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26 de Janeiro, 2019 - 02:00 ( Brasília )

Uma nova Guerra Fria na Ucrânia II


Uma guerra com final incerto

Na sequência das ações na Crimeia, a crise estourou no Donbas e escalou para um sangrento conflito armado, uma verdadeira guerra suja empreendida pelos separatistas e seus apoiadores, tendo a participação de combatentes voluntários de diversos países – inclusive do Brasil -, com execuções sumárias, julgamentos públicos e humilhantes desfiles de prisioneiros, com sequestros e desaparecimentos de opositores e ataques deliberados contra alvos civis situados próximo das linhas ucranianas. Esta situação ainda perdura sem uma solução, dois anos depois de ter começado.

 Os separatistas tentam conquistar a cidade portuária de Mariupol para controlar o Mar de Azov, fazendo uma ligação terrestre com a Crimeia, criando uma zona tampão e possibilitando o abastecimento da península diretamente da Rússia. Naquela região estão operando unidades militares russas sob a cobertura de uma insurgência separatista, lutando uma guerra secreta contra as forças ucranianas que são apoiadas – com palavras e boas intenções – pelas potências ocidentais. Esta guerra já provocou mais de dois milhões de refugiados e causou a morte de quase 10 mil pessoas, mais da metade delas civis e quase três mil soldados, tendo custado aos cofres de Kiev US$ 6 milhões por dia somente para manter as forças no terreno. Parecendo longe de terminar, sua solução passa pela implementação efetiva dos acordos de Minsk, a retirada das tropas estrangeiras de território ucraniano e a formação de uma missão de paz sob a égide das Nações Unidas. Contudo, o desfecho sobre quem vai ficar com aquela valiosa região só será conhecido na Rússia pós Vladimir Putin.
O estratégico complexo inustrial militar ucraniano
Uma das dimensões mais destacadas do interesse da Rússia pela Ucrânia é a importância para Moscou do complexo industrial militar existente no país, cuja maior parte está coincidentemente instalado nas Regiões Sul e Leste, o que deixa ainda mais clara a pressão russa. Representada pela empresa estatal Ukroboronprom, a Ucrânia foi, em 2014, o oitavo maior exportador de armas do mundo, com uma fatia de 3% do mercado global, ficando à frente de Israel e Itália. Por falta de conhecimento, muitas vezes é dito que determinado equipamento ou tecnologia é russo, mas isso nem sempre é verdadeiro. Os maiores aviões cargueiros do mundo, como o An-225 Mriya, são de fabricação da empresa ucraniana Antonov que, apesar da crise, busca retornar aos negócios com o An-70, em muitos aspectos superando o A-400M, e o jato An-178, que surpreendeu e já alçou voo, deixando os concorrentes para trás, podendo ficar com fatia significativa do segmento de aeronaves de transporte multimissão para preocupação de muitas empresas estrangeiras. A Antonov Airlines é a principal fornecedora de serviços de transporte aéreo pesado do mundo, sendo a mais requisitada transportadora civil de equipamentos militares.
A Ucrânia também é sede da Motor Sich, uma empresa que projeta e fabrica motores de aviões e helicópteros, bem como para bombas de gás, petróleo e outras aplicações, inclusive de geração de energia. Basicamente, quase todos os aviões civis e helicópteros militares soviéticos ou de fabricação russa estão equipados com seus motores. Também é responsável por prestar manutenção dos seus produtos, trabalhando diretamente com clientes no mundo todo, inclusive o novo treinador avançado russo YAK-130 e sua cópia, o chinês L-15, estão equipados com suas turbinas, reconhecidas pela robustez e alta confiabilidade.

