PRODUTOS
"MADE IN BRAZIL"
AS
EXPORTAÇÕES DA ENGESA E SEUS REFLEXOS NA ATUALIDADE
Expedito
Carlos Stephani Bastos,
Pesquisador de Assuntos Militares da UFJF.
Nas
décadas de 70 e 80 o Brasil possuía uma Indústria
de Material de Defesa com grande capacidade produtiva e
acreditava-se que ela teria um belo futuro.
Com
diversas empresas desenvolvendo e produzindo materiais voltados
para a atividade militar, desde uniformes a carros de combate,
de diversos tipos e modelos, concebidos em sua grande maioria
dentro de unidades militares voltadas para o estudo de projetos
até a fase de concepção dos protótipos,
que em muito beneficiou as empresas privadas brasileiras.
Sem
dúvida a de maior êxito foi a ENGESA
Engenheiros Especializados S/A, ela foi capaz de absorver
todo o estudo vindo da área militar e criar o maior
de todos os mitos, ou seja, ela foi a criadora dos principais
produtos militares exportados, de caminhões a blindados
sobre rodas como o EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu. (foto 1
e foto2)
É
curioso vermos que existia toda uma estratégica para
transformar a Engesa numa das maiores produtoras, principalmente,
de veículos sobre rodas, com uma equipe muito boa
na área de propaganda e marketing, com publicações
de material informativo não só no Brasil como
também no exterior. (foto 3)
A
verdade é que a Engesa vendeu seus produtos a 18
países além do Brasil, e toda a sua produção
incluindo todos os modelos, desde jeep, caminhões
e blindados sobre rodas o total produzido alcança
6818 unidades, muito inferior ao que era divulgado na época.
Destes
o produto mais produzido e exportado foi o Caminhão
EE-25 que alcançou 2416 unidades, sendo que o maior
comprador foi Angola que adquiriu 1377, vindo a seguir Bolívia
com 597 e o Brasil com 254 além da Colômbia
(17), Equador (35), Gabão (7), Guiné (36),
Iraque (2), Paraguai (5), Suriname (32) e Venezuela (54).
(foto 4)
Na
área de blindados sobre rodas o maior sucesso de
vendas foi o EE-9 Cascavel, desenvolvido inicialmente no
Parque Regional de Motomecanização da 2ª
Região Militar - PqRMM/2, em São Paulo (artigo
http://www.defesanet.com.br/rv/vtrbld1/vtrbld.htm),
cuja produção total, incluindo todas as suas
versões alcançou a cifra de 1738 unidades,
das quais o maior comprador foi o Exército Brasileiro
com 409 adquiridos, seguido da Líbia (400), do Iraque
(364), Colômbia (128), Chipre (124), Chile (106),
Zimbabwe (90), Equador (32), Paraguai (28), Bolívia
(24), Uruguai (15), Gabão (12) e Suriname (6). (foto
5)
Ele
foi seguido pelo EE-11 Urutu, cuja produção
total de todas a versões alcançou a cifra
de 888 unidades, destas 223 coube ao Brasil (Exército
e Marinha), 148 ao Iraque, 132 ao Dubai, 82 a Jordânia
seguidos de Colômbia (56), Líbia (40), Venezuela
(38), Chile (37), Equador (32), Angola (24), Tunísia
(18) Suriname (16), Bolívia e Paraguai (12 cada),
Gabão (11) e Zimbabwe (7). (foto 6)
Estes
três itens representam a quase totalidade dos oito
produtos militares Engesa, produzidos em série, pois
totalizam 5042, ficando o restante para Caminhões
EE-15, EE-34, EE-50, Jeep EE-12 e Blindado 4x4 sobre rodas
EE-3 Jararaca, único blindado de série, não
usado pelo Exército Brasileiro.
Com
a falência da Engesa nos anos 90 e os novos rumos
tomados pelo mundo no pós-guerra fria (1989) e pós-guerra
do golfo (1991), e o grande declínio da Indústria
de Defesa nos principais países produtores e exportadores
os produtos brasileiros ficaram difíceis de serem
manutenidos, principalmente no exterior.
Alguns
países sofrem embargo das Nações Unidas,
como Iraque e a Líbia, os dois maiores compradores
dos blindados sobre rodas brasileiros.
Os
blindados do Chipre estão operacionais, assim como
os da Bolívia, Colômbia, Paraguai, Equador,
Uruguai, Gabão, Jordânia, Dubai, Suriname,
Tunísia, Venezuela, Zimbabwe, podendo adquirir peças
no mercado brasileiro sem qualquer restrições.
