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03 de Maio, 2017 - 05:10 ( Brasília )

Reunião tensa expõe diferenças entre Merkel e Putin

Líderes abordam temas que levaram Ocidente e Moscou ao período de maior tensão desde a Guerra Fria: Ucrânia, Síria e a interferência russa em eleições. Ao aparecerem para imprensa, ficou claro que há pouco terreno comum.

As diferenças entre a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, ficaram expostas nesta terça-feira (02/05) em Sóchi, na Rússia, onde ambos tiveram uma reunião – seguida de entrevista coletiva – marcada por desacordos e tensão.

Em pauta, estiveram muitos dos temas que fazem do atual período o de maior tensão entre Ocidente e Moscou desde a Guerra Fria: Síria, Ucrânia, a questão dos direitos civis na Rússia e as alegações de que o Kremlin está interferindo em eleições em países ocidentais.

A reunião no balneário no Mar Negro marcou a primeira visita bilateral de Merkel desde que Moscou anexou a península da Crimeia, em 2014. No encontro, preparação para a cúpula do G20 em julho, os dois líderes tentaram enfatizar as posições semelhantes entre os dois países.

Mas as diferenças foram o que mais chamou a atenção: a linguagem corporal de ambos sugeriu animosidade, com os dois demonstrando expressões faciais eram rígidas, mal se olhando ao responderem perguntas da imprensa. "Eu sou sempre da opinião de que, mesmo que haja sérias diferenças de opinião em algumas áreas, as conversas devem continuar. Porque, caso contrário, você cai no silêncio e tem cada vez menos entendimentos", disse Merkel.

Putin, por sua vez, afirmou que "apesar das conhecidas dificuldades políticas, a Alemanha é um líder mundial e um parceiro internacional".

Eleições e direitos civis

Ambos aplacaram os temores quanto a uma possível interferência russa nas eleições legislativas alemãs, marcadas para setembro. A chanceler disse que confia na capacidade de seu país de impedir campanhas de desinformação que tenham como alvo o processo eleitoral.

Ela disse que a Alemanha tomará "medidas decisivas" se houver a suspeita de influência. "Eu não sou uma pessoa ansiosa, eu vou lutar nessa eleição com base nas minhas convicções", afirmou.

Putin negou que seu país tenha influenciado as eleições presidenciais americanas, em 2016. Segundo ele, isso não passa de "simples rumores" usados na disputa política interna dos Estados Unidos.

O presidente russo também negou qualquer influência de seu país em eleições na Europa. A chanceler alemã pediu a Putin que utilize sua influência sobre os dirigentes da República Russa de Chechênia para que sejam garantidos os direitos dos gays. "Mencionei o negativo relato sobre o que acontece com os homossexuais na Chechênia, e pedi ao presidente que exerça sua influência para que sejam respeitados os direitos das minorias", disse.

O mesmo, acrescentou a chanceler, deve ser feito com relação à comunidade religiosa Testemunhas de Jeová, cuja atividade na Rússia foi recentemente proibida pela Justiça. Recentemente, o jornal independente russo Novaya Gazeta publicou uma reportagem na qual denunciou a perseguição de homossexuais e a existência de prisões secretas na Chechênia, república russa de maioria muçulmana no Cáucaso Norte.

Ucrânia e Síria

Merkel disse ter feito um "pedido urgente" a Putin para que "faça todo o possível para viabilizar um armistício" no conflito entre as forças ucranianas e os separatistas no leste do país.

Segundo a chanceler, apenas dessa forma, a Ucrânia aceitaria fazer algumas "concessões dolorosas" em relação aos seus territórios. A chanceler defendeu a manutenção do Acordo de Minsk, firmado em 2015, apesar de não estar plenamente satisfeita com o formato atual das negociações, que envolvem Ucrânia, Rússia, França e Alemanha.

Merkel, porém, avalia que este ainda é o melhor fórum para lidar com a situação no país do Leste Europeu. "Não acho que seja necessário negociar um novo acordo", afirmou. "O que falta é implementação [do acordo de Minsk], e não novos tratados." Putin, por sua vez, também se disse frustrado com o fracasso do acordo.

Assim como Merkel, ele defendeu a continuação das conversações sob o formato atual, com a mediação da Alemanha e da França, sem a qual, "a situação estaria bem pior do que está agora", afirmou.

Ele pediu o desmantelamento das partes envolvidas no conflito para evitar novas escaramuças no futuro e ressaltou a importância de fortalecer o diálogo entre Kiev e os separatistas. "É impossível atingir uma solução para o conflito sem conversações diretas", afirmou.

No caso da guerra civil na Síria, Merkel defendeu a criação de áreas de proteção para a população civil. Putin também defendeu o fim dos combates, mas ressaltou que os problemas no país árabe não podem ser resolvidos sem o envolvimento dos Estados Unidos.

Ele disse que o futuro do presidente sírio, Bashar al-Assad, deverá ser decidido pelo povo da Síria, apesar das exigências do Ocidente, de países árabes e da Turquia para que o ditador deixe o cargo, abrindo assim o caminho para um processo de paz.


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