Caminhões militares, aviões, mísseis ar-ar e foguetes, este complexo gigantesco produz praticamente de tudo, e também detém uma das maiores indústrias de lançadores espaciais do mundo, representada pelas Yuzhnoye e Yuzhmash, que no seu período de “glória” desenvolveram e produziram uma parte significativa dos mísseis balísticos nucleares intercontinentais soviéticos, entre eles o mais temível de todos e a arma mais mortal jamais construída: o SS-18 Satan. Para piorar as coisas, as empresas ucranianas são as principais fornecedoras de peças e subsistemas usados pela indústria de defesa russa, fator que gera uma dependência estratégica. As companhias do sul e da Crimeia equivaliam a 30% da indústria de construção naval da União Soviética, e hoje continuam a prestar serviços neste segmento para muitas nações, como a China, para quem vendeu o casco que se transformou no seu primeiro navio-aeródromo, o Liaoning, que entrou recentemente em serviço. O país asiático é hoje o principal cliente ucraniano no segmento de defesa. A Ucrânia é também um grande produtor de carros de combate e veículos blindados e suas instalações em Kharkiv projetaram e fabricaram os T-34, T-54, T-64, T-80, e seu T-84, na versão BM Oplot, é tão bom ou superior aos melhores similares russos da atualidade, segundo especialistas. Para Moscou, a ida da Ucrânia para a União Europeia, ou para a OTAN, significa a perda potencial de toda esta capacidade e a necessidade de substituí-la rapidamente, como foi ordenado pelo presidente Vladimir Putin, sem mencionar a possibilidade da venda de segredos militares que poderiam ajudar concorrentes do complexo industrial militar russo, ou pior, tais tecnologias e suas fraquezas poderiam cair nas mãos de potenciais inimigos. Cientistas e engenheiros ucranianos sabem muito dos mais profundos segredos militares da Rússia e são, de fato, pais de vários deles.
A ameaça antiaérea
Durante o conflito para retomar o controle no Donbas, o maior pesadelo da Aviação do Exército e da Força Aérea Ucraniana foram os MANPADS. Antes de ter suas primeiras aeronaves abatidas, tinham liberdade total executando diariamente missões de transporte, assalto aeromóvel, apoio aéreo aproximado e de vigilância e observação. Até então, o inimigo dos helicópteros eram os RPGs, uma ameaça real nas zonas de pouso ou quando voavam a baixa altura, e a primeira aeronave destruída foi justamente provocada por um desses, em Kramatorsk. A 2 de maio, um Mi-24 Hind foi derrubado por mísseis de ombro em Sloviansk, e a luz vermelha acendeu. Estava claro que os separatistas estavam de posse de um armamento muito perigoso. Durante o conflito em Donetsk e Luhansk, pelo menos 22 aeronaves militares foram derrubadas ou destruídas em solo, e outras duas caíram após cumprir suas missões, provavelmente avariadas pelo fogo antiaéreo, sendo 10 helicópteros Mi-8/17 e 4 Mi-24, dois caças MiG-29, seis Su-25 e um Su-24 cuja tripulação ejetou sobre território separatista e depois foi resgatada em segurança numa operação de Combate SAR. Aviões de transporte An-26 e de reconhecimento An-30B também foram abatidos, com destaque para a derrubada por míssil de um cargueiro pesado Ilyushin IL-76MD que se preparava para pousar à noite em Donetsk, causando a morte de 49 soldados e tripulantes.
Esses são os números oficiais e também não contabilizam as seriamente avariadas por fogo inimigo. Depois dessas perdas a aviação não mais operou como antes sobre território separatista, ainda mais porque eram as que estavam disponíveis para voar depois de uma época de baixos orçamentos e do consequente sucateamento dos meios aéreos. Também, um MiG-29, da 40ª Brigada de Aviação Tática, responsável pela segurança do espaço aéreo de Kiev, havia sido abatido por outro MiG-29,  russo, enquanto fazia uma patrulha aérea de combate próximo à fronteira, num dos vários momentos de tensão entre os dois países. Fontes afirmam que a aeronave russa lançou seu míssil do outro lado da fronteira, e isto foi um fator que piorou ainda mais uma situação que já era bastante ruim.
As aeronaves ucranianas não eram obsoletas e possuíam sistemas de contramedidas eletrônicas, de alerta radar e dispensadores de chaff e flare. No caso dos helicópteros, havia também um sistema de direcionamento de laser antimíssil fabricado no país. Essas contramedidas teriam sido suficientes para assegurar uma alta probabilidade de sobrevivência em combate, mas não foi o que aconteceu. Uma explicação plausível é o fato de os rebeldes lançarem de dois a três mísseis ao mesmo tempo e de diferentes quadrantes, o que confundiria e saturaria o sistema de autoproteção. Outra explicação é que o lançamento múltiplo de mísseis num pequeno intervalo de tempo esgotaria a capacidade das contramedidas que poderiam ser eficazes contra o primeiro ou segundo lançamentos, mas não conseguiria evitar que um terceiro atingisse a aeronave.