Parte
do material Líbio, provavelmente a metade ainda encontra-se
em condições de operação, estando
estocados, muito embora a maioria tenha sido espalhada para
países amigos, como o material entregue ao Togo,
do qual o EE-9 Cascavel do Museu de Blindados de Saumur,
na França é um deles, capturado por tropas
francesas que lá combaterem, onde vários foram
destruídos ou capturados, o mesmo ocorrendo quando
da invasão do Chade, pela Líbia na segunda
metade dos anos 70, onde 79 EE-9 Cascavel foram capturados,
estando na atualidade estocados numa área a céu
aberto, em condições precárias, muitos
depenados e outros já mais completos, mas sem condições
de uso. O curioso é que existem blindados das duas
versões vendidas aos Líbios, os modelos MK
II com torre e canhão franceses de 90mm, cujos carros
foram enviados à França onde receberam as
respectivas torres e canhões e de lá foram
para a Líbia, e o modelo MK III de torre Engesa com
canhão Cockerill de 90mm belga produzidos sob licença,
no Brasil, pela Engex, sua subsidiária. (foto 7 e
foto 8)
Já
o material Iraquiano, em sua maioria, devem estar sem condições
operacionais, em razão do embargo que vem sofrendo
desde 1991, muito embora boa parte dele foi capturado pelo
Irã, na guerra Iraque-Irã, entre 1980 a 1988,
quando aproximadamente 150 EE-9 Cascavel passaram a fazer
parte do Exército Iraquiano, e empregados contra
o Iraque. Alguns ainda foram capturados pelos Curdos no
norte do Iraque, em quantidade pequena, visto aparecerem
em noticiários recentes mostrando a preparação
destes para a terceira guerra do golfo prestes a ocorrer,
muito embora o Irã não esteja sob embargo.
(foto 9)
O
Batismo de Fogo
Estes
veículos cumpriram bem suas missões, tanto
que o seu primeiro batismo de fogo se dá na Líbia
no final dos anos 70 e início dos 80, quando tropas
Egípcias aerotransportadas invadem o território
Líbio em incursões relâmpagos e pela
primeira vez é feito um contra ataque usando os EE-9
Cascavel recém adquiridos, os quais destroem por
completo as forças invasoras, despertando desta maneira
grande interesse dos Líbios e dos Iraquianos nestes
veículos, motivo que nos leva a fornecê-los
em grande quantidade ao Exército de Sadann Hussein,
então vistos com bons olhos, principalmente pelo
Ocidente.
No
Iraque terão seu batismo de fogo em plena guerra
contra o Irã (primeira Guerra do Golfo), onde foram
empregados com relativo sucesso, devido a forma de utilização,
pois o Exército Iraquiano nunca foi bom em guerra
de movimento, usando os EE-9 Cascavel de três formas,
como proteção de flancos das unidades blindadas,
como veículos de reconhecimento, razão principal
de sua existência e como artilharia enterrados no
chão. Na segunda guerra do golfo (1991) vários
deles foram destruídos por mísseis disparados
de helicópteros norte-americanos, e todas as fotos
os mostram enterrados. (foto 10)
Na atualidade,
o maior usuário destes veículos blindados
é o Exército Brasileiro, tanto que empreendeu
um grande programa de repotenciamento, que está sendo
realizado no Arsenal de Guerra de São Paulo (AGSP)
com grande sucesso e economizando divisas para o país.
(ver artigo http://www.defesanet.com.br/rv/vtrbld1/vtrbld.htm
).
Este
programa só se tornou possível em razão
do produto ser totalmente brasileiro, e o que ajudou em
muito foi o fato de que a empresa Universal, Importação,
Exportação e Comércio Ltda do Rio de
Janeiro, que dele participa, comprou de "porteira fechada"
a falida Engesa, sendo a detentora na atualidade de todo
o estoque de peças de reposição, desenhos,
codificação de peças, partes inacabadas
dos veículos que se encontravam na linha de produção,
maquinário, e possuindo capacidade de produzir boa
parte dos componentes necessários à manutenção
de todos os veículos Engesa produzidos em série.
