós-guerra. Demonstrava visível tristeza e depressão quando era informado da morte de seus contemporâneos de esquadrão. Foi o último remanescente do grupo a falecer.

FRANK LINKE-CRAWFORD (1893-1918). Austro-Húngaro, foi o quarto maior ás do serviço aéreo austríaco. Conquistou 27 vitórias. Morreu abatido por dois aviões italianos, em 30 de julho de 1918.

ALEXANDER ROBERT LITLE (1895-1918). Australiano. Em julho de 1915, seguiu para Londres com a intenção de se qualificar piloto, por conta própria. Brevetado em outubro de 1916, foi mandado para a Fronteira Ocidental integrando um esquadrão de seu país. Pilotava Sopwith Pup. Conquistou 47 vitórias que o tornaram o maior ás australiano e o 40º dentre todos os que lutaram naquela guerra. Abatido pelo Barão Vermelho, conseguiu se salvar. Ao voltar à guerra, porém, foi morto em ação no dia 27 de maio de 1918, quando atuava por um esquadrão inglês.

(GERVAISE) RAOUL LUFBERY (1885-1918). Franco-americano, entrou para o exército americano em 1906. Serviu nas Filipinas, antes de se tornar mecânico do aviador Marc Pourpe, seu amigo. Quando a guerra estourou, alistou-se na French Foreign Legion, mas continuou como mecânico de Pourpe até que se tornou piloto. Voou com a famosa Esquadrilha Lafayette. Quando os EUA entraram na guerra, já era um ás. Foi morto em operação em 19 de maio de 1918, caindo (ou possivelmente pulando) da aeronave em chamas.

FRANK LUKE (1897-1918). Norte-americano, em dezoito dias conquistou 21 vitórias. Especializou-se na perigosa sortida de derrubar balões. Seus ataques eram certeiros e fatais. Quando não voava em missão, praticava "tiro ao alvo" montado numa motocicleta, usando, ao mesmo tempo, duas armas. Indisciplinado, ignorava as ordens e só decolava quando queria. Suas três últimas vitórias ocorreram no mesmo dia em que foi derrubado (28 ou 29 de setembro de 1918), quando atacava um balão. Morto em terra por um pelotão alemão. Não quis se entregar e descarregou a pistola contra o inimigo. Recebeu a Congressional Medal of Honor.

JAMES THOMAS BYFORD MCCUDDEN (1895-1918). Britânico. 54 vitórias. Juntou-se ao Royal Flying Corps em 1913, como mecânico. Morreu em acidente aéreo, no dia 9 de julho de 1918. Nos últimos meses de vida, publicou suas memórias (Five Years in the Royal Flying Corps), uma história interessante e reveladora. Recebeu todas as condecorações de guerra.

DONALD RODERICK MACLAREN (1893-1989). Canadense. Entrou para o Royal Flying Corps em 1917. Terminou a guerra como o terceiro maior ás canadense, tendo obtido 54 vitórias. A maioria de suas missões foi realizada em Sopwith Camel.

EDWARD MANNOCK (1887-1918). Britânico. Maior ás do Reino Unido, com 73 vitórias. Possui uma biografia fascinante. Quando adolescente, ficou praticamente cego do olho esquerdo. Viveu na pobreza, abandonado pelo pai que era alcoólatra. Recebeu pouca educação. Teve como irmã uma prostituta. Aderiu aos ideais socialistas. Trabalhava como técnico de telefone, na Turquia, quando a guerra eclodiu. Em abril de 1915, voltou à Inglaterra, decidido a fazer tratamento de saúde para adquirir as condições mínimas de ingresso na carreira militar. Por sua experiência com telecomunicação foi inicialmente aceito numa unidade de engenharia. Desejando lutar na guerra como aviador, apresentou-se ao Royal Flying Corps. Surpreendentemente foi aceito, depois de provar que tinha as condições de ser piloto. Chegou à Frente Ocidental em março de 1917. Era cruel e implacável com o inimigo. Odiava tanto os alemães que quando soube da morte de Richthoffen, comentou: "Espero que o desgraçado tenha se queimado todo a caminho do inferno". Liderou vôos de patrulha e foi instrutor de tática aérea. Produziu a frase: "Sempre no topo, raramente no mesmo nível e nunca por baixo". Seus ataques eram calculados e certeiros. Mirava o inimigo antes de disparar a metralhadora, sempre pretendendo causar o máximo de dano com custo mínimo de munição. Morreu na guerra, em 26 de julho de 1918. Após sua morte, recebeu do governo inglês todas as medalhas de guerra. O pai, ainda alcoólatra, o representou e vendeu todas as condecorações por cinco libras, o equivalente a três tragos de whisky.