Mísseis antiaéreos de qualquer tipo não podem ser usados eficazmente por “amadores”, mas necessitam serem manejados por profissionais treinados, pois sua utilização é uma atividade complexa e que exige conhecimentos técnicos específicos, a escolha de uma tática para aumentar a probabilidade de bater o alvo, e de acesso a informações da inteligência militar e de controle do espaço aéreo. Velhos mísseis soviéticos dos estoques ucranianos que por ventura tivessem sido capturados não teriam tanta eficácia e, soma-se a isso, o fato de grande parte deles já não estarem mais operacionais por falta de manutenção e problemas de estocagem. Os lançadores de mísseis Igla (agulha) do Exército Ucraniano não derrubariam suas aeronaves devido ao uso do IFF (Identification Friend-or-Foe). As autoridades locais acusaram os russos de terem passado o armamento, operadores e instrutores aos rebeldes. Investigadores independentes afirmaram que os mísseis seriam dos modelos 9K310 Igla-1 (SA-16 Gimlet) ou 9K38 Igla (SA-18 Grouse), que são empregados pelos Exércitos da Rússia e Ucrânia. Fontes externas afirmaram que os ucranianos encontraram numa base tomada dos rebeldes caixas contendo MANPADS do tipo Grom, fabricados na Polônia. Esses mísseis teriam sido capturados pelos russos durante a guerra da Geórgia, em 2008, onde foram utilizados com sucesso pelo Exército Georgiano. O Grom é uma variante do Igla, mas teve seu sensor especialmente desenvolvido para derrubar aeronaves de fabricação soviética e russa.
No dia 6 de junho, um avião de transporte An-26 foi derrubado quando voava a uma altitude de 4.050 metros, e foi atingido por um 9k333 Verba, míssil de ombro da nova geração e que vai substituir o Igla. Este sistema somente é utilizado pelo Exército Russo e ainda não foi exportado. E, em 14 de julho, outro An-26 foi derrubado, desta vez voando a 6.400 metros, fora do alcance desses tipos de mísseis, tendo sido confirmada a utilização de um míssil guiado por radar Buk, que os rebeldes afirmavam já possuir. Eles filmavam seus ataques contra as aeronaves ucranianas e publicavam os vídeos nas mídias sociais no que parecia um sádico divertimento e insistiam em querer derrubar qualquer avião que “violasse seu espaço aéreo”. Três dias depois da derrubada do Antonov, o Boeing 777, do voo MH17, da Malaysia Airlines, que partiu de Amsterdam com destino a Kuala Lumpur, foi derrubado a 50 km da fronteira russa e caiu numa área controlada pelos separatistas. Em vídeos e comentários publicados por suas lideranças nas mídias sociais, e logo depois apagados, eles festejavam mais um acerto, sem saber realmente o quê haviam derrubado. Morreram 283 passageiros e 15 tripulantes. Uma verdadeira guerra de informações e versões durou mais de um ano. Imagens das telas de radar e de satélites espiões russos mostraram um Su-25 ucraniano disparando um míssil contra o jato comercial; meses depois outra versão mostrou um MiG-29 fazendo o mesmo, e depois um Su-27. Por último tentou-se imputar a culpa ao Exército Ucraniano ao afirmar que o míssil foi lançado de uma área sob seu controle, sendo que mais tarde foi descoberto que as imagens e as alegações eram todas falsas. No relatório preliminar divulgado em setembro do ano passado, a Dutch Safety Board, agência holandesa que lidera a comissão internacional de investigação, apontou que o voo MH17 foi derrubado por um míssil, provavelmente do tipo Buk, certamente lançado da área controlada pelos separatistas. Imagens de um sistema Buk-M2 (SA-17 Grizzly) circulando pela região e depois atravessando a fronteira com a Rússia foram obtidas pela inteligência ucraniana e por diversos meios de comunicação. O ex-primeiro ministro da Suécia, Carl Bildt, publicou no seu twitter a informação baseada em fontes abertas que afirmava que este sistema pertenceria à 53ª Brigada de Mísseis Antiaéreos, de Kursk, culpando exclusivamente os russos. Mais de 200 soldados pertencentes a esta brigada foram identificados pelas fotos publicadas em mídias sociais como estando servindo naquela área. Os operadores do sistema provavelmente pensaram que aquele era mais um voo militar ucraniano e acabaram cometendo um crime de guerra.