(foto 11 e foto12)
Esta
empresa ainda possui seis Urutu MK IV, última versão
de série, zero quilômetros, na versão
porta-morteiro, que nem o Exército possui, aliás
uma ótima oportunidade para o EB ter e empregar seus
morteiros de 120mm raiados, fabricados no Brasil, num veículo
blindado confiável e nacional, bastando apenas adquiri-los
antes que outros o façam. (foto 13)
Outra
empresa que possui capacidade para atender os produtos Engesa
é a Columbus Comercial, Importadora e Exportadora
Ltda, de São Paulo, que em conjunto com a CEPPE Equipamentos
Industriais Ltda, que recontratou parte da mão de
obra da extinta Engesa, estão em conjunto com o AGSP,
realizando todo o trabalho para a modernização
e recuperação de aproximadamente 500 viaturas
EE-9 e EE-11 do Exército Brasileiro, tornando-os
operacionais até 2017, quando provavelmente a Nova
Família de Blindados Sobre Rodas já estará
disponível para substituí-los de vez. (foto
14)
Diversos
países que operam os veículos Engesa estão
sendo atendidos por estas Empresas, sendo que no momento
a Colômbia, que tem empregado com grande sucesso o
EE-9 Cascavel na luta contra as FARC está repotenciando
seus blindados, prolongando desta maneira sua vida útil,
o mesmo ocorrendo em outros países sul-americanos
como Uruguai, Equador, etc. (foto 15)
O
Exército Brasileiro empregou com sucesso em Missão
de Paz (Tropas da ONU) em Angola (UNAVEM III) e Moçambique
(ONUMOZ) nos anos 1995/1997 vários blindados sobre
rodas EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu, numa situação
real em um conflito de longa duração, onde
se familiarizaram com uma logística importante para
o aprimoramento da tropa e analisando o desempenho do material.
(foto 16)
Outra
prova importante de que os blindados sobre rodas da Engesa
ainda podem representar algum valor é o fato recente
da empresa Israelense NIMDA CORPORATION LTD, uma empresa
privada com 100 empregados e que realiza projetos de modernização,
integração e refabricação de
veículos militares de procedência britânica,
francesa, russa e agora brasileira, cujos principais projetos
foram a modernização de carros de combate
Sherman, T-72, M-60, T-55, M-41 além de veículos
transporte de tropas, veículos blindados anfíbios
e caminhões, ter adquirido do Exército Chileno
70 EE-9 Cascavel MK II e 34 EE-11 Urutu. (foto 17)
Empresas
Brasileiras participarão em conjunto com a NIMDA
na recuperação destes veículos, para
torná-los operacionais e dar-lhes um destino, o mesmo
irá ocorrer em outras partes do mundo, é só
aguardar...
A
Engesa estava no caminho certo, tinha problemas sérios
de administração e gerenciamento, que poderiam
ter sido sanados, mas o nosso maior erro foi a falta de
visão estratégica que permitiu que ela desaparecesse
por completo, tendo sua falência sido decretada em
1993 e boa parte do conhecimento ali desenvolvido foi perdido
de vez, inviabilizado no momento atual, sem volta. Muitos
projetos poderiam ter continuado, outros cancelados de vez,
e hoje estaríamos substituindo o nosso maior e melhor
projeto de concepção nacional que foi o EE-9
Cascavel por um outro produto melhor concebido e desenvolvido
por brasileiros, gerando empregos e divisas para o país
e até quem sabe exportando-os.
Os
reflexos daquela realidade podem ser vistos a olho nu na
atualidade, bastando apenas ver o enorme interesse que temos
despertado no exterior para com a Nova Família de
Blindados sobre Rodas que nem oficialmente foi aberta concorrência.
Precisamos
ter o máximo de cuidado para não repetirmos
os erros do passado e novamente cairmos na dependência
externa e vermos de vez o fim de nossa Indústria
de Material de Defesa, pois temos apenas alguns sobreviventes...
Nota
Editor- O autor e Defesanet foram contatados por representante
da empresa israelense NIMDA solicitando a correção
da grafia do nome, ao invés do anteriormente apresentado.
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Foto
14: Repotenciamento dos EE-9 Cascavel no AGSP em fevereiro
de 2003. (Autor)
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Foto
15: EE-9 Cascavel do Exército Colombiano usados
contra as FARC antes de sofrerem o repontenciamento.
(Ejército Colômbia)
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Foto
16: Dois EE-11 Urutu, em comboio com outros veículos
do Exército Brasileiro em Angola, UNAVEM III,
setembro de 1995 a março 1996.
(Sgt. Quirino)
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Foto
17: EE-9 Cascavel do Exército Chileno. Setenta
destes foram adquiridos pela Empresa NIMDA Co. Ltd
de Israel em 2002. (Ejército Chile).
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