CHARLES NUNGESSER (1883-1927). Outro piloto de caça, cuja história é também extraordinária. Francês, era tido por seus amigos aviadores como o "cavaleiro das nuvens". Gentil e delicado, passava as noites em casas noturnas de Paris, amando belas mulheres e variando na escolha. No fim da madrugada, saía da alcova diretamente para o aeródromo. Em ritual lento e esmerado, vestia-se para a guerra. Sem pressa, colocava o uniforme de aviador, as luvas, a touca e os óculos de vôo. Depois, caminhava para o avião, passando as mãos na jaqueta. Auxiliado pelo mecânico, dava partida na aeronave, um Nieuport, e enfim decolava rumo ao inimigo. Era um combatente nato. Ferido diversas vezes, sempre escapou. Tinha uma resistência física que impressionava os colegas de esquadrão. Colecionou 45 vitórias. Morreu como verdadeiro mito. Em 1927, ao tentar cruzar o Atlântico, desapareceu no mar. Está entre os maiores ídolos da aviação francesa.

DAVID ENDICOLT PUTNAM (1898-1918). Franco-americano, entrou para o serviço aéreo francês em abril de 1917, combatendo mais tarde a serviço dos EUA. Existe confusão sobre seu escore final. A primeira vitória ocorreu em janeiro de 1918, mas Putnam só veio a se destacar como piloto de caça em abril daquele ano. Muitas de suas vitórias foram obtidas sobre as linhas do inimigo e não puderam ser conferidas. Seu escore final está por volta de 34 vitórias oficiais que o colocam entre os grandes ases dos EUA. Faleceu em ação, no dia 12 de setembro de 1918.

MANFRED ALBRECHT VON RICHTHOFEN (1888-1918). Alemão. Maior mito da aviação militar alemã, entrou para o serviço aéreo em setembro de 1916. Aprendeu a pilotar no esquadrão (Jagdstaffel) de Oswald Boelcke. Era um guerreiro meticuloso, que primeiro procurava reconhecer a aeronave inimiga, em especial às britânicas, antes de partir para a luta e desferir o ataque mortal. Era chamado "o matador" e idolatrado com o título de "Barão Vermelho". Em janeiro de 1917, passou a comandar o famoso esquadrão "Flying Circus", cujas aeronaves eram exageradamente pintadas. Fidalgo com os amigos, e até com os adversários, era igualmente conhecido como "O Cavaleiro Teutônico da Era Moderna" e "Nobre Inimigo de Coragem e Destreza". Morreu abatido por um inexperiente piloto canadense, atrás das linhas britânicas, em 21 de abril de 1918, quando voava seu inconfundível Fokker tri-plano vermelho e pouco depois de ter obtido a 80ª vitória. Seu sepultamento foi uma das maiores cerimônias póstumas ocorridas naquela guerra, com honras militares. Sua morte foi um golpe para os pilotos alemães, sobretudo nos seus comandados.

EDWARD VERNON RICKNBACKER (1890-1973). Norte-americano, já era conhecido antes de a guerra eclodir por pilotar carros de corrida. Em 1917, seguiu para a França, como motorista do general John Pershing. Ao se decidir pela aviação, qualificou-se como piloto em março de 1918, entrando imediatamente na guerra. Nos poucos meses em que combateu no ar, tornou-se ídolo dos americanos. Conquistou 26 vitórias. No pós-guerra, continuou sua carreira de sucesso. Ajudou a fundar a empresa aérea American Airlines. Em 1973, publicou suas memórias da guerra (Fighting the Flying Circus).

ERNST UDET (1896-1941). Alemão, obteve 62 vitórias. Acreditava que seria impossível abater o inimigo e acabou se tornando ás. Foi um dos primeiros pilotos a usar o pára-quedas para escapar da aeronave em queda, após ter efetuado ataque eficaz contra um tanque inimigo. No pós-guerra, trabalhou pelo desenvolvimento da Luftwaffe. Influenciou muitos pilotos alemães com sua técnica e experiência. Afastou-se da carreira depois de polemizar com Hermann Göring.

WERNER VOSS (1897-1917). Alemão, era um piloto hábil e corajoso. Obteve 48 vitórias. Um dos 40 maiores ases alemães, na guerra disputou o ranking alemão com o Barão Vermelho. Não conseguiu superar o mito. Morreu em combate, em 23 de setembro de 1917, quando digladiava simultaneamente contra sete aviões britânicos. Morreu destroçado, junto com a sua aeronave.

Fontes:
- Who`s Who In The World War One, de J. M. Bourne, Routledge, 2001.
- Imperial War Museum, Londres e Cambridge.
- Musée de l`Air et de l`Espace, Le Bourget, Paris.

(*) COSME DEGENAR DRUMOND é diretor de Redação da revista Tecnologia & Defesa é autor do livro "O Museu Aeroespacial Brasileiro - The Brazilian Aerospace Museum", publicado pela Editora Aero, em 1985; e, "Asas do Brasil, Uma História que Voa pelo Mundo", publicado em 2004, pela Editora de Cultura.

Defesa @ Net

O soberano dos ares -
A odisséia do inventor brasileiro, cujo maior prazer era voar
http://www.defesanet.com.br/pensamento/santos_dumont.htm

Ases e heróis da Primeira Guerra

Parte I - Os primeiros Ases
Parte II - Os primeiros estrategistas e projetistas da aviação

 

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