Crimeia: um novo tipo de guerra
Na sequência dos acontecimentos na praça Maidan, irromperam protestos nas ruas de Simferopol, a capital da República Autônoma da Crimeia, um território ucraniano situado ao sul e que tem a maioria da população originária da Rússia.
Afinal, era o principal balneário de férias das autoridades soviéticas. Em 1954, Nikita Kruchev transferiu a Crimeia para a então República Socialista Soviética da Ucrânia, um gesto considerado simbólico e que tinha como objetivo comemorar o 300º aniversário da integração da Ucrânia ao Império Russo.
A verdadeira razão era o fato de a Rússia não ter condições de abastecer a península, que é geograficamente ligada ao território ucraniano, de onde vem todo o seu apoio logístico, eletricidade e água potável, situação que perdura até os dias de hoje. A Crimeia também é a sede da Frota do Mar Negro, uma unidade estratégica da Marinha Russa para os Mares Negro e Mediterrâneo, e que tem seu quartel-general na cidade de Sebastopol, cuja base havia sido arrendada da Ucrânia até o ano de 2042. Curiosamente, a Marinha Russa só tem acesso a dois portos de águas quentes: Sebastopol, e Tartus, na Síria. Todos os demais congelam no inverno, o que inviabiliza a operação das suas forças de superfície. Assegurar o controle dos dois portos era estratégico para a Marinha Russa, o que viria a se confirmar.
Misteriosamente, centenas de soldados desembarcaram na Crimeia. Eles identificavam-se como sendo forças populares de autodefesa. Com os rostos cobertos por balaclavas, vestiam uniformes militares verdes sem qualquer insígnia ou marca de identificação. Estavam muito bem armados e usavam veículos militares com placas russas. Cortaram todas as comunicações, destruíram centrais telefônicas e colocaram novos transmissores nas antenas de rádio e TV.
Carros blindados BTR-90 e GAZ Tigr bloquearam as principais vias de acesso à península e cercaram as unidades militares ucranianas. Um bloqueio naval russo impediu que os navios da Marinha Ucraniana se fizessem ao mar e a Base Aérea de Belbek foi tomada pelos Homens de Verde, com 45 MiG-29 capturados. Alguns aviões ainda conseguiram decolar e fugir para Ucrânia. A ordem de Kiev era não atacar ou aceitar provocações dos misteriosos soldados para não criar um conflito aberto com a Rússia, da mesma forma que havia acontecido com a Geórgia, em 2008, cuja guerra fez o país perder 30% do seu território. A maior parte dos militares ucranianos se rendeu, já que, devido à crise econômica, havia muitos anos que as Forças Armadas não realizavam o rodízio das tropas, e aqueles que serviam na Crimeia eram em sua maioria nativos de lá que tinham suas razões para não resistir e desertar.
A comunidade internacional acusava a Rússia de enviar Forças Especiais para a  Crimeia, o que era negado pelo Kremlin. Porém, isso seria admitido meses depois. Estava em andamento uma complexa operação diversionista organizada pela inteligência militar russa. Uma nova doutrina de emprego baseada na velha arte militar russa da “Maskirovka” (marcarados), que visava conquistar objetivos táticos e estratégicos através de operações de enganação militar. Ninguém mais sabia quais seriam os próximos passos de Putin, que surpreendeu enviando soldados para uma nação vizinha, simulando serem membros de um levante popular armado, e pelo simples fato de não possuírem insígnias nos seus uniformes, ele disse que não eram seus, o que representou uma tática realmente inteligente e preocupante, gerando o temor internacional de que a Rússia - ou outras nações – fizesse uso semelhante nos Países Bálticos, na Polônia e em outras ex-repúblicas soviéticas. Isso originou um profundo debate sobre a legitimidade dos objetivos alcançados perante a lei internacional e sobre como preveni-las. Esses Homens de Verde garantiram a segurança de um referendo organizado às pressas e considerado ilegal pela comunidade internacional, que proclamou a Crimeia como independente, para depois vir a ser anexada à Rússia.
Uma resolução da ONU, que condenava o referendo foi aprovada, ocasião em que o Brasil absteve-se de votar. Na época, o embaixador de um país da União Europeia, lotado em Brasilia, afirmou que aos seus olhos e de outros diplomatas estrangeiros, os brasileiros haviam acabado de sepultar suas legítimas aspirações de conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança, justamente por consentir, em pleno século 21, com a anexação forçada de um território por outro país. Ele ainda disse que seria interessante conhecer a posição das autoridades brasileiras se um movimento de insurreição armada seguido por um referendo independentista, similar ao sofrido pela Ucrânia, acontecesse na terra indígena Raposa Serra do Sol.
O resultado final é conhecido: a Rússia conquistou a península da Crimeia numa operação encoberta e ilegal, sem que para isso tenha entrado em combate ou disparado um único tiro, uma vitória brilhante, sem precedentes do ponto de vista militar, colocando em prática a Guerra Híbrida, cuja doutrina muda tudo o que se conhece sobre como fazer e prevenir a guerra, conquistando através de uma operação de inteligência todo um estratégico e valioso território que, por muito menos, outras potências já se lançaram à guerra total para alcançar.

Antecedentes históricos
A guerra na Ucrânia e sua relação com a Rússia é complexa e multifacetada. Tem antecedentes históricos que muito bem retratam o porquê do conflito. No ano 880 foi criado o Principado de Kiev (ou Rus de Kiev), onde hoje é a capital ucraniana, e que foi o predecessor dos que viriam a se tornar os estados eslavos da Rússia, Bielorússia e Ucrânia. Foi em Kiev que as tribos eslavas aceitaram a fé cristã, o que fez dela uma cidade sagrada para os cristãos ortodoxos. Os antecedentes históricos e religiosos deram a Kiev um status diferenciado e uma importância estratégica e simbólica para os russos. Séculos de guerras e revoltas passaram até a chegada do comunismo e o apogeu da União Soviética, quando a Ucrânia viria a ser reconhecida como sua segunda mais importante república e motor industrial, científico e econômico, cujas extensas planícies tinham as terras cultiváveis mais férteis da Europa. Os agricultores do país foram contrários à política de coletivização do campo por entenderam que isso seria um segundo regime de servidão, ou seja, um sério golpe nos líderes comunistas que tinham de enfrentar crises internas e fome em seus diversos territórios, e as terras ucranianas eram o celeiro da União Soviética. A partir de 1933, a coletivização forçada provocou o confisco de toda a produção agrícola ucraniana e a proibição da caça, pesca e coleta de frutas. Em resumo, a política de Josef Stalin proibiu a população de se alimentar e foi classificada como um genocídio. Em poucos meses, mais de 3,5 milhões de pessoas morreriam de fome no que ficou conhecido como “Holocausto Ucraniano”, ou Holodomor. Milhares de casos de canibalismo dentro das famílias foram registrados, e esse nível de desespero ficou guardado como uma cicatriz no íntimo de todo o povo por gerações, cuja nação sempre buscou manter sua independência territorial, política e cultural da Rússia. Em 1986, milhares de pessoas festejavam nas ruas de Kiev o Dia do Trabalhador ignorando a radiação vinda de Chernobyl que caia sobre suas cabeças, enquanto que, por ordem de Moscou, os familiares dos membros do Partido Comunista Ucraniano eram evacuados. Foi o maior desastre provocado pelas mãos do homem na história e acelerou o colapso soviético. Esses e vários outros episódios retratam algumas das razões pelas quais o povo ucraniano volta sua esperança para uma integração maior com o Ocidente.
Memorando de Budapeste Com o fim da União Soviética, a Ucrânia herdou parte significativa do seu poder de combate, ficando com o terceiro maior arsenal nuclear do mundo, algo superior a 1.900 ICBMs, 176 silos de lançamento e 46 bombardeiros estratégicos. Em 1994, o país assinou com a Rússia, Estados Unidos e Reino Unido, o Memorando de Budapeste, o qual, em troca da transferência do seu arsenal nuclear aos russos e a adesão do país ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares, os signatários garantiam sua proteção contra qualquer ameaça à soberania, integridade territorial e guerra econômica. Esta foi, talvez, uma prova do despreparo, imaturidade e ingenuidade política da Ucrânia independente e seu maior erro estratégico, pois além de entregar a única arma que poderia dissuadir qualquer tipo de ameaça, a Ucrânia deixou de ser um player de respeito na comunidade internacional, advindo do poder coercitivo resultado da posse de tais armas. Dos signatários do memorando, somente a Ucrânia cumpriu sua parte. O Memorando de Budapeste foi um claro exemplo de que uma nação não pode abrir mão da sua  própria independência e meios de defesa, e uma lição de que não se pode delegar a terceiros a responsabilidade por sua segurança.