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28 de Julho, 2017 - 12:15 ( Brasília )

Senado dos EUA apoia novas sanções contra Rússia; Putin promete retaliação

Rússia corre risco de décadas de crescimento econômico lento devido a sanções dos EUA

O Senado dos Estados Unidos votou de forma esmagadora nesta quinta-feira para impor novas sanções à Rússia apesar das objeções do presidente dos EUA, Donald Trump, à legislação, que irritou o presidente russo, Vladimir Putin, e gerou promessas de retaliação da parte dele.

O Senado aprovou a medida, que também impõe sanções a Irã e Coreia do Norte, de forma quase unânime, por 98 votos a 2, com forte apoio tanto dos correligionários de Trump quanto de democratas. A proposta foi enviada à Casa Branca para que Trump decida se a sanciona ou se a veta.

O projeto é a maior proposta de política externa aprovada pelo Congresso dos EUA sob o governo Trump, que tem enfrentado dificuldade para avançar em sua agenda doméstica, apesar de os republicanos controlarem tanto a Câmara dos Deputados quanto o Senado. Caso Trump decida vetar a medida, ela deve ganhar apoio suficiente nas duas Casas para que o veto seja derrubado e se torne lei.

A proposta ameaça abalar ainda mais as relações entre EUA e Rússia, que se deterioraram sob o ex-presidente norte-americano Barack Obama. Trump esperava melhorar esses laços, mas seu governo tem sido abalado por investigações sobre eventual intromissão russa nas eleições presidenciais dos EUA em 2016 para ajudar Trump.

O presidente nega qualquer conspiração entre sua campanha e Moscou. O projeto com as sanções já foi aprovado pela Câmara dos Deputados por 419 votos a 3. Putin já negou várias vezes interferência russa na campanha eleitoral norte-americana e disse que Moscou só vai decidir como retaliar quando tiver acesso ao texto final do projeto de lei.

Em uma visita à Finlândia, Putin disse que as sanções propostas pelos Estados Unidos são "extremamente cínicas" e uma tentativa de Washington de proteger seus próprios interesses geopolíticos a custo de seus aliados na Europa.

Investigações sobre a suposta interferência da Rússia na eleição presidencial norte-americana são apenas um sintoma da crescente histeria anti-Rússia nos EUA, disse Putin.

Rússia corre risco de décadas de crescimento econômico lento devido a sanções dos EUA

A Rússia corre o risco de sofrer com o peso das sanções dos Estados Unidos durante décadas, o que frearia o crescimento econômico e impediria o país de se manter como uma potência econômica de destaque, disse um conselheiro do presidente russo, Vladimir Putin, em uma entrevista.

Alexei Kudrin disse à Reuters que a atual proposta de endurecimento de sanções feita por Washington não deve ter nenhum impacto sério, mas pediu um grande programa de reformas estruturais depois da eleição presidencial de 2018.

Ele afirmou se tratar da única maneira de a Rússia voltar a crescer mais de 2 por cento ao ano. Putin ainda não revelou se vai concorrer à reeleição no ano que vem, mas é grande a expectativa de que o faça e conquiste o que seria um quarto mandato.

O líder russo encarregou Kudrin, que o conhece desde que os dois trabalharam juntos na prefeitura de São Petersburgo nos anos 1990, de elaborar uma estratégia para acelerar o crescimento econômico russo depois de 2018.

Embora Putin tenha capitaneado anos de crescimento acima dos 5 por cento anuais em seus primeiros mandatos presidenciais, a economia da Rússia sofreu dois anos de retração em 2015 e 2016, e a expectativa é que cresça pouco mais de 1 por cento neste ano.

Em maio o Produto Interno Bruto (PIB) mostrou um crescimento anual de 3,1 por cento, mas não se espera que esse ritmo se mantenha. A desaceleração econômica colocou Putin sob pressão.

Parlamentares dos EUA votaram no início da semana em favor da imposição de sanções contra Moscou, que se somariam a penalidades anteriores devido a seu papel no conflito da Ucrânia. Kudrin disse que o clima em Washington torna difícil para o presidente norte-americano, Donald Trump, amenizar as sanções no futuro.

"Em sua forma atual, o acirramento das sanções em discussão não afetaria seriamente a economia russa, não há mudanças sérias na versão existente. Mas a esperança de que as sanções seriam cancelas nos próximos anos agora diminuiu", afirmou.

"Provavelmente acabaremos com a história da velha emenda Jackson-Vanik – mesmo quando todas as condições já tinham mudado, eles não conseguiram cancelá-la". A Jackson-Vanik, uma cláusula de 1974 de uma lei federal dos EUA que puniu países do bloco comunista por restringirem os direitos humanos, só foi revogada em 2012 pelo ex-presidente Barack Obama, e foi um grande pomo da discórdia entre Moscou e Washington.

Janela De Oportunidade

Kudrin, que atuou como ministro das Finanças entre 2000 e 2011, hoje comando o Centro de Pesquisa Estratégica, um grupo de análise fundado por iniciativa de Putin para formular propostas de políticas governamentais.

Kudrin disse que as sanções ocidentais em sua configuração atual estão derrubando o PIB russo em cerca de 0,5 por cento ante 1 por cento no ano posterior à indrodução das medidas em 2014.

A Rússia tem uma "janela de oportunidade" após as eleições de 2018, para implementar reformas significativas para contrariar os efeitos das sanções, disse ele. Mas, por enquanto, o entorno populista de Putin está se sobrepondo aos que pedem reformas.

"Até que ponto o presidente usará essa (janela), não sabemos", disse Kudrin. "Depois das eleições anteriores, essa janela para as reformas não foi usada". Entre as reformas que Kudrin pede, estão um maior controle público sobre os funcionários responsáveis pela aplicação da lei; aumento da idade para aposentadoria; redução das participações governamentais em grandes empresas; e melhora da arrecadação da economia informal.

Ele disse acreditar que o Estado deveria vender participações governamentais em empresas petrolíferas russas por etapas nos próximos seis a dez anos e que poderia vender uma parcela de sua participação majoritária no maior banco Sberbank no mesmo período.

Com tais reformas, Kudrin disse que a Rússia poderia aumentar a sua taxa de crescimento econômico para 3 a 4 por cento em um prazo de cinco a seis anos, mesmo que as sanções sejam mantidas. Sem reformas, a Rússia não perceberá o dano das sanções antes que seja muito tarde, disse ele